DOWNBEAT READERS POLL 2017

09 dezembro, 2017
DownBeat anunciou os premiados da edição 82 do seu Readers Poll. Como sempre, sem muitas novidades, destacando os artistas que já estão consolidados na cena musical do jazz. Nesta edição, o destaque fica com o trompetista Wynton Marsalis que alcançou o Downbeat Hall of Fame, antes tarde do que nunca.
Ainda, um resgate para Diana Krall como vocal feminino e para novo disco "Turn Up The Quiet"; e novamente a garotada do Snarky Puppy como grupo, sempre quebrando tudo. Vale também destacar o resgate histórico do disco do Bill Evans Trio - "On A Monday Evening", gravado pelo em 1976 ao lado de Eddie Gomez e Eliot Zigmund. Saindo do universo do jazz aparecem Buddy Guy, Taj Mahal e Jeff Beck.

Confira os premiados -

Hall of Fame: Wynton Marsalis
Jazz Artist: Chick Corea
Jazz Group: Snarky Puppy
Big Band: Maria Schneider Orchestra
Trumpet: Wynton Marsalis
Trombone: Trombone Shorty
Soprano Saxophone: Wayne Shorter
Alto Saxophone: Kenny Garrett
Tenor Saxophone: Chris Potter
Baritone Saxophone: James Carter
Clarinet: Anat Cohen
Flute: Hubert Laws
Piano: Herbie Hancock
Keyboard: Herbie Hancock
Organ: Joey DeFrancesco
Guitar: Pat Metheny
Bass: Christian McBride
Electric Bass: Stanley Clarke
Violin: Regina Carter
Drums: Jack DeJohnette
Percussion: Sheila E.
Vibraphone: Gary Burton
Miscellaneous Instrument: Béla Fleck (banjo)
Female Vocalist: Diana Krall
Male Vocalist: Gregory Porter
Composer: Maria Schneider
Arranger: Maria Schneider
Jazz Album: Diana Krall, "Turn Up The Quiet" (Verve)
Historical Album: Bill Evans Trio, "On a Monday Evening" (Fantasy)
Record Label: Blue Note
Blues Artist or Group: Buddy Guy
Blues Album: Taj Mahal & Keb Mo, "TajMo" (Concord)
Beyond Artist or Group: Jeff Beck
Beyond Album: Leonard Cohen, "You Want It Darker" (Columbia)

https://www.downbeat.com

BLUES: THE BACKSEAT MUSIC

03 dezembro, 2017
O jornalista Eugênio Martins Junior apresenta o livro
Blues: The Backseat Music, uma coleção de 40 entrevistas realizadas em 10 anos de trabalho cobrindo shows e festivais.
Para o autor, o objetivo é contar uma história que ainda não foi contada e não carrega a ambição de ser uma obra definitiva sobre o blues no Brasil, muito menos tem a função didática de explicar como e por que o gênero surgiu, o que outros livros já fazem com muita competência. Afirma ainda que, assim como tocar blues, escrever sobre o gênero no Brasil não é fácil.

O livro está dividido em 2 partes - artistas nacionais e internacionais, e traz entrevistas com Celso Blues Boy, André Christovam, Igor Prado, Jefferson Gonçalves, Nuno Mindelis, John Hammond, Lynwood Slim, Duke Robillard, Shemekia Copeland, Larry McCray, e muitos outros. Ao mesmo tempo em que coloca o leitor dentro da cena, conta a história daqueles que não só carregam o piano, mas também a guitarra, o baixo, a bateria, o case de harmônicas e o hammond B3. De teatro em teatro, de bar em bar. Ao ler esta coletânea de entrevistas, você vai entender o porquê do título.

O prefácio do livro foi escrito por Nuno Mindelis.
"Blues: The Backseat Music" é um lançamento da Editora Ateliê de Palavras.

Com a palavra, Eugênio Martins Junior -

Como surgiu a ideia do livro?
Quando eu percebi que, por conta do meu trabalho na produção, poderia extrair informações exclusivas dos músicos, contar histórias da estrada, do blues no Brasil e o que estava acontecendo em termos musicais, mostrar a cena do blues.

De todas as entrevistas, qual foi a mais desafiadora?
Em vários níveis de dificuldade, porque umas eu já estava viajando com o artista, outras porque é difícil falar com o cara - a do Corey Harris, por que ele é um pouco desconfiado com os brancos, mas tem lá suas razões.
Outra, por ser um ídolo de infância, a do John Paul Hammond, no festival de Rio das Ostras que você estava. Além de ter sido um prazer, a entrevista foi na beira da piscina, rolando um som; e outras duas que vão estar no volume 2 do livro, a do capo da Alligator Records e do gaitista da banda Mississippi Heat, Pierre Lacocque.

No prefácio, escrito por Nuno Mindelis, ele cita a expressão “o blues vai te pegar”. 
Quando o blues te pegou?
A primeira vez que ouvi a palavra blues foi no filme "A Rosa", com a Bette Midler e o Kris Kristoferson. Mas o meu primeiro disco de blues foi "Ao Vivo Em Montreux" com Buddy Guy e Junior Wells, foi uma revelação. Logo depois eu fui ao festival de blues de Ribeirão Preto e vi o Albert Collins ao vivo e o John Hammond e o Buddy Guy em Santos.

Você, além do grande conhecimento música, também é um produtor e empreendedor.
Como você vê a formação de novos públicos para o movimento do blues?
Cara, pra ser sincero, não existe formação. É só você ver o que está acontecendo com a cultura no Brasil. O desmonte que está acontecendo. Orquestras sendo encerradas, aqui na baixada santista temos quatro teatros fechados. Você vê, esse ano o festival de Rio das Ostras não vai acontecer. O Bourbon Fest também está com dificuldade e talvez não aconteça. Eu faço bem menos shows de blues do que antes, a gente nada contra a correnteza. A grande mídia nacional optou pelo lixo cultural. Quando eu era adolescente não passava um dia sem conhecer uma banda nova. E olha que naquela época não existia internet. O jovem de hoje está anestesiado por uma tela,  a música hoje é só a trilha sonora da balada. Eles nem estão aí pra quem tá tocando. Não leem um livro!

Obrigado Eugênio Martins Junior, e sucesso.

Você pode adquirir o livro diretamente com o autor pelo e-mail contato.mannishboy@gmail.com e pelo site da Editora Ateliê de Palavras

TRAVELER

01 novembro, 2017
Talento e criatividade sobram para o violonista Gabriel Santiago. Compositor, arranjador e protagonista de uma discografia extraordinária, são 10 discos que incluem 2 DVDs, em formações solo, trio, big band e sinfônica.
Traveler é seu mais novo e extraordinário trabalho, aqui na formação de trio ao lado do contrabaixista Sidiel Vieira e do baterista Thiago Rabello. No repertório são 7 composições, 5 autorais e 2 interpretações - "Coração de Estudante" (Milton) e "Vento de Maio" (Lo Borges). O violão de 12 cordas é o protagonista nesse registro, e Gabriel Santiago explora sonoridades fazendo muito uso dos vocalizes, e sua veia autoral mostra um compositor e instrumentista que sabe mesclar o universo da música brasileira e do jazz contemporâneo, com espaço para o improviso e com uma concepção melódica e harmônica que cativa o ouvinte.

"Traveler" foi gravado no estúdio Da Pá Virada em São Paulo, e teve produção de Gabriel Santiago e Thiago Rabello. A arte da capa é da Dani Gurgel.


