ANTONIO SANCHEZ: UM DOS MAIS CRIATIVOS BATERISTAS DA ATUALIDADE

28 dezembro, 2012
Antonio Sanchez
foto : Ouro Preto Tudo é Jazz
O mexicano Antonio Sanchez é um dos mais criativos e atuantes bateristas do cenário do jazz. Desde que despontou no Pat Metheny Group no album "Speaking of Now" (2002, Nonesuch), tornou-se membro integrante fixo do trio do Metheny e atuou nos palcos e estúdios sob a liderança de grandes mestres, como Gary Burton, Enrico Pieranunzi, Chick Corea, Miguel Zenon, o saudoso Michael Brecker, entre outros.

Em seus álbuns como lider, "Migration" (Cam Jazz, 2007) contou com as participações de Corea, Potter, David Sanchez, Scott Colley e Metheny; e "Live In New York at Jazz Standard" (Cam Jazz, 2010) faz um registro bem contemporâneo com a formação de dois sax, Miguel Zenon e David Sanchez, e o contrabaixo de Scott Colley; e New Life,  um trabalho totalmente autoral em que explora seu lado compositor.

Em uma super entrevista para o site All About Jazz, ele conta sobre sua trajetória, sobre o trabalho com Pat Metheny e seus projetos. 

(tradução livre)

por Ian Patterson,
All About Jazz, Agosto de 2012

Voce também está na turnê com a Unity Band de Pat Metheny, qual a sensação de estar sempre no palco com esse pessoal?
É fantástico. A música é boa. Nem é complicado, mas há tantas coisas que você pode tirar de letra e outras novas coisas para fazer todas as noites. Chris é formidável. Nós tocamos juntos em várias formações e é gratificante tocar com ele e Pat no mesmo palco. Ben é super firme e é um grande prazer tocar com ele.

Você conhece Potter muito bem e ele também tocou em seu álbum de estreia, Migration. Já tinha tocado com Ben Willians antes?
A primeira vez que toquei com Ben foi na gravação de guitarrista David Gilmore há alguns anos. Era um quinteto com o saxofonista Marcus Strickland e o pianista Luis Perdomo. Nós ainda não finalizamos aquela gravação. Dave está tentando juntar todos nós em estúdio para fazer mais alguns temas, mas tem sido difícil. Então nós fizemos alguns shows em trio com Pat Metheny na Florida e México e foi super tranquilo tocarmos juntos.

Como é que você pega o jeito de um músico, como Willians, que você tocou por tão pouco tempo? Quais as vantagens e desvantagens?
Quando você toca com pessoas que tem muito conhecimento e paixão por diferentes estilos de música, com uma forte base e uma fácil personalidade musical, você percebe que é muito fácil encontrar um ponto comum para estabelecer sua comunicação com eles. O difícil é quando eles tem a mente fechada ou são de gerações diferentes, com visões radicalmente diferentes sobre música. Ben é um músico exemplar, ainda bem.

Você se coloca com Willians como seção rítmica ou vê todo o grupo como uma seção rítmica de quatro peças com obrigações individuais?
Eu vejo o grupo como uma entidade flexível.. Muitas vezes estamos apoiando, outras vezes somos parte muito ativa nos solos de cada um do grupo. Eu sou um músico que interajo muito, então muitas vezes é bom quando Ben deita sobre uma base e eu posso fazer minhas coisas com o solista. Sempre tento ser solidário, não importa o que esteja acontecendo.

Como é tocar com a Orchestrion?
É muito divertido ouvir todas aqueles sons atras de nós enquanto estamos tocando. Eles soam como um grande ensemble e isso é legal, são muitas e diferentes texturas no meio de tudo. E é interessante ter muita gente na banda que não precisa ser alimentada e que nunca se cansa!

Vocês estendem os temas nos shows ou tocam outros temas que não sejam da Unity Band?
Nos shows somente tocamos a música do CD. Às vezes estendemos os temas e outras vezes nós mantemos o mais próximo possível da gravação em relação ao tempo. Pat geralmente cativa o público e decide quando estender um tema ou não. Ele é bom em ditar o ritmo. E nós também adicionamos uma sessão ao fim em que Pat toca com algum de nós separadamente em duos, o que dá uma outra dimensão no todo.

A música da Unity Band impressiona como altamente melódica. Você diria que esse é o ponto forte de Metheny, ou talvez mais uma qualidade distinta de compor?
Eu acho que definitivamente é o ponto mais forte de Pat. Ele pode colocar muita complexidade em sua música e graças a isso ele pode amarrar tudo com uma melodia simples e bonita, que faz todo o sentido. E na minha opinião, isso é realmente difícil de se fazer.

Metheny foi só elogios a você quando descreveu sua presença no PMG como "uma das mais significantes mudanças no grupo em 28 anos de história". O quanto o grupo influenciou você como músico e compositor?
Imensamente. Não somente como PMG, mas trabalhar com Pat em um monte de diferentes projetos - o PM Trio com McBride por alguns anos, o Gary Burton Quartet Revisited por algumas turnês, e agora com a Unity Band. Tudo isso me ensina muitas coisas novas e me inspira em diferentes caminhos como músico e compositor. Eu gravei meu terceiro álbum intitulado "New Life" e é todo autoral. O PMG foi uma grande inspiração para escrever temas mais complexos com mais sessões e orquestração. Em "Migration", eu escrevi muitos dos solos de cabeça. Agora estou tentando expandir isso e orquestrar as coisas para fazê-las soarem maiores e mais cheias. Eu também incluí o piano porque é como eu componho. É engraçado porque em "Migration" eu decidi não usar piano mesmo embora eu tenha escrito todos os temas desse jeito.

O processo de composição de "Migration" mudou sua forma de tocar de algum modo?
Eu penso que todo novo projeto muda minha forma de tocar de alguma maneira porque estou sempre me adaptando a nova música. "Migration" foi uma grande experiência e um aprendizado para mim porque, mesmo embora eu fosse o líder, eu não queria que soasse como uma gravação de um baterista, então eu realmente tentei fazer o melhor, espero que tenha conseguido.

A última apresentação do PMG em Montreal em 2005 tinha cerca de 100.000 pessoas. Qual foi a sensação de tocar para uma multidão dessa magnitude?
Realmente surreal.. Quando há muitas pessoas assim, você apenas vê uma monte de gente na sua frente, não distingue rostos. Para mim, atualmente é mais intimidador tocar em um pequenos clubes de jazz onde você pode ver e ouvir as reações das pessoas. Tocar para grandes públicos é fantástico por causa da energia que passam de volta, mas são nos pequenos públicos que você tem mais interação com o público..

Já tem um longo tempo desde a última gravação do PMG, você sabe se há planos para um novo CD ou turnê?
Eu acho que já é hora de um novo projeto do PMG. A situação da economia global tornou tudo mais difícil para as turnês como costumávamos fazer porque é uma grande operação que envolve muitos equipamentos e pessoas, mas eu acho que Pat está com a intenção de fazer isso novamente. Não há nada tão próximo em termos das expectativas dos fãs, todos desejam isso.

Sua bateria na Unity Band soa extremamente sutil e em muitas das suas gravações elas soam tão sutil quanto propulsora. Você sempre tem essa leveza no toque?
Isso aconteceu com o tempo. Quando eu costumava tocar com o pianista Danilo Perez, nós fazíamos shows em trio e muitas vezes eu tinha que tocar dessa forma, mas com muita intensidade por causa da música e dos locais em que estávamos tocando. Aquilo me ajudou em termos de pegada; eu tinha que tocar com muito desse brilho e propulsão ao mesmo tempo. Isso agora é parte de mim e levo a todos os projetos que participo.

Você recentemente finalizou a masterização de "New Life". Pode nos contar quem toca com você e o que podemos esperar desse trabalho?
A banda é fantástica - David Binney no alto, Donny McCaslin no tenor, John Escreet no piano e rhodes e Matt Brewer no contrabaixo. Nós fizemos uma turnê de cinco semanas e meia no último outono e tínhamos todas as músicas que queríamos gravas prontas, então nós as tocamos muito antes de entrar no estúdio. Sem aquela turnê não acho que teríamos conseguido fazer tão bem como fizemos. Como eu disse, são temas autorais e um grande passo para mim como compositor. Os temas são muito envolventes, orquestrados e eu realmente me esforcei muito neles. Eu quis fazer um álbum que fosse convincente, desafiador e acessível aos ouvintes. E conseguimos balancear todas essas coisas. Eu quero que um músico de jazz goste, mas também que minha mãe e meu avô também gostem. Acho que há material melódico suficiente para que as pessoas possam se identificar, e complexidade suficiente para manter um ouvido mais treinado e interessado.

Isso é algo que todos nós vislumbramos. Qual o sentimento sobre o grupo após gravar e excursionar?
Quando você chega aos 30 shows é que começa a realizar todo o seu potencial. É uma questão de momento. Isto podia, definitivamente, ser um projeto contínuo porque nós ficamos à vontade com pequenos grupos. Nós tocamos em locais pequenos e grandes também e sempre é maravilhoso. Chris incendeia e Pat também. Ter esse dois caras na linha de frente é demais, e você também pode tocar uma bela balada de um jeito bem tranquilo. Pra mim, o céu é o limite.

www.antoniosanchez.net/

WONDERFUL! WONDERFUL!

26 dezembro, 2012
Quando o assunto é organ trio, já se entende que é veneno puro, extraído da fonte. E essa combinação hammond-guitarra é uma fórmula garantida de muito groove.
Assim é Wondeful! Wonderful!
(2012, High Note), album liderado pelo organista Joey deFrancesco, que traz com ele a guitarra de Larry Coryell e bateria de Jimmy Cobb.

A liberdade que esses músicos colocam neste trabalho é impressionante, e o couro come já na abertura do álbum com o tema título, tema do baladeiro Johnny Mathis aqui apresentado em uptempo vibrante conduzido pelo baixo no hammond de deFrancesco e total liberdade para os improvisos de Coryell e Cobb.
Guitarrista de Jazz de verdade tem que saber tocar em uptempo; mais que velocidade, é a destreza em aplicar as notas no lugar certo sem perder o embasamento rítmico e melódico. Coryell realmente largou a mão neste álbum, há tempos não o ouvia como nesta sessão, com muita liberdade, swingando e com improvisos super bem desenhados, como em Wagon Wheels (Rose & Hill), tema de musical da Broadway dos anos 30 que também foi incendiado por Sonny Rollins na sessão de Way Out West (Contemporary, 1957). 
Francesco também inspiradíssimo desfilando riffs e bases extremamente vibrantes, além do seu contagiante walking, em Love Letters (E.Heyman) e Five Spot After Dark (Benny Golson).
O álbum ainda tem espaço para as baladas Solitude (Ellington) e Old Folks (Hill & Robinson), e Francesco usando o trompete com surdina com aquele timbre característico de Miles, e Coryell na guitarra acústica acamados pela vassourinha de Cobb; e essa mesma atmosfera Miles aparece em Joey D (Coryell), com uma certa citação de All Blues na  linha do baixo.
O álbum fecha com JL Blues (DeFrancesco), em que o Jazz realmente encontra o Blues na encruzilhada. E quando o assunto é Blues, deFrancesco entende e muito do assunto.

