PEDAIS DE EFEITO HAND MADE: TARGINO

29 maio, 2012
Pedais de efeito são conhecidos equipamentos que alteram o sinal do som de um instrumento musical. Geralmente representam um grande desafio para o músico, na escolha do efeito específico para um determinado tipo de som, no domínio sobre esse efeito, na dinâmica e no timbre.

Historicamente, os primeiros efeitos foram produzidos em estúdio por volta de 1940 por engenheiros de gravação e músicos que começaram a manipular o audio para criar efeitos de eco e sons futuristas pouco comuns, inclui-se aí o próprio Les Paul. A ideia se desenvolveu e se estendeu para os amplificadores, que passaram a incluir circuitos de vibrato e reverb em seus equipamentos. E foi o transistor eletrônico que expandiu a criatividade e possibilitou criá-los em um formato pequeno.
O registro do primeiro efeito de guitarra com um desses pequenos equipamento foi o pedal Maestro Fuzz Tone, de 1962, cujo timbre ficou imortalizado com o riff de Satisfaction dos Stones em 1965.
E os anos 60 impulsionaram a febre dos pedais de efeito, principalmente com o revolucionário Cry Baby, conhecido também como Wah Wah, criado por Brad Plankett em 1966. A força do Cry Baby foi tão poderosa que revolucionou o som das guitarras e transformou a cultura musical americana.


Mas não importa o estilo, seja no improviso do jazz, no colorido do fusion, na rítmica do funk e do soul, no drive do blues ou na resposta de peso do rock, por tras desse pequeno equipamento plugado em seu instrumento há uma eletrônica pensada em forma de som.

E não se aplica limitadamente na guitarra, o uso destes recursos se estende aos baixos, teclados, instrumentos de sopro e percussivos.

Apesar dos inúmeros fabricantes de pedais de efeito em modo industrial, são os pedais hand-made que atraem cada vez mais músicos, feitos sob medida conforme a necessidade e/ou característica do som que querem produzir.


E um nome que vem se destacando na produção destes pedais é o Targino, residente em Quixadá, Ceará, que produz diversos modelos de pedal e já tem no seu catálogo músicos de expressão assinando seus equipamentos, entre eles o guitarrista Artur Menezes.

Vale destacar a história de empreendedorismo, determinação e paixão no trabalho de Alexandre Targino, que enriquece o valor musical do nosso país tornando acessível ter equipamentos com qualidade e personalizados. E ele nos conta um pouco dessa história e do seu trabalho de criação dos pedais de efeito nesta entrevista ao 33 Rotações.

Gustavo Cunha : Como começou seu interesse pela eletrônica associada com a música ?
Alexandre Targino : Sempre gostei muito de eletrônica. Desde moleque eu via meu amado pai Edimilson Targino consertando eletrodomésticos e a parte elétrica do seu carro e cresci fascinado por esse mundo. Daí veio o meu interesse pela informática e tecnologia e trabalhei durante muitos anos prestando assistência técnica. Com a música não foi diferente, cresci ouvindo boa música e vendo guitarristas tocando e sempre que eu tinha chance chegava perto pra saber o que eles estava usando de pedais, amplificadores e guitarras. Meu interesse pela música e por equipamentos de audio só aumentava, mas por outro lado tudo era muito caro e como eu não vivia disso e nem tinha dinheiro ficava inviável ter acesso a estes equipamentos. Foi quando conheci os pedais hand-mades, cheguei a comprar um clone do GT2 da Samsamp pois fiquei impressionado com a qualidade do pedal, que tinha até menos ruidos que o original, muito bom mesmo, e um dia eu resolvi abri-lo e percebi que se eu conseguisse encontrar os esquemas poderia me arriscar a montar um igual ou até melhor.
Apesar de nunca ter feito um curso, comecei a estudar muito assuntos relacionados a eletrônica, como um autodidata. Após um ano inteiro de estudos me senti apto a montar meu primeiro pedal.

