ENTREVISTA COM O CONTRABAIXISTA HERNAN MERLO

28 setembro, 2011
Matéria publicada no site Clube de Jazz feita pelo nosso colega e especialista de jazz e blues argentino Paulo Cesar Nunes, que entrevistou o contrabaixista e compositor Hernán Merlo, um dos maiores representantes do jazz de vanguarda na Argentina e que vai se apresentar no II Festival de Contrabaixos no dia 1 de outubro.

por Paulo Cesar Nunes


Entrevista

PCN – Como foi seu primeiro contato com o jazz? Quando você decidiu optar por este caminho?
HM – Meu primeiro contato foi ainda pequeno, perto dos meus 12 ou 13 anos, quando tive a possibilidade de me relacionar com músicos que viviam perto de minha casa; eles eram um pouco mais velhos que eu, e naquele momento tinham um grupo de rock. Sempre ficava para assistir os ensaios. Quando terminavam de ensaiar passavam a escutar música dos Beatles, de Jimi Hendrix, etc..., mas também escutavam jazz e assim foi como eu ouvi pela primeira vez um disco de jazz moderno, mais precisamente “Expression”, de John Coltrane. Quase sem querer me encontrei com esta música e foi como um nocaute, senti neste momento muito interesse pelo jazz, e comecei a conhecer outros ícones como Charlie Parker, Miles Davis, Charles Mingus, Bud Powell, Thelonious Monk, etc.

PCN – E suas influências? Quem são os músicos que impressionam a Hernán Merlo?
HM – Minhas influências são infinitas, talvez possa dizer que dependem de diferentes épocas da minha vida, da minha busca, e de minhas descobertas. Nunca esquecerei quando descobri a Eric Dolphy, e seu disco “Out of Lunch”, a Wayne Shorter e suas composições com o quinteto de Miles. A Lennie Tristano, com Lee Konitz e Wayne Marsh, a Paul Bley, Jimmy Giuffre, e assim se faria uma lista interminável de músicos que em diferentes momentos ocuparam seu lugar na minha cabeça e no meu coração. Atualmente há muitos músicos que me interessa muito escutar, por diferentes motivos. Um desses motivos pode ser por meu interesse no instrumento que toco, o contrabaixo, e nesse caso gosto muito de Michael Formanek, Drew Gress, Mark Dresser, Charlie Haden, Mark Helias, mas também me atraio muito por ouvir outros instrumentistas como Paul Motian, Tony Malaby, Ellery Eskelin, Bill Carrothers, Tim Berne, Jason Moran.

PCN – Vemos muita gente jovem nos seus concertos. Você acha que está aumentando o interesse por música não comercial?
HM – Definitivamente sim; cada vez mais cresce o interesse de gente jovem pelo jazz e por música criativa. Não só no público mas também nos estudantes e nas propostas musicais. Cada vez mais jovens irrompem na cena com seus grupos onde desenvolvem propostas muito valiosas a nível compositivo e de execução.

PCN – Como você vê essa enorme enxurrada de música contemporânea na Argentina? Há muitos músicos, muitos discos, vários selos...
HM – Sim, justamente disso estava falando, na última década floresceram muitas propostas, isso é muito bom, mas também traz emparelhado seu lado negativo já que o que não cresceu de maneira semelhante são os lugares para tocar. Há poucos lugares em relação à quantidade de músicos que tem propostas para mostrar. Hoje é bastante difícil conseguir certa continuidade para tocar aqui em Buenos Aires. Por outro lado também se editam muitos discos de produções independentes.

PCN – Falemos do selo Sofá Records. Porque o fizeram?
HM – Justamente meu último disco “Parábola” saiu por um novo selo que estamos organizando junto a vários músicos, Sofá Records, que tenta gerar um espaço para a edição de cds , com uma linha compositiva e de propostas criativas, que funciona um pouco como cooperativa. É um empreendimento que estamos fazendo com muito esforço, e com que estamos tentando ampliar nossas possibilidades de organização também quanto a expansão de nossa música para outros países, já que existem algumas propostas de intercambio com selos de New York e também de Amsterdam.

PCN – O destino da música gravada parece ser a distribuição de arquivos, ou venda de cds em shows, para os fãs. O cd segue sendo a melhor maneira de divulgação para a música hoje? Existem outros meios viáveis para esta arte?
HM – Eu creio que neste sentido estamos passando por uma época de mudanças, obviamente o cd parece estar desaparecendo como alternativa de venda, e pessoalmente estou totalmente desorientado sobre quais serão os próximos e novos meios. Mas também particularmente o que me interessa é que exista um meio , que pode ser qualquer um que sirva para divulgação da minha música, e com isso quero dizer que serve até disponibilizar minha música de forma gratuita na rede para quem queira baixar e escutar, só temos que encontrar a maneira de financiar os custos de produção, creio que é nosso próximo desafio, isso é o que nos propomos com o selo Sofá Records.

PCN – No disco “Parábola” (2008/Sofá Records) você trabalhou com Juan Pablo Arredondo, Patrício Carpossi, Ramiro Flores e Fermin Merlo, sobre composição suas. Qual é a fórmula de elaboração para teus discos? Parte de alguma ideia e daí compõe os temas? Fale do Merlo compositor...
HM – Para dizer a verdade, não tenho uma fórmula, em cada disco trabalhei de maneira diferente. Particularmente em Parábola fiz uma junção de diferentes composições musicais, umas são versões do cd “Consin” editado pela Freshsound, e alguns outros temas compostos específicamente para este quarteto, mais a inclusão de um convidado, Ramiro Flores. Geralmente minhas composições estão pensadas desde o início por quem serão executadas, eu gosto muito da sensação de estar compondo para determinados músicos, elaborar as situações para que cada músico leve ao máximo seus potenciais e suas características.

PCN – Você tocou na Europa e nos Estados Unidos. Como andam estes centros culturais para músicos de outros lugares? Eles já conheciam Hernán Merlo?
HM – Sim, tive a sorte de tocar em outros países, e isto foi muito enriquecedor. Tanto na Europa como nos USA há muita atividade jazzistica, muitos lugares onde tocar. Sobretudo na Europa tem muitos festivais muito importantes, mas para os músicos argentinos se faz muito difícil desenvolver uma atividade tão distante de nosso país, tanto pela difusão de nosso material, como pelos custos de traslado, que são muito altos. Necessitamos abrir canais com outros países, para que se conheça nossa música e ver a possibilidade de financiar nossos custos . No momento a possibilidade de uma ajuda estatal, que seria o adequado, não está disponível, é nosso desejo que isto mude, e nos permita expandir nossos projetos por estes lugares.

PCN – Tem algum projeto novo? Alguma turnê?
HM – Sim, estou trabalhando sobre um novo projeto, que é um quarteto de sax, piano, contrabaixo e bateria, com o que estou desenvolvendo ideias e desconstruções sobre composições de Thelonious Monk. É algo que faz muito tempo venho pensando fazer e agora estou dedicado a isso. O quarteto é formado por músicos muito jovens, muito talentosos, e que foram meus alunos em distintas etapas de sua formação. Pablo Aristein no sax tenor e clarinete. Alan Zimmerman no piano e o incomensurável prazer de compartilhar isto com meu filho Fermin Merlo na bateria. Podem ouvir este quarteto no You Tube, nas últimas apresentações que fizemos, estou muito contente como resultado e estamos prontos para gravar.


Discografia

Hernan Merlo (Uanchu, gravado entre 93-95)
Ernesto Jodos (piano), Carlos Lastra (sax), Enrique Norris e Juan Cruz de Urquiza (trompetes), Pepi Taveira e Fernando Martinez (bateria). Composições de Merlo, exceto Silence, de Charlie Haden;

Apesar del Diablo (Uanchu, 1997)
disco co-dirigido com Ernesto Jodos e Conrad Herwig (trombone), com Fernando Martinez (bateria) e Juan Cruz de Urquiza (trompete). Composições de Merlo, Jodos e Herwig, exceto Deluge, de Wayne Shorter;

Neo (Uanchu, 2001)
com Armando Alonso (guitarra) e Manuel Caizza (bateria). Composições de Hernán Merlo, exceto Someone watch over me, de George Gershwin;

Parabola, Hernan Merlo neo4tet (Sofá Records, 2008)
com Juan Pablo Arredondo e Patrício Carpossi (guitarras), Fermin Merlo (bateria) e Ramiro Flores (sax). Composições de Hernan Merlo;

Consin, Hernán Merlo Quintet  (Fresh Sound, 2001 e editado pelo selo Blues Sounds de Barcelona)
com Rodrigo Domínguez e Carlos Lastra (saxes), Ernesto Jodos (piano) e Sergio Verdinelli (bateria).

Trio (gravado ao vivo no extinto La Revuelta em janeiro 2003, produzido pelo selo independente Musica Elástica, com edição de apenas 100 exemplares)
com Juan Pablo Carletti (bateria) e Lucio Balduini (guitarra)

II FESTIVAL DE CONTRABAIXOS DO RIO DE JANEIRO

24 setembro, 2011

A segunda edição do Festival de Contrabaixos do Rio de Janeiro acontecerá de sexta-feira a domingo entre os dias 30 de setembro e 2 de outubro às 19 horas na Sala Baden Powell. Alternativa perfeita para quem não for na miscelânea do Rock in Rio.

E durante o festival o lançamento do livro Confesso que Ouvi, escrito por Erico Cordeiro, um apaixonado por jazz e que tem o melhor espaço sobre o assunto na internet - o Jazz + Bossa + Baratos Outros. O livro contém resenhas de discos de jazz sob a ótica do escritor, que as ilustra com histórias, metáforas e poesia que referem-se a sua audição destes discos e à própria biografia dos músicos.
Uma oportunidade rara e Erico estará no festival autografando o seu livro.

Sexta-feira, noite de abertura com o contrabaixista Claudio Alves. Músico de formação clássica, iniciou seus estudos aos 12 anos e se formou em Música pela UFRJ. Hoje faz parte da Orquestra Solistas do Rio e já participou da Petrobras Sinfônica e OSB. Sua apresentação terá composições em contrabaixo solo, em duos com o pianista Luiz de Simone e com o violonista Lula Washington e em trio com ele ao contrabaixo, violão e o violino de Pedro Mibielli. Promete um som interessante que vai sair do tradicional.
Na sequencia, o nosso Charles Mingus, Dôdo Ferreira. Quem já o assistiu e/ou ouviu seu cd Dum Dum, lançado pela Delira Música, sabe que é promessa de um grande show. Contrabaixista do nosso primeiro time e navega fácil nas ondas do jazz e cujo som sempre traz uma atmosfera mingusiana, uma de suas principais influências. Vem acompanhado por Gabriel Geszti piano  e João Cortez bateria.