ALBERT CUMMINGS. SEM ARREPENDIMENTOS

18 dezembro, 2012
Albert Cummings
Um adolescente fã de bluegrass, estilo de blues com forte influência da música country, que começou a tocar banjo aos 12 anos aprendendo os primeiros acordes com o pai.
Quando ouviu as primeiras gravações de Stevie Ray Vaughan ficou estarrecido com o virtuosismo do texano e decidiu mudar o rumo da sua vida, cuja intenção inicial era seguir a tradição familiar no negócio de construção civil. Isso aos 27 anos, quando músicos por profissão ou já estavam estabelecidos ou já tinham colocado esse sonho de lado e voltado para a realidade da vida.
Albert Cummings decidiu ir em frente, abraçou a guitarra e pegou a estrada. Sorte a nossa.

Esse guitarrista de Massachustes juntou-se ao Double Trouble, a seção rítmica de Stevie Ray formada pelo baixista Tommy Shannon e baterista Chris Layton, para gravar seu primeiro álbum, From the Heart (2003, Under the Radar), fluindo nas veias uma forte pulsação blues-rock e alcançando rapidamente reconhecimento, estimulado pela funkeada versão de Rock me Baby (BB King). Não demorou 1 ano para assinar com a Blind Pig Records onde gravou mais 4 álbuns - True to Yourself (2004), Working Man (2006) e um ao vivo, Feel So Good (2008), todos com a produção de Jim Gaines.
E Jim Gaines é uma referência no assunto, produziu Buddy Guy , Santana, George Thorogood, Stevie Ray Vaughan, John Lee Hooker, Albert Collins , Luther Allison, Walter Trout , Coco Montoya, Tommy Castro, Ana Popovic, Joanne Shaw Taylor, entre outros, logo, sabe do assunto.

No Regrets traz 12 temas autorais e um blues-rock de altíssima qualidade, mantendo a mesma fórmula dos seus discos anteriores, todos excelentes, porém, aqui, percebe-se o seu  amadurecimento musical, como guitarrista e vocalista, como ele mesmo afirma –
"Este álbum mostra realmente quem sou eu, é um retorno a minha verdadeira raiz musical e o primeiro passo para definir minha identidade como um artista maduro. Eu sou um Blues man, e sempre serei."

Albert Cummings
Falou e disse, Mr. Cummings.
O disco passeia em 'Glass House', '500 Miles', 'Checkered Flag' e 'You Day Will Come'; traz algo do bom southern rock em 'Eye to Eye';  um contagiante shuffle em 'Drink Party'; mostra sua influência e admiração por Stevie Ray em 'Foolin Me'; faz homenagem a Muddy Waters em uma versão muito particular de 'Mannish Boy'; e espaço para as baladas em 'No Regrets', tema título, 'Where You Belong' e 'Home Town'.

Para você, fã de Bonamassa, Jonny Lang e Kenny Wayne Shepperd, um disco que merece uma boa audição.

www.albertcummings.com

AS ÚLTIMAS HORAS DE UM PIANO ABANDONADO

15 dezembro, 2012
Esta história muito se assemelha ao contrabaixo acústico encontrado no lixo em uma rua de Manhattan pelo luthier brasileiro Paulo Gomes ( veja aqui ), cujo instrumento teve um final feliz.

Desta vez, o filmmaker Anthony Sherin registrou em documentário o fim de um piano abandonado na calçada de uma rua no lado uptown de Manhattan, em New York. Uma cena que se torna interessante, ao mesmo tempo curiosa, afinal um instrumento musical tem vida própria e um dia contou alguma história em forma de música.

O artigo foi publicada no NY Times e o original voce lê aqui -
http://www.nytimes.com/2012/12/12/opinion/solo-piano-nyc.html?smid=tw-share&_r=3&#h[MtfTtw,3]



Anthony Sherin assim descreve ( tradução livre ) -

abre aspas

Fazer este filme foi puro acaso. Após uma nevasca em New York, decidi trabalhar em um outro filme em casa, na Washington Heights. Quando me aproximei da minha mesa de trabalho, pensei ter ouvido um toque de piano. Olhei pela janela e vi o instrumento na calçada. Fiquei hipnotizado com aquela cena, as pessoas passavam lentamente, paravam e tocavam o piano, e muitos tocavam bem.
O instrumento ficou lá durante todo o dia, até que teve o seu fim.
Eu estava fascinado. Pianos tem histórias.
Ninguém parecia querer deixar o instrumento ali abandonado, e seus pensamentos eram óbvios - Podemos levá-lo? Quem abandonou o piano? Há algo errado?
Finalmente comecei a tirar fotos e pensei que eu iria acabar, simplesmente, com apenas isso - uma monte de fotografias. Para minha surpresa, descobri, após 24 horas, que eu capturei uma história com início, meio e fim. Meu amigo Art Labriola criou um tema original para o fato e o coloquei no filme, que foi exibido em vários festivais; e eu estou contente de compartilhá-lo com o mundo.

fecha aspas

Anthony Sherin é editor e filmmaker e reside em New York.  Visite  http://anthonysherin.com/

ELAS : JOAN OSBORNE

13 dezembro, 2012
Joan Osborne
Joan Osborne nasceu na cidade de Anchorage, Kentucky, em 1962. Mudou-se para New York no final dos anos 80 para estudar cinema, mas a vocação para cantar emergiu quando, em uma noite no palco de um bar aberto a novos talentos, interpretou o clássico God Bless th Child (Billie Holliday). A repercussão foi positiva, e não era só Billie que fazia sua cabeça, Joan se viu influenciada pelas vozes de Etta James e Ray Charles. Decidida a investir na carreira de cantora, criou seu próprio selo, Womanly Hips, com a qual fez o registro independente de suas gravações ao vivo no álbum Soul Show: Live at Delta 88.
Rendendo-se a uma gravadora maior, Mercury, Joan  fez seu disco de estréia, Relish (1995), vendendo três milhões de cópias embalado pelo tema "One of Us". O resultado foi gratificante e Joan recebeu nomeações para o Grammy nos anos seguintes, 1996 e 1997.
Em 2002, Joan participou do excelente documentário Standing in the Shadows of Motown, que retrata a história da Motown e dos Funk Brothers, grupo formado por músicos de estúdio responsável pelos grandes sucessos da gravadora; no documentário, um destaque para a vida e obra do baixista James Jamerson.
Embalada pela onda soul, grava o excelente How Sweet It Is (2002), em que interpreta clássicos do estilo dos anos 60 e 70, onda que manteve em Breakfast in Bed (2007).

Bring it on Home (2012) resgata a atmosfera do blues e deu a ela a indicação para o Grammy 2013 na categoria, diz ela -“Eu sabia quando seria o momento certo e minha voz estaria pronta, sempre quis fazer uma gravação como esta”.
E foi um desafio para ela e banda escolherem o repertório e trazer algo novo para as músicas, foram várias sessões gravadas ao vivo, em 1 ou 2 takes, no Waterfront Studios, em New York, com engenharia de som feita por Henry Hirsch, que usou uma mesa Studer de 24 canais para reproduzir o som analógico dos velhos tempos.

Joan OsborneNo repertório, o tema título, de autoria de Willie Dixon, resgata o clima original gravado por Sonny Boy Willianson;  revisita Muddy Waters em I Want to Be Loved; Al Green em Rhymes; Bill Withers em Same Love That Made Me Laugh; Ike Turner em Game of Love; e traz o clássico I Don´t Need No Doctor, imortalizado por Ray Charles e que teve uma versão incendiária pelo Humble Pie (Filmore East, 1971); e ainda Allen Toussaint em Shoo-rah Shoo-rah, que também participa do álbum.
A banda que a acompanha é formada por Andrew Carillo e Jack Petruzzelli guitarras, Keith Cotton teclados, Richard Hammond baixo, Aaron Comess bateria, Kris Jensen sax tenor, Chris Karlic sax barítono, Reggie Pittman trompete, Vaneese Thomas, Audrey Martell e The Holmes Brothers backing vocals, e as participações de Bob Pomeroy harmônica,  Allen Toussaint e Jimmy Vivino piano e arranjos dos metais.

Sobre este trabalho, Joan é bem objetiva - "Essas canções são como um remédio, elas resolvem a minha cabeça; colocam a música de volta no meu coração e na minha alma"

MORRE RAVI SHANKAR

12 dezembro, 2012
Ravi Shankar
(fonte : Allan Kozinn, NY Times)

O mago da cítara Ravi Shankar morreu nesta terça-feira, 11 de dezembro, aos 92 anos.
Shankar sofria de problemas respiratórios e do coração e foi submetido a uma cirurgia cardíaca na última semana, disse sua família em comunicado oficial.

Um homem de fala mansa, mas cujo virtuosismo transcendeu a linguagem musical. Embora o público ocidental tenha sido, por muitas vezes, mistificado pelos sons estranhos quando ele começou a excursionar pela Europa e EUA no início dos anos 50, Shankar e seu grupo gradualmente construiram um grande número de seguidores para a música indiana.
Seu instrumento, a cítara, tem um pequeno corpo arredondado e um longo braço com uma boca de ressonância no topo, com 6 cordas melódicas e 25 cordas que não são tocadas mas que ressoam livremente quando as principais são tocadas. Apresentações de Cítara são geralmente improvisadas, mas as improvisações são estritamente regidas por um repertório de Ragas, padrões melódicos que representam modos específicos, horas do dia, estações do ano ou eventos, e Talas, intrincados padrões rítmicos que datam de vários milênios.

O Beatle George Harrisson começou a estudar cítara com ele em 1965, fato que deu-se pela curiosidade de Harrison sobre o instrumento que ele encontrou no set de filmagens do filme Help!. Harrisson, intrigado pela complexidade do instrumento, resolveu estudar com o mestre e o incluiu na gravação de Norwegian Wood. Isso levou vários grupos de Rock a incorporar elementos indianos em suas músicas e esta atenção com a cultura popular levou Shankar para se apresentar no Festival Internacional de Monterrey em 1967 e em Woodstock em 1969. Shankar, mais tarde, reconheceu como um erro sua participação em festivais de Rock, lamentando o uso de sua música e de suas raízes de tradição espiritual como um pano de fundo para consumo de drogas.