Quem conta essa história é Gabriel Santiago -

Traveler é o décimo disco da sua carreira, que inclui 2 DVDs. Como se construiu essa trajetória musical?
Comecei a tocar muito cedo, com 9 anos, e quando tinha uns 12 pra 13 anos comecei a tocar na noite com um grupo do qual fazia parte em minha cidade natal, Ilhéus, na Bahia. Gravei algumas coisas já um pouco depois disso lá pelos estúdios da região com meu pai, que é compositor/violonista. Em 1998 me mudei pra o Rio de Janeiro onde morei por 10 anos, entrei na universidade de música (UniRio) e passei bastante tempo por lá - tenho duas graduações e mestrado na mesma universidade. Junto a alguns amigos na faculdade formamos um grupo - Samambaia, que tinha como principal proposta apresentar composições autorais. Em 2002 produzi o disco do nosso grupo, este o meu primeiro trabalho fonográfico. Em 2007 gravei o meu segundo disco, que se chama “Gabriel Santiago”, no qual tive o privilégio de contar com mais de 35 músicos, incluindo artistas maravilhosos dos quais sempre fui fã como Odair Assad, Gilson Peranzetta, Márcio Bahia, entre muitos outros.
Grande parte dessa discografia veio a ser realizada fora do país, começando em 2008 quando me mudei para os EUA para ingressar no Doutorado em Composição na Universidade do Texas, em Austin. Foi uma experiência maravilhosa e de lá surgiu a semente da maioria dos trabalhos que realizei. Formei um novo Quinteto e gravamos um DVD/CD, formei a minha Big Band em que gravamos também um DVD/CD, todos com minhas composições, e lancei também um trabalho com minhas composições para orquestra sinfônica.
Após tudo isso, retornei ao Brasil por um curto período e tive a oportunidade de lançar mais alguns trabalhos, frutos de uma parceria que se estende até hoje com o músico e produtor Thiago Rabello em São Paulo. O disco "Connections" foi o primeiro dessa série, em que pude contar com o saxofonista americano Justin Vasquez, que esteve sempre presente nos meus projetos nos EUA. Após isso criamos o grupo Metropole, que além de Thiago e eu também conta com o baixista Sidiel Vieira e o pianista Zé Godoy, e juntos lançamos dois discos - “Metrópole”  e “No Caminho”.
Retornei definitivamente aos EUA há 2 anos e continuei a produzir novos trabalhos. Ano passado lancei meu primeiro disco de violão solo - “Momentum” - e pela primeira vez me dediquei exclusivamente a interpretar músicas de outros compositores. Este ano acabei de lançar meu primeiro disco em formato de Trio, “Traveler”, com o time que tenho trabalhado já há alguns anos com Thiago Rabello na bateria e Sidiel Vieira no contrabaixo. Já tenho dois trabalhos a serem lançados no ano que vem e outro a ser gravado, todos em formato de DUO - o primeiro com o pianista Peter Stoltzman, com quem também venho colaborando há muitos anos desde o início de minha trajetória aqui nos EUA, e o segundo que acabei de gravar com o baixista inglês radicado aqui nos EUA Janek Gwizdala. E por fim, no ano que vem também gravarei um disco com o violonista/guitarista Ian Case. Estes três projetos vão me manter bastante ocupado no próximo ano, o que é uma felicidade muito grande pra mim.

Gismonti, Baden, Tom, Milton, Edu Lobo, Gonzagão, Ivan Lins e tantos outros - você faz belíssimas leituras da nossa música. A música brasileira é sua grande fonte de inspiração e influência?
Sem dúvida. Todos esses nomes são enormes influências. Toninho Horta e toda a geração do Clube da Esquina com certeza estão lá pelo topo da lista. Aliás nesse novo trabalho, "Traveler", gravei uma música do Milton que gosto demais - "Coração de Estudante", e Vento de Maio, de Marcio e Telo Borges, que é uma de minhas músicas favoritas. A lista é enorme, nomes como João Bosco, Djavan, grandes compositores como Villa Lobos, César Guerra-Peixe e Cláudio Santoro. Isso só falando do Brasil né? Quando a gente abre o leque então a lista fica sem fim. O jazz sempre esteve presente desde muito cedo. Ainda moleque fui apresentado aos discos de Wes Montgomery, Joe Pass, Jim Hall, Oscar Peterson, Bill Evans, e a partir daí a vontade de ouvir e descobrir foi aumentando exponencialmente. Tarefa árdua citar alguns nomes em meio a esse oceano de música maravilhosa. Do jazz mais contemporâneo, com certeza os caras que fizeram mais a minha cabeça foram a dupla dinâmica Pat Metheny/Lyle Mays, Russell Ferrante, pianista do Yellowjackets, e Vince Mendoza.

Fale sobre os músicos que te acompanham neste trabalho.
"Traveler" é o primeiro disco que lanço em formato de Trio. Essa formação sempre foi bastante interessante pra mim, e embora eu faça bastante shows em formato de trio eu nunca dediquei um disco específico com essa sonoridade, que de uma forma ou de outra está sempre presente. Esse novo trabalho mostra um pouco desse universo.
Thiago Rabello na bateria e Sidiel Vieira no contrabaixo são dois fantásticos músicos com os quais tenho tido o privilégio de colaborar já há algum tempo. Esse já é o quarto disco em que tocamos juntos e neste novo trabalho tivemos a oportunidade de investigar esse formato específico de Trio e expandi-lo. Thiago, além de ser integrante do trio, tem sido fundamental também como produtor, desde a concepção do trabalho até a escolha do repertório e a gravação/mixagem.


Traveler coloca o violão de 12 cordas como protagonista. No repertório, além das leituras de Lô Borges e Milton, tem 5 temas são de sua autoria. Como você trabalha o processo de composição?
Sim, o disco privilegia o violão de 12 cordas. Um instrumento que está sempre presente comigo, de uma forma ou de outra. Vários fatores “aguçam” o meu interesse por esse instrumento - a óbvia sonoridade distinta, a similaridade com a viola caipira, um instrumento que sempre me remete a lembranças da infância pois meu pai tinha uma e tocava bastante, e a vontade de explorar as possibilidades do instrumento em outros contextos. Usei bastante violão de 12 cordas em muitas peças minhas pra Big Band e o novo disco foi mais uma oportunidade de investigar as possibilidades do instrumento. Aliás, no disco estou utilizando uma afinação 1 tom abaixo, o que por si só já me abriu uma série de possibilidades sonoras.
Respondendo à pergunta, o processo de composição/criação é, acredito, algo bastante pessoal. Às vezes converso com amigos compositores e é interessante descobrir como esse processo pode ser tão diferente de uma pessoa para a outra, e em certas situações uma mesma pessoa passeia por processos diferentes, dependendo do tempo, das circunstâncias do trabalho etc. Essas escolhas também acontecem comigo pois vários fatores vão influenciar como esse processo vai se desenrolar. Eu já fiquei 3 meses compondo uma peça sinfônica trancafiado dentro de casa, assim como tive composições que se desenvolveram rapidamente em uma “sentada” no piano. O processo, seja ele qual for, é intenso e árduo, com certeza , pelo menos pra mim.
Apesar de tocar violão e guitarra, eu sempre componho a maior parte do tempo ao piano. Os instrumentos de cordas dedilhadas entram na equação quando estou procurando por algo bastante idiomático, que o violão proporciona por exemplo. Em "Traveler", algumas composições são claramente idiomáticas do instrumento e foram compostas inclusive no próprio violão de 12 cordas,  como "Spiritual", por exemplo. Outras, como “Unlived Future”, foi uma peça de encomenda composta, ao piano, para um coral de 24 trombones, e achei interessante e desafiador transportar tudo isso para a sonoridade do violão de 12. Enfim, trabalho árduo sempre. Muito mais “transpiração” envolvida pra desenvolver aquele pequeno momento de “inspiração” da primeira fagulha criativa, aquela primeira ideia que surge repentinamente.