Sábado, abre a noite o contrabaixista Augusto Mattoso acompanhado por Cliff Korman piano e Rafael Barata bateria. Que time é esse !! Formado em Música pela Uni-Rio, Mattoso é um contrabaixista de técnica impecável e ousado nos improvisos, se destaca no cenário do jazz nacional e é daqueles instrumentistas que gostam de botar pressão no som. O pianista americano Cliff Korman já é "de casa" e está sempre nos palcos do Santo Scenarium e TriboZ, quem já viu garante que o as 88 teclas tremem de verdade; e o baterista Rafael Barata é simplesmente "sem comentários", nosso maior nome no instrumento hoje no Brasil e acompanha a pianista Eliane Elias e grupo. Um show imperdivel !
Na sequência da noite, uma das grandes atrações do festival - o contrabaixista argentino Hernán Merlo, acompanhado pelo seu filho Fermín Merlo bateria e Alan Javier Zimmerman piano. Quem conhece a cena do jazz argentino certamente já deve ter estado em alguma apresentação de Hernán Merlo. Nativo de Lomas de Zamora, província de Buenos Aires, começou seus estudos no Conservatório Nacional de Musica Lopez Buchardo se mudando mais tarde para Los Angeles. Aluno de Charlie Haden, Mark Helias, Michael Fomanek e Scott Coley. Ao longo de mais de 25 anos de estrada, Merlo vem se apresentando e confirmando sólida carreira exclusivamente no terreno do jazz moderno, sendo hoje um dos mais antigos atuantes na efervescente cena de música contemporânea naquele país.

Domingo o festival encerra com o Gravíssimo Bass Ensemble, ensemble de contrabaixos formado pelos contrabaixistas Lipe Portinho, Augusto Matoso, Claudio AlvesTarcisio Silva e com o acompanhamento do piano de Ana Azevedo e a bateria de Andre Tandeta.
Lipe Portinho é o nosso salvador da música de qualidade no RJ na direção artística da Sala Baden Powell. Começou seus estudos aos 10 anos de idade e é graduado em contrabaixo pela UFRJ. Tocou 10 anos no naipe da Orquestra Petrobrás Sinfônica e com grandes nomes da nossa música brasileira e também é integrante do Grupo Tutti. O contrabaixista Tarcisio Silva é formado em música pela UFRJ onde toca na orquestra desta instituição e já participou da Petrobras Sinfônica, Orquestra Sinfônica Nacional e foi integrante por mais de 25 anos da OSB.
Ana Azevedo também faz parte da direção artística da Sala Baden Powell. É a menina pianista que escolheu o instrumento aos seis anos de idade e foi estudar música no Montgomery College em Washington. Tocou com a Rio Jazz Orchestra e com grandes nomes da nossa música instrumental. Lançou seu primeiro CD solo este ano intitulado "A Tempo” que tem a participação de Lipe Portinho, Alex Moraes, Daniel Garcia, Augusto Mattoso, Erivelton Silva e Kleberson Caetano.
André Tandeta também é formado pela Uni-Rio e é o nosso baterista do jazz e da música instrumental. Muito atuante, já tocou com todos os grandes intrumentistas.

Programa obrigatório !

Sala Baden Powell
Av Nossa Senhora Copacabana, 360
Ingressos R$ 30
Músicos Filiados ao SindMusi, Estudantes de MÚSICA da EM UFRJ, UNIRIO, Conservatório Brasileiro de Música, EM Villa-Lobos, Escola Portátil, In Concert COM CARTEIRINHA só pagam R$ 2.

OS IRMÃOS OLES

20 setembro, 2011

Bartlomiej Brat Oles é baterista, compositor e produtor. Nasceu em Sosnowiec, ao sul da Polonia, em 4 de janeiro de 73. Fascinado por música desde criança, inicou os estudos musicais aos 13 influenciado pelo pai, contrabaixista, cujo instrumento foi abraçado pelo seu irmão Marcin Oles.
Sua admiração pela bateria deu-se por causa de Buddy Rich e descobriu o jazz pela música de Billie Holiday e Charlie Parker nas audições do disco Anthropology para desde então estudar a bateria no jazz nos nomes de Elvin Jones, Max Roach, Art Blakey, Tony Williams, Vinnie Colaiuta e Steve Gadd.
A música deles flutua na fronteira do free.
Em 2005, criaram sua própria gravadora, Fenommedia Records. O trabalho do grupo se enquadra em varias formações, desde duo bateria-contrabaixo com alto grau de virtuosismo, trilhas sonoras e trios geralmente com o sax na linha de frente sem o acompanhamento da base harmônica de um piano ou guitarra. A ousadia do irmão contrabaixista vai mais longe - lançou um álbum solo em tributo a Ornette Coleman chamado Ornette on Bass.

Um som moderno, a nova cara do jazz que vem transformando a arte principalmente do outro lado do continente. E a crítica aplaude, os irmãos foram considerados como a rhythmic dream-team pela JazzZeitung (Alemanha) em 2007.



Leia também sobre o trompetista Andrzej Przybielski -

Andrzej Przybielski

GIBA BYBLOS: MY DUTY

19 setembro, 2011
Em foco o guitarrista Giba Byblos, que lança seu primeiro álbum intitulado My Duty, um disco bem na onda do Chicago Blues.
E é como disse Keith Richards em sua biografia - "O Blues de Chicago é cru, rouco, cheio de energia, se quiser gravá-lo clean, esqueça; quase todos os discos de Blues de Chicago que a gente ouve saem de uma soma enorme, carregando o som em camadas de varias espessuras.
"My Duty" carrega essa atmosfera.


Apesar de "branquelo", Giba Byblos tem a potência vocal do bom Blues de negão, bem ao estilo, com a guitarra acentuada com o verdadeiro som das 335 – modelo de guitarra que Giba é um amante incondicional, e nos apresenta um passeio pelo estilo com muita pressão a ainda algumas pitadas funk e sombras de Lee Hooker e Freddie King. É o Blues nacional mais uma vez ganhando dimensão e destaque.

Se no título deste trabalho ele anuncia que é seu dever manter acesa a chama do Blues, é nosso o dever plugar a bolachinha no prato e degustar o repertório de interpretações de clássicos como a bluesy "Ain´t Nobody´s Business" (Porter Grainger), as funkeadas "Going Down" (Don Nix) e "Big Legged Woman" (Israel Tolbert), "Today I Startin Lovin You Again" (Merle Haggard), "Bad Boy" (Eddie Taylor), "You Don´t Know What Love Is" (Fenton Robinson) e as originais "My Duty", "Johnny Brought Me a Gim" e "The Landlady".

E para contar um pouco deste trabalho, das suas influências e seus equipamentos, o próprio Giba Byblos -

GC: Fale um pouco sobre a ideia do disco e da banda que te acompanha.
GB: O CD leva o nome da primeira faixa, My Duty. Apesar de eu tê-la composto bem antes da idéia do disco, My Duty também significa o meu dever em relação ao blues. A minha ligação com ele não é somente o caso entre um músico e um gênero musical, para mim o blues vai bem além disso, é como que algo religioso, espiritual. É Meu Dever ajudar a manter a chama do blues acesa e essa é a idéia do disco, blues e nada além do blues. Gravei 7 interpretações e 3 composições próprias, sendo 2 assinadas em conjunto com outros músicos - Junior Bought Me a Jim com Fabio Basili e The Landlady com Homesick Hanes.
Sobre a banda, essa é uma história longa. Para resumir, tudo começou com o conceito de uma banda que era a The Kingsizes. Só que ela foi se desintegrando com o decorrer da gravação, inciada em dezembro de 2009. Eu tomei a dianteira e só acreditei que terminei o trabalho em outubro de 2011 quando o Chico Blues, do selo Chico Blues Records, me ligou e disse que os CDs estavam prontos.
A banda que me acompanhou é formada exclusivamente por amigos - Fabio Basili (baixo), Nilton Godoi (batera), Ivan Marcio e Alex Drobnicki (gaitas), Ricardo Ivanov e Homesick Hanes (guitarras), André Calixto e Daniel Correia (metais) e André Youssef (teclados).
Falando de produção, o Ivan Marcio foi o responsável, o Edu Gomes foi o engenheiro de som e a masterização por Daniel Lanchinho.

GC: My Duty tem a atmosfera chicago blues, o que influencia a guitarra de Giba Byblos?
GB: Como você pode ver na capa interna do CD, eu estou num sofá e atrás de mim há fotos das minhas influências: Freddie, BB e Albert King, Eddie Taylor, Otis Rush e John Lee Hooker. É uma pena aquela parede não ter sido tão grande a ponto de caber Magic Sam, Magic Slim, Mighty Joe Young, Jimmy Rogers, Jimmy Johnson, Lurrie Bell, John Primer, Little Milton, JB Hutto, Muddy Waters, Howlin' Wolf, Albert Collins, Left Hand Frank, Little Joe Blue, Eddie Kirkland. Lightnin' Hopkins, Bukka White. Bom, chega. Senão eu vou ficar mais meia hora escrevendo os nomes dos meus heróis.

GC: Por que a opção de compor em inglês?
GB: Por que eu não me imagino cantando blues em português. Nada demais, simplesmente por isso!

GC: A capa de My Duty mostra você e uma 335, que tem uma forte identidade com o blues. Conte-nos sobre seus equipamentos.
GB: Na verdade aquela é a Cleópatra, minha Rainha Africana. Não parece uma rainha? Coberta de púrpura e cheia de ouro. Ela é exatamente uma Gibson ES 355 TDSV. Eu também uso outros "avatares" dela - uma ES 345 TDSV, uma ES 335 TD, uma ES 333, uma Epiphone ES 360 TD (Riviera), uma .... É isso mesmo, três pontinhos, meu harém não pode parar! E tem mais, todas sempre de algum tom avermelhado - Cherry Red, Wine Red, Washed Cherry. Devo ter me esquecido de algum, por enquanto é o que eu me lembro. Meus amps são sempre Fender, uso um Champ 600 pra estudar em casa, um Princeton Reverb Silverface para ambientes pequenos e para quebrar tudo um Bassman Backface com um gabinete de Tremolux. Não uso efeito nenhum além do reverb e ando me divertindo bastante com um Relay G50, sistema wireless da Line 6. Eu uso dedeiras em vez de palheta, resolvi mudar ao assistir vídeos de Freddie King e Eddie Taylor. Dá maior versatilidade ao dedilhado além de me impedir de tocar muitas notas e muito rápido.