GC :Como deu-se a construção deste primeiro pedal ?
AT: Em varios foruns o pessoal indicava que eu montasse um fuzz, inicialmente pela simplicidade do circuito, mas como sempre fui ambicioso resolvi partir pra algo mais complexo. Comprei todos os componentes e uma caixinha plastica pra montar um clone do SD1 da Boss. Fiz a plaquinha, fui soldando os componentes com muita atenção até chegar a esperada hora do teste. De primeira não saiu som nenhum, mas como eu estava muito ansioso percebi que havia invertido os fios da chave, soldei do modo correto e para minha surpresa o som saiu perfeito. Foi muito emocionante ver a minha primeira montagem funcionando com sucesso e a partir daí fui me aventurando em outros circuitos e obtendo mais conhecimento e sucesso em todos que eu tentava montar. Isso foi me deixando cada vez mais contente e confiante e poderia até se tornar uma outra fonte de renda pra mim, e o que é melhor de tudo é que podia me manter próximo do mundo da música que é algo que eu amo.  
O primeiro pedal que eu montei foi um Overdrive, que eu dei o nome de Patrizia's Overdrive. Uma homenagem a Patrizia, que é uma pessoa muito importante na minha vida e que acreditou no meu sonho e me dando total apoio, principalmente quando eu mais precisei pois nessa época eu perdi meu querido pai e ela foi um pilar para mim, a quem sou eternamente grato. E um detalhe especial para a arte - como ela é uma fã dos Beatles e do rock clássico, quis ilustrar isso no desenho do pedal.


GC: Há uma relação muito próxima em projetar os pedais de efeito com o conhecimento de música. Voce toca algum instrumento ?
AT: Toco guitarra e isso é algo que considero um ponto forte. Todos os pedais são fabricados a mão por um músico que entende de música, timbres, sonoridades ... e não por um robô chines.

GC: Fale sobre os pedais de efeito que voce fabrica ?
AT: Já possuo um catálogo de pedais bem interessante -
Drive, Overdrive; Distortion;
Delay, com uma sonoridade bem vintage e próxima dos clássicos analógicos;
Chorus, analógico e com algumas modificações para se obter mais velocidade e dar um efeito das caixas Leslie;
Compressor, mantém o equilibrio do sinal fazendo com que as notas soem com a mesma intensidade tornando-se ótima opção para acordes abertos e dedilhados;
Envelope Filter, conhecido como Auto Wha característico para guitarristas e baixistas de funk;
além de outros pedais como Bass Pré Amp, Fuzz, Tremolo, Phase, Wha Wha e Booster; e alguns experimentos que estão por vir, entre eles pedais valvulados.
Na nossa página voce encontra detalhes de todos os modelos.

GC: O importante num pedal de efeito é manter o timbre do instrumento adicionando novas texturas. A importância dos componentes utilizados para a fabricação é um diferencial. 
Conte-nos um pouco sobre o seu processo de construção.
AT: Como todo hand-maker, já utilizei diversos tipos de caixas e componentes como caixas plasticas, latas e caixa de chapa de ferro virada. Hoje uso caixas de aluminio que, além de mais leves, possuem um ótimo acabamento, não oxida e aterra muito bem o circuito deixando o pedal com o mínimo de ruído.
Também utilizo belos knobs importados de altíssima qualidade, leds de alto brilho para melhor visualização no palco e chaves 3PDT (true bypass) que não altera o timbre do instrumento enquanto estiver desligado. Na parte interna, procuro sempre deixar tudo o mais organizado e fixo para evitar curto circuito e fios quebrados.


GC: O verdadeiro reconhecimento do trabalho é ter os especialistas usando o produto. Assim ocorreu com o pedal Crunch Drive que foi batizado para o guitarrista Artur Menezes, hoje uma referência na guitarra Blues nacional. 
Como surgiu essa aproximação e fale dos outros artistas que utilizam os pedais Targino ?
AT: A primeira vez que tive o prazer de ver o Artur Menezes tocando foi há quatro anos no festival de Jazz e Blues que acontece durante o carnaval em Guaramiranga. Logo fiquei contagiado por estar ali vendo um cara muito seguro e carismático, que dominava muito bem o seu instrumento tocando um blues cheio de virtuosismo e feeling. Peguei o seu contato e logo começamos uma amizade atraves das redes sociais. Depois de aproximadamente uns quatro meses que eu já havia começado a montar pedais, o Artur me falou sobre a sua insatisfação em relação aos pedais que ele já havia utilizado, pois todos alteravam demais o timbre da guitarra deixando o seu som nasalado. Como eu já havia montado um Crunch Drive pra mim, resolvi fazer uns experimentos com ele, trocando componentes até chegar a um resultado que eu achava satisfatório. Montei tudo em uma caixinha de ferro coloquei um adesivo com uma foto do Artur e finalmente estava pronto o primeiro Artur's Crunch Drive. Mostrei o pedal para a minha namorada e ela sugeriu que eu presenteasse o Artur com esse pedal, e foi o que eu fiz. Para minha surpresa, o Artur ficou muito feliz e satisfeito pois ele havia encontrado o som que tanto procurava. Depois de quase dois anos utilizando o pedal, resolvemos firmar uma parceria para lancar esse modelo como o seu pedal Signature.
Além do Artur Menezes temos também outro nome de peso como nosso parceiro, o guitarrista Pilho, bacharel em Música e dono de um dos maiores institutos de guitarra do Ceará, o Guitar Trix. Ele também possui um pedal Signature chamado Pilho Lead Distortion, que já é sucesso absoluto entre os nossos pedais e em breve vamos mostrar um review desse modelo.