Sobre efeitos, com que frequência e de que forma você os aplica na sua música?
Acho que nesse contexto os efeitos aparecem como um adereço, um tempero interessante que você adiciona à comida. Como instrumentista, de certa forma o uso de efeitos está fortemente presente no conceito sonoro que eu gosto de apresentar. Sempre tive curiosidade em investigar como poderia de certa forma “expandir” a sonoridade do violão. Nunca tive muito esse veia purista com o instrumento. Como desde o início tive que lidar com o famoso "enigma" do "som de violão ao vivo", acabei encontrando uma forma de integrar efeitos ao meu som que projetassem o som do instrumento e desse a ele uma espacialidade que é difícil de obter fora daquele ambiente acústico do instrumento.
No fim das contas, tudo é uma questão de expandir e projetar ao máximo o som que você tem na cabeça.

O violão de 8 cordas também é muito presente na sua música. O que muda na forma de criação já que essa estrutura dá mais opções harmônicas e melódicas, e como você define a afinação?
O violão de 8 cordas foi uma consequência natural pra mim, pois sempre gostei dos graves e buscava sempre acesso a essas frequências - seja as do piano quanto as do contrabaixo. Com o violão de 7 cordas, que é normalmente o instrumento que toco com freqüência, ganhei um pouco esse registro mais estendido e senti a necessidade de expandir um pouco mais essa gama de frequências. Isso me dá acesso a uma outra gama de acordes e cores que me interessam bastante, principalmente em um ambiente solo. Tenho colaborado já há muitos anos com o luthier paulista Carlos Novaes e ele sempre está aberto a esses projetos. Além do primeiro 7 cordas que uso até hoje, tenho uma série de violões assinatura com ele - um 7 cordas, um Barítono de nylon e o 8 cordas. A afinação que uso no 8 acho que poderíamos chamar de "padrão" - 2 cordas mais graves em relação ao 6 - E B G D A E B F#.

Entre seus outros projetos, há trabalhos com big band e sinfônica e isso realmente é muito grandioso. Conte um pouco sobre essaa experiência.
Os trabalhos com Big Band e Sinfônica foram impulsionados principalmente pela estrutura a que tive acesso aqui nos EUA. Já tinha alguns arranjos de big band no Brasil, mas realmente as coisas se desenvolveram quando comecei o doutorado na University of Texas. Como tocava na jazz orchestra deles, que tem um nível bastante bom, eu era estimulado a compor para essa formação, afinal de contas o Doutorado era em composição. Tive a felicidade e estrutura pra poder desenvolver muita coisa nessa área. Uma dessas peças me rendeu um prêmio nacional para estudantes abaixo de 29 anos - o ASCAP Young Jazz Composer Award - e a coisa foi crescendo até que consegui formar a minha própria Big Band e gravamos DVD e CD. Quando retornei em definitivo aos EUA retomei a big band e continuamos a nos apresentar freqüentemente. Já tenho novas composições para mais um disco da big band, espero conseguir gravá-lo em 2019 se tudo der certo. As composições sinfônicas também seguiram uma trajetória semelhante pois nos tempos do doutorado tive a felicidade de colaborar com diversos instrumentistas que me encomendaram peças, e, após, gradativamente, ir compondo coisas para formações cada vez maiores a coisa toda culminou nas peças para sinfônica, ou Studio Orchestra, como eles chamam a formação de sinfônica + big band. Todo esse processo foi um aprendizado gigantesco, além da parte musical. Foi bastante proveitoso todo esse lado de produção, arregimentação, ensaios, produção, etc.

Como adquirir o disco?
O disco "Traveler", e todos os meus outros trabalhos, estão disponíveis em formato físico CD/DVD e digital no meu website www.gabrielsantiagoproject.com
Tem algumas coisas FREE, como por exemplo o projeto sinfônico e também partituras, merchandising e aquela coisa toda. Tudo também está disponível em formato digital em todas as plataformas, loja e streaming)- iTunes, Spotify, etc.

Obrigado Gabriel Santiago, e sucesso.

JAZZ AO SEU ALCANCE

19 outubro, 2017

O Jazz ao seu alcance.
Sim, tão simples. O jazz é de todos e para todos.

O livro, escrito pelo jornalista e apaixonado por jazz Emerson Lopes, é um guia definitivo para os que já estão familiarizados com o jazz e para os que querem conhecer mais sobre o universo dessa música tão contagiante.
São mais de 600 páginas em que Emerson Lopes faz uma síntese sobre os principais artistas, divulga rádios e podcasts, sites especializados, revistas, dicas de discos e entrevistas com especialistas no assunto como Carlos Calado, Wilson Garzon, o saudoso José Domingos Rafaelli, Luiz Orlando Carneiro, Mario Jorge Jacques, Zuza Homem de Melo e também músicos como Daniel Daibem, Marcio Montarroyos, Nelson Ayres, entre outros. Uma verdadeira aula com os mestres.

O livro já está na sua terceira edição e foi lançado pela Editora Multifoco.


Aqui, o entrevistado é Emerson Lopes -

O que levou você a escrever o livro?
O livro foi um desdobramento natural do site Guia de Jazz que mantive por 13 anos. Quando percebi, tinha um grande volume de informações que daria um ótimo livro. E foi isso o que aconteceu. O Guia foi criado para ajudar pessoas que não têm familiaridade com o jazz. Mas preferi investir em dicas de sites para o próprio internauta desbravar o jazz sem dificuldades. O livro, assim como era o site, nunca quis explicar o jazz, seu contexto histórico ou sua cronologia. A pegada é mais direta, mais prática e mais interativa. Além disso, o livro traz entrevistas com músicos e jornalistas, que falam sobre sua relação com o jazz e a música instrumental brasileira.
Por uma década trabalhei em lojas de CDs e fui testemunha da dificuldade que o consumidor tinha para conseguir comprar um disco de jazz. Com o guia na internet, e depois com o livro, meu "trabalho" para diminuir o hiato entre o jazz e o ouvinte ficou mais fácil e mais eficaz. Tem sido uma longa e gratificante jornada poder interagir e aprender com pessoas de todo o país.

Apesar do jazz estar ao alcance de todos, ainda ha preconceito e mesmo falta de conhecimento sobre essa música tão contagiante. Como você entende isso?
Não tem segredo. Você não vê, escuta ou lê sobre jazz na TV, no jornal, na revista ou na rádio. Sem divulgação, nem obras-primas de Miles Davis, John Coltrane, Louis Armstrong ou Duke Elllington podem ser ouvidas e assimiladas pelo ouvinte. Não é uma questão de preconceito, mas de falta de interesse. E isso é fruto desse limbo ao qual o jazz foi sentenciado por grande parte da mídia brasileira.
Assim como qualquer produto de massa, o jazz poderia fazer parte da vidas das pessoas se ele chegasse ao seu destino, neste caso, ao ouvinte. Eu faço minha parte e a internet tem ajudado muito a diminuir essa distância entre jazz e consumidor. Hoje em dia só não escuta jazz quem não quer. Tem centenas de páginas na internet dedicada diretamente ou indiretamente ao jazz e suas vertentes.

"It don't mean a thing if it ain't got that swing", afirmou Duke Ellington. O jazz foi além do swing e do bebop, se transformou e continua se transformando no tempo.
Ainda assim, é jazz?
Como disse o decano Luiz Orlando Carneiro, o jazz "é um modo de expressão musical", ou seja, a essência do jazz é o improviso. É claro que não podemos afirmar que qualquer improviso é jazz, mas sem dúvida o jazz liberta o músico de uma maneira única.
Os movimentos do jazz através do tempo mostram que é possível tocar jazz de diferentes maneiras, com instrumentos distintos e com personalidade própria. Na verdade, toda a genialidade da música "criada" por Armstrong, Miles, Monk, Ellington, Parker e Brubeck continuam permeando as distintas maneiras de se expressar jazzisticamente.