GC: Três discos por Giba Byblos.
GB: Indico os três que mais tenho ouvido ultimamente - "Mourning' in The Morning" do Otis Rush (1969, Atlantic), "Ready For Eddie Plus" do Eddie Taylor (1975, Sanctuary) e "Mighty Man" do Mighty Joe Young (1977, Blind Pig).

Obrigado Giba Byblos, e sucesso.
Keep on Bluesin'.


My Duty from Giba "Guitar" Byblos on Myspace

BRITISH BLUES AWARDS 2011

British Blues Awards é promovido por um grupo de amantes do blues do Reino Unido e focam no estilo em todas as suas formas.
A votação é exclusivamente feita pelos fãs de forma livre, e o evento tem o suporte das rádios locais, gravadoras e a internet.
É o segundo ano que esta votação é promovida e os votos vem de todas as partes do mundo.

É sempre uma oportunidade de saber o que anda rolando por aí e conhecer novos nomes.

Este ano o resultado foi divulgado no Newark Blues Festival realizado no dia 11 de setembro, festival este que está em sua terceira edição. Nesta edição da premiação foi feita uma homenagem ao guitarrista Steve Thorpe, que faleceu no ano passado, com a criação do prêmio Kevin Thorpe Songwriter Award  e uma árvore foi plantada no Newark Castle Park celebrando o bluesman.

Os vencedores por categoria -

Male Vocal : Ian Siegal
concorreram Marcus Bonfanti, Oli Brown, Simon Campbell, Simon McBride, Todd Sharpville
Female Vocal : Joanne Shaw Taylor
concorreram Cherry Lee Mewis, Connie Lush and Blues Shouter, Dani Wilde, Fiona McElroy, Sandi Thom
Blues Band : Oli Brown Band
concorreram 24 Pesos, Ian Siegal Band Matt Schofield Band, Simon McBride Band, Todd Sharpville Band
Guitar : Matt Schofield
concorreram Marcus Bonfanti, Oli Brown, Robin Trower, Simon McBride, Todd Sharpville
Harmonica : Paul Jones & The Blues Band
concorreram Eddie Martin, Giles King, Paul Lamb, Peter Narojczyk, Will Wilde
Keyboard : Jonny Henderson (Matt Schofield Band)
concorreram Bennett Holland (King King), Dale Storr, Henri Herbert (Big Mamma's Door), Jonny Henderson (Matt Schofield Band), Moz Gamble (24 Pesos), Paddy Milner
Bass : Andy Graham (Ian Siegal Band)
concorreram Carl Harvey (Simon McBride Band), Fergie Fulton (Hokie Joint), John Culleton (Big Mamma's Door), Silas Maitland (24 Pesos), Steve Rowe (Simon Campbell and the Very Very Bad Men)
Drums : Wayne Proctor (King King)
concorreram Alan Taylor(Ben Poole Band), Dave Raeburn (Dale Storr Band), Paul Hamilton (Simon McBride Band), Rob Pokorny (Big Mamma's Door), Sam Kelly (Station House)
Instrument Other : Son Henry : Lap Steel, Pedal Steel
concorreram Frank Mead (Sax), John Sanderson (Sax, Rhythm Zoo), Kim Mayhew (Sax, Dale Storr Band), Kyla Brox (Flute), Patsy Gamble (Sax)
Young Artist : Chantel McGregor 
concorreram Alex McKown, Ben Poole, Bobby Grant, Mitch Laddie, Oli Brown
Blues Festival : Colne Rhythm and Blues Festival
concorreram Blues on the Farm, Carlisle Blues Festival, Maryport Blues Festival, Newark Blues Festival, Swanage Blues Festival
Overseas Artist : Joe Bonamassa
concorreram Ben Prestage, Buddy Whittington, Hamilton Loomis, Henrik Freischlader, Walter Trout, W T Feaster
Blues Album : Oli Brown, Heads I Win, Tails You Lose
concorreram 24 Pesos (Busted, Broken and Blue), Big Mamma's Door (Handbagged), Sandi Thom (Merchants and Thieves), Simon McBride (Since Then), Todd Sharpville (Porchlight)
Blues Broadcast : Paul Jones, Rhythm and Blues Show - BBC Radio 2
concorreram Ashwyn Smyth (Digital Blues, Gateway FM), Bob & Norm (The Blues Show, GTFM), Gary Grainger (The Blues Show, Bishop FM), Martin Clarke (The Blues Session, Radio Wey), Rob Bancroft (The Rock & Blues Circus, 10 Radio), Tim Aves (The Blues is Back, Saint FM)
Kevin Thorpe Songwriter of the Year : Same As It Never Was, Joanne Shaw Taylor
concorreram Steady Rollin` Train (Spikedrivers), When the Blues comes calling (Todd Sharpville), Cotton On My Back (Dave Arcari), Funky Mamas Kitchen Blues (Clare Free), Everything I Want (Ben Poole), Lousy Husband (Todd Sharpville), The Last Dance (Kris Dollimore), Handbagged (Big Mammas Door), Devils Left Hand (Dave Arcari)

GARY CLARK JR: INCENDIANDO O CENÁRIO BLUES-ROCK

17 setembro, 2011

Nascido em Austin, Texas, em 1984, Gary Clark Jr. começou a tocar guitarra aos 12 anos.

Influenciado pelo rock´n´roll e o blues, começou em bandas locais ainda adolescente, e chamou a atenção dos produtores locais que logo viram que emergia um novo talento. E foi Clifford Antone, proprietário do Antone's Club, quem colocou o garoto em foco dando-lhe a oportunidade e privilégio de tocar com os gigantes, incluindo seu ídolo local Stevie Ray Vaughan, este que o ajudou a encontrar seu próprio som e o promoveu no cenário texano de blues.

O garoto não se intimidou e fez som pra valer, arrematando vários prêmios. Aos 17 anos ganhou como fã o prefeito da cidade de Austin, Kirk Watson, que declarou o dia 3 de maio como “Gary Clark Jr. Day”, um título honorário, e ainda levou o Austin Music Award na categoria Best Blues nos anos de 2003, 2005, 2006 e 2007, e nesta levou também o prêmio de Best Electric Guitar.

Em 2007 participou do filme Honeydripper ao lado de ator Danny Glover, cuja história se passa em 1950 e tem como cenário um pequeno e falido bar numa área rural do Alabama. No filme, o dono do bar, um pianista aposentado, divulga um famoso guitarrista que fazia sucesso na rádios para tirar o estabelecimento das dívidas, só que o cara não aparece e aí surge Gary Clark Jr. como protagonista para salvar o local.

Gary Clark Jr é mais um, entre grandes novos nomes, que ajudam a manter viva a chama do blues negro, diz ele - “Não há segredo em levar os jovens de volta para o blues, é uma questão de consciência.
Chamou a atenção de Eric Clapton, que o convidou para participar da edição do Crossroads 2010; e foi na edição em video deste festival que eu conheci a fera dividindo o palco com BB King, o próprio Clapton, Buddy Guy, Steve Winwood, John Mayer e Jeff Beck entre muitos outros. E Eric carregou Gary como artista de abertura em suas turnês.

Pequena discografia - os raríssimos "110" e "Worry No More" (ambos de 2008), e dois EP intitulados "Gary Clark Jr. EP" (2010) e "Bright Lights EP" (2011), todos pelo selo Hotwire.
Em foco aqui o album Gary Clark Jr. EP, mais completo que o "Bright Lights", que tem apenas quatro faixas, duas inéditas em solo acústico. Neste EP, são sete faixas onde encontramos uma fórmula interessante além do Blues-Rock predominante. Chama a atenção os elementos do Soul, uma roupagem Motown contemporânea em Please Come Home e Things are Changing, e algo meio hip-hop em The Life, mas tudo com muita originalidade; Outro é um tema cujo timbre da guitarra de Gary soou muito familiar e me fez um voar até o clássico Caravanserai (Santana, 1972), e valeu a viagem; mais as abordagens Rock de Don't Owe You A Thang com uma pitada boogie e Bright Lights, tema título do segundo EP.

garyclarkjr.com/

HIGH FIVE QUINTET, HARD BOP EM FOCO

15 setembro, 2011
Hard Bop : escola de jazz surgida no inicio dos anos '50 procurando revitalizar o bebop ameaçado pelo estilo mais cool como o da west coast. Pode-se dizer que melódica e harmonicamente o blues esteve mais presente e ritmicamente mais agil, mais versatil que o bebop, no entanto mais simples (Glossário do Jazz, Mario Jorge Jacques)

Em cena o trompetista italiano Fabrizio Bosso, importante nome do cenário jazzístico italiano. Excelente timbre, energia e rápidos improvisos, é hoje, sem dúvida, um dos melhores no instrumento e é da verdadeira escola do bom jazz.

O grupo em foco aqui é o High Five Quintet que ainda tem em sua formação Daniele Scannapieco sax, Luca Mannutza piano, Pietro Ciancaglini contrabaixo e Lorenzo Tucci bateria, este já eleito pela crítica local como um dos melhores bateristas do jazz italiano dos últimos anos.

A nata italiana em pura escola do hard bop em tempos modernos.
Três temas para audição registrados nos albuns Five for Fun e Jazz Desire – Five for Fun, Dubai e Inception.

Som na caixa !


GEORGE THOROGOOD EM TRIBUTO A CHESS RECORDS

12 setembro, 2011
2120 South Michigan Avenue era o endereço da Chess Records em Chicago nos anos 60.
O branquelo Leonard Chess foi o fundador desta gravadora/estúdio onde o blues elétrico se promoveu de fato, trazendo para a mídia os nomes do blues e R&B que hoje são parte da história do gênero como Willie Dixon, Little Walter, Muddy Waters, Howlin´Wolf, Etta James, entre tantos outros.
Mérito indiscutível para ele que quebrou regras, determinou um novo padrão de comportamento da industria fonográfica na época e colocou verdadeiramente o som na caixa. Foi a Chess Records a referência para os Rolling Stones na América, que inclusive gravaram o tema título deste disco.

A Chess Records é a homenageada no trabalho do guitarrista George Thorogood, roqueiro de tendência blues que resgata, do seu jeito, gravações que fizeram a marca desta gravadora dos anos sessenta. O álbum tem a produção de Tom Hambridge, veterano ganhador de prêmios Grammy em que inclui "Living Proof" (2010) do Buddy Guy, que faz uma participação especial aqui, além do gaitista Charlie Musselwhite.