GC: Muitos músicos conseguem uma identidade muito particular em seu som e sempre há uma eletrônica por trás dessa assinatura sonora. Voce tem um som de algum músico ou mesmo alguma referência quando o assunto é efeito ? 
AT: Eu costumo dizer que minha referêncial musical vai desde o baião ao death metal (risos). Escuto o que considero boa música que, além de enriquecer meu vocabulário musical, me proporciona uma porção de ideias para novos experimentos. Mas posso dizer que o rock, sem duvidas, é minha maior referência. Caras como David Gilmour, Richie Blackmore, Eric Johnson, Steve Ray Vaughan, Dimebag Darrell, Eddie Van Halen, Eric Clapton, o nosso Faiska, entre outros, são alguns dos vários guitarristas que aprecio e afirmo que esses são verdadeiros gênios quando trata-se de utilizar efeitos.

Obrigado Alexandre Targino. Sucesso.

targinocustompedals.blogspot.com.br/

Assista o video do Artur Menezes falando sobre seu Signature Crunch Drive, by Targino -

ELAS : SENA EHRHARDT

28 maio, 2012
Sena Ehrhardt nasceu e cresceu rodeada de Blues.
Seu pai, o guitarrista Ed Ehrhardt, deu a ela as bases e o amor pelo estilo e esse estímulo foi o que a levou a formar a Sena Ehrhardt Band. E essa forte influência junto com os anos de experiência musical ajudaram a criar sua própria identidade.
Seu disco de estreia, Leave The Light On, lançado pela Blind Pig Records, já a elevou a uma das mais jovens promessas do cenário Blues, pela sua presença de palco e pela sua voz cheia de alma e emoção.

E sobre este trabalho, a própria Sena resume –
Cresci em um lar repleto da música do Blues, ter esse amor e paixão pelo estilo e assinar com a Blind Pig Records foi um sonho que se tornou real para mim. A música é meu coração e alma, e este disco é um trabalho de amor àqueles que sempre me apoiaram. Estou muito excitada para ver o que o futuro nos reserva, e mal posso esperar para levar nossa música aos amantes do Blues e para as novas gerações de ouvintes. O Blues é sentimento, e isso é tão bom”.

Para ela, cantar Blues é a sua vida e não foi uma escolha, foi como uma direção, uma atração, um imã. Tem no pai o seu mentor, que lhe ensinou tudo que sabe sobre Blues e sobre o que significa ser uma grande pessoa. E Ed Ehrhardt realmente é um guitarrista da pesada, carrega a atmosfera do Blues nos seus improvisos e não poupa elogios a filha, aliás, bem merecidos.
E a moça foi nomeada na categoria "Best New Artist Debut" no Blues Music Awards 2012, o que já é um grande prêmio para um disco de estreia.
Apesar do seu repertório incluir standards do Blues e Soul, seu disco traz dez composições autorais que foram escritas junto com seu pai, Ed Ehrhardt, que faz as guitarras no disco ao lado de Steve Hansen baixo e Tim Hasler bateria.

ESTAÇÃO NEW ORLEANS NOVA LIMA, EDIÇÃO 2012

27 maio, 2012
divulgação


Nova Lima, a 20 km de Belo Horizonte, será palco nos dias 2 e 3 de junho da Estação New Orleans-Nova Lima com mais de 20 horas de shows gratuitos de grandes artistas nacionais e internacionais.

A grande festa dedicada ao blues, choro e jazz será realizada bem no centro de Nova Lima, na Praça Bernardino de Lima, em dois palcos montados em frente a escadaria da Igreja Matriz.
Para incrementar ainda mais essa festa, a gastronomia e as cervejas artesanais marcam presença no festival.