Shankar amava a mistura da música de diferentes culturas. Colaborou com o flautista Jean-Pierre Rampal e com John Coltrane, que se viu fascinado pela música e a filosofia indiana no início dos anos 60. Coltrane encontrou Shankar muitas vezes entre 1964 e 1966 para aprender o básico das Ragas, Talas e técnicas de improvisação indiana. Coltrane deu o nome de seu filho, Ravi, em homenagem a ele.
Influenciou uma infinidade de músicos, como o guitarrista John McLaughlin, que criou o grupo Shakti com a participação do seu sobrinho e violinista L.Shankar; participou da trilhas sonora do filme Ghandi em 1982, colaborou com o músico Philip Glass em diversos projetos musicais nos anos 90 e realizou concertos para cítara e orquestra. Em 1988, sua peça em sete movimentos chamada Swar Milan foi executada no Palácio da Cultura de Moscou por um grupo de 140 músicos, incluindo o Russian Folk Ensemble, juntamente com membros do seu próprio grupo.

Foi um grande educador da música indiana nos EUA, convidado pela City College em New York e no final dos anos 60 fundou uma escola de música indiana em Los Angeles. Shankar também foi o protagonista de um documentário em 1971 chamado Raga: A Journey Into the Soul of India; e teve duas auto-biografias publicadas - My Life, My Music em 1969  e Raga Mala in 1997.

“Sempre tive um instinto para fazer coisas novas, chamem de coisas boas ou ruins, eu amo experimentar”, disse Shankar em 1985.

Ravi Shankar nesceu em 7 de abril de 1020 em Varanasi, India, em uma família de músicos e dançarinos. Seu irmão mais velho o levou a uma excursão junto com um grupo de dança indiano, que Shankar juntou-se aos 10 anos. Logo tornou-se um dos solistas do grupo e acabou descobrindo que tinha facilidade com a cítara e o sarod, um outro instrumento de cordas, além da flauta e a tabla, uma bateria indiana.
Na vida pessoal, Shankar teve um longo relacionamento com Kamala Shastri, uma dançarina; com a produtora cultural Sue Jones, com quem teve uma filha, a cantora e pianista Norah Jones; e casou-se com Sukanya Rajan em 1979 tendo outra filha, Anoushka Shankar, também musicista.

Ravi Shankar : 1920-2012

O QUE É O "BRAZILIAN JAZZ"?

07 dezembro, 2012
Uma abordagem sobre o jazz brasileiro pela ótica americana. Interessante que percebe-se a nossa riqueza musical, e que ela também se transforma em alguma forma de jazz.
O próprio jazz, no seu berço, também gerou outras formas baseadas em sua essência, pelas fusões com outros estilos e idéias. Vale também analisar que a criatividade, e até mesmo a malandragem, no melhor sentido, características nossas, brasileiras, são motivos que traduzem o jazz brasileiro com um swing próprio, com sua linguagem própria.

Este artigo foi publicado no Jazztimes e traduzi de forma livre, mas mantive o descrição "brazilian jazz" sem tradução.

O artigo original você lê aqui


(imagem ilustrativa)

por Tony Ananias
Jazztimes, agosto de 2012

Hoje, podemos, certamente, falar sobre "brazilian jazz" e com as letras iniciais maiúsculas. Verificar a sua existência não é problema, já defini-lo é algo muito mais difícil. A etiqueta colocada desta forma, sem mais nada, torna-se muito vaga. É possível ser mais específico ? De que forma ?
Uma das formas de definir Brazilian Jazz é dizer que simplesmente é o Jazz americano, do Dixieland, New Orleans até o Bebop, tocado por músicos brasileiros. Brazilian porque é tocado com o toque brasileiro. Esta definição não seria exatamente errada, mas é também restritiva, ainda deixa algo no ar. Um outro meio seria falar sobre o valor da Música Instrumental Contemporânea feita por grupos instrumentais no eixo São Paulo-Rio de Janeiro-Minas Gerais desde os anos 70. Ainda, define-se Brazilian Jazz e a música improvisada como uma fusão do Jazz e ritmos brasileiros.
Mas neste ponto leva-se em conta também o Choro, para o qual está tão relacionado com a cultura brasileira como o jazz para a cultura americana. Em resumo, toda tentativa de definição é válida, não falsa, mas incompleta, e também limitada.
Uma coisa é certa, o que nós percebemos como Brazilian Jazz não pode ser reduzido apenas às linhas estéticas. Também parece improvável poder ser definido como muitos tipos de combinações destes gêneros em certas proporções. Logo, quando falamos aqui em Braziliam Jazz, não estamos falando em um estilo definido, mas plural e mutável.
Provavelmente, uma razão que dificulta a definição de "brazilian jazz" é a extraordinária riqueza de ritmos brasileiros. O território brasileiro pulsa, de norte a sul, em uma infinidade de ritmos diferentes. Para mencionar somente alguns deles, não necessariamente em ordem de importância - frevo, maracatu, xote, modinhas, samba, bossa nova, os cantos e os batuques. Em outras palavras, podemos dizer que não existe um só balanço, há muitos.
Uma vez que o "brazilian jazz" é uma intersecção de múltiplas influências, pode-se dizer também que sua origem vem de muitas direções. Procuramos estas origens desde os primórdios; voltamos às orquestras de baile do tempo da segunda guerra; ou a um tempo mais recente, no surgimento da bossa nova, embora não exclusivamente instrumental, mas que colocou uma nova linguagem harmônica que seria absorvida por muitos músicos; e podemos, finalmente, reportar os novos grupos que apresentam uma linguagem musical mais moderna.
A questão, no entanto, ainda permanece. O que torna tão fantástico músicos como o pianista, condutor e arranjador Nelson Ayres, os saxofonistas Mané Silveira , Teco Cardoso e Victor Assis Brasil. o trombonista Raul de Souza, os compositores e multi-instrumentistas Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal, a pianista Eliane Elias, os guitarristas Heraldo do Monte, Paulo Belinatti e Laurindo de Almeida, os percussionistas Nana Vasconcellos, Dom Um Romão, Paulinho da Costa, os líderes Severino Araujo e Cyro Pereira ? Nós já sabemos que eles tem estilos individuais bastante diferentes. Como, então, agrupá-los em um único rótulo ?
Talvez a solução não seja a definição de um estilo, mas a existência de um certo fator, a "Brazilidade", cujas caracterização precisaria ser definida não por um musicólogo, mas por um antropólogo ou sociólogo. Assim, embora isso já seja suficientemente interessante, não parece ser de grande valor neste caso porque não podemos realizar aqui uma análise antropológica deste tipo.

Finalmente, com todo o respeito à caracterização do Brazilian Jazz, obviamente estamos diante de uma tarefa dificil, mais dificil do que caracterizar qualquer dos estilos não comuns do Jazz americano. Por todas essas dificuldades, optamos aqui por usar uma noção informal do Brazilian Jazz e das dinâmicas que emergem sobre as relações de similaridade entre os músicos em vez de uma definição precisa. Essa teia de conexões é construída baseada em uma gama de influências, e isso é possível de mapear. Por exemplo, Hermeto, que colaborou muitas vezes com Heraldo do Monte; Paulo Belinatti, que faz parte do grupo Pau Brasil em que toca tambem Rodolfo Stroeter, que é parte do grupo avant-garde Grupo A e com quem também tocou Teco Cardoso; o virtuoso Carlos Malta, que pesquisa os ritmos do interior do Brasil, assim como Paulo Freire, e por aí vai. Infindaveis outros caminhos como esses são possiveis.

A concepção de "brazilian jazz" emerge, lenta e inevitavelmente, de um jeito impreciso, numa teia de relações entre diferentes artistas. Não é um conceito fechado, mas aberto.
Isso entendido, um fenômeno similar ocorreu com certos tipos de jazz como o Free e o Fusion, Alguns trabalhos desses artistas e estilos são tão diferentes do que tradicionalmente se entende por jazz, que incluí-los somente funciona para as semelhanças e inter-relações como fizemos aqui.
Você pode avançar um pouco nessa caracterização de "brazilian jazz" destacando alguns dos traços desta música. Primeiro, diz respeito a formação instrumental. Como você sabe, a música brasileira tem uma forte tradição instrumental, principalmente nos metais, no violão, piano e percussão; não tem tradição em instrumentos de arco Assim se configura os instrumentos reais que são usados na música brasileira. Do ponto de vista estético, um traço interessante é uma certa consciência, uma economia de recursos, ao contrário da imagem tradicional do Brasil como um país exuberante, festivo e carnavalesco,
Podemos observar que, contrário a este estereótipo, muitas expressões musicais se distinguem por melodias curtas, secas, claramente desenhadas e rítmos simples e poderosos, até um canto à capela. Isso é observado tambem na música que vem do interior. Mesmo o samba, agora totalmente industrializado, é tradicionalmente o mais economicamente viavel, tanto em verso e melodia. Para dar outro exemplo, a bossa nova é recheada de informação em canções curtas, com versos altamente poéticos, emoldurados por sofisticados acordes. Digo essas raízes para sugerir que o enfeitamento e a exuberância não são típicos da música brasileira.
Em particular, algumas coisas são mais estranhas para a música brasileira do que o acompanhamento doce e enfeitado, hoje, onipresente na música pop, feita com cordas ou mais recentemente com sintetizadores. Nem é característica da tradição brasileira, por exemplo, o uso de fantasias, brilhos e bandas coreografadas, tão popular na América do Norte. Outros exemplos são possíveis, raramente surge algo como uma trilha de Wagner, por exemplo. Mesmo o barroco é econômico. Nesse ponto, pode haver alguém mencionado como um contra-exemplo, como o compositor Heitor Villa-Lobos. É importante notar que, mesmo ele, mantém-se permanentemente na simplicidade como um polo ativo de criação musical, em oposição ao outro polo, a complexidade. Isso quando ele não faz, com maestria, a partir da abundância de simplicidade, como acontece em muitas passagens.
 
Ezra Pound disse que a poesia é igual a concisão. E é essa equação que pode explicar o caráter poético da música brasileira. Voltando nossos ouvidos ao "brazilian jazz", percebemos que essa escola da brevidade deu frutos. O foco da música é geralmente bem definido, o fraseado é incisivo, os acompanhamentos são econômicos, a harmonia está concentrada. Mesmo o humor e a decantada brejeirice brasileira, sempre presentes, são obtidos com malandragem : "quem pisca, perde a piada".
Da década de 80 até hoje, podemos observar um crescimento considerável do "brazilian jazz", embora a ênfase pela mídia para os artistas ainda esteja muito além do desejavel. Mas cresceu na imprensa e na percepção pública que os músicos brasileiros foram e são capazes de criar uma música preparada, consistente, tecnicamente bem feita, o que, sem dúvida, pode combinar com o melhor que o jazz americano já produziu. E com uma qualidade adicional - é uma música vital que reflete as melhores características do povo brasileiro. Na medida em que acreditamos que há algo na brasilidade, que é de alguma forma relevante para o resto do mundo, o "brazilian jazz" é um canal aberto para a difusão dessa coisa boa que trazemos dentro de nós.