Thorogood interpreta Buddy Guy em "High Heel Sneakers", originalmente gravada pelo próprio para a Chess e aqui com sua participação; Willie Dixon em "Seventh Son", Howlin Wolf  em "Spoonful", Chuck Berry em "Let It Rock", Muddy Waters em "Two Trains Running", Bo Diddley em "Bo Diddley", J.B. Lenoir em "Mama Talk To Your Daughter", Sonny Boy Williamson em "Help Me", Jimmy Rogers em "Chicago Bound" e Little Walter em "My Babe" com a participação de Musselwhite.
Orgulhoso em prestar este tributo, em honrar a Chess Records, ele diz: “Isto é o blues, é a minha formação, que me carrega dia após dia; há uma história incrível atras dessa música, simplesmente verdadeira”.

Nesta gravação a banda é formada George Thorogood guitarra e vocal, Bill Blough baixo, Jim Suhler guitarra rítmica, Buddy Leach saxophone e Jeff Simon bateria.

ELAS : DANIELLE SCHNEBELEN

O nome da moça é Danielle Schnebelen, leia-se Trampled Under Foot.

Reconhecidamente, um talento. Voz possante, imponente e uma baixista que não deixa espaço vazio. Esse sangue musical é genético, o trio Trampled Under Foot tem ainda na sua formação seus irmãos Nick Schnebelen, guitarrista, e Kris Schnebelen, baterista. Orgulho dos pais, os também músicos Bob Schnebelen e Lisa Swedlund, pai guitarrista e mãe vocalista do grupo "Eva and The Works", além da vovó Evelyn Skinner que era cantora de big bands. Foi sua mãe a maior incentivadora musical, quem a educou com todos os estilos de música desde Everly Brothers a B-52´s.
Aos 12 anos Danielle já interpretava Koko Taylor em um programa de blues na escola em sua cidade Natal, Kansas City, e desde então ela teve a certeza que a música seria sua paixão pelo resto da sua vida. Sempre acompanhava a banda dos pais, e iniciou sua própria banda em 1999 com músicos locais mais experientes. Durante esse período, seus irmãos Nick e Kris pensaram na ideia de formar uma banda em família e não demorou muito para a intenção se concretizar, mas Nick morava na Philadelphia, para onde teriam que se mudar, e o mais importante - Danielle tinha que aprender a tocar baixo. A menina foi persistente e ousada, levou o estudo do baixo a sério e em 2004 foi convidada pelo saxofonista Gharett Schaberg, do grupo The Nortons, para integrar sua banda, com quem gravou o CD chamado "Wild Wild Woman". Disse Gharett ao ouvir Danielle pela primeira vez : "Que impostação vocal tinha aquela menina, e estava trabalhando duro no baixo elétrico. Convidamos ela na hora".

Com os discos "Rough Cuts", "White Trash" e "The Philadelphia Sessions", o Trampled Under Foot surgiu em cena em 2008 no Internation Blues Challenge, em Memphis, e a euforia foi geral. Janiva Magness, presente no evento, afirmou que se o grupo não levasse o prêmio ela mataria todo mundo, com toda razão. Não só levou como deu a Nick o prêmio Albert King Award como o mais promissor guitarrista. O grupo decolou, a banda é presença sempre esperada no cenário blues dos festivais não só da América mas Canada e Europa.

A discografia ainda traz "May I Be Excuse", "Live at Nottoden Blues Festival" e "Wrong Side of the Blues". A Blues Revue fez uma matéria sobre o grupo na edição de abril-maio de 2009, e o grupo foi capa da revista na edição de março-abril deste mesmo ano.

MATT SCHOFIELD: ANYTHING BUT TIME

Das terras que nos deram Jeff Beck e Eric Clapton, o inglês Matt Schofield é mais um nome de expressão dos guitarristas na linha Blues-Rock.
Em foco, o álbum Anything But Time 
(Nugene Rec, 2011).
Ainda garoto, aos 13 anos, já participava das gigs em sua cidade natal, Manchester, e aos 18 já se tornava um guitarrista profissional. Se diz influenciado por B.B. King, Albert Collins, Stevie Ray e Albert King e consegue mostrar muita originalidade na sua música fazendo uso da formação de organ trio, geralmente acompanhado pelo baterista Evan Jenkins e o organista Jonny Henderson.

Já no seu disco de estréia - Trio, Live (2005, Nugene Records), teve o merecido reconhecimento da crítica, e alcançou em 2010 o prêmio de álbum do ano pelo British Blues Awards com o disco Heads Tails & Aces (2009, Cadiz), que contou as participações do baixista Jeff “The Funk” Walker e do baterista Alain Baudry.  Foi o primeiro guitarrista britânico a ter um livro-dvd didático lançado pela Hal Leonard.

Sua onda lembra muito o som do guitarrista Robben Ford pelo registro e timbre da sua guitarra além de boa colocação vocal. Sua discografia conta com "Trio, Live" (2005), "Siftin' Thru Ashes" (2005), "Live at the Jazz Café" (2005), "Ear to the Ground" (2007), "Heads Tails & Aces" (2009), "Live From The Archive"(2010) e "Anything But Time" (2011); três registros ao vivo e a certeza que o couro come nessas gravações.

Anything but Time conta com a participação do pianista de New Orleans Jon Cleary, e foi produzido por John Porter, que já produziu discos de B.B. King e Buddy Guy. Dos dez temas do álbum, oito são temas autorais e as demais são interpretações de Steve Winwood (At Times We Do Forget) e Albert King (Wrapped up in Love).

Abaixo uma transcrição da entrevista de Matt Schofield para o site Guitar Squid (tradução livre) - 

Voce diz que a gravação de Anything But Time em New Orleans influenciou a atmosfera e o som do disco. Quais outras influências podem ser ouvidas e o que gostaria de destacar no álbum?
Há uma mistura de influências. Eu cresci ouvindo gravações de guitarra blues e a influência dos jazz organ trios obviamente está inserida na banda, além da pegada funky que nós adoramos. Para este álbum tive a idéia de fazer uma versão Stax das gravações que Albert King fez com Booker T & The M.G's, o que certamente não soou como esse registro mas era o que tinha em mente. A faixa título é uma referencia ao M.G.´s e nós incorporamos o som de Albert King daquele período. E além de estar em New Orleans, o ponto culminante pra mim foi trabalhar com o produtor John Porter. Eu cresci ouvindo as gravações que ele fez e eu realmente me senti muito a vontade, foi uma experiência gratificante. Além do incrível Jon Cleary tocando alguns temas com a gente, fizemos três temas juntos.

Pode falar um pouco sobre as especificações da sua nova guitarra, Daytona. Em que ela difere da sua 61' Strato?
Bem, o que eu mais gosto na  Daytona é que é uma SVL baseada na modelo 61' e eu me sinto confortavel com ela. De fato, a idéia era ter uma que não fosse muito diferente da minha original, o que não é fácil e foram varias tentativas. Mas a SVL certamente encontrou a fórmula certa. Eu toquei com a Daytona por um show inteiro na primeira oportunidade, o que seria impensavel pra mim tendo tocado com minha 61' strato em todos os shows por 10 anos.
Outros pontos importantes a destacar são a composição da cor do instrumento e a pegada do braço, muito parecida com minha velha strato e feito do jacarandá brasileiro e o som que responde a altura. Lógico que ainda tende a melhorar afinal ela só tem 18 meses. Talvez mais uns 50 anos !
Embora minha 61' ainda seja um modelo, para o dia a dia a SVL é a melhor strato-like que eu possuí, a usei no novo disco apesar da minha 61' também estar no estúdio.

Voce se considera um autodidata. Como você aprendeu a tocar e as diferentes técnicas que usa?
Eu ouvi muita música e toquei muito. Ainda adolescente não havia um minuto que eu não estivessese com a guitarra nas mãos. Descobri acidentalmente a escala pentatônica tentando tirar Voodoo Chile.
Pensei - se eu tocar  aquelas notas em ordens diferentes, adicionar alguns bends ou vibratos aqui e ali, soa como outros solos de blues também. E assim foi ao longo dos anos e foi divertido.
Eu tocava junto com as gravações a maioria das vezes, Ao invés de aprender os solos nota por nota, eu pegava os licks e a forma como os faziam e criava meu próprio vocabulário com eles. Também aprendi muito com os músicos mais velhos e mais experientes, principalmente quando me mudei para Londres aos 18 anos. Se você está em uma boa banda tocando para uma platéia, é afundar ou nadar. Eu nunca passei muito tempo praticando técnicas. Qualquer técnica que eu tenha e puramente produto de tentativa de executar algo musicalmente. Mais importante é escutar muito, eu amo música e seus ouvidos são a peça mais importante do equipamento.

Sua pedaleira não é nada mirabolante. Fale um pouco sobre os efeitos que você aplica.
Bem, eu realmente não gosto de usar efeitos e tudo que eu tenho é basicamente para controlar ou complementar o som que estou tentando tirar da guitarra. Eu gosto do som dos dedos, das cordas, e amplicado também. Então isso tudo para mim refere-se a dinâmica e detalhes dos equipamentos para melhor reproduzir o que estou tocando. Não quero pensar no equipamento quando eu toco, então mantenho-o simples, não mais que 3 pedais.
Além do afinador tenho um Providence Overdrive SOB-2 que é o melhor overdrive que eu encontrei. Mantém o som aberto, dinâmico e tem boa resposta, os bends soam perfeitos com meu amplificador Two-Rock Custom Reverb em modo clean. Ainda uso um Klon Centaur que eu uso para um som mais limpo, direto no amplificador dando um som mais encorpado sem alterações. E finalmente o Mad Professor Deep Blue Delay em configuração básica.

Muitos guitarristas sabem a importância de praticar, mas muitos deixam isso de lado. O que você sugere?
Eu vou ser honesto e digo que não sinto que eu tivesse praticado tanto, e olha que eu toquei muito. Eu nunca tive uma rotina, apenas plugava e tentava tocar. Novamente digo que tem que escutar muita música e ouvir o que gosta, isso me inspira a querer tocar e é o que me leva adiante.