Programação -

2 de junho, sábado
10h, Teatro Municipal : Masterclass com Bob Wilber
11h30, Palco Nova Lima : Amigos do Choro
12h, Palco New Orleans : Leroy Jones Quintet &Yolanda Windsay
13h30, Palco Nova Lima : Jader Souza
14h, Palco New Orleans : Swiss College Dixie Band
15h30, Palco Nova Lima : Lislie Fiorinni
16h, Palco New Orleans : Izzy Gordon
17h30, Palco Nova Lima : Fusão Música Instrumental
18h, Palco New Orleans : Bob Wilber Younger Generation All Stars
19h30, Palco Nova Lima : Beira Kaos
20h, Palco New Orleans : Gary Brown & Kenny Brown
21h30, Palco Nova Lima : Cachorro Cego
22h, Palco New Orleans : Gunhild Carling & Jazz Festival Brasil Band

3 de junho, domingo
12h, Coreto : Tributo a Zé Fuzil e Mestre Sabino com as Corporações musicais União Operária, Sociedade Musical Santa Efigênia e Sagrado Coração de Jesus
12h30, Palco New Orleans : Cynthia Girtley
14h, Palco Nova Lima : Banda Ônix
14h30, Palco Nova Lima : Grupo Acalanto
15h, Palco New Orleans : Swiss College Dixie Band
16h30, Palco Nova Lima : Luís 7 Irmãos e Banda Buá Buá
17h, Palco New Orleans : Roy Rogers
18h30, Palco Nova Lima : Dinil’Sons Jazz Band
19h, Palco New Orleans : Gunhild Carling & Jazz Festival Brasil Band
20h30, Palco Nova Lima : Bicho Grilo
21h, Palco New Orleans : Delfeayo Marsalis


O evento é uma realização da Prefeitura  de Nova Lima em parceria com a Band Minas e a produtora Cultura Livre.

RIO DAS OSTRAS JAZZ & BLUES FESTIVAL NA CONFERÊNCIA GATEWAY TO GLOBAL JAZZ

24 maio, 2012

O maior festival do gênero na América Latina também figura entre os vinte maiores do mundo.
Prova disso foi o convite que Stenio Mattos, produtor do festival, recebeu para participar da Gateway To Global Jazz, uma conferência internacional que aconteceu na cidade de Amersfoort, na Holanda.

O encontro foi organizado pela Aliança Internacional dos Festivais de Jazz entre os dias 10 e 13 de maio e a cidade de Rio das Ostras foi representada pelo produtor, que falou sobre as atrações turísticas do município e da importância cultural e econômica do festival para toda região.

Nossa participação foi muito importante. Para o ano que vem, fechamos parcerias com festivais que acontecem na França e na Holanda. Montaremos um estande em cada festival para divulgar o Rio das Ostras Jazz & Blues Festival e, consequentemente, daremos informações turísticas que ajudarão a atrair ainda mais pessoas para o município”, comentou Stenio.

A conferência teve como foco incentivar a criação de novos festivais de jazz pelo mundo e contou com a participação de representantes de vários países, entre eles Estados Unidos, Escócia, Índia, Austrália, Canadá, Alemanha, Itália, Dinamarca, Tailândia, Japão, Ucrânia, Rússia e Espanha.

Fiquei muito feliz em perceber que os representantes de cada país ficaram muito impressionados com a organização e o nível de nosso festival”, finalizou Stenio Mattos.



fonte : http://riodasostrasjornal.blogspot.com.br/2012/05/rio-das-ostras-jazz-blues-festival-e.html


A Fundação JazzNL foi criada em 2005. Tem como objetivo organizar e suportar projetos em nome da internacionalização e profissionalização do Jazz e da música improvisada, conectando redes de contato de jazz em nivel internacional e explorando o mercado ao redor do mundo.
Mais sobre a conferência Gateway to Global Jazz em  http://www.jazznl.com/

YES! TRIO

21 maio, 2012
Omer Avital já é um dos ícones do contrabaixo no jazz contemporâneo. Sua residência em New York ampliou seus horizontes e foi exatamente em um dos principais clubs de Manhattan, o Smalls, onde lançou dois excelente discos ao vivo, o último, inclusive, foi assunto aqui.

E mais um espetacular trio surge com a assinatura de Omer, agora ao lado do pianista Aaron Goldberg e o baterista Ali Jackson. Eles decidiram entrar no estúdio Systems Two no Brooklin em dezembro de 2009 e gravar o Yes! Trio, lançado pela Sunnyside Records.