A música brasileira sempre foi uma referência aos jazzistas. A que você atribui essa relação ?
Eu não sou músico, mas dizem que elas se parecem muito,  em especial a bossa nova. Mas é claro que teve o tal do destino nessa história. A paixão do saxofonista Stan Getz pela nossa música foi  um fator determinante, isso sem falar no filme "Orfeu do Carnaval", de 1959, do francês Marcel Camus, baseado na peça teatral "Orfeu da Conceição", de Vinicius de Moraes, musicada por Tom Jobim. O filme foi premiado em Cannes e no Oscar.
Outro divisor de águas e ponta pé inicial foi o concerto no Carnegie Hall, em Nova York, em 21 de novembro de 1962. No palco estavam, entre outros, Tom Jobim, Roberto Menescal, Carlos Lyra e João Gilberto. Na plateia estavam, entre outros, Miles Davis, Dizzy Gillespie, Gerry Mulligan e Tony Bennett. Mas é óbvio que o que mais pesou foi o talento do músico brasileiro e da nossa música. Isso está ai até hoje. Nomes como Ivan Lins, João Donato, Sergio Mendes  ainda são referência nos Estados Unidos.

Você também produz um Podcast de jazz. Quais os canais de acesso?
O podcast é quase uma "brincadeira". Comecei a fazê-lo na época em que trabalhei no portal de notícias do jornal O Estado de S.Paulo e o mantenho até hoje, mas agora de forma independente. Os programas podem ser ouvidos na plataforma Mixcloud e não há uma periodicidade já que ele é fruto da minha inquietação pessoal e não tem compromisso em ser algo profissional, mas tenho muito carinho pelo podcast. É uma maneira direta e democrática de disseminar o jazz para quem quiser e tiver "paciência" de escutar minhas dicas e observações. Todos estão convidados a ouví-lo. O endereço é www.mixcloud.com/podcastjazzy/

Como adquirir o livro?
O livro saiu por uma pequena editoria carioca, a Multifoco, em 2009. De lá para cá, três novas edições foram lançadas, todas revisadas e ampliadas. É possível comprar pelo site da própria editora, em algumas lojas da capital paulista e comigo. No link a seguir, há todos os detalhes sobre o livro - incluindo entrevistas que dei na ocasião do lançamento - e os endereços das lojas onde é possível encontrar a publicação.
Anote aí: http://jazzaoseualcance.blogspot.com.br/2009/10/jazz-ao-seu-alcance.html

Obrigado Emerson Lopes, e sucesso.

Confira o podcast -

GREGORY PORTER ARRASADOR

08 outubro, 2017
Noite inspiradíssima no Vivo Rio para a apresentação do cantor Gregory Porter no projeto "Jazz We Can".

A abertura da noite foi com o grupo do saxofonista Sergio Galvão, acompanhado pelo guitarrista Lupa Santiago, o contrabaixista Bruno Aguilar e o baterista Antonio Neves. Alternando entre o tenor e soprano, Sergio Galvão apresentou temas do seu disco "Phantom Fish", homenageou o também saxofonista Ion Muniz, interpretou Caymmi (Doralice) e Baden (Vou deitar e rolar), e mostrou composições inéditas que estarão no próximo disco, entre elas a fusão de um "samba-árabe" e um tema em reverência a João Donato.
Tem que destacar o baterista Antônio Neves, filho do saxofonista Eduardo Neves, mostrando uma pegada impressionante, com levadas e pontuações precisas e contagiantes - excelente músico.

Gregory Porter subiu ao palco com seu estilo muito particular, vestindo seu habitual boné abotoado até o pescoço, voz calorosa, imponente e um timing perfeito, mostrando-se cada vez mais singular em meio a tão poucas surpresas que surgiram nos últimos anos.
Acompanhado por Jahmal Nichols no contrabaixo, o excelente Chip Crawford no piano, Tivon Pennicott no sax tenor e Emanuel Harrold na bateria, apresentou basicamente o repertório dos seus 4 discos lançados - "Water" (2010), "Be Good" (2012), "Liquid Spirit" (2014) e "Take me to the Alley" (2016).
Abriu o show de forma arrebatadora com "Holding on" e "On my way to Harlem", já deixando a audiência em calorosa. Deu destaque às belíssimas baladas "Take me to the Alley", "Hey Laura" e a atmosfera muito particular de "Don't lose your steam", com intervenções quase poéticas do pianista Chip Crawford. Saindo das baladas e dando outra dinâmica ao repertório, o contrabaixista Jahmal Nichols incendiou um improviso solo na introdução de um clássico da Motown - "Papa was a Rollin' Stone", emendando com "Musical Genocide".
"Be Good", particularmente, era uma das mais esperadas, e Chip impõe sua percepção erudita ao tema. Em "Liquid Spirit", Porter envoca um spiritual, puxa as palmas do público e, literalmente, a casa vai abaixo contagiada pela condução e efervescência do tema. O calor do repertório dá uma pausa e repousa em "Water under bridges", em que Porter faz duo com o piano de Chip Crawford em um diálogo primoroso; e segue com "No Love Dying", para, novamente, o público cantar junto.

Porter cantou, recitou, fez da voz um elemento percussivo e aproveitou para citar outras vozes como James Brown, Stevie Wonder, Milton Nascimento, Ella Fitzgerald e Nat King Cole, esta, sua grande influência.
Fechou a apresentação com "1960 What" em uma verdadeira celebração, com direito até a uma citação para "Mas que Nada" (Jorge Ben).
Não podia faltar o bis, que veio com "Free".

Sem dúvida, Gregory Porter é um artista extraordinário, não à toa figura em destaque desde 2013 na lista do Critics Poll da revista Downbeat e já arrebatou 2 Grammys com os discos "Liquid Spirit" e "Take me to the Alley".
Seu próximo trabalho - "Nat King Cole & Me" - é um tributo a Nat King Cole, a quem tem profunda admiração e influência, e tem previsão de lançamento no final de outubro.

MICHEL LEME TRIO

18 setembro, 2017
Michel Leme Trio é o décimo primeiro disco do guitarrista Michel Leme.
Após os dois últimos trabalhos em quarteto, e ainda mais dois CDs e dois DVDs em trio com a base formada por Bruno Migotto e Bruno Tessele, Michel Leme apresenta mais um extraordinário trabalho e com um novo trio formado ao lado do baixista Richard Metairon e o baterista Jônatas Sansão.

Este trabalho traz 6 composições autorais em mais de 1 hora de música, e o trio literalmente "quebra tudo"; e isso não é novidade - todos os discos de Michel Leme prezam pela originalidade, fluidez e liberdade criativa, com muito espaço para todos os músicos que o acompanham.
No repertório, levadas latinas em "Los Perros" e "Porque eu gosto", com pontuações muito interessantes de Jônatas; a atmosfera clássica do jazz retransformada em "Vinho e vida"; uma intensa "Rompa os grilhões", que abre com a bateria de Jônatas e improvisos contagiantes de Richard e Michel; repousa na balada "Ainda é possível", introduzida em guitarra solo por Michel, que ainda desenhou um belíssimo improviso; e o boogaloo "Gosma", que abre com o baixo de Richard e cujo tema se desenvolve com um groove invocado.


"Michel Leme Trio" foi gravado ao vivo no MM Estúdio, em São Paulo.
A arte da capa é uma acrílica sobre tela da artista Cinthia Crelier, feita especialmente para a capa do disco.