Matt Schofield cita os 5 discos que todo guitarrista deve ter –
B.B. King : Live at the Regal
Albert King : Born Under A Bad Sign
Albert Collins : Live 92-93
Jimi Hendrix : Electric Ladyland
Donny Hathaway : Live 

HOT SPOT BLUES BAND EM ENTREVISTA

A Hot Spot Blues Band nos brinda com um blues-rock da melhor categoria, e comprova que as Minas Gerais ainda é (sempre foi) berço de muita música boa.
O trio é formado pelo guitarrista Gustavo Andrade,  o baixista Jonas Lima e o baterista Luiz Andrade, e o disco de estréia, intitulado Felling Alright, lançado pela Blues Time Records, já coloca a banda como uma das melhores no gênero no país e no exterior, com destaque da revista canadense Real Blues Magazine.
A energia do som da banda é tanta que expressou emoção em Mud Morganfield, no pianista Donny Nichilo, Bob Lohr e o nosso Joe Manfra, que não economizaram elogios, além de muita gente da mídia especializada que atribuiu excelentes críticas ao trabalho do grupo, impressionados com a fluência blues que a banda imprime no som.

Neste trabalho de estréia, o repertório é quase que um tributo aos gigantes em que, com muita originalidade, interpretam temas que fizeram a história do blues como "I´m ready", "Born under a bad sign", "Who´s been talking", "Use me", "I´ll play the blues for you" e a faixa titulo, imortalizadas na mãos de Willie Dixon, Albert King, Robert Cray, Bill Witters e Joe Cocker entre tantos outros.
Um disco obrigatório, da nossa terra, o nosso Blues. 



Gustavo Andrade conta um pouco da banda, do álbum e ainda nos deixa algumas dicas para audição.

Gustavo Cunha: Como surgiu a idéia do grupo?
Gustavo Andrade : Gustavo Andrade & Hot Spot Blues Band é uma banda de Belo Horizonte, Minas Gerais, formada no ano de 2000. Fazemos um blues com pitadas de soul, rock e jazz.
Nosso primeiro álbum, “Feeling Alright”, foi lançado pelo selo carioca Blues Time Records em 2008.
Minha família é bem musical, com isso tive uma ótima influencia desde muito cedo. Comecei com o violão aos 9 anos e depois fiz cursos de contrabaixo e canto, mas basicamente sou autodidata.

GC : Influências musicais sempre estão presentes, e o mito de que guitarristas não escutam só guitarristas é uma verdade. Se aplica a você?
GA : Gosto muito do som de guitarristas como Muddy Waters, Buddy Guy, Jimi Hendrix, Eric Clapton e Jeff Beck, mas gosto de pesquisar sons diferentes sempre. O pessoal da banda também escuta de tudo.

GC : Equipamentos sempre são um desafio para quem toca. Conte-nos um pouco sobre seus instrumentos.
GA : Em "Feeling Alright" usei guitarra semi-acústica e uma Telecaster, para o próximo já estou usando uma Les paul, PRS e Strato. Acho que experimentar é sempre muito válido e no próximo álbum tem bastante blues mas também já começo a misturar o meu som com outros estilos, como por exemplo ritmos latinos. Violões Martin e Fender são meus preferidos; gosto de amplificador Fender valvulado e prefiro o drive e o reverb do próprio amplificador a pedais, mas não deixo de usar alguns timbres modernos, se vejo que combina com meu som não tenho nenhum problema em aceitar as novas tecnologias de softwares e plug-ins.

GC : Feeling Alright é o primeiro disco da Hot Spot Blues Band, e vocês temperaram com blues e R&B com uma roupagem muito particular. Há um trabalho autoral da Hot Spot Blues Band ou a proposta é trazer os velhos clássicos ?
GA : O álbum foi justamente para mostrar como a banda toca o blues clássico, escolhemos as melhores musicas dos shows e gravamos com nossa pegada peculiar. Já o próximo álbum terá apenas canções de minha autoria e, além do blues, esse será um álbum ainda mais experimental.

GC : "Feeling Alright" colocou a Hot Spot Blues Band na lista dos melhores lançamentos ao redor do mundo pela revista canadense Real Blues Magazine. Imagino o orgulho de vocês com o primeiro disco em foco no cenário internacional. Como veem o cenário blues em geral e no Brasil em particular?
GA : Feeling Alright teve uma repercussão ótima no cenário do blues e nos deixou muito orgulhosos. Por ter sido lançado pelo maior selo de blues do Brasil, ajudou muito na visibilidade tanto dentro como fora do país. O blues é um estilo que vai estar sempre presente porque, além de ter um publico muito fiel, é um estilo que agrada facilmente a quem o conhece pela primeira vez. Penso que o blues só tende a crescer no Brasil e ao redor do mundo pela rica cultura que o envolve.

GC :  Eu sei que são muitos discos que já rodaram na sua vitrola, mas, de bate pronto, cinco discos para todo mundo correr atras e ouvir.
GA : BB King: "Deuces Wild"; Howlin’ Wolf: "Howlin’ Wolf"; Buddy Guy: "Bring Em In"; Muddy Waters: "I'm Ready"; Bill Sims: 'Bill Sims".

Você encontra o álbum Feeling Alright para venda nas lojas Submarino e Americanas.

ELAS : ANNI PIPER

Salvem as mulheres que tocam baixo elétrico !
E vem da Australia as notas e o balanço da baixista e vocalista Anni Piper.

A bela moça encontrou o Blues pela primeira vez quando ouviu o som da Paul Butterfield Blues Band tocando Born in Chicago (Paul Butterfield Blues Band, 1965, Elektra), é o Blues atravessando gerações, e nesse tempo a jovem ainda estava na escola. Aos 12 anos se entusiasmou com a guitarra, mas a transformação veio aos 14 quando deram a ela um baixo elétrico, instrumento que ela encontrou mais afinidade percebendo que ali ela podia colocar o verdadeiro groove e balanço. E foi com essa musicalidade que ela resolveu se dedicar exclusivamente à música, formando-se aos 19 anos em Artes com ênfase em Música Contemporânea na Southern Cross University.
Com quatro discos gravados - "Jailbat" (Black Market, 2004), "Texas Hold´Em" (Black Market, 2004), "Two’s Company"(Blues Leaf, 2009) e "Chasin Tail" (Blues Leaf, 2010) - sua música vai do Blues, com algumas passagens acústicas, ao Rock moderno, e é nessa onda que a bela moça chama a atenção e cujo som atravessou o continente chegando na América com o lançamento de "Two´s Company" em 2009, a colocando como número 1 da Australian Roots Music Charts e conquistando a posição 21 da listagem da revista Living Blues.
A moça tem destaque e coleciona algumas nomeações e prêmios na linha Blues-Rock :
-  2008 : prêmio "Best Female Vocal" do Australian Blues Music Awards;
-  2005 : prêmio "Best New Talent" do Australian Blues Music Award além de estar entra as 4 finalistas  para "Best Female Vocal";
-  2004 : prêmio ABC Radio Fresh Air Competition e terceira colocada no MusicOz Awards na categoria Blues.

Em 2010, alcançou nomeação entre as 5 finalistas do Muzicoz Awards na categoria Blues com seu álbum "Chasin Tail" com um pegada rock em que faz homenagem aos ídolos que fizeram sua cabeça na juventude, e voce realmente percebe uma atmosfera a la Stevie Ray e nos seu tributos a Freddie King (Hide Away) e Hendrix (Voodoo Chile).
Ousada, se impõem no baixo elétrico e tem energia na voz. A banda é na linha power trio com o excelente guitarrista Sam Buckley e o baterista Greg Kett.

www.annipiper.com/

ELAS : DANA FUCHS

A moça é atrevida, tanto que foi rotulada como uma mistura de Janis com Jagger. Dana Fuchs é o retrato da menina que se encanta com o o blues e o rock´n´roll e parte em busca do seu sonho. Voz imponente e rascante, tem energia e presença de palco e realmente chama a atenção.
Caçula de seis irmãos também musicais, Dana cresceu numa pequena cidade da Florida sempre rodeada de música - o clássico rock, claro. E na vitrola de casa rolava Ray Charles e Hank Willians e o bom funk dos 70' e 80'.
Aos 12 anos, já era parte do coro gospel em sua cidade expressando sua voz em gritos e preces todas as semanas e já era aconselhada a deixar a música “tomar conta de sua alma, a sentir-se inspirada e sem medo”. Aos 16 tornou-se cantora de bandas locais e aos 19 resolveu ir para NY para cantar Blues, se vendo sozinha e sem dinheiro nos arredores de Lower East Side de Manhattan.
Com a notícia do suicídio da sua irmã mais velha, Donna, sua mentora musical, reascende em Dana sua paixão pela música e ela começa a participar das jams de blues locais como uma forma de extravazar suas emoções e numa dessas sessões encontrou com o guitarrista Jon Diamond, que excursionava com Joan Osborne e Debbie Davis, e a afinidade musical foi imediata dando origem a Dana Fuchs Band.
E não demorou 1 ano para a banda estar nos clubes de NY tocando tres longos sets por noite em quatro vezes por semana e chegando a dividir palco com James Cotton e Taj Mahal.
Pois é, era a hora de Dana Fuchs contar sua própria história e criar sua própria música e expressar seu lado mais rock´n´roll.

Sua semelhança musical com Janis chamou a atenção da Broadway que a convidou para participar do musical Love, Janis. Participou de uma audição do musical, cantou um pedaço de Piece of my Heart e imediatamente foi aprovada tendo que aprender em oito dias 20 músicas de Janis e mais de 52 páginas de diálogo - “um dos mais excitantes desafios da minha vida”, disse ela.
Dana ganhou audiência e popularidade.

Participou também do filme Across the Universe (2007), um musical de época do final dos 60' que retrata  um grupo de jovens ingleses rumo a América envolvendo-se no movimento de contra-cultura da época e a guerra do Vietnã mas sem a música visceral de Hendrix e Doors, somente com músicas dos Beatles; e ela interpreta a cantora protagonista do filme. Um filme bem legal que deixo a recomendação.

Dana Fuchs Band tem dois discos gravados - Lonely for a Lifetime (2003, Q&W Music) e Love to Beg (2011, Ruf Records) - e 1 DVD gravado no BB Kings, NY em 2007.

HENRIK FREISCHLADER: STILL FRAME RELAY

O guitarrista alemão Henrik Freischlader é auto-didata e desde criança um fascinado por som e música. Aos 4 anos de idade já se atracava com as baquetas de uma bateria, se aventurando depois pelo piano e baixo elétrico até se entregar a guitarra aos 14 anos. Adolescente, encontrou no blues a motivação que precisava para seguir como músico e guitarrista, e nas suas caixas ecoavam Gary Moore, B.B.King, Stevie Ray, Peter Green, Albert Collins, Rory Gallagher e Robben Ford numa combinação explosiva.
É um músico completo, excelente guitarrista e bom vocal.