(Ezra Weston Loomis Pound (1885–1972), poeta e crítico americano e um representante do início do movimento modernista)

MORRE DAVE BRUBECK

05 dezembro, 2012
Dave Brubeck
Dave Brubeck morreu na manhã desta quarta-feira, 5 de dezembro, aos 91 anos, de insuficiência cardíaca, 1 dia antes de completar mais um ano de vida.
Brubeck estava a caminho do consultório do seu cardiologista.

Formou o Dave Brubeck Quartet em 1951 e foi o segundo músico de jazz moderno a ilustrar a capa da revista Time, isso em novembro de 1954 (o primeiro foi Louis Armstrong).

Brubeck ajudou a colocar o jazz em foco, dando rítmo e swing aos enfumaçados clubes de jazz dos anos 50 e 60. Um gigante ! Ao lado do saxofonista Paul Desmond, do baterista Joe Morello e do contrabaixista Eugene Wright, produziu um dos mais espetaculares discos de Jazz da história, o álbum Time Out, de 1959, em que o tema Take Five tornou-se o primeiro single de jazz a vender 1 milhão de cópias; e o album ainda está entre os mais vendidos de todos os tempos.

Brubeck era um adepto dos andamentos pouco comuns, como nos temas Blue Rondo a la Turk, em 9/8, uma peça inspirada em Mozart; e Take Five, em 5/4, de autoria de Paul Desmond, cujo sopro tornou-se uma das assinaturas do quarteto.
"Quando voce tem objetivos bem definidos - os meus eram tocar polotonicamente e poliritmicamente, voce nunca se cansa. Comecei a tocar nos anos 40 e ainda é um desafio descobrir o que pode ser feito com estes dois elementos”, disse Brubeck para o Associated Press em 1995.

Dave BrubeckEm 1999, Brubeck foi nomeado Jazz Master pelo National Endowment for the Arts; e dez anos depois recebeu o título de Kennedy Center Honor por sua contribuição à cultura americana.

Certa vez, Brubeck explicou sucintamente o que o Jazz significava para ele -
"Uma das razões que eu acredito no Jazz é que a integridade do homem pode vir através do ritmo do seu coração. É a mesma coisa em qualquer lugar do mundo, aquela batida do coração. É a primeira coisa que você ouve quando você nasce, ou antes de voce nascer, e é a última coisa que você ouve".

Dave Brubeck : 1920-2012

DUBAI-LIMA GUITAR PROJECT

30 novembro, 2012
São mais de 40 anos de bateria, um marco registrado no disco Quarenta (2006, Rob Digital), e uma história na nossa música, não só Instrumental e no Jazz, mas na Música Brasileira.
Uma referência no instrumento.
Pascoal Meirelles apresenta o disco Dubai-Lima: Guitar Project, em que coloca a guitarra como protagonista, representada pelas mãos de Nelson Faria, Alexandre Carvalho, Leonardo Amoedo, Mateus Starling, Ricardo Peixoto e Kamal Mussalan.
Um fato não muito comum reunir talentos de grande expressão do instrumento em um único disco, uma celebração às seis cordas liderada pelas baquetas de Pascoal, que assina 7 dos 11 temas e que traz também composições de Toninho Horta (Luisa) e Vitor Assis Brasil (Joanne).

Pascoal Meirelles
Nelson Faria dispensa comentários, um músico do primeiro time, que não se prende a estilos, com extrema fluência no Jazz e que também atua na música popular e no clássico com a maior naturalidade. Uma escola de guitarra;
Assim como Alexandre Carvalho, espetacular músico e um guitarrista de Jazz na essência. Passou uma temporada em Berklee, mas graduou-se aqui pela UFRJ onde defendeu sua tese de mestrado baseada na textura musical de Pat Metheny, não é para poucos;
O uruguaio Leo Amoedo é sensação quando sobe ao palco. Ganhou muita evidência por aqui como sideman de Ivan Lins e marcou com seu incendiário improviso no tema Dinorah Dinorah; e está sempre presente nas gigs pelo RJ contagiando o público admirador do instrumento;
Mateus Starling é um dos guitarristas mais expressivos da nova geração. Formando em Berklee, especializou-se em performance e recebeu a maior honra concedida pela escola. Sempre citado nas melhores revistas do gênero pelo mundo inteiro e teve seu nome em destaque no All About Jazz como "um guitarrista muito promissor que toca sem ter que soar como os outros";
Ricardo Peixoto reside na California e é um músico muito influente por lá, representando a nossa música. Também ingressou em Berklee para estudar violão clássico, mas seguiu o caminho do Jazz. Mudou-se para San Francisco para estudar no Conservatory of Music e lá juntou-se a outros músicos brasileiros onde atua como solista e compositor;
Kamal Mussalan nasceu no Kuwait e reside em Dubai. Descobriu o Jazz nos nomes de Metheny, Miles, Benson e McLaughlin, suas principais influências, e desenvolveu o seu próprio estilo de tocar. E foi uma grande oportunidade esse encontro com Pascoal Meirelles.

Neste trabalho ainda participam os contrabaixistas Augusto Matoso, Jefferson Lescowitz, Alberto Continentino e Sergio Barrozo; os pianistas Osmar Milito, Vitor Gonçalves e Julio Merlino; o percussionista Mingo Araujo; e os sopros de Daniel Garcia, Nivaldo Ornelas, Mauro Senise e Altair Martins.
No repertório, um passeio pelo instrumental contemporâneo nos temas Pro Helvius, liderado pela guitarra de Mateus Starling e o único tema com todos os sopros em cena; Dubai-Lima, que traz Milito ao piano e a guitarra de Kamal Mussalan; um tempero Blues em Pontanegra, nas mãos de Nelson Faria; o balanço brasileiro nos temas Malaysa, Diida e Salseiro, esta que Pascoal dedicou a sua esposa Nina, nas mãos de Nelson Faria, Alexandre Carvalho e Leo Amoedo, respectivamente; e o belo tema Luisa no improviso do violão acústico nas mãos de Ricardo Peixoto.

Pascoal nos conta um pouco sobre esse trabalho -

GC: Dubai-Lima: Guitar Project coloca a guitarra em primeiro plano. Como surgiu a ideia desse projeto ?
PM: A ideia surgiu de uma viagem que fiz com meu trio formado com Nelson Faria na guitarra e Augusto Mattoso no contrabaixo para a Malásia no Penang Jazz Fest e na Indonésia no Java Jazz Festival. Conheci o Kamal Musallan quando o avião fez escala em Dubai. Para resumir, fiz uma base da minha musica Dubai Lima no Brasil e enviei o mp3 para o Kamal gravar no seu estudio em Dubai. A partir desse inicio, convidei outros cinco guitarristas e gravei três musicas com o Nelson Faria, duas com o Alexandre Carvalho, duas com o Leo Amoedo e uma com Ricardo Peixoto, que é um guitarrista brasileiro radicado na California. O Mateus Starling, guitarrista que recebeu uma bolsa integral para estudar no Berklee College, colocou sua guitarra na musica Pro Helvius, dedicada à memória do grande pianista Helvius Villela.
Nelson Faria gravou meu disco de trio dedicado ao Jobim, Tom (2002) e fizemos uma tour na Malásia e Indonésia. Quando voltamos, o Nelson começou a ficar ocupado com os shows do João Bosco e chamei o Alex Carvalho para seguir no meu projeto do Trio e fomos fazer o Festival Jazz In Situ, em Quito, Ecuador.
As outras musicas do disco são a linda Luisa do Toninho Horta, Bambelô do cancioneiro do RN e Joanne do Victor Assis Brasil.

GC : Além dos guitarristas, muitos convidados participam deste trabalho. Foi um desafio juntar esse time todo ?
PM : Como são músicos muito preparados para trabalhar em estúdio, eu consegui a adesão total de todos. O clima das gravações transcorreram em ótimo astral e conseguimos gravar tudo em um mês. O projeto demorou nas mixagens pois no meio desse trabalho fui contratado pela Berklee Network-Ecuador para dar aulas na graduação durante os anos de 2010 e 2011, e acabei terminando as mixagem em Quito no estúdio do musico equatoriano Juan Donoso.

GC : Eu passei a entender a bateria como mais que um instrumento rítmico, e sim um instrumento melódico e parte essencial na interação com todos os outros elementos. 
É essa dinâmica que torna o instrumento fascinante ?
PM : Eu tenho uma visão bem melódica da bateria pois com meu trabalho de solista tenho a obrigação de fazer uma versão melódica em um instrumento que não tem afinação definida. Por isso o desafio é conduzir as idéias rítmicas sugerindo uma improvisação sobre o tema escolhido.
No Jazz, esse quesito entre os melhores bateristas já está em franco desenvolvimento. E não é só nos solos, o baterista  precisa acompanhar atentamente o que os solistas fazem para aplicar idéias de como motivar os solistas a impulsionar seus caminhos na improvisação dos temas.
Na música Diida (Pius Bachenlob), por exemplo, comecei a faixa com um solo de vassourinhas, tentando emoldurar a concepção do tema que viria a ser exposto em seguida. Tenho isso tão claro em minha concepção musical que lancei um livro denominado "A Bateria Musical", exatamente para que instrumentistas, e não somente bateristas, possam acompanhar o desenvolvimento das minhas ideias e toca-las em grupos, caso queiram, como forma de estudo.

GC : É fato que as pessoas querer ouvir boa música e pedem espaços para isso; e sempre haverá oportunidade para criar novos públicos. Voce vê um certo preconceito na mídia tradicional para divulgação da música instrumental ?
PM : O que passa é que no Brasil vive-se de modismo. Os meios de divulgação não estão divulgando com seriedade os trabalhos dos músicos porque a mídia voltou-se para musicas que, no entender das gravadoras, são mais fáceis de serem digeridas. Isso é um erro crasso de avaliação, pois toda vez que tocamos em praça publica as pessoas ficam vidradas quando ouvem um bom grupo, com grandes solistas. Se as mídias apoiassem com criticas honestas e com seriedade, esse tipo de musica voltaria a ser consumida, como foi o Samba Jazz na Bossa Nova e depois na década de 80, com grupos mostrando repertório próprio, divulgando as variadas tendências dos ritmos brasileiros.
A Niterói Discos, atraves da Fundação de Artes de Niterói, há 20 anos divulga os músicos que tem aceitação popular no município de Niterói, e as outras prefeituras deveriam usar esse exemplo louvável da Secretaria de Cultura deste município.