Com a palavra, Michel Leme -

"Michel Leme Trio" traz uma nova formação com Richard Metairon e Jônatas Sansão. Como se formou esse time e a proposta de irem para o estúdio?
Este novo trio é muito especial para mim e as apresentações vem mostrando que as pessoas ainda embarcam na viagem da música. Vem sendo muito gratificante.
O Richard passou quatro anos estudando e tocando na França e, logo que ele voltou no final do ano passado, eu já pensei em armar um som autoral com ele. O Jônatas e eu tocamos direto desde 2008 e até já tínhamos gravado um outro album juntos, que se chama "Lady Mistério", de 2015, com o Lucas Macedo (sax) e o Bruno Migotto (baixo)  - em breve concluiremos a burocracia toda e lançaremos. Depois de dois discos com o Quarteto - "9" e "Alma" -, as primeiras pessoas que vieram à minha mente, já que eu senti que deveria formar um novo grupo, foram o Richard e o Jônatas. E rolou tudo muito naturalmente: em novembro de 2016 eu tive a ideia, fiz o convite, os caras aceitaram, eu enviei as parts e áudios dos temas pelo whatsapp e fizemos o primeiro e único ensaio no estúdio do Jônatas. A partir daí, apenas tocamos ao vivo e, depois de umas quatro ou cinco apresentações, gravamos o disco. Eu gosto muito destes dois, porque são muito corretos, honestos, muito claros no que querem dizer e, claro, tocam muito bem, respeitam a música, estão sempre praticando, tocando por aí, e têm uma forte personalidade musical. Neste disco eu voltei a gravar num estúdio por conta de minha parceria com a Music Maker. O Ivan Freitas montou o MM Estudio ao lado da oficina e a parceria, além das guitarras, englobou também o estúdio. Gravamos como gravo sempre, ao vivo, sem correções, e o clima foi extremamente harmônico.

Mais um trabalho totalmente autoral. Fale um pouco sobre as composições.
A única música que eu já tinha pronta quando reuni o trio era "Los perros". As outras cinco eu fiz pensando em tocar especificamente com o Richard e o Jônatas. "Los perros" é um latin com groove mais solto que compus pensando na Pitty, a cachorra que vive com a minha família desde 2009, e os cachorros dos amigos. Tentei passar o que sinto sobre o amor incondicional deles, mas sem ser meloso ou piegas. "Vinho e vida" é um tema sobre os acordes de "The days of wine and roses", de Henry Mancini, só que em 3/4  - na maioria das vezes, o pessoal toca este tema em 4/4. Acho muito interessante esta perspectiva da composição: compor melodias sobre estruturas de temas clássicos. Charlie Parker é um grande exemplo do que se pode realizar desta maneira, e acho que esta "modalidade" de composição traz belas aberturas.
"Porque eu gosto" é um cha-cha-cha, ritmo que adoro tocar, porque abre para muitas possibilidades de climas e ritmos. Tem trechos deste tema que praticamente fui obrigado a escrever pela intuição, como a seção Am | Em | Abm | Ebm. Eu ia tocando a ideia inicial e indo em frente, até aparecerem coisas como essa, e eu só dizia "ok, eu escrevo!". Nenhuma composição exige o mesmo método que a outra; isto é muito importante de se reparar. "Rompa os grilhões" eu compus antes da minha mulher, a cabeleireira visagista Mirian Leme, raspar o cabelo em solidariedade a uma amiga. Isso foi em Registro, e a música saiu bem rápido. Tentei passar esta ideia de realmente agir depois de tomar uma resolução. As pessoas estão muito presas a dogmas, rótulos, encanações, traumas etc. Penso que para viver uma vida plena é preciso romper grilhões (internos ou externos) quase que constantemente.
"Ainda é possível" é uma balada sobre a estrutura de um blues em C menor. O título refere-se à situação em que vivemos: o mundo está cada vez mais boçal, violento, cada vez mais contra a criatividade e a arte, mas, mesmo com esta resistência toda, venho vivendo sons que ficam na alma. Então, isso me faz concluir que, sim, ainda é possível. "Gosma" é um boogaloo, talvez num andamento mais lento do que as pessoas imaginam para este ritmo, e que me faz tocar coisas mais sujas  - não tenho melhor definição para o que este groove provoca em mim. Os caras entenderam muito bem este espírito e gosto muito do take do disco. Alías, cada take foi escolhido em comum acordo, e considero que isso confere uma força diferente ao trabalho.

foto: Taty Catelan
O fato do registro ser em estúdio não significa que há limites para criação, talvez o tempo para encaixar no disco, afinal também é uma sessão ao vivo. Assim deve ser o espirito da música, a arte do improviso nascer da dinâmica de cada momento?
A cada dia eu confirmo que a música e a vida estão totalmente misturadas; uma está na outra. Nós tocamos da maneira que nos sentimos plenos, e gravar é uma continuação disso. Ninguém leu nenhum dos temas depois do primeiro encontro, por exemplo; já estava tudo na mente. Esta é uma medida simples, mas que faz a relação com o material ser cada vez mais profunda, porque, ao não ter um pedaço de papel com códigos na frente, isto nos dá muito mais condições de captar o que cada momento pede, justamente por não dividirmos a energia disponível com algo que não interessa no momento de tocar/criar música. Quanto a gravar no estúdio, o fato de não estarmos numa locação, como gravei desde 2010, não mudou em nada o processo. Pudemos trazer o mesmo espírito de tocar ao ar livre ou no quintal de alguém para o estúdio. E isso não é uma coisa inexplicável, tem uma série de procedimentos, e talvez o principal deles seja: não trabalhar com quem dá chiliques. Só isso já libera o trabalho de coisas absolutamente desnecessárias. Quando o músico está em paz consigo e com o outro, aí é que o trabalho passa a ser possível. A sessão de gravação ocupou seis horas do estúdio, incluindo períodos para descansar, ouvir takes e jantar. Gravamos duas músicas no primeiro take (Ainda é possível e Gosma), "Rompa os grilhões" precisou do terceiro take, e as outras três foram no take 2. Quanto à duração das faixas, por exemplo, preocupo-me com isto só depois, porque no momento de tocar gravando é a música que manda. Se couber, vai tudo; se não couber, a gente escolhe o que vai caber nos 74 minutos do CD. Ainda sobre gravar, eu reparo que uma das razões dos músicos tocarem muito bem ao vivo e, por outro lado, gravarem discos totalmente inexpressivos é justamente ter procedimentos diferentes para cada oportunidade: ao vivo, é solto; no estúdio, os solos são com chorus contados, por exemplo. Este tempo já passou, não vale mais à pena vender-se ou adaptar-se ao mercado; já está mais do que na hora de fazer as coisas de acordo com a nossa voz interior, que é um "equipamento" valiosíssimo que cada um de nós possui, descrito por Carl Jung como "verdade superior". A coisa não vem apenas do racional; ela surge de todas as nossas faculdades harmonizadas.

Nesta sessão você usou uma nova guitarra, uma Music Maker modelo Concept. Fale um pouco sobre o instrumento, a pegada e o que ele trouxe para somar no seu som.
A guitarra Music Maker modelo Concept é uma semi-acústica, com tampo plano, sem aberturas como "f holes", muito confortável ('veste" bem no corpo) e que me trouxe muitas vantagens em comparação às acústicas, que usei direto desde 1998. Uma das vantagens é não ter o feedback indesejável, já que não tem respiros no tampo. Outra: notei que as notas saem mais "cantadas" do que "percussivas", como nas acústicas. Mais uma vantagem: ao perguntar para alguns amigos depois de alguns sons por aí, eles disseram que esta guitarra não tem sobras de frequências graves ou agudas, ela vai direto ao ponto. Outra coisa que me dava bode nas acústicas é que elas são muito delicadas; esta não: é muito resistente, o que é importante para mim, já que uso a guitarra por várias horas todo dia e não sou muito cuidadoso com instrumentos. Os captadores são Music Maker Classic 60, só tem um botão de volume geral - para quem quiser a configuração clássica de quatro botões, é perfeitamente possível -, os trastes são de inox, as cordas que uso são D'Addario Chromes .012 com a primeira E .013 e a G desencapada .022 – para quem usa cordas de outras medidas, tranquilo também, é só uma questão de regulagem. A Concept já está sendo comercializada; é só entrar em contato e combinar tudo com a Music Maker. Enfim, o Ivan Freitas executou este projeto muito em sintonia com o que eu preciso e gosto. Além disso, ele está lutando para aquecer o mercado da guitarra no Brasil, promovendo masterclasses, workshops e aulas no que eu chamo de Centro Cultural Music Maker, no bairro Campo Belo, em São Paulo. Que seja seguido este exemplo e que o empresariado deste ramo abra a mente para a causa cultural, lembrando que tudo o que eles geram em termos de grana é devido ao fato da música existir, em primeiro lugar.