Apesar de não haver uma liderança explícita por nenhum dos componentes do trio, o contrabaixo de Omer destaca-se pelo seu envolvimento melódico e pelos seus improvisos, bastante explorados neste trabalho.
Não por menos, o pianista Aaron Goldberg tem se destacado no cenário jazzistico com belíssimos trabalhos, não só como lider mas também como sideman, e é mais uma referência nas 88 teclas. Aaron é um declarado fã de Monk, Jarrett e Abdullah Ibrahim, mestres incansaveis para seus ouvidos e de quem admite ter forte influência.
Ali Jackson é o dono das baquetas na Jazz at Lincoln Center sob a batuta de Wynton Marsalis, nem precisa dizer muito.   
          
Goldberg e Jackson se conheceram em 1991 durante as audições para Manhattan School of Music;  Goldberg e Omer cruzaram-se no ano seguinte quando compareceram ao New School for Jazz and Contemporary Music; e Omer e Jackson encontraram-se no início de 1993 quando excursionavam pela Europa. Os três desenvolveram suas músicas de forma independente, participaram de diversos outros grupos e sempre estavam presentes nas jams do Smalls, um dos palcos principais da nova geração do jazz.

E a proposta do trio é puramente jazz, é uma unidade sólida formada por uma conexão muito criativa, rica de ideias e virtuosismo. A empatia entre os músicos é o ponto forte na interpretação das composições.
Omer assina Yes! e Homeland, Ali Jackson assina Aziel Dance e El Soul e o trio visita Monk (Epistrophy), Abdullah Ibrahim (Maraba Blue), Duke Ellington (The Shepherd) e Eli Degibri (Manic Depressive), este que é outro gigante do sax tenor que desponta na cena jazzistica de Manhattan.

sunnysidezone.com/album/yes

ANDRZEJ PRZYBIELSKI: DE PROFUNDIS

17 maio, 2012

O sopro de Andrzej Przybielski calou em fevereiro de 2011. Talvez ele tenha sido mais um daqueles trompetistas que podemos classificar como underrated.
Andrzej foi um dos protagonistas do jazz na Polonia, sua terra natal, onde nasceu em 1944. Tinha uma visão um tanto radical sobre a arte e a música, em que acreditava ser impossivel ganhar a vida desta forma, ideia que não foi muito tolerada mas que acabou tornando-se realista, mas destacava que dedicação não era um exagero. Odiava ensaios, não tinha a preocupação com o lado profissional de fazer música mas viveu livremente como livre era a música que ele amava e fazia.
Embora tenha iniciado sua carreira em grupos de jazz tradicional, associou-se ao estilo avant-garde, ao free, onde se estabeleceu. Sempre esteve fora da mídia, tanto artística quanto pessoalmente, mas possuia grande conhecimento de música e das técnicas de som e gravação. Um trompetista sempre antenado com o novo e frequentemente participava seu som com os jovens músicos.

Em foco aqui seu último trabalho em companhia dos Oles Brothers, Marcin Oles e Bartlomiej Brat Oles, que já foi assunto aqui. Formação ousada, trompete-contrabaixo-bateria, bem contemporânea.

A resenha abaixo foi extraida do All About Jazz por Jerry D´Souza e reflete perfeitamente a dimensão deste trabalho.

por Jerry D’Souza
publicado em 4 de agosto de 2011
(tradução livre)

A morte do trompetista Andrzej Przybielski em fevereiro de 2011 deixou um rico legado para a música. Seu nome não é muito conhecido fora da Polonia, sua terra natal, mas ele foi um estilista que esculpiu um recanto em váriios gêneros. Podia tocar uma melodia com intenso calor e em seguida mudar totalmente a forma sem sacrificar a essência. Seus conceitos harmônicos foram extraidos de varias fontes e ele os usava com muita habilidade.
Sua união com os irmãos Oles, o contrabaixista Marcin Oles e o baterista Bartlomiej Brat Olés, foi um marco. Juntos, encontraram novos acordes, inovaram, e os desvendaram de maneira criativa em gravações como nos albuns Free-bop (Polonia Records, 2000) e Abstract (NotTwo Records, 2005).
De Profundis (Fenommedia, 2011) é uma outra colaboração do trio e mais uma vez é uma viagem que engloba o blues, o bop e um monte de abordagens livres.