GC : Para finalizar, 3 discos por Pascoal Meirelles.
PM : Minha principal referência foi o LP Edison Machado é Samba Novo, de meados da década de 60. Eu estava começando a tocar e me entusiasmaram muito os arranjos e a atuação brilhante do Edison Machado na bateria. Entre os lançamentos de jazz, Giant Steps do John Coltrane e com Elvin Jones na bateria; e o Three Blind Mice do Art Blakey sexteto, com Freddie Hubbard, Wayne Shorter e Curtis Fuller. Em 2007 fiz um disco baseado nesse sexteto do Blakey a convite do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil).

Obrigado Pascoal Meirelles, e Sucesso.

Você encontra o disco "Dubai-Lima: Guitar Project" na Livraria Arlequim.


SALSEIRO from Pascoal Meirelles on Myspace

UM TOQUE FEMININO NA INTERPRETAÇÃO DE CHET BAKER

26 novembro, 2012
"Chet Baker nunca pensava muito nas outras pessoas, mas sabia tocar; adorava carros e dirigia rápido demais, mas sabia tocar; usou e abusou das drogas durante quarenta dos seus cinquenta e oito anos, mas sabia tocar"

Luciana Souza
Estas palavras são de Russ Freeman e constam no prefácio do livro No Rastro de Chet Baker (Bill Moody, Zahar Editora).

Que Chet foi, e é, inconfundível, ninguém tem dúvida, tanto pela assinatura do sopro do seu trompete quanto pela sua voz, não uma voz de cantor, mas uma voz singular e que transmitia emoção do seu próprio jeito, nos seus vocalizes, nos scats pontuais e cujo resultado causava total inércia ao ouvinte. Um gigante maltratado pelas drogas até sua morte em 1988.

Muitos prestaram homenagens a esse gênio da música contemporânea, e uma destas, em especial, tem um toque feminino, nasceu em terras brasileiras e tornou-se uma das vozes mais extraordinárias do cenário jazzístico atual.

Luciana Souza apresenta The Book of Chet (Sunnyside Rec), uma coletânea de standards americanos interpretados com a inspiração da atmosfera intimista de Chet Baker.
Acompanhada por Larry Koonse guitarra, David Piltch contrabaixo e Jay Bellerosse bateria, faz uma viagem introspectiva por baladas que foram imortalizadas na voz e no sopro do mestre.
A ausência do piano neste trabalho coloca a responsabilidade harmônica na guitarra de Larry Koonse, excelente músico, e que faz um trabalho quase minimalista neste album, com um toque melancólico, mas sem abrir mão dos voicings e dos improvisos, muito bem colocados. Um casamento perfeito com a voz de Luciana, aqui, sublime, reflexiva, um tanto solitária, bem ao estilo.

Este album representa a primeira gravação de Luciana exclusivamente com standards americanos, e teve a produção de Larry Klein, que realizou muitos trabalhos com Joni Mitchel.
No repertório, clássicos como Oh You Crazy Moon, The Touch Of Your Lips, The Very Thought Of You, I Fall In Love Too Easily e You Go To My Head.
Um disco espetacular.


lucianasouza.com/

JUAREZ MOREIRA LANÇA SEU PRIMEIRO DVD

20 novembro, 2012
Juarez Moreira
Ele é uma das vozes instrumentais com grande destaque do nosso cenário musical.
Por influência do pai, um violonista amador, iniciou os estudos no violão como autodidata, cresceu com a música até estrear profissionalmente no grupo instrumental de Wagner Tiso em 1978, o que foi muito promissor e abriu portas para realizar trabalhos com Toninho Horta e Yuri Popoff em meados de 1980 e fazer parte dos grupos de Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, entre outros.
Hoje, com 12 discos em sua discografia, a certeza de que contribuiu, e muito, para levar a música das Minas Gerais, a nossa música, para o mundo.

O guitarrista e violonista Juarez Moreira nos brinda com o lançamento do seu primeiro DVD, gravado ao vivo no Palácio das Artes em Belo Horizonte.
Esse trabalho só vem reforçar a maturidade musical alcançada ao longo da sua carreira, e convidou velhos amigos para participar deste projeto - o piano de Wagner Tiso, o violão de Toninho Horta, os sopros de Nivaldo Ornelas, Mauro Rodrigues e Marcos Flávio e o quarteto de cordas Taron; além da sua banda base formada por André Dequech piano, Kiko Mitre contrabaixo, Cleber Alves no sax e Nenem Ferreira bateria.

Um DVD muito bem gravado, com três trilhas de áudio, Dolby 2.0, 5.1 e DTS, e uma seção de extras com um making of do ensaio em estúdio com os convidados, algumas histórias contadas por Juarez e ainda em um momento de intimidade com seu violão.
São 18 temas gravados, 15 autorais e Juarez revive Sue Ann (Tom Jobim), Alegria de viver (Luiz Eça) e Um Chorinho Diferente (Gaucho & Zé Menezes). Das composições autorais, uma retrospectiva da sua carreira desde o lançamento de seu primeiro trabalho, "Bom Dia" (1989). Os arranjos foram elaborados por Juarez e Cleber Alves.

O tanto de simplicidade que Juarez transmite, passa em intensidade na sua música.
E essa sonoridade das Minas Gerais faz a diferença quando a ela se junta a bossa, o choro, o jazz e o blues, traduzindo esses elementos em uma rítmica muito particular e gostosa de se ouvir; e, aqui, de se ver. Juarez, de estilo fingerstyle, reveza entre a guitarra, uma 335, e o violão, um belo Takamine modelo Hirade.
No repertório, um passeio pelo balanço da bossa nos temas Carioca e Alegria de Viver; traz o choro na forma de tango em Choro para Piazzolla, uma homenagem ao mestre, e o reveste de bossa, como se dançasse samba, em Chorinho Diferente. Um ar seresteiro revive Jobim em Sue Ann; e ilustra a fronteira do samba com o blues em Samblues, arrastando a melodia com muito swing e com o colorido dos improvisos de Dequech, Juarez, Cleber e as divisões rítmicas aplicadas pontualmente pela bateria de Nenem. Um espetáculo.
Nivaldo Ornelas aparece na flauta em Belle Epoque e no tenor em Cantiga Bossa Nova, aqui em um improviso bem desenhado compartilhado pelo piano de Dequech.
No tema Trópicos, algo nos leva à Bahia, de todos os santos, de todas as crenças, de todos os ritmos, que encontra na melodia a originalidade da música de Juarez. Percebe-se influências muito presentes, primariamente a característica forte da sua origem, da música de Minas, como em Depois do Amor, cujo tema nos remete a uma nostalgia do Clube da Esquina; às vezes paira um ar "methenyiano", às vezes um ar de Toninho Horta.
Toninho se apresenta em Samba pra Toninho, assumindo a 335 de Juarez, que volta ao violão, e fazem uma interpretação impecável, traduzindo um verdadeiro retrato da nossa música instrumental e com todos os sopros no palco, com muito balanço e um certo ar emsemble. Toninho ainda divide o violão com Juarez e o piano de Wagner Tiso em Valsa para Maria, uma balada belíssima, de originalidade e sensibilidade únicas. Wagner Tiso também interpreta Cine Pathe, quase como um encontro com os "anos dourados" de Jobim.
O quarteto de cordas Taron, formado por Jovana Trifunovic e Frank Haemmer nos violinos, Katarzyna Druzd na viola e Lina Radovanovic no violoncelo, deu um ar erudito na apresentação nos temas Baião Barroco e Valsa para os Beatles.
Encerrando a apresentação, o belíssimo tema Você Chegou Sorrindo, e chegou mesmo para ficar com uma daquelas melodias que a gente sai assobiando por aí; e é isso que faz a nossa alegria de viver.

Viva a Música Instrumental Brasileira.

Juarez Moreira

Mais sobre Juarez Moreira em  www.juarezmoreira.com.br/

ALFREDO DIAS GOMES AO VIVO EM BROADCAST PARA O MUNDO

15 novembro, 2012
divulgação


A idéia é oportuna e vem ao encontro da modernidade do mundo virtual. Assim como os principais clubs de jazz de New York estão transmitindo seus shows ao vivo, em broadcasting, a iniciativa também já está chegando por aqui, vide o bar Jazz nos Fundos, em São Paulo.

E quem faz as honras é o baterista Alfredo Dias Gomes.
Reconhecido pelo meio artístico brasileiro, por já ter trabalho com boa parte deles, o baterista e compositor constatou, há cerca de cinco anos, o poder da web. Através do site americano ReverbNation, que divulga informações e músicas de artistas de todos os continentes, comprova a máxima - "A (boa) música brasileira continua prestigiada e apreciada em todos os cantos".
Com mais de 130 mil fãs pelo mundo, ocupa há um ano o segundo lugar na categoria jazz no ranking global do ReverbNation e o primeiro lugar do Brasil. A repercussão de seu trabalho na web o incentivou a criar workshops de percussão com transmissão ao vivo do seu estúdio. Foi por causa dessa exposição na rede e a boa aceitação do programa, batizado de ADG Studio Live, que começaram a surgir pedidos de shows dos mais diferentes pontos do planeta.

A apresentação com seu trio, formado pelo guitarrista israelente Yuval Ben Lior e pelo baixista Weslen Lima, já tem data e hora marcados - dia 25 de novembro, às 20h, e o local é no endereço virtual -
http://www.alfredodiasgomes.com.br/

No repertório, composições do último CD de Alfredo, "Corona Borealis", e de "Atmosfera", trabalho de 1996, além de músicas do guitarrista Ben Lior.

Como vivemos em uma nova aldeia global, todas as transmissões são anunciadas na web com o horário oficial de Brasília, mais os horários de Los Angeles, Nova York e Londres.
“Muitos portais e sites passam shows ao vivo aqui e no exterior, mas um show feito especialmente para ser transmitido pela internet é uma nova forma de alcançar seu público”, avalia o músico, que tem mostrado seu poder com as baquetas, no estilo jazz rock, não só pelo site americano, mas também no MySpace e Facebook.
Entusiasmo não falta na hora de descobrir novas formas de utilizar a rede como aliada, diz ele - “Fui buscando softwares, câmeras, enfim, todas as ferramentas que poderiam me ajudar a concretizar essa ideia. Saí do estúdio de música para entrar no estúdio de vídeo”.

A divulgação deste evento tem a Assessoria de Imprensa da Tempo3 Comunicação.