Seu som traduz a linguagem do hard blues e o rock moderno.
Em destaque 3 álbuns de estúdio - "The Blues" (ZYX Music, 2006), "Get Closer" (ZYX Music, 2007) e "Recorded By Martin Meinschafer" (Cable Car Rec, 2009); e Freischlader também gosta de registros ao vivo e possui faz desses registros verdadeiros bootlegs que fazem parte da discografia oficial – o triplo "Henrik Freischlader Band Live" (ZYX Music, 2008), "5 Live in the Kitchen" (Deutschlandfunk, 2008) e o duplo "Tour Live 2010" (Cable Car Rec, 2010).

"Still Frame Relay" (2011, Cable Car Rec) foi lançado em CD e Vinil; um álbum para ficar rodando na vitrola sem parar e uma verdadeira viagem pelo bom blues-rock.
Nesta sessão o grupo é formado por Freischlader nas guitarras, Moritz “Mr.Mo” Fuhrhop no Hammond,  Theo Fotiadis no baixo e Max Klaas na bateria, ainda com a participação mais que especial na faixa título do também guitarrista Joe Bonamassa.

A faixa título abre as 11 faixas do disco com a energia rock e um Bonamassa inspiradíssimo; e fica difícil perder a atenção na sequência do disco com destaques para o shuffle blues "Come on my Love"; a balada quase que psicodélica "The Memory of our Love", aqui com um espetacular solo de Freischlader suportado pelo Hammond de Mr. Mo; a essência blues em "I've Got it Good"; e a grooveada "Longer Days".
Discão.

BLUES MUSIC AWARDS 2011, A PREMIAÇÃO DO BLUES


The Blues Foundation é sediada em Memphis e organiza todos os anos a premiação do Blues, evento que ocorre há 32 anos - Blues Music Awards.
Neste ano, a festa aconteceu ontem, 5 de maio,  e como sempre tem a presença de diversos artistas que concorrem em diversas categorias em quase 7 horas de apresentação. E a apresentação é transmitida ao vivo pelas rádios locais e nos clubes de blues para quem não conseguiu acesso ao evento.
Para quem acompanha o mundo do Blues, é uma oportunidade de conhecer novos nomes e os lançamentos que estão mais em evidência.
E a festa este ano celebrou o pianista Pinetop Perkins, que faleceu em março último, além de Solomon Burke e Robin Rogers entre os homenageados.

Os vencedores de 2011 e as nomeações em todas as categorias –

Traditional Blues Album: Pinetop Perkins & Willie 'Big Eyes' Smith, Joined At the Hip
concorreram: James Cotton – Giant;  Duke Robillard - Passport To The Blues; The Mannish Boys - Shake For Me; Charlie Musselwhite - The Well

Contemporary Blues Male Artist: Buddy Guy
concorreram:  Joe Louis Walker; John Nemeth; Kenny Neal; Nick Moss

Contemporary Blues Album: Buddy Guy, Living Proof
concorreram: Smokin' Joe Kubek & Bnois King - Have Blues Will Travel; John Nemeth - Name The Day!; Karen Lovely - Still The Rain; Janiva Magness - The Devil Is An Angel Too

Traditional Blues Male Artist: Charlie Musselwhite
concorreram: Alabama Mike; James Cotton; Magic Slim; Super Chikan

Soul Blues Female Artist: Irma Thomas
concorreram: Barbara Carr; Claudette King; Denise LaSalle; Sista Monica Parker

Soul Blues Male Artist: Solomon Burke
concorreram: Bobby Rush; Curtis Salgado; Eugene 'Hideaway' Bridges; Tad Robinson

Soul Blues Album: Solomon Burke, Nothing's Impossible
concorreram: Denise LaSalle - 24 Hour Woman; Tad Robinson - Back in Style; The Holmes Brothers - Feed My Soul; Eugene "Hideaway" Bridges - Live In San Antonio; Arthur Adams - Stomp the Floor

Contemporary Blues Female Artist: Robin Rogers
concorreram: Candye Kane; Janiva Magness; Karen Lovely; Shemekia Copeland

Acoustic Artist: John Hammond
concorreram: Doug MacLeod; Eric Bibb; Guy Davis; Paul Oscher

Acoustic Album of the Year: The Nighthawks - Last Train to Bluesville
concorreram:  Paul Oscher - Bet On The Blues; Eric Bibb - Booker's Guitar; South Memphis String Band - Home Sweet Home; Lucky Peterson - You Can Always Turn Around

Album: Buddy Guy, Living Proof
concorreram: Eden Brent - Ain't Got No Troubles; The Mannish Boys - Shake for Me; Janiva Magness - The Devil is an Angel Too; Charlie Musselwhite - The Well

B.B. King Entertainer: Buddy Guy
concorreram: Janiva Magness; Joe Louis Walker; Kenny Neal; Super Chikan

Koko Taylor Award (Traditional Blues – Female Artist of the Year): Ruthie Foster
concorreram: Eden Brent; Reba Russell; Sue Foley; Teeny Tucker; Zora Young

Band: The Derek Trucks Band
concorreram: Magic Slim & the Teardrops; Nick Moss Band; Rick Estrin & the Nightcats; The Holmes Brothers; The Kilborn Alley Blues Band; The Mannish Boys

Best New Artist Debut: Matt Hill, On the Floor
concorreram: Chris O'Leary Band - Mr. Used to Be; Claudette King - We're Onto Something; Peter Parcek 3 - The Mathematics of Love; The Vincent Hayes Project - Reclamation

Song of the Year: Tom Hambridge/Buddy Guy, "Living Proof"
concorreram: Bruce Iglauer, Wyzard & David Kearney – "Please Mr. President" (Guitar Shorty - Bare Knuckle); Steve Gomes - "Rained All Night" (Tad Robinson - Back In Style); Charlie Musselwhite - "Sad and Beautiful World" (Charlie Musselwhite - The Well); Dennis Walker & Alan Mirikitani - "Still the Rain" (Karen Lovely - Still The Rain)

Rock Blues Album: Kenny Wayne Shepherd Band featuring Hubert Sumlin, Willie "Big Eyes" Smith, Bryan Lee and Buddy Flett ; Live! In Chicago
concorreram: Steve Miller Band – Bingo; Walter Trout - Common Ground; Nick Moss – Privileged; Derek Trucks - Roadsongs

Historical Album: Bob Corritore & Friends, Harmonica Blues
concorreram: Little Smokey Smothers & Elvin Bishop - Chicago Blues Buddies; Various Artists - Jimmy Dawkins Presents the Leric Story; Junior Wells & the Aces - Live in Boston 1966; Luther Allison - Songs From The Road

DVD: Luther Allison, "Songs from the Road"
concorreram: Various Artists - The Mississippi Sheiks Tribute Concert; Tail Dragger - Live at Rooster's Place; Watermelon Slim & the Workers - Live at Ground Zero Blues Club; Mac Arnold - Nothing to Prove

Instrumentalist-Guitar: Derek Trucks
concorreram: Duke Robillard; Joe Louis Walker; Kirk Fletcher; Ronnie Earl

Instrumentalist- Harmonica: Charlie Musselwhite
concorreram: Bob Corritore; Charlie Musselwhite; James Cotton; Kim Wilson; Paul Oscher

Instrumentalist-Drums: Cedric Burnside
concorreram: Jimi Bott; Kenny "Beedy Eyes" Smith; Robb Stupka; Tony Braunagel

Instrumentalist-Horn: Eddie Shaw
concorreram: Big James Montgomery; Doug James; Keith Crossan; Terry Hanck

Instrumentalist-Bass: Bob Stroger
concorreram: Bill Stuve; Larry Taylor; Patrick Rynn; Steve Gomes

Instrumentalist-Other: Sonny Rhodes - lap steel guitar
concorreram: Gerry Hundt – mandolin; Johnny Sansone – accordion; Otis Taylor – banjo; Rich Del Grosso - mandolin

Pinetop Perkins Piano Player: Dr. John
concorreram: David Maxwell; Eden Brent; Henry Butler; Mitch Woods

ELAS : RODICA WEITZMAN EM ENTREVISTA

Ela é quase uma prata da casa.
Se não tivesse nascido em Boston, Rodica Weitzman seria uma das nossas principais representantes femininas do Blues. Mas para nós, ela já tem a alma brasileira, com tempero mineiro e ginga carioca, lugares aqui onde ela tem um pouco de sua história em nossa terras.
Para quem não a conhece, segue uma entrevista onde ela simpaticamente concedeu a mim por e-mail às vésperas do nascimento de seu filho. Nos conta sobre sua origens, suas influências e seus projetos.

Conheça um pouco da cantora Rodica Weitzman.

Quem é Rodica?  Há quanto tempo no Brasil e como chegou até aqui?
Nasci em Boston e cheguei no Brasil em 1998.  Cheguei em Minas Gerais para trabalhar com um movimento de mulheres chamado Movimento do Graal como colaboradora nos diversos projetos e acabei ficando. Antes de chegar aqui já tinha trabalhado em vários países de America Latina. Todos os meus trabalhos eram vinculados a este movimento de mulheres, que tem atuação ao nível internacional em cerca de 20 países.  Também já visitei a Russia diversas vezes e morei lá durante um período maior em 1992.  Meu pai é de descendência russa, meus avós vieram de lá e sempre tentei manter esta ligação com as origens.

Você é antropóloga por formação, como surgiu essa sua paixão pela música e em especial pelo blues?
O fato de ser antropóloga com certeza influencia minha forma de ver o blues e conceber meu trabalho artístico. Tenho duas profissões há bastante tempo e lido com isso com tranquilidade porque sinto que minha trajetória no trabalho social e no campo da antropologia me ajuda como cantora. Lógico que minha experiência como cantora alimenta meu envolvimento na música.
Minha experiência com música começou bem cedo, aos 15 anos, com aulas de canto e participando de espetáculos musicais e corais.  Não tem músicos profissionais na minha família, mas todo mundo gosta de música e tem muito bom gosto. Tive uma formação lírica, eu queria ser cantora de ópera e minha vida era voltada para isso mas mudei o rumo numa certa época.  Acabei estudando ciências sociais em vez de música e me afastei durante muitos anos. Eu trabalho há 15 anos como assessora de ONGs e movimentos sociais, na coordenação de diversos projetos sociais e conheço muitas realidades de Brasil (especialmente de Minas Gerais, onde trabalhei por mais tempo) porque desenvolvi projetos em vários tipos de comunidades - quilombolas, comunidades indígenas, assentamentos de reforma agrária, comunidades rurais e urbanas. Agora estou um pouco afastada de minhas atividades de campo porque estou finalizando o mestrado em antropologia e vou continuar meus estudos para um doutorado.  O que isso tudo tem a ver com a música?  Bom, acho que sou uma pesquisadora, seja onde for. Então, sinto que quando vou entrar no espírito de um projeto musical, um CD, ou o que seja, estou pesquisando e tentando descobrir as coisas, entender o que gerou aquelas músicas.  Tenho um espírito de inquietação, de curiosidade que me incentiva no meu trabalho e não importa em qual campo seja.  E gosto de saber o que está em torno da música em si, isto é, em qual contexto sócio-político estas músicas foram criadas e como foi o processo de criação.