Improvisação é o coração do jazz e Przybielski e os irmãos Oles provam isso nas duas versões que dão nome ao album, cada tema é um testamento a empatia coletiva do grupo e de como inserir modos distintos na composição.
A primeira versão abre com se uivasse o  trompete antes de encontrar o hard bop. Przybielski coloca suas notas com amplitude, como se o espaço fosse linear porém fragmentado.  Os irmãos Oles fazem uma condução das mais dificeis, suingando com um ritmo expressivo e com seu próprio senso de tempo, pulsante e aventureiro. Aqui, tambem, eles são a artéria conforme a música flui, são tanto a base para Przybielski como quando estão envolvidos em uma conversação própria entre contrabaixo e bateria.
A segunda versão é quase três minutos mais longa e encontra um clima mais tranquilo. A abordagem é mais livre, cresce gradualmente e é envolvida pela percussão, pelo arco do contrabaixo e pelas calmas ondas do trompete. Przybielski logo torna-se incisivo e se entrega a uma liberdade irrestrita e o contrabaixista Marcin Oles encontra a enseada de uma melodia assombrosamente bela. É como uma dose potente que se bebe profundamente.
Se esses temas fazem transparecer a alma, Afroblue faz a alma cantar em exultação como se o trio se entregasse a sua própria eloquência. A impressão é memoravel sobre a forma como eles montam o tempo e o ritmo, infiltrando atmosferas sobre o funk, o bop e a base do blues.
A interação entre Przybielski e os irmãos Oles é impressionante, alegre e rica em conceito e inovação.

BOURBON FESTIVAL PARATY 2012


Mais uma edição do Bourbon Festival Paraty, que acontecerá entre os dias 1 e 3 de junho.
O festival chega em sua quarta edição e já é parte do calendário junino e que sempre antecipa o festival de Rio das Ostras.

Mas este ano alguns destaques muito especiais em Paraty, o trombonista Delfeayo Marsalis, não só por ser um Marsalis, mas por ser um dos grandes instrumentistas do jazz contemporâneo e que provavelmente deve trazer também o baterista Jason Marsalis.

Roy Rogers é a atração principal do Blues no festival mas são imperdiveis as apresentações do pianista americano Donny Nichilo, do guitarrista André Cristovam e do gaitista Vasco Faé, estes que estarão representando muito bem o Blues nacional.
Ainda em destaque o trompetista de New Orleans Shamarr Allen, o Duofel e a São Paulo Ska Jazz.




Programação -

1 de junho, sexta-feira
Palco da Matriz
   21:30hs : Cynthia Girtley
   23hs : Delfeayo Marsalis
   0:30hs : Reverendo Franklin

2 de junho, sábado
Palco Porto
   11hs : Vasco Faé
Palco S. Rita
   16hs : Honey Larochelle & Erica Dee
   17:30hs : Donny Nichilo
Palco Matriz
   21:30hs : Roy Rogers & Delta Rhythm Kings
   23hs : São Paulo Ska Jazz & Fernanda Porto
   0:30hs : Shamarr Allen & The Underdawgs

3 de junho, domingo
Palco Porto
   11h : Vasco Faé
Palco Santa Rita
   16hs :  Duofel
   17:30hs :  Andre Christovam & Cassio Poletto
Palco Matriz
   20:30hs : Leroy Jones Quintet & Yolanda Windsay
   21:30hs : Yael Naim
   23hs : Zelia Duncan

E ainda a Orleans Street Band e os Buskers, que estarão circulando pelas ruas de Paraty com o som de New Orleans.

Nas noites de sexta e sábado após os shows rola som com DJ Crizz.

Mais informações em  http://www.bourbonfestivalparaty.com.br/

FESTIVAL JAZZ & BLUES - NO IMPROVISO APRESENTA ARI BORGER

16 maio, 2012
Ari Borger é a próxima atração do Festival Jazz & Blues - No Improviso que acontece em Curitiba no Teatro Bom Jesus entre os dias 25 e 27 de maio.
Na noite de abertura uma super jam com a Luther College Jazz Orchestra com Ari Borger como convidado e haverá ainda uma apresentação dele com seu quarteto e um workshop.

A Luther College Jazz Orchestra é de Iowa (EUA) e representa sua universidade de música que é composta por coros, orquestras e grupos de jazz e tem aproxidamente mil estudantes de música. E o Brasil tornou-se parte da turnê internacional do grupo que inclui ainda República Dominicana e Porto Rico.

Ari Borger é um dos poucos especialistas no Hammond aqui em nossa terra. Seu som carrega fortemente a linguagem do blues e do jazz-funk predominante nos anos 60 e tem uma super banda com ele formada por Celso Salim guitarra, Marcos Kliss contrabaixo e Humberto Zigler bateria.
E nesta apresentação, Ari Borger celebrará os 20 anos de carreira com o lançamento do seu quarto disco, Back to the Blues (ST2 Music), previsto para junho e o festival será uma premiére deste trabalho.