ELIANE ELIAS VOLTA A LANÇAR CD DE JAZZ PROPRIAMENTE DITO

11 novembro, 2012
Coluna do Luiz Orlando Carneiro 
Jornal do Brasil, 22 de setembro

Há quatro anos, a pianista Eliane Elias produziu com o marido Marc Johnson, refinado baixista que integrou o derradeiro trio de Bill Evans (1978-80), o CD Something for You: Eliane Elias Sings and Plays Bill Evans. Escrevi então, nesta coluna, que “o fato de o verbo cantar estar antes de tocar no título do álbum já é um recurso apelativo, até porque há mais faixas puramente instrumentais (10 em 17) do que com a voz doce, bonitinha, mas não extraordinária, da cantora, mais pop do que jazzy”.

Nesta última década, essa paulista de 51 anos, dos quais 30 vividos em Nova York, fez uma clara opção comercial, dando ênfase à sua carreira de singer de smooth jazz, em detrimento de sua arte puramente pianística, como atestam os discos Dreamer (Blue Note, 2004), Kissed by Nature (RCA, 2009) e Light my Fire (Concord Picante, 2011).
Os críticos e jazzófilos mais exigentes estavam à espera de um novo registro puramente instrumental do alto nível de Everything I Love (Blue Note, 1999), em trio com Johnson e Jack DeJohnette (bateria), e de Shades of Jade (ECM, 2004), novamente com o marido e os eminentes Joe Lovano (sax tenor), John Scofield (guitarra) e Joey Baron (bateria).

Pois esse CD, gravado em fevereiro de 2010, acaba de ser lançado por Manfred Eicher, dono, cabeça e alma da ECM. Trata-se de Swept Away, título de uma das cinco peças compostas por Eliane Elias para o disco, que se somam a outras duas que ela escreveu com o marido (Sirens of Titan e Inside Her Old Music Box), a três originais do baixista colíder (When the Sun Comes Up, Midnight Blue e Foujita), e ao tema folclórico Shenandoah, interpretado em solo por Marc Johnson.

O primoroso trio Elias-Johnson-Baron reúne-se novamente, e Joe Lovano forma um quarteto para a interpretação de quatro faixas: It’s Time (5m50), tema de Eliane dedicado ao inesquecível sax tenor Michael Brecker (1949-2007), seu primeiro patrão, na década de 80, no grupo Steps Ahead; as etéreas When the Sun... (6m35) e Midnight Blue (6m); a animada e envolvente Sirens of Titan (5m50), impulsionada pelas acentuações indispensáveis de Joey Baron.
Assinadas pela pianista, One Thousand and One Nights (8m15) e B is for Butterfly (8m) são, a meu ver, as faixas em trio mais atraentes do álbum, em termos de emoção e execução técnica. A primeira, como fica claro no título (Mil e uma noites), tem um colorido melódico oriental; a segunda lembra os momentos mais alegres e interativos do trio de Keith Jarrett.

A atmosfera geral do novo CD é do jazz mais contemplativo que caracteriza a etiqueta ECM. Eliane e Marc Johnson admitem que o ambiente em que foram escritas as peças de Swept Away, a casa em que moram nos Hamptons, o balneário chique de Long Island, perto de Nova York, influenciou decididamente o seu mood. O baixista comenta: “Existe lá, definitivamente, um sentimento de quietude e de espaço que nos inspira. A natureza está mais próxima, e podemos realmente ver a mudança de estações. Acho que se pode ouvir isso no lirismo e na sinceridade da música (do álbum)”.

UMA ALEGRE BONECA DE PANO

07 novembro, 2012
As definições de bordel e cabaré, por vezes, misturam-se no imaginário. Enquanto o primeiro caracteriza-se como prostíbulo, o segundo é uma casa de diversão com shows realizados com mulheres, embalados por música e dança em apresentações sensuais e um local preferido das classes sociais mais abastadas.
Os cabarés foram muito populares na França, na época do Belle Epoque, período que iniciou no fim do século 19 e se estendeu até o fim da primeira grande guerra, de intensa movimentação cultural. A França apadrinhou este movimento pois concentrava grande quantidade de músicos, pintores, dançarinos, escritores e filósofos, e a solidão destes personagens era revestida pelo ambiente enfumaçado levando-os a um estado de êxtase que ia de encontro a falta de perspectiva para as suas vidas, às vezes, tão vazias.
Essa fascinação pelo encontro com as moças vestidas em íntimas lingeries e cintas-ligas transcende ao tempo e ainda hoje se fantasia pelos meios de acesso na modernidade da realidade virtual. Ainda e sempre, acaba tornando-se uma libido proibida, cujo feitiço será sempre o mesmo, à imagem e semelhança das fantasias eróticas, promíscuas e mundanas.
O piano sempre foi um instrumento marcante e característico destes locais. O piano de armário. Músicos se faziam presentes para compor a trilha destes ambientes, cujo estilo traçou seu próprio caminho e que até deu início a era do ragtime, que veio a ser rotulada como a música do pecado.

Glad Rag Doll (Verve Records) é o novo álbum de Diana Krall e revela um lado intimista e sensual, reproduzindo uma certa atmosfera de época, os anos 20 e 30, sob a ótica da modernidade.
Eleita a voz feminina pela votação dos leitores da Downbeat, Readers Poll 2012, Krall ainda ilustra a capa da revista na edição do mês de dezembro.

Krall esclarece que conheceu as canções do início do século passado antes de conhecer os standards de Jazz. Seu avô trabalhava nas minas de carvão, não tinha dinheiro, mas tinha um piano; e nos domingos em família enquanto o avô ia para a jogatina, ela ia atrás das pilhas de partituras antigas para cantar. E assim conheceu o trabalho de Jean Goldkette e Gene Austin.
A capa do album é uma homenagem a Alfred Cheney Johnston, fotógrafo conhecido por seus retratos das showgirls nos anos 20 e 30; e mostra Krall, em seus 47 anos, muito sedutora.
E essa sedução se desenvolve nos 17 temas recheados de baladas acompanhadas por dobros, banjos, violões acústicos e ukulele, instrumento de quatro cordas muito característico dos anos 20, revezados por Marc Ribot, Howard Zoward Bryan Sutton, Colin Linden e T-Bone Burnet.
Krall ainda executa alguns temas só com voz e piano.
Ela sabe das coisas e entendeu que precisava de algo diferente para este álbum e, para reproduzir o estilo da época, utilizou um piano de armário nas gravações, um vintage Steinway de 1890. Na verdade, Krall cresceu  tocando neste tipo de piano e ela afirma que o instrumento faz voce tocar de uma forma diferente, a música soa diferente porquê, por si só, é um instrumento diferente.

Glad Rag Doll é um disco surpreendente e carregado com uma sonoridade bem rústica. Obrigatório.

Som na caixa !

DOWNBEAT READERS POLL 2012

03 novembro, 2012
Downbeat Readers Poll
A Downbeat divulgou a listagem do DownBeat Readers Poll, votação anual realizada pelos leitores da revista que chega em sua edição 77.

Como ressaltou Frank Alkyer, editor, esta é a mais abrangente eleição da história da revista e teve mais de 17 mil eleitores. E destaca a emoção de ver Ron Carter entrar no Hall da Fama, tornando-se o último membro do grande quinteto de Miles Davis a integrar a lista; e também um grande prazer ver Esperanza Spalding estrelar como um nome importante da próxima onda de jazz.

Uma competição bastante acirrada para o Hall da Fama e uma diferença de 15 votos colocou Ron Carter a frente de BB King; e um empate na categoria Barítono com James Carter e Gary Smulyan liderando a votação.

A listagem completa de todos os votados está na edição de dezembro da Downbeat.

A lista dos vencedores -

DownBeat Hall of Fame: Ron Carter
Jazz Artist: Esperanza Spalding
Jazz Album: Esperanza Spalding, Radio Music Society (Heads Up/Concord)
Beyond Album: Robert Glasper Experiment, Black Radio (Blue Note)
Historical Album: Miles Davis Quintet, Live In Europe 1967: The Bootleg Series Vol. 1 (Columbia/Legacy)
Blues Album: Wynton Marsalis & Eric Clapton, Play The Blues: Live From Jazz At Lincoln Center
Jazz Group: Dave Brubeck Quartet
Big Band: Maria Schneider Orchestra
Trumpet: Wynton Marsalis
Trombone: Trombone Shorty
Soprano Saxophone: Wayne Shorter
Alto Saxophone: Kenny Garrett
Tenor Saxophone: Sonny Rollins
Baritone Saxophone: James Carter e Gary Smulyan
Clarinet: Anat Cohen
Flute: Hubert Laws
Piano: Brad Mehldau
Keyboard: Herbie Hancock
Organ: Joey DeFrancesco
Guitar: Pat Metheny
Bass: Christian McBride
Electric Bass: Stanley Clarke
Violin: Regina Carter
Drums: Jack DeJohnette
Vibes: Gary Burton
Percussion: Airto Moreira
Miscellaneous Instrument: Toots Thielemans (harmonica)
Male Vocalist: Kurt Elling
Female Vocalist: Diana Krall
Composer: Wayne Shorter
Arranger: Maria Schneider
Record Label: Blue Note
Blues Artist or Group: B.B. King
Beyond Artist or Group: Robert Glasper

RODICA: BLUES IN MY BLOOD

31 outubro, 2012
Blues in my Blood
Uma viagem pelas raízes do blues e suas vertentes musicais como o country, soul e o jazz. Assim é como a cantora Rodica define seu novo trabalho, Blues in my Blood, lançamento Delira Blues.

No show de lançamento do disco, Rodica mostrou a intensidade do seu canto, evocando spirituals e fazendo reverência aos mestres do blues que tanto a influenciam, como JB Lenoir e Howlin Wolf.
Ao seu lado os Blues Groovers, formado pela guitarra de Otavio Rocha, o baixo de Ugo Perrota e a bateria de Beto Werther, mais os convidados especiais na voz de Sergio Pererê, a gaita de Flavio Guimarães e os teclados de Marco Tommaso.