Cantoras sempre possuem algumas influências, pode falar sobre algumas delas?
Cresci numa época de pós-movimento dos direitos civis norte-americanos nos Estados Unidos. O blues, o jazz e o folk entravam pelos fundos de nossa casa e penetrava meus ouvidos. As vozes das divas Ma Rainey, Bessie Smith, Billie Holliday, Nina Simone, Joan Baez e Joni Mitchell enchiam a minha casa de musica quase todos os dias.  Eu adorava escutar essas músicas através da voz feminina e percebia a valiosa contribuição que as mulheres deixaram como herança no gênero que conhecemos mundialmente como Blues.
Minha paixão pelo blues, enquanto gênero musical, foi crescendo na medida em que conseguia compreender o contexto sócio-político no qual surgiu e no qual foi adquirindo vários significados.  Fui educada num ambiente familiar que refletia as lutas sociais e políticas da época, cresci acreditando que a música é também uma forma de protesto e de manifestação. Por essa razão fui atraída pelas canções de trabalho, as work songs, os spirituals e o blues que ao mesmo tempo em que expressam tão fielmente a dor dos negros num país injusto são sinais de resistência de um povo extremamente criativo que cavou seu espaço numa sociedade tão dividida.
Nina Simone, na minha opinião, é uma das divas do blues que mais se inseriu na luta daquela época.  Quando ouço sua voz, entro em contato com emoções muito intensas, o que é uma das marcas do blues.  O blues consegue entranhar na alma humana e conectar emoções como o desejo, o amor, as perdas e a tristeza com intensidade e verdade.  O que mais me fascina é sua capacidade para se adaptar e interagir com outras influências culturais da época, fluindo na correnteza dos tempos.  Desde o início de minha carreira musical eu adorava pesquisar todas as vertentes do blues para compreender sua amplitude enquanto gênero musical, além de explorar a diversidade de sua origem.

Um dos seus projetos musicais é chamado de Jungle Jazz. Fale um pouco sobre ele.
Eu sempre trabalhei nos dois campos, blues e jazz. Ao meu ver, o blues foi a raíz que permitiu com que o jazz existisse, que foi uma mistura entre blues e ritmos europeus e na realidade enriqueceu sua linguagem a partir de outras influências.  Mas jazz não teria existido sem blues, que é de fato a base.  Esta compreensão é muito fundamental para meu trabalho musical e eu vejo claramente uma conexão entre os dois gêneros e busco formas de relacioná-los. No jazz gosto de ouvir Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald e Diana Krall e Cassandra Wilson, as grandes divas, além de Nat King Cole, Lester Young e Duke Ellington.
Jungle Jazz foi uma banda que formei em Minas Gerais quando morei em Belo Horizonte com o objetivo de mostrar esta relação. Paralelamente a este projeto desenvolvi nesta época um trabalho sobre as raízes de blues, o que precedeu o blues.  Há alguns anos iniciei uma pesquisa em parceria com cantor e compositor mineiro Sérgio Pererê para mostrar as relações entre as expressões musicais destes dois países: EUA e Brasil, unidos pela matriz africana.  Esta pesquisa resultou no show “Rosário de Peixes” realizado em 2007 na Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes em Belo Horizonte/MG, e em 2008 no Festival “Tudo é Jazz” em Ouro Preto/MG. Também fruto desta pesquisa é a produção de meu primeiro CD “Do Mississipi ao São Francisco”.

Sobre o disco “Do Mississipi ao São Francisco”, são dois grandes rios propulsores de grandes histórias.  Fale sobre a ideia deste trabalho e os músicos que a acompanharam.
Foi um CD lançado em 2009 e apoiado pela Lei de Incentivo a Cultura com patrocínio da TIM. A idéia do disco é ir ao encontro dos dois rios, o Mississipi e o São Francisco. Rios que não se encontram na realidade mas que se encontram no meu imaginário. Rios que, como nos cantos dos escravos afro-americanos, representavam uma travessia ou passagem que poderia levá-los à libertação.
O que tento mostrar neste CD é como a matriz negra e africana está presente no blues, no samba, no choro, no jazz, no reggae, no rock, no congado, irmanando em essência estes e outros tantos ritmos e estilos, sem se importar o país em que floresçam. A Rodica Blues Band foi uma banda que formei em Belo Horizonte mas não existe mais.

Próximos projetos.
Meu próximo projeto é meu segundo CD chamado Blues in my Blood que vai ser lançado em breve.
O disco foi um longo caminho musical realizado a partir da música africana, vindo dos spiritual, os cânticos de trabalho e louvação, do gospel, do jazz e do blues até os dias de hoje, numa viagem carregada de tradição que atravessa os limites de tempo e espaço, como uma jornada de tradição até a modernidade quando esses elementos se fundem com o rock gerando um híbrido contemporâneo sem no entanto  esquecer as origens do Blues, que é o eixo que define o álbum desde o início até o fim.
A banda base deste trabalho é o Blues Groove que tem Otávio Rocha na guitarra, Beto Werther na bateria, Ugo Perrota no baixo e Marco Tommaso no piano.  O álbum é apoiado  pela gravadora Delira Música e ainda conta com as participações especiais do cantor e percussionista Sérgio Pererê, o guitarrista Julio Bittencourt, o baixista Bruce Henry e os cantores cariocas Ricardo Werther, Álamo Leal e do gaitista  Flávio Guimarães do Blues Etilicos. No repertório tem composições minhas e interpretações de Bill Withers, Keb’ Mo’, Howlin’ Wolf, J.B. Lenoir entre outros.

Como você vê o movimento blues no Brasil?
O Brasil é um país muito musical. Gosto muito desta diversidade, que tem muito a ver com a diversidade cultural, dos povos. Brasil é o país da mistura e suas linguagens musicais demonstram claramente esta mistura.
Penso que o Blues no Brasil vem se consolidando cada vez mais, tem um público fiel e tem seus festivais especialmente voltados para este gênero.  Hoje em dia a gente percebe que há muitos festivais de "blues e jazz" acontecendo em vários cantos de Brasil, é um processo de expansão. Mas, questiono às vezes a qualidade deste blues que está sendo apresentado, ou seja, penso que tem sido associado com o "underground", este terreno informal - que permite as vezes que "qualquer coisa vale" - aí, não se preocupa com a pesquisa, com o aperfeicoamento daquilo que se cria. No meu ver, não podemos ficar acomodados com aquilo que estamos criando. A improvisação, a criatividade e a inovação são elementos que precisam estar presentes sempre. Estão surgindo cada vez mais bandas de blues, mas qual é a novidade que estão trazendo para o cenário nacional ?

O blues tem ganhado fôlego novamente, com mais espaços e público. Como você vê o impulso de novas oportunidades de palco e também para a formação de um novo público, jovem e louco por música?
Há possibilidades para explorar mais o blues, com certeza. Claro que é a capital do samba, o que tira um pouco a força do blues mas tem muitas influências de fora, é uma cidade cosmopolitana e isso ajuda muito a trazer novas linguagens. E tem público, a questão é como consolidar este público que existe criando espaços permanentes onde o blues possa estar sempre a mostra, esse é o nosso desafio.

Obrigado Rodica, e sucesso.

ELAS : EDEN BRENT

Nascida no Mississipi, Greenville, Eden Brent é mais uma voz que suspira blues, mas numa onda mais cool. Aos 4 anos de idade já tinha escohido seu brinquedo preferido – o piano; e não à toa, já crescida, entendeu que ser pianista era o que a faria feliz, e assim se realizou.
Teve como mentor o pianista Abie "Boogaloo" Ames, quem a ensinou o estilo boogie-oogie, estilo pianístico de execução do blues caracterizado por figuras de baixo (mão esquerda) de 8 notas por compasso repetidas em forma de riffs, enquanto a mão direita improvisa uma linha melódica sincopada.
Mais que um mestre, Abie Ames foi um grande amigo, e dessa convivência surgiu o convite para cantar algumas músicas com ele no início dos anos 90. Essa parceria rendeu por quase toda a década até sua morte em 2002, cuja história rendeu um documentário da PBS - "Boogaloo & Eden: Sustaining the Sound", o que a levou a ser apelidada de “Little Boogaloo”.

Em destaque os álbuns Something Cool (Little Boogallo Records, 2003) a quem dedicou a Abie Ames; Mississipi Number One (Yellow Dog Records, 2008), um tributo ao Mississipi que chamou a atenção da revista Blues Revue  que afirmou que “seu piano e canto fazem você ouvir os fantasmas de Mississipi”; e Ain´t Got No Troubles (Yellow Dog Records, 2010). Eden foi premiada por 3 vezes pelo Blues Music Awards -  Acoustic Album e Acoustic Artist em 2009 e Pinetop Perkins Piano Player em 2010; e em 2006 ganhou International Blues Challenge da Blues Foundation, Memphis, além das várias nomeações ao longo da carreira.