Particularmente, prefiro a mídia física, é muito mais prazeroso ouvir no som grande e sem perdas. O quão desafiador é lançar um CD físico, considerando prensagem, arte, logística de distribuição, entre outros fatores?
Este é o meu décimo primeiro lançamento oficial, e o processo todo vem sendo muito prazeroso, em todas as suas fases. Claro que tem burocracias irritantes no meio, mas depois isso some diante do significado que é publicar uma obra. Ainda vendo CDs, mas na minha super modesta quantidade, dentro da minha "casta" inserida naquilo que chamam "mercado". Faço os discos pelo prazer, por amar o que faço, por curtir o processo, por gostar de aprender, e vejo que algumas pessoas ainda querem ter o CD, ao invés de querer apenas ouvir em streaming  - forma que não ajuda em nada no que se refere à produção artística, pois, se você compra um CD, é uma espécie de "pós-crowd-funding", ou seja, você está ajudando o artista não só a pagar pelo projeto atual, mas a capitalizar alguma coisa para o próximo. Mas, claro, falar nestes termos numa sociedade onde impera a hiper-competição, o “business” acima do Ser Humano e do Planeta, a estupidez acima da gentileza etc., é pedir demais, mas sei que o bom senso ainda habita em alguns poucos. Tenho a boa sorte de ter pessoas que acompanham e apoiam o que faço, e isto é realmente surpreendente e eu fico sem palavras. Por outro lado, é claro que hoje vende-se muito mais lentamente, mas, em compensação, está mais acessível prensar 1.000 cópias do que 500. Então, eu sempre levo CDs onde toco, tem a distribuição física e digital da Tratore e vamos indo, não tenho do que reclamar.
Muito obrigado, muito som e um grande abraço a todos!

Somos nós que agradecemos a oportunidade dessa entrevista.
Sucesso, Michel Leme.



Para adquirir o CD "Michel Leme Trio" e os títulos anteriores com dedicatória, é só escrever para michel@michelleme.com. O CD também está disponível nas lojas Aqualung (Galeria do Rock), Free Note, Pop's Discos, Espaço Sagrada Beleza, Virtuose Escola de Música, Oficina das Cordas e outras lojas dentro da distribuição da Tratore.
Nas plataformas digitais - iTunes, Spotify, Deezer e Google Play.

"Michel Leme Trio" tem apoio cultural da DÁddario, Espaço Cultural Ventos Uivantes, Espaço Sagrada Beleza, Luthieria Oficina das Cordas, MM Estúdio, Music Maker, Play Jazz, Poptical Banana Gourmet, Rotstage, ShoÝou audio e video e Virtuose Escola de Música.

www.michelleme.com/



Mais Michel Leme -
Alma Michel Leme 9 Arquivos Vol.1 Na Montanha

3136

08 setembro, 2017
A música livre, sem fronteiras, como realmente tem que ser.
Essa é a proposta do duo formado pelo guitarrista Rodrigo Chenta e o saxofonista Cássio Ferreira, que apresentam o disco 3136 trazendo três longas composições autorais em um diálogo constante e intenso.
Para o duo, a única regra é não ter regra e através da interação os dois músicos constroem e desconstroem sua música no momento da sua execução.
Assim se faz música criativa, original. Um tanto distante da forma padrão dos standards, o repertório promove a atmosfera ideal para a proposta do trabalho. As composições "31", "36" e "3136" alternam em melodias e improvisos que se complementam e se distribuem em uma dinâmica bem particular, criando uma identidade musical própria.


Cássio Ferreira toca sax soprano e alto, presente no canal direito; Rodrigo Chenta toca guitarras acústica e sólida, presente no canal esquerdo. 3136 foi gravado ao vivo no Estúdio Arsis.
O design gráfico do disco é de Rodrigo Chenta.

Com a palavra, Rodrigo Chenta e Cássio Ferreira -

Como foi criar a proposta deste trabalho?
Rodrigo Chenta: Atuar de forma livre onde o conceito de erro basicamente não existe e o controle dos materiais utilizados não é definido previamente me traz uma sensação muito intensa e excitante. A criação em tempo real gera possibilidades infinitas. Sempre gostei deste tipo de estética musical e a pratico há muitos anos. Por volta de 2004, o Cássio me apresentou alguns trabalhos de modern jazz e outros de free jazz do John Coltrane e também do Evan Parker. Juntei com outros que ouvia como o grupo Interchanges com o Célio Barros no contrabaixo acústico e outros que escutava na mesma época. Daí foi fácil caminhar na direção da improvisação não idiomática mais conhecida como improvisação livre, termo criado pelo guitarrista britânico Derek Bailey em seu livro sobre o assunto. Me influenciei bastante pelos trabalhos lançados pelos selos Incus e Obscure Records. Em muitos pontos pensamos de forma parecida e isso possibilitou desenvolvermos este trabalho que gerou o álbum 3136.
Cássio Ferreira: O Rodrigo me convidou para este trabalho e eu prontamente aceitei. No meio do processo fui descobrindo o que realmente iríamos fazer. Eu tenho uma influência muito grande do jazz americano e, através deste, o free jazz me levou a conhecer vertentes de música improvisada com maior liberdade harmônica e estrutural. Conhecia alguns trabalhos com o Evan Parker (que é uma das referências neste segmento musical), mas fazia tempo que não ouvia nada dessa vertente especificamente. Minha maior referência de improvisação livre é o saxofonista Wayne Shorter (mais especificamente em seu trabalho com seu quarteto com Danilo Perez, John Patittucci e Brian Blade, e em seu duo com o pianista Herbie Hancock), então minha forma de tocar segue essa inspiração musical, ao mesmo tempo em que me inspiro esteticamente nas mais variadas formas de improvisação, desde o free jazz até a música espontânea e outras categorias musicais. Já fiz alguns shows e gravações com espaços para improvisação livre, mas este duo foi a primeira oportunidade de fazer um trabalho 100% voltado para a música espontânea. Adorei a ideia, e gravar este trabalho foi muito gratificante.

A improvisação livre quebrou um paradigma muito forte no jazz - a harmonia. 
Como vocês entendem essa relação?
Rodrigo Chenta: A palavra “Harmonia” normalmente se relaciona com o sistema tonal, mas ela pode ser entendida de uma forma mais ampla onde qualquer fenômeno com frequências seja harmônico. Em todo sistema existe uma hierarquia e nele mesmo a semente do fruto que o destruirá. Quando se fala de música modal é comum autores mais tradicionais normalmente não se utilizarem do termo harmonia e muito menos em música atonal, já que possivelmente seria uma contradição. Na improvisação livre é possível aparecer algum momento com harmonia, pois todos temos nossas biografias musicais, como afirma Rogério Costa em seu livro “Música errante”. Neste tipo de música não é desejável que ela apareça, pois se pretende não lembrar nenhum sistema já formatado. Em nosso caso, no CD “3136” temos como proposta fazer criações tanto dentro de idiomas como fora de idiomas. Não somos um duo que teve como proposta atuar somente com improvisação livre. Em nosso CD se ouve balada, funk, rock, jazz, etc, da mesma forma que também se escutam várias partes em que não se podem encaixar dentro de algum gênero já definido. Por isso dizemos que fazemos música espontânea e somos tão livres que temos a liberdade de atuar dentro da estética da improvisação idiomática (não livre) e da não idiomática (livre).
Cássio Ferreira: O sistema harmônico foi sendo desenvolvido até às últimas consequências, de forma que improvisar sobrepondo harmonias ou ainda abrindo mão delas foi um caminho inevitável. São tantas as possibilidades de criação, que alguns músicos naturalmente sentem o ímpeto de improvisar com uma maior liberdade. A harmonia e a forma estrutural dão suporte para a improvisação, uma referência/base onde todos se apoiam para tocar juntos. Na improvisação espontânea essa base não existe, de forma que tudo que está sendo criado no momento musical é por si só base e desenvolvimento. Este tipo de música requer uma interatividade mais profunda e orgânica, pois cada momento necessita ser sustentado por ambos os improvisadores. Também há outra relação psicológica, pois é um exercício maior de desapego e principalmente aceitação. A relação da música com o aspecto psíquico/humano mais profundo pra mim é muito importante, então poder usar da improvisação para exercitar o agir da consciência humana é fundamental. Esta música nos traz muitas lições de relacionamento humano, de forma muito orgânica, visceral e realista de acordo com nosso momento histórico. Improvisar espontaneamente é criar a vida, momento a momento, reagindo às circunstâncias da melhor forma possível, com beleza, leveza, maturidade e aceitação. Necessitamos disso como músicos e principalmente como seres humanos.


"3136" está disponível somente no formato digital. 
O que torna tão difícil lançar um disco em formato físico hoje?
Rodrigo Chenta: O recurso financeiro destinado à prensagem de um CD físico é muito maior que o custo de produção/pós-produção como gravação, mixagem, masterização, fotografias e site. Com o investimento gasto na prensagem se gravaria mais dois ou três álbuns novos já que a prioridade é sempre o som. Como este é o objetivo, tem um fator que, de fato, faz toda a diferença ao lançar em formato digital, pois, em um CD físico o arquivo é masterizado em 16bits e 44khz (isso é uma limitação na qualidade) e no formato digital fizemos em 24bits e 48khz por enquanto (poderia ser maior caso se almeje isso) o que gera um aumento significativo na qualidade do áudio. O CD físico possui uma vida útil relativamente pequena, risca, quebra, ocupa espaço, não é ecológico, etc. Com o álbum digital além de não ter os problemas já mencionados ele dura para sempre, tem portabilidade, pois é possível ouvi-lo em basicamente qualquer lugar, etc. Em nosso caso, vendemos os arquivos tanto nas extensões .wav 24bits 48khz como em .mp3 320kbps. Os áudios vem com o encarte em alta resolução também.
Cássio Ferreira: Como já dito pelo Rodrigo, o custo de prensagem de discos físicos é alto. Além da possibilidade do disco ser comprado em formato digital com maior qualidade de áudio, há a grande oferta de serviços de streaming para quem deseja praticidade. Portanto, a capacidade de divulgação através da internet é muito grande. Atualmente, os discos físicos de trabalhos independentes são mais frequentemente usados em distribuição para possíveis produtores e contratantes de shows como um cartão de visita. Para o foco na divulgação do trabalho, a internet cumpre bem o papel.

www.cassioferreiraerodrigochenta.com

UM TRIBUTO PARA DON ALIAS

03 agosto, 2017
Don Alias foi um do grandes percussionistas da era do jazz-rock. Esteve presentes em sessões históricas de registros de Miles Davis, Weather Report, Carla Bley, Joni Mitchel, Jaco, Santana, entre outros; e colocou a percussão em primeiro plano, em um universo em que a descarga elétrica era a principal protagonista. Don Alias nos deixou em 2006, mas ficou seu legado e sua influência para as gerações seguintes.

O baterista Alfredo Dias Gomes celebra a memória do percussionista Charles “Don” Alias em Tribute to Don Alias, resgatando seu repertório ao longo de sua trajetória em composições como "Sweetie-Pie", "Samba De Negro", "Uncle Jemima" e "Vaya Mulatto" e "On the Foot Peg", registros do grupo Stone Alliance, esta última composta pelo trompetista Marcio Montarroyos; e "Creepin", clássico tema de Stevie Wonder (Fulfillingness' First Finale, 1974), também gravado pelo grupo. Para fechar o disco, um registro solo de Alfredo Dias Gomes em homenagem a quem teve o privilégio de conhecer e ter aulas de bateria quando Don Alias estava no Brasil.


"Don Alias foi o meu grande professor de jazz e jazz fusion. A pegada forte e a maneira de tocar aprendi com ele, foi uma grande inspiração e um grande incentivador do meu trabalho", diz Alfredo Dias Gomes, que tem ao seu lado nesta sessão Widor Santiago no sax tenor, Yuval Ben Lior na guitarra, Lulu Martin nos teclados, Berval Moraes no baixo e a participação do percussionista Marco Lobo.

Com a palavra, Alfredo Dias Gomes -

Don Alias esteve presente em formações pioneiras do jazz-rock. 
Foi o grande precursor da percussão no estilo?
Sim, junto com outros grandes percussionistas como os brasileiros Airto Moreira e Don Um Romão.
Don Alias participou do álbum marco do jazz fusion “Bitches Brew” do Miles Davis, não só como percussionista mas também dividindo as baterias com Jack deJohnette.

O grupo Stone Alliance foi um marco importante na carreira de Don Alias como líder e compositor. 
Como deu-se a escolha do repertório para este tributo?
Eu dei preferência para as músicas que assisti eles tocando ao vivo, eu queria muito gravá-las. E inclui duas músicas do álbum Heads Up de 1980 - "Uncle Jemima" e "Georgia O".

Você teve a oportunidade de tocar com o "general" Marcio Montarroyos, que inclusive protagonizou um disco ao lado de Don Alias. Foi nessa época que você teve o encontro com Don Alias? Como foi essa experiência?
Profissionalmente eu só toquei com o Márcio mais tarde, mas o conheci com 14 anos de idade quando ele era professor de trompete do meu irmão Guilherme.
Eu virei um seguidor do Márcio, andava de cima e para baixo com ele, fazíamos jam sessions na minha casa, gravações experimentais e conhecia todo o repertório dele.
Quando O Stone Alliance veio ao Brasil pela primeira vez eu tinha 16 anos, e foi por intermédio do Márcio que eu comecei a ter aulas de bateria com o Don Alias. A primeira levada que o Don Alias me ensinou foi da música “Miles Runs the Voodoo Down” do álbum Bitches Brew”. Eu me saí muito bem porque tinha o disco em casa.
Foram muitas vindas do Stone Alliance ao Brasil que eu nem lembro mais quantas foram. Numa dessas vindas eles estavam ensaiando na casa da família do Márcio, no Recreio dos Bandeirantes, meus pais também tinham casa lá, nós éramos vizinhos e nessa época uma casa no Recreio era como uma casa de campo. Alguma coisa aconteceu, faltou água ou luz na casa do Márcio e eles não podiam ensaiar, então o Márcio me perguntou se eles podiam continuar os ensaios na minha casa. Não posso descrever a minha felicidade. Um dia, os ensaios já rolando na minha casa, o Don Alias ainda não tinha chegado e estavam ensaiando somente o Gene Perla, Steve Grossman e o Márcio. Certa hora o Márcio vira pra mim e fala: "Alfredo, vamos ensaiar a minha música On the Foot Peg! Essa você sabe, toca aí!". Quando acabou a música todos me cumprimentaram e eu nunca esqueci este momento. Dei uma canja no ensaio com o Stone Alliance!

Ao seu lado nesse tributo está a mesma formação base dos últimos trabalhos - "Looking Back" e "Pulse". Como é essa sinergia do grupo no resgate do movimento jazz-rock?
Na verdade são músicos que tiveram, de uma forma ou de outra, uma passagem pelo fusion. Todos tem seus trabalhos, outros estilos, mas todos conhecem a onda muito bem.
O Widor também viveu essa época e sempre tocou comigo ao vivo e nos meus discos; o Yuval é de outra geração, mas estudou em Los Angeles com o Scott Henderson; o Lulu Martin nos conhecemos há tanto tempo que nesse disco chegamos ao ponto de dividir a mesma música nos teclados; e tem ainda a participação do Marco Lobo que, assim como o Widor, tocam com o Billy Cobham.

Obrigado Alfredo Dias Gomes, e sucesso.
Você pode adquirir o disco nas principais plataformas digitais - iTunes, Spotify e CDBaby.

"Tributo to Don Alias" tem a produção de Alfredo Dias Gomes, foi gravado e mixado no ADG Studio por Thiago Kropf e masterizado em Magic Master por Ricardo Garcia. O design gráfico é da REC Design.
Assessoria de Imprensa é da Tempo3 Comunicação.




Mais sobre Alfredo Dias Gomes -

Pulse Looking Back

COLCHA DE RETALHOS

21 julho, 2017
A baixista Dé Bermudez não esconde sua admiração pelo saudoso Nico Assumpção, um dos mais extraordinários baixistas da nossa música. Apesar de não tê-lo conhecido pessoalmente, Nico foi, além de grande influência musical, uma fonte de pesquisa musical que deu como resultado o trabalho final e um recital na sua formatura de graduação em baixo elétrico pela FAAM, SP.
Com o lançamento do EP Colcha de Retalhos - Parte 1, que será a primeira de quatro partes que vão compor o disco "Colcha de Retalhos", Dé Bermudez pretende mostrar composições próprias e homenagens a músicos que foram importantes em sua formação musical.
O repertório desta primeira parte traz dois temas, e o primeiro homenageado é Nico Assumpção com o clássico "Paca Tatu Cotia Não; o outro tema é uma composição autoral intitulada "Convescote", em uma onda fusion com recheio bem brasileiro.

Ao lado de Dé Bermudez estão Pedro Pimentel na guitarra e Elder de Souza na bateria.
O EP foi gravado no Estúdio André Ferraz em maio de 2016.
O design gráfico é de Rodrigo Chenta.

Dé Bermudez é coordenadora da Venegas Music, professora de baixo elétrico, prática de banda, violão popular e violão para crianças, em que aborda o instrumento de forma lúdica aliado a técnicas de musicalização infantil. Também desenvolve o trabalho como professora de música no ensino médio ministrando aulas de história da música e apreciação musical. Também é integrante do Ivan Barasnevicius Trio.

Com a palavra, Dé Bermudez em um bate-papo super rápido -

Não se influenciar por Nico Assumpção é difícil, ele foi um gigante. 
Que outros músicos marcaram na sua formação?
Sempre quando me perguntam isso me vêm muitos músicos na cabeça, e muitos não são baixistas.
Como eu gosto muito de improvisação, acabo me inspirando em diversos músicos - saxofonistas, trompetistas, cantores, percussionistas. É uma miscelânea musical.
O primeiro de todos que sempre cito porque considero o "responsável" por eu querer tocar baixo e seguir na música é o baixista Steve Harris, ele é inspiração pura pra mim. O tipo de baixista e banda que fazem o tipo de música que me toca e me transforma, faz eu me sentir muito feliz.
Na verdade, mesmo curtindo o baixo de cara eu nunca fui tão atrás de ouvir os baixistas, sempre ouvi tudo como um todo, entende? Então de baixistas que eu admiro, além do Steve Harris e do Nico Assumpção. posso citar também o Luizão Maia, Jaco Pastorius, Geddy Lee, Ron Carter, Bernard Edwards, Stanley Clarke. São esses baixistas que lembro agora que me impactaram muito e que busco inspiração para compor, conduzir. Mas aí também tem músicos que admiro muito, me inspiro nos seus discos e aí cada músico que toca com eles me influência também. Posso com certeza falar de nomes como Pat Metheny, Wayne Shorter, Miles Davis, Flora e Airto, Machine Head e os discos do Neymar Dias (que pode estar na lista dos baixistas porque tem um trabalho muito bonito).

Tem previsão para o lançamento do disco "Colcha de Retalhos"?
Não é fácil produzir no Brasil, ainda mais quando você precisa conciliar trabalho, estudos, vida pessoal. A ideia de fazer o disco era gravar tudo de uma vez, mas contando com diversos convidados. Como as coisas mudaram um pouco no meio do caminho, achei melhor ir lançando o disco em EPs, para que o material não ficasse muito tempo guardado. E foi daí que veio a ideia da "Colcha de Retalhos", que representa a união de vários pequenos pedaços do trabalho e que serão gravados por diferentes músicos, diferentes formações, e também representa o lado da coisa artesanal que gosto muito de fazer quando tenho tempo livre (quase nunca).
Então, até o final deste ano estou me organizando para gravar mais duas faixas, uma autoral e mais uma homenagem a um músico importante para mim. Vai ser em trio, mas desta vez em parceria com o Rodrigo Chenta & Ivan Barasnevicius Duo. Já comecei a mexer nos arranjos e espero começar os ensaios até o final de agosto.
A ideia é não demorar muito para fechar o disco, mas não depende só da vontade, tem agenda, tem custos, mas vai sair, e vai ser lindo!

Com certeza vai ser lindo, Dé Bermudez. Obrigado, e sucesso.
Você pode fazer o download gratuito do EP aqui.

www.debermudez.com



Leia também -

O espaço-tempo de Ivan Barasnevicius

FERNANDO PESSOA EM MÚSICA

14 julho, 2017
Fernando Pessoa é reconhecido como um dos maiores poetas do século XX e um dos artistas mais geniais de sua época. Sua obra testemunha uma intemporalidade quase absoluta, não havendo nela nem passado nem futuro, mas apenas um eterno-atual que é o verdadeiro tempo em que devem de fato viver os grandes imaginativos.

Das Minas Gerais, Renato Motha e Patricia Lobato transformaram em sambas e canções alguns maravilhosos poemas de Fernando Pessoa e registraram na série Dois em Pessoa, com lançamento do segundo volume. Em CD duplo, o repertório traz 26 músicas - no disco 1 são 13 canções e no disco 2 são 13 sambas, revestidos por rica instrumentação. O primeiro volume, lançado em 2004 também em CD duplo, traz 24 poemas musicados e esteve entre os discos brasileiros mais aclamados no Japão. A expectativa com o segundo volume só vem confirmar que a expressão da arte linguística não só se traduz como se completa com música, fazendo com que a mesma emoção dita se recrie em tons e melodias.


O resultado deste trabalho está muito bem descrito pelo professor de literatura e música Alexandre Castro no encarte do disco - "O fato é que, ao associarmos a palavra poética ao ritmo e à melodia da música, seu conteúdo passa a ser lido e ouvido numa dimensão mais fragmentária e intuitiva."

Renato e Patricia têm na canção brasileira sua principal fonte de inspiração e pesquisa, trazendo ainda influências do jazz, da música clássica e contemporânea. Com um trabalho abrangente, transitando de maneira particular por vários gêneros, a dupla apresenta, ao longo da parceria, projetos que a todo momento valorizam e universalizam os sons do Brasil e das Minas Gerais.
Renato Motha possui 13 discos gravados e já recebeu prêmios de âmbito nacional nas categorias revelação, cantor e compositor. Tem trabalhos com Ivan Lins, João Bosco, Guinga, César Camargo Mariano, Jonnhy Alf e Toninho Horta. Patricia Lobato é é cantora e percussionista e tem parceria com Motha desde 1998 com 9 discos gravados. Tem na canção brasileira e nos kirtans indianos seu principal campo de atuação, trazendo também em sua música influências do jazz e da música clássica.

Renato Motha nos arranjos, violões e ambiências e Patricia Lobato nas vozes, triangulo e tamborim; Tiago Costa no piano; e participação de Bruno Conde no violão.
"Dois em Pessoa" tem produção de Renato Motha e foi gravado no Estúdio Pritpal, em Casa Branca, Minas Gerais. A distribuição digital é pela Tratore.
A arte gráfica da obra tem as mãos de Leonora Weissmann e Nando Fiúza.

Você pode adquirir os 2 volumes de "Dois em pessoa" pelo site www.renatomothaepatricialobato.com