Impecável e muita pressão do início ao fim, um retrato deste novo trabalho.
Na abertura, Swing Low, Sweet Chariot, com Rodica ao lado de Pererê em um verdadeiro ritual spiritual, a capela, cuja canção nos remete ao início do século passado e retrata em canto o sofrimento do trabalho escravo. Ainda com Pererê em cena, os Blues Groovers sobem ao palco para interpretar Down in Mississipi (JB Lenoir), canção de protesto inspirada nos direitos civis, e numa interpretação com pegada bem enraizada no blues.
Rodica falou da sua parceria com Pererê, excelente voz e criativo percussionista, e a importância da sua presença neste momento, uma oportuna continuidade ao trabalho que realizaram juntos em seu primeiro disco Do Mississipi ao São Francisco.
O repertório continuou com os temas do novo album, destacando Hit the Ground (Lizz Wright); Grandma´s Hands (Bill Whiters); Feeling Good (Newley), imortalizada na voz de Nina Simone, aqui em trio com Flavio Guimarães e Tomaso; chamou novamente Pererê ao palco para I Want to Go (JB Lenoir) em uma versão muito invocada, e um show a parte de Pererê nas vozes de apoio e percussão;  Slow Down (Keb Mo); Moanin’ at Midnight (Howlin Wolf) numa sombria versão, bem ao estilo do autor; fez uma versão bluesgrass em Angels from Montgomery (John Prime); e deu uma atmosfera jazzy em Into my Soul (Clary, Bottini, Terrenato); além do tema título do álbum.
A banda muito bem entrosada e Rodica destacou o apoio dos Blues Groovers desde a sua chegada ao RJ quando teve que reiniciar seu trabalho, compartilhando novas ideias e novos temas, e o suporte dado pelo grupo foi fundamental. E realmente tem que ressaltar a guitarra slide de Otavio Rocha, que foi um destaque nesta apresentação; e quando o assunto é slide no blues brasileiro, o cara é mesmo uma referência.

Além dos músicos presentes no show de lançamento, o álbum ainda traz as participações do Julio Bittencourt Trio, formado Juliano Bittencourt bateria, Luciano Bittencourt guitarra e BJ Bentes contrabaixo, Rogerio Delayon na guitarra e banjo, Bruce Henri contrabaixo, João Hermeto percussão e Alamo Leal e Ricardo Werther vozes.

Como afirmou Flávio Guimarães - “Blues in my Blood é um álbum de surpreendente qualidade e Rodica veio para ficar, puxando para cima o nível do blues nacional”.



Mais sobre Rodica -


FRED HERSCH BEM VIVO NO VILLAGE VANGUARD

26 outubro, 2012
Coluna do Luiz Orlando Carneiro 
Jornal do Brasil, 15 de setembro

Fred Hersch, 56 anos, é um mestre consumado da arte do piano jazzístico e o mais expressivo herdeiro da poética musical de Bill Evans. Mas não se limita a retocar — com a técnica, a criatividade e o requinte harmônico que o caracterizam — joias do Great American Songbook. É também capaz de recriar a seu modo, sempre cool, a temática desafiadora de Thelonious Monk ou de Ornette Coleman. Além disso, é um compositor inspirado (A Lark, At the Close of the Day, Phantom of the Bopera, Evanessence).
Hersch é um daqueles músicos consagrados que se apresentam anualmente no Village Vanguard, a catedral-catacumba do jazz em Nova York. De sua discografia já constavam dois álbuns gravados pela Palmetto, ao vivo, naquele clube que comemorou 75 anos de idade em 2010: Live at the Village Vanguard (2002, em trio com o baixista Drew Gress e o baterista Nasheet Waits) e Alone at the Vanguard (um set solo de dezembro de 2010).

Fred Hersch
A essa discografia acrescente-se agora o CD duplo Alive at the Vanguard  (Palmetto), registro de fevereiro deste ano, com o líder à frente do trio que formou com John Hébert (baixo) e Eric McPherson (bateria). De acordo com o próprio Hersch, trata-se, talvez, do seu melhor disco em trio, em termos de amplitude, de som, do aqui e agora (being in the moment), do modo de tocar.
Ele acrescenta: “E, sonicamente, acho que captura realmente o Vanguard...você se sente como se estivesse lá”.

O alive do título do álbum, e não simplesmente live, é muito significativo. Hersch convive e luta, há muito tempo, com a Aids. Em 2008, esteve muito perto da morte, em coma, durante dois meses. Ele praticamente renasceu, mas ainda estava muito abatido em julho de 2009, quando tive a oportunidade de vê-lo e ouvi-lo lá no Vanguard.
Neste novo CD duplo, Fred Hersch demonstra que está mesmo alive and well, em 15 faixas, das quais sete composições de sua lavra. São elas: Havana (6m45), uma valsinha romântica com o Latin levemente acentuado por McPherson; Tristesse (6m20), balada dedicada ao lendário baterista-compositor Paul Motian (1931-2011); Dream of Monk (6m10), uma espécie de collage de temas de Monk, como Crepuscule with Nellie e Blue Monk; Opener (7m20), peça escrita pelo pianista para destacar o baterista; Jackalope (6m45), bem swinging, de raras assimetrias harmônico-rítimicas; a lírica Rising, Falling (6m45), inspirada na música de Wayne Shorter; Sartorial  (5m), descrita pelo autor como um tributo a Ornette Coleman, “uma das mais charmosas (snnaziest) figuras do mundo do jazz”.

Hersch também celebra ícones de sua especial devoção em quatro faixas do volume 1 de Alive at the Vanguard. Ele interpreta Softly as in a Morning Sunrise (5m50), o velho standard da Broadway, e Doxy (6m45), de Sonny Rollins, explicando que os dois temas, na sua mente, sempre estiveram associados ao grande saxofonista. As fascinantes melodias de Lonely Woman (Ornette) e Nardis (Miles Davis) são fundidas pelo trio num take de mais de 12 minutos. Charlie Parker está presente numa animada reinvenção de Segment (6m50). No volume 2 do CD, Hersch junta, numa mesma faixa (13m30), The Song is You, de Jerome Kern, e Played Twice, de Monk.

UM PALCO. UM PIANO. UM GÊNIO. KEITH JARRETT.

25 outubro, 2012
Keith Jarrett
Rio, noite de quarta-feira.
O cenário : um palco, um piano e um gênio.

Pelo segundo ano consecutivo, Keith Jarrett desembarcou em solo carioca para a séria Jazz All Nights, promovida pela Dell Arte.
Em sua última apresentação, em abril de 2011, o espetáculo foi registrado no álbum duplo Rio, lançado pela ECM, e tornou-se mais um registro histórico e com lançamento relâmpago e que, para Jarrett, foi uma das suas melhores gravações em seus cinquenta anos de música. Este que vos escreve não assistiu esta apresentação ao vivo, a degustação ficou restrita ao álbum.

E enfim, me vi diante deste espetacular músico em um Teatro Municipal lotado para uma apresentação brilhante, cujo título, An Evening of Solo Piano Improvisations, só comprovou o talento, a criatividade e seu pleno domínio na arte de conduzir uma apresentação solo em cerca de duas horas de duração, dividida em dois sets.
Sua exigência foi um piano Steinway D, que foi cedido pela OSB e veio de São Paulo; e a afinação do instrumento ficou na responsabilidade de George Boyd.

No repertório, em cada tema, a única certeza era um início. O meio e o fim eram decididos em tempo do momento criativo, cuja improvisação, livre e despretensiosa, levava a caminhos sonoros imprevisíveis e ao mesmo tempo belos e instigantes. Sua música fala com o corpo, como se suas inteligências musical e cinestésica convergissem em torno da própria criação musical instantânea, indo ao encontro de um cenário imaginário de música improvisada.
Incitou a platéia em dois momentos - quando os aplausos iniciaram antes do término de um tema, aguardou os ânimos baixarem e colocou somente os dois acordes finais, como que dizendo – “agora sim, podem aplaudir”; e ao final, antes do início de um tema, a campainha de um celular o fez balançar a cabeça em tom de reprovação. Mas sempre se reverenciou ao público em sinal de agradecimento.

O Rio de Janeiro parece mesmo ter cativado Keith Jarrett. O samba, de uma nota só, se multiplicou exponencialmente nas teclas brancas e pretas, como pedras portuguesas explodindo em ousadia e malandragem e cujos passos eram conduzidos pelas suas mãos e pés.
E nem o público nem Jarrett pareciam querer ir embora, por duas vezes voltou ao palco e, mesmo com tanta bagagem musical, se entregou ao silêncio e compartilhou com o público – “não tenho idéia do que tocar”; e das mais variadas manifestações, recriou Gershwin (Summertime) e Harold Arlen (Somewhere Over the Rainbow).

Um verdadeiro espetáculo !

BLUES & SOUL SESSIONS COM A IGOR PRADO BAND

20 outubro, 2012
Soul : termo empregado no início dos anos 60 para passar a ideia de forte sentimento na interpretação, principalmente no Blues, onde as técnicas usadas no spiritual e gospel estão sempre presentes, oriundas do canto negro.

A definição está no Glossário do Jazz, de Mario Jorge Jacques, e ilustra a identidade do estilo Soul, enraizado no Rhythm & Blues, cujo termo, no jargão americano, se baseia no orgulho e cultura da raça negra, é a música popular negra, a intensidade no canto, os coros, o bater das palmas, o movimento corporal, o ritmo.
Historicamente, o estilo tem seus registros muito referenciados em duas grandes gravadoras, a Stax e a Motown, baseadas em Memphis e Detroit respectivamente. Ambas com características muito particulares - de um lado os Memphis Horns colocavam os sopros na assinatura na Stax, suportados por Booker T and MGs; por outro os Funk Brothers na liderança do baixista James Jamerson, cujas linhas de baixo embalaram os maiores hits do catálogo da Motown.
A era marcante do soul estabeleceu-se fortemente nos anos 60 e 70 e célebres artistas deixaram sua assinatura no estilo como Ray Charles, Etta James, Aretha Franklin, Otis Redding, Wilson Pickett, Little Milton, Solomon Burke, Marvin Gaye, Al Green, entre muitos e muitos outros, a lista é imensa, e estreitaram a fronteira com o jazz e o blues tradicional.


Para retratar um verdadeiro tributo ao estilo, a Igor Prado Band, formada pela fenomenal guitarra de Igor Prado, o baixo de Rodrigo Mantovani e a bateria de Yuri Prado, muito influenciados pelo estilo, selecionou alguns clássicos, chamou as vozes de Tia Carrol, J.J Jackson e Curtis Salgado para dar a interpretação vocal necessária ao projeto, o hammond de Flavio Naves, o piano de Donny Nichilo e Ari Borger, e arregimentou os sopros no tenor de Sax Gordon, no trompete de Sidmar Vieira e no barítono de Denilson Martins, nossos Memphis Horns brazucas, para gravar Blues & Soul Sessions.

A produção deste trabalho tem as mãos de Igor Prado e, a fim de criar a atmosfera das gravações da época, escolheram o estúdio Comep em São Paulo para registro das sessões, que foram feitas ao vivo, sem overdubs e com uso de equipamento vintage. E as imagens destas sessões em estúdio foram registradas no DVD que acompanha o luxuoso pack com o CD, em que Igor, Rodrigo e Yuri relatam a experiência de reviver a música Soul, falam sobre os temas, sobre os artistas que tanto os influenciaram e contam muitas histórias.

O repertório está impecável, são 13 faixas no CD e 12 faixas no DVD. Melhor que ouvir, é assistir e sentir a vibração das gravações. O tema de abertura, Prado´s Special, instrumental, vem com muita energia e com arranjo suportado pelos metais e pelo hammond de Flavio Naves; e serviu como uma apresentação aos músicos da banda base desse trabalho, com improvisos de Flavio, Sidmar, Denilson e Sax Gordon, além de Igor, cujo tema ele fez uma adaptação da versão de Hooker Special, de Earl Hooker. Tem que destacar a vibração no sopro de Sax Gordon, é um daqueles saxofonistas que se voce der a ele 27 chorus para improviso, é capaz dele ressuscitar Paul Gonsalves e seu efusivo solo do festival de Newport em 1957 na banda de Duke Ellington (Diminuendo and Crecendo in Blue). Espetacular músico.
Oh Poo Pah Doh (Wilson Picket) e If I Can´t Have You (Etta James) trazem JJ Jackson e Tia Carroll dividindo os vocais; You Hurt Me (Little Willie John) põe o improviso no piano de Donny Nichilo e Rodrigo Mantovani abraça o contrabaixo acústico dando aquela atmosfera soul sob a voz calorosa de Tia Caroll, que também interpreta It´s Your Thing (Isley Brothers) com bastante veneno, e How Sweet It Is (Holland-Dozer), um clássico do Motown e um tema super alto astral que embalou muita gente, aqui em belíssima versão.
Greg Wilson embarcou das areias cariocas para interpretar Tramp (Lowell Fulson) e I´m Ram (Al Green), ambas com aquele swing funkeado e a voz de Greg caindo perfeita, inclusive em Tramp quase que dialogando com a base harmônica do tema, aqui sem os metais. Curtis Salgado interpreta Lucky Loser (James Carr) e divide os vocais com Igor em Don´t Turn Your Header On (Steve Cropper). 
Igor assina One for Duck Dunn, uma homenagem ao baixista Donald Duck Dunn que fez parte do Booker T and MGs e é uma das maiores influências de Rodrigo Mantovani.
Keep Knocking (Bill Mays) fecha o trabalho no melhor estilo rock´n´roll, de raiz, cujo tema foi incendiado por Little Richards no final dos anos 50, mas aqui quem colocou fogo foi o piano de Ari Borger.
Um disco obrigatório.

Igor Prado nos conta um pouco sobre o trabalho e, como sempre, uma aula de música.

A guitarra de Igor Prado tem a marca registrada do Jump Blues, com aquele puro recheio do Swing sem perder a essência Blues. Como deu-se essa iniciativa de mostrar a influência da música Soul e a ideia de gravar um disco em tributo ?
A gente sempre foi fã de Soul Music, há muito tempo, e claro que todo nosso embasamento musical vem do Blues tradicional. Muita gente não sabe que o West Coast Blues/Jump Blues é calcado no Blues tradicional, vide os principais artistas nos anos 50 - T-Bone Walker, BB King, Pee Wee Crayton e Lowell Fulson, todos vieram do Blues de raiz. As pessoas tem a mania de muitas vezes separar coisas que andam muito juntas ou criar rótulos.
Certa vez eu estava em Chicago conversando com o editor de uma revista muito tradicional e falávamos de estilos e tal e ele me disse : - "Igor, sabe quem inventou essas nomenclaturas como Texas Blues, Jump Blues, Chicago Blues?" E ele disse para meu espanto : - "O homem branco da Inglaterra nos anos 60, pois o Blues tinha ido para lá e era uma novidade, uma febre na Europa, época do American Folk Festival e quando as bandas inglesas estavam levando os negrões de convidados; por uma questão mais mercadológica eles dividiram e inventaram alguns estilos".
Provavelmente se você disser para o BB King - “Agora vc esta tocando Jump Blues!", ele vai olhar na sua cara e vai dar risada. Na verdade é tudo o Blues. E essa discussão vai além, uma vez o BB disse que, para ele, o Jazz e o Blues são a mesma música, mas isso é assunto para outra entrevista.
Mas enfim, estávamos numa fase bem Blues-Soul e então resolvemos montar esse projeto, que foi gravado todo ao vivo, nos moldes dos discos dos anos 60, com todos os músicos na mesma sala tocando ao mesmo tempo. Por isso tivemos que achar um estúdio que comportasse esse tipo de gravação. Até as vozes foram gravadas todas ao vivo.
O Chico Blues, produtor do CD/DVD, registrou praticamente toda a gravação em 3 câmeras e montamos um DVD extra para as pessoas verem como foi gravado "de verdade", coisa rara hoje em dia, não tem overdub, não tem auto tune (software de computador que reafina a voz) e não tem edições também.

As vozes de Tia Carroll, J.J Jackson e Curtis Salgado foram fundamentais nesse trabalho. Como vocês se conheceram e como eles receberam o convite para este projeto ?
O JJ já é parceiro de longa data, eu e o Yuri o conhecemos quando eu tínha 17 anos e o Yuri 16, foi numa jam session no antigo Sanja Jazz Bar aqui de São Paulo. De lá pra cá estamos sempre fazendo coisas juntos quando podemos.
A Tia Carroll conhecemos em uma das tours na Europa. Tocamos no famoso Lucerne Blues Festival em 2010 com o Lynwood Slim e o guitarrista Kid Ramos, e foi lá que tivemos o primeiro contato com a Carroll. No ano passado trouxemos ela para o Brasil e todo mundo adorou, ela já veio 4 vezes e fizemos mais de trinta shows.
Não poderia deixar de destacar a participação do cantor e gaitista Curtis Salgado, figura lendária que já tocou com Robert Cray e Carlos Santana e no ano passado ganhou o BMA (Blues Music Awards) como melhor cantor de Soul-Blues de 2011 nos EUA. Ele é um monstro e também peça fundamental no projeto, não só pela participação mas pela influência que ele exerceu nesses últimos anos mostrando material, ensinando várias coisas sobre Deep Soul e Gospel Music para a gente.

Ainda tem as participações no piano de Donny Nichilo e Ari Borgher e a voz de Greg Wilson, que é um dos pioneiros do Blues no Brasil.
O Greg é um parceirão de longa data, talentosíssimo, é o simbolo disso tudo que queríamos no disco. Ele pode estar tocando Blues-Rock, tocando trompete, cantando Blues tradicional ou cantando em português. Ele tem uma personalidade musical muito bem definida e está muito acima dos rótulos.
O Donny também já é de casa e convidei ele para algumas tracks e ele topou na hora.

Eu chamo essa espetacular seção de sopros como os "Memphis Horns" brazucas. Que energia desses caras.
Pois é, o Denilson e o Sidmar são pessoas diferenciadas mesmo, eu sempre falo isso, são geniais. Eles vieram totalmente da Gospel Music e o feeling que esses caras tem para tocar esse estilo é um negócio absurdo. Atualmente estou produzindo o disco solo instrumental do Denilson com previsão de lançamento para o ano que vem, e terá a participação mais que especial do Sax Gordon, que pra mim é um dos músicos mais geniais da atualidade.

A influência do soul invadiu a praia do Jazz no anos 60 e, para a guitarra, um dos ícones nessa onda foi o Grant Green, juntamente com a explosão dos Organ Trios. Como foi essa identificação e influência da música soul na sua formação ?
É isso mesmo, essa sua pergunta ilustra totalmente o que eu venho falando. Tanto o Grant Green quanto  o Bill Jennings, que entraram nessa onda do Soul-Jazz ou Acid Jazz nos 60, começaram tocando swing de big band, blues. Vide Bill Jennings, que acompanhou o saxofonista Louis Jordan nos 50. Então é jazz??  Mas Louis Jordan é swing, é jump blues ... e jump blues é blues??
Ops ... então tudo acaba no Blues ou começa também ! percebe ?!

Obrigado Igor Prado, e sucesso.

 

SPECTRUM ROAD RESGATA O BOM E VELHO FUSION

15 outubro, 2012
É inegável a importância do baterista Tony Willians na transformação musical que ocorreu a partir da segunda metade dos anos 60, quando o segundo quinteto de Miles Davis, do qual Tony liderava as baquetas, apontava para a música livre e caminhava de encontro com o Rock.
Tony Willians foi um dos precursores do fusion baseado no Jazz Rock, e teve a líderança do grupo Lifetime, inicialmente um organ trio formado com McLaughlin e Larry Young, criado em 1969.
Um baterista com assinatura própria e uma escola para as gerações seguintes.

Spectrum Road é a homenagem definitiva a Tony Willians, talvez a maior celebração a esse grande músico desde sua morte em 1997, causada por problemas cardíacos após uma cirurgia de rotina de vesícula. Outro grande tributo foi o álbum Saudades (2006, ECM), em que Jack DeJohnette, John Scofield e Larry Goldings também prestam homenagem ao baterista.

Spectrum Road é formado pela guitarra de Vernon Reid, os teclados de John Medeski, o baixo de Jack Bruce e a bateria de Cindy Blackman Santana. Precisa dizer mais?!
Uma reunião de grandes ícones cujas influências carregam muito do rock, do blues e do instrumental contemporâneo.
E essa história vem de longe, desde que Jack Bruce, que tornou-se muito amigo de Tony, ingressou o Lifetime em 1970 assumindo o baixo e vocal no segundo álbum do grupo, Turn It Over. Bruce tinha Larry Young como um gênio, um mágico dos sons, e recorda quando ele tocou em sua cidade natal, Glasgow, levando o público ao êxtase - ele o considerava como o "Coltrane do Hammond".
A baterista Cindy Blackman lembra a primeira vez que ouviu Tony Willians, aos 15 anos, e ficou enlouquecida; o álbum em questão era Four & More do Miles, e quando soube que nesta gravação Tony tinha apenas 18 anos, não acreditou. Quando enfim ouviu a Lifetime, sabia ter encontrado ali seu estilo favorito e, para ela, Tony era uma obra de ficção científica.
Já o guitarrista Vernon Reid via algo de underground na música da Lifetime, e afirma que Tony nunca fez concessões a música comercial, queria fazer a música do seu jeito e por isso tornou-se único.
Medeski considera a Lifetime uma parte da história do Jazz, assim como seus integrantes; e lamenta que o grupo tenha sido tão pouco reconhecido pela importância que teve ao mudar a cara do Jazz e do Rock. E diz que a força que levou a criação do Spectrum Road foi trazer de volta a atenção a isso.

Spectrum Road foi gravado em quatro dias, em fevereiro de 2011, quando o quarteto encontrou-se livre das obrigações em seus respectivos trabalhos. São 10 temas em que 8 deles são composições gravadas por Tony Willians. O álbum traz uma sonoridade mais contemporânea, mesmo com as características tão distintas de Medeski e Vernon Reid em relação a Larry Young e McLaughlin, mas o resgate a forma fusion daquele tempo ficou muito evidente.