Programação -

25 de maio, sexta-feira, 20:30hs
     Jam com Luther College Orchestra e Ari Borger
26 de maio, sábado, 20:30hs
     Ari Borger Quarteto
27 de maio, domingo, 16hs
     Workshop com Ari Borger

O Teatro Bom Jesus fica na Rua 24 de Maio 135, Curitiba.

BUDDY GUY NO VIVO RIO : TOUR 2012

13 maio, 2012
Wait a minute! Wait a minute!

Aos 75 anos, Buddy Guy mostrou que ainda está em plena forma. E com o mesmo jeitão de quando o assisti nos anos 90 no extinto teatro do Hotel Nacional (ele já esteve aqui outras vezes depois).

Um Vivo Rio cheio para assistir a um dos ícones do Blues.

Na abertura, o fantástico Artur Menezes, que esquentou o ambiente apesar de iniciar antes do horário impresso nos ingressos.
Quem chegou mais cedo viu este garoto que representa a nova geração do Blues nacional.
E mostrou que sabe muito de guitarra e com uma forte presença de palco.
Abraçado com uma 335, interpretou em cerca de 40 minutos temas do seu primeiro disco, Early to Marry, alguns novos temas que farão parte do seu novo disco e mostrou a fusão do Blues com nossa música regional. Lógico que não faltaram clássicos como Messin´ with the Kid e o estonteante R&B de Solomon Burke Everybody Needs Somebody.

E veio Buddy Guy cheio de energia e bom humor. Ele realmente sabe conquistar a plateia e mostrou pleno domínio da Fender, que ele abraçou durante todo o show abrindo uma única exceção para uma synth guitar na interpretação de Skin Deep.
E abriu o show com um tema de 23 minutos no qual incorporou o clássico Hoochie Coochie Man (Dixon), dando também um super espaço para seu guitarrista base, Ric Hall. Seguiu com mais um clássico I Just Want To Make Love To You (Dixon) e ainda deu uma aulinha de Blues, reforçando o berço no Mississipi e fez referência a John Lee Hooker com o tema Boom Boom. Apresentou seu último album tocando 74 Years Young, contagiou o público que cantou junto Someone Else is Steppin' in, tocou uma extensa versão de Fever e fez algumas celebrações citando Sunshine of Your Love (Cream), Voodoo Chile (Hendrix) e Miss You (Stones).

Como tradição dos músicos de Chicago, partiu para a galera e circulou pelas mesas do Vivo Rio, mas o público parece que não entendeu e foi uma certa aglomeração meio sem sentido e uma invasão generalizada na parte frontal do palco, mas a segurança da casa dispersou rapidamente após seu retorno. Um pouco pior quando resolveu distribuir palhetas no final do show, o que realmente não deu certo, teve gente até querendo invadir o palco a qualquer custo. Enfim, sorte a minha que num desses vôos de palhetas caiu uma do meu lado e na maior tranquilidade a coloquei no bolso.

Cerca de 1h30 de apresentação, mas faltou alguma coisa.
Valeu por ser Buddy Guy !

BLUES MUSIC AWARDS 2012, A PREMIAÇÃO DO BLUES

12 maio, 2012
A premiação do 33 Blues Music Awards ocorreu na última quinta-feira, 10 de maio, no Cook Convention Center em Memphis.

Tab Benoit, Tedeschi Trucks Band e Charlie Musselwhite foram os destaques desta edição.

Segue a lista completa dos vencedores, por categoria -

Acoustic Album : Conversations in Blue, David Maxwell & Otis Spann
Acoustic Artist : Eric Bibb
Album : Revelator, Tedeschi Trucks Band
B.B. King Entertainer : Tab Benoit
Band : Tedeschi Trucks Band
Best New Artist Debut : Runaway, Samantha Fish
Contemporary Blues Album : Medicine, Tab Benoit
Contemporary Blues Female Artist : Susan Tedeschi
Contemporary Blues Male Artist : Tab Benoit
DVD : Live at Antone's, Ruthie Foster (Blue Corn)
Gibson Guitar Award : Derek Trucks
Historical Album : Chess Records Smokestack Lightning, The Complete Chess Masters 1951-1960 (Howlin' Wolf)
Instrumentalist, Bass : Biscuit Miller
Instrumentalist, Drums : Chris Layton
Instrumentalist, Harmonica : Charlie Musselwhite
Instrumentalist, Horn : Terry Hanck
Instrumentalist, Other : Sonny Rhodes, Lap Steel Guitar
Koko Taylor Award (Traditional Blues Female) : Ruthie Foster
Pinetop Perkins Piano Player : Marcia Ball
Rock Blues Album : Dust Bowl, Joe Bonamassa
Song : "The Lord is Waiting, the Devil is Too", Johnny Sansone
Soul Blues Album : Show You a Good Time, Bobby Rush
Soul Blues Female Artist : Denise LaSalle
Soul Blues Male Artist : Curtis Salgado
Traditional Blues Album : Chicago Blues A Living History the (R)evolution Continues
(Billy Boy Arnold, John Primer, Billy Branch, Lurrie Bell, Carlos Johnson)
Traditional Blues Male Artist : Charlie Musselwhite

ARTHUR MAIA, O TEMPO E A MÚSICA


Noite inspirada de Artur Maia no Teatro Rival para o lançamento do seu novo disco, O Tempo e a Música, pelo selo Biscoito Fino.
Com a casa cheia e uma plateia bem antenada, Artur Maia estava bem à vontade, contou muitas histórias e foi acompanhado por uma super banda com Fernando Caneca guitarra, Felipe Martins bateria, Cassio Duarte percussão, Luiz Otavio Paixão piano, Bruno Santos trompete, Rafael Rocha trombone e Marcelo Martins sax, e as participações mais que especiais de Aline Calixto, Sergio Chiavazzoli, William Magalhães e Gilberto Gil.

A abertura com Amazonas (Donato) já prometia um show arrasador. Arthur abraçado a um fretless e a banda num ritmo contagiante; seguiu com uma interpretação de Hey Jude (Beatles) e o choro Abismo de Rosas (Dilermando) em baixo solo, simplesmente belíssimo, com algumas passagens fazendo uso de harmônicos que por um momento lembrou o tema Funchal da sua época com o grupo Cama de Gato.
E Arthur contou um pouco da sua vivência no Clube do Choro em Brasilia, onde passou cerca de quatro anos. E cantou a seresta Labios que Beijei (Orlando Silva) numa levada de baixo e percussão.
O show seguiu com mais histórias, agora sobre o tema Arthur, O Gigante, que foi um presente de  William Magalhães, leia-se Banda Black Rio, escrito em um pedaço de papel quando estavam com os cubanos do grupo Irakere em uma madrugada regada a muito vinho. Teve até uma citação de Brasileirinho em seu improviso.

Arthur reforçou o valor da música instrumental afirmando que é algo que o músico precisa fazer, e que a música brasileira é feita por instrumentistas.
Seguiu o show e aventurou-se nos vocais cantando Alivio, que fez em parceria com Djavan.
E sobe ao palco o primeiro convidado da noite, Sergio Chiavazzoli no bandolim, e o tema Brejeiro (Ernesto Nazare) com um belo improviso ainda com direito a um bom slap.
Arthur chama a voz de Aline Calixto, que nos brindou com mais música de raiz levada em alto estilo, Minha Palhoça (Silvio Caldas) e o sambinha Je Suis La Maria (Dora Lopes), tema resgatado dos anos 40 por Aline em seu disco Flor Morena.

E numa introdução ao próximo convidado da noite, Gilberto Gil, Arthur não poupou elogios a esse mestre da nossa música e falou do seu orgulho em ser integrante do grupo de Gil. Contou mais histórias, lembrando da empolgação do grupo em uma turnê pela Europa quando o tema Expresso 2222 levou 28 minutos. Que maravilha deve ter sido isso.
E esse encontro no Rival foi um momento magistral. Iniciaram com um tema instrumental que Gil dedicou a João Gilberto e que está gravado no disco Quanta (1997). Nesse ponto do show, Sergio Chiavazzoli assume a guitarra e vem ao palco os integrantes da banda de Gil, Claudio Andrade piano e Jorge Gomes bateria. Um tema afro-reggae e fecham com Palco, simplesmente apoteótico.

Segue o show e meio no improviso William Magalhães sobe ao palco e assume os teclados levando a clássica Maria Fumaça da Banda Black Rio. E já eram quase 2 horas de apresentação para um final empolgante com a salsa Muchacha.
Ainda ao final, Arthur apresentou o garoto Michel Pipoquinha, que promete um futuro brilhante como baixista e deu uma bela canja com Arthur assumindo a bateria.

Realmente uma noite memorável para nossa música, em todos os sentidos.
Valeu Arthur !

MORRE MICHAEL BURKS

06 maio, 2012

Michael Burks, o guitarrista de Arkansas conhecido como Iron Man, teve um infarto fulminante e