A crítica a rotulou como se “Bessie Smith encontrasse Diana Krall que encontrasse Janis Joplin”, certamente pelo pelo toque do seu piano jazzy e pela sua voz rasgada.
edenbrent.com/

RIO DAS OSTRAS JAZZ E BLUES 2011, UMA BREVE RESENHA

resenha publicada no CJUB Jazz & Bossa

Que o festival de Rio das Ostras já é um marco do nosso calendário musical ninguém tem dúvida, o maior festival do pais sempre traz atrações interessantes e a edição deste ano teve novidades e algumas brilhantes apresentações. Estima-se que nesta nona edição cerca de 20.000 pessoas circularam pela cidade durante cada dia do festival. Todos atras de boa música e eu também estava lá !
A noite de abertura do festival, numa noite de céu estranho ameaçando uma garoa que contrariava os informes meteorológicos , marcou pela presença do guitarrista Igor Prado. Sem dúvida um excelente guitarrista acompanhado por Rodrigo Mantovani no baixo, o nome do instrumento na linha blues hoje no país, Yuri Prado bateria e Flavio Naves no Hammond que realmente deu a atmosfera certa para a apresentação. Um show contagiante recheado de muito blues e que ainda teve a participação mais que especial do guitarrista Bryan Lee, que incendiou o publico presente. Um encontro histórico de dois gigantes do instrumento, a mão esquerda de Igor abraçada em sua Les Paul e a mão direita de Bryan, sentado, com sua inseparável SG. Apresentação única de Igor Prado no festival, uma pena, fechando a noite de abertura.

Seguindo na linha Blues-Rock –
Nuno Mindelis empolgou o publico em suas apresentações na Lagoa de Iriry e em Costazul. Em ambas apresentações um repertório em formato bem blues-rock em que Nuno, com sua strato nos braços, apresentou seu novo trabalho e deixou a eletrônica de lado, que foi o principal elemento de seu último disco. Na tarde de quinta-feira, tempo bom e um público animado com a apresentação e Flavio Naves novamente no palco nos teclados  em Iriry e no Hammond em Costazul. E como rege a tradição do blues, foi tocar com o público. Alguns problemas no áudio no palco de Iriry mas nada que ofuscasse a agitação do público e em Costazul teve uma corda arrebentada na sua primeira música e a guitarra de Big Joe Manfra segurou a onda até o retorno da sua strato. Na noite de Costazul, Flavio Naves estava inspiradíssimo encenando performance a la Joey de Francesco subindo no Hammond e puxando o público levando-o ao delírio. Espaço para dois bis e encerrou com Hendrix.
Bryan Lee incendiou a noite de quinta-feira. Quem o vê fora do palco não acredita no que este senhor, cego, aos 67 anos é capaz de fazer em cena, se transforma assim como ao público que o assiste.
Manteve-se sentado durante as quase duas horas de apresentação na madrugada de sexta-feira acompanhado pelo sensacional-virtuoso-endiabrado guitarrista Brent Johnson, o incendiário baterista John Perkins e o baixista Slim Louis que segurava, literalmente, a onda para esses gigantes. Bryan Lee em seu traje tradicional com sua cartola e roupa pretos, quase como um mágico e se não o é conseguiu trazer a magia do blues-rock na apresentação.  O guitarrista Brent Johnson realmente roubou o show, chamou a atenção pela energia que colocava nos longos solos e pela interação imediata que teve com o plateia.
O guitarrista Tommy Castro não deixou por menos em suas apresentações na Lagoa de Iriry e em Costazul. Parecia extasiado com o publico na arena de Iriry e fez uma apresentação arrasadora convidando ao palco o guitarrista Big Joe Manfra e a trompetista Saskia Laroo. Colocou o publico para dançar com sua apresentação bem recheada de soul-funk suportada pelos metais de Keith Crossan (tenor) e Tom Poole (trompete) e ainda pelo visual inusitado do baixista Scot Sutherland que toca fazendo coreografias. Show contagiante e mostrou porque é um dos grandes nomes do cenário blues hoje.
Em show único na Praça São Pedro, o Blues Groove, formado pelo baterista Beto Werther, o baixo de Ugo Perrota e a guitarra de Otavio Rocha, veio liderado pelo guitarrista Cristiano Crochemore, que estava em uma manhã inspiradíssima. Mostrou muita personalidade e pegada blues abraçado com sua strato com um ar vintage , trazendo além de clássicos do blues de Johnny Winter, Albert King e Robert Johnson temas de sua autoria que será lançado em CD brevemente. Colocou pressão na manhã ensolarada de sexta-feira e teve como convidado mais que especial o guitarrista Brent Johnson, que empolgou na noite anterior, promovendo no palco um verdadeiro duelo de gigantes.
Rodrigo Nézio e Duocondé também fizeram uma boa apresentação. O power trio de Barbacena (MG) veio com energia mesmo tendo encarado a madrugada na estrada e chegado na cidade na manhã do show. Seu baixista lembra muito Pino Palladino, um pouquinho mais gordo, e o som da banda contagiou o bom público presente com repertório autoral e espaço para alguns clássicos do blues-rock.

Saindo do mundo Blues-Rock –
Jose James mostrou porque é um dos grandes cantores na atualidade. Seu jeitão rapper trouxe identificação com o publico, na maioria jovem, e apresentou-se nos palcos da Tartaruga e Costazul. Basicamente o mesmo repertório em ambos os shows, recheado por baladas com algumas passagens mais jazzy e espaço de sobra para o trompetista Takuya Kuroda. Jose fez muito o uso de um scat adequado ao seu tipo de som e um destaque mais que especial para a interpretação de Equinox (Coltrane) e um encerramento sensacional com Moanin (Art Blakey).
Jane Monheit se apresentou mostrando sensualidade em sua forma renascentista, mas fez um show básico destacando Jobim em Dindi, interpretada em sua língua nativa, e um Samba do Avião cheio de turbulência ao cantar em português, mas levou o público ao delírio e é isso que importa. Bom, me retirei e voltei para as interpretações de Cheek to Cheek e Over the Raibow me rendendo até o final da apresentação que ainda teve algumas boas passagens com uma roupagem mais jazz.
Nicholas Payton trouxe o ar fusion para o festival. Alternava colocações vocais sempre com o auxilio da cantora Johnaye Filelle Kendrick e um destaque para o jovem e excelente pianista Lawrence Fields. Fez um show frio com algumas passagens empolgantes mas determinadamente um show na linha jazz-rock, na onda Miles elétrico.
Das duas apresentações do Yellowjackets, Costazul e Praia da Tartaruga, esta última deu um ar mais intimista, talvez pelo atmosfera bucólica do local proporcionado pelo final da tarde. Comemoram os 30 anos do grupo e trouxeram o lançamento de seu último disco intitulado Timeline. Não dá pra não destacar o baterista Willian Fernandes que roubou o show e é sempre bom ver Bob Mintzer em ação, o baixo elétrico de cordas invertidas do canhoto Jimmy Haslip e o piano de Russel Ferrante. Valeu por ser Yellowjackets mas foi um show sem muita empolgação.
A trompetista Saskia Laroo foi só festa, ela é quase uma "George Clinton" de saias. Entrou no palco com uma roupinha de paquita e uma banda com dois cantores de hip-hop, percussão, teclado, baixo e bateria bem eletrizados e ainda seu trompete cheio de efeitos especiais cujos pedais estavam presos na sua cintura, como um verdadeiro cinto de inutilidades. Fez uma “homenagem” a Coltrane com um tema bem disco-music (acho que se o homenageado sabe disso ressucita) e focou a totalidade da apresentação nessa onda. Alguns momentos mostrava que podia fazer muito mais e melhor com o trompete, a moça tem boa digitação e fez algumas pausas no show, dando até um ar de sobriedade, citando standards com o uso da surdina lembrando o registro de Miles, mas foi muito pouco e o que a gente viu mesmo foi um show festa que parece que cansou o público.
Já o trio Medeski, Martin & Wood com o sax de Bill Evans colocaram muita pressão no caldeirão de Costazul. Impressionante como os caras ao vivo são infinitamente mais empolgantes. A interação entre o excelente baterista Billy Martin, o baixo de Cris Wood e os teclados de John Medeski é certeira e pontual e fica representada pela proximidade deles no palco – um de frente para o outro – aqui com o sax de Bill Evans circulando a frente deles. Longos temas e um groove de primeira qualidade em mais de 1 hora de apresentação com Billy Martin empurrando o grupo com uma energia impar, improvisos brilhantes de Cris Wood que mostrou destreza tanto no acústico quanto no elétrico onde fez até uso do slide e de leves efeitos de drive muitíssimos bem colocados e John Medeski endiabrado colocando as camas indispensáveis para os improvisos de Bill Evans. Sobrou até para uma citação bem colocada de Evidence (Monk).
Sensacional apresentação !

O instrumental brasileiro também mostrou força. Ricardo Silveira fez um excelente show e uma banda inspiradíssima com nosso Andre Tandeta bateria, Romulo Gomes contrabaixo e os metais de Marcelo Martins (sax) e Jesse Sadoc (trompete). Resgatou clássicos da nossa música brasileira de raiz em Se acaso você chegasse (Lupiscinio Rodrigues) e Amélia (Mario Lago) em roupagem bem moderna e apresentou seus clássicos temas que compõem seu ultimo trabalho intitulado Até Amanhã incluindo a brilhante Portal da Cor (Milton). Abraçado com sua bela e nova guitarra semi-acústica da fabricante PRS, nos deu um som de guitarra limpo e muito improviso.
Ivan “Mamão” Conti, Bertrami e Alex Malheiros trouxeram o Azymuth recheado com o sax de Leo Gandelman. Com a responsabilidade de manter a agitação do público depois da apresentação-festa da trompetista Saskia Laroo, o Azymuth não deixou por menos e fez uma boa apresentação mostrando porque é um grupo ícone da nossa música instrumental. Destaque para as interpretações de Partido Alto (Bertrami) e Canto de Ossanha (Baden) mas o público queria mesmo ouvir e cantarolar Linha do Horizonte e o grupo voltou no tempo e encerrou a apresentação com muitos aplausos.

Deixei por último para falar do pianista cubano Roberto Fonseca. Uma apresentação intensa, densa, enigmática, dramática! Dificil encontrar palavras para descrever a energia da música desta apresentação em um repertório baseado no disco Live in Marciac. Veio em formato de quinteto, todos músicos cubanos -  Javier Zalba nos sopros, o excelente Ramsés Rodríguez bateria, Omar González contrabaixo e Joel Hierrezuelo na percussão. Fez uma homenagem aos também cubanos Ibrahim Ferrer e Cachaito Lopez em uma interpretação de cair o queixo, com Roberto se entregando totalmente ao tema, em baixa dinâmica, deleitando-se em improvisos e contorcendo-se ao piano mostrando um virtuosismo e carisma impressionantes. Deu espaço para improvisação de todos, colocou interjeições vocais em algumas improvisações e não dá para destacar alguém em especial porque foram todos brilhantes. Encerrou a apresentação trazendo o público para ditar o ritmo com ele e foi aplaudido de pé.
O melhor show do festival !
É isso ! Ano que vem tem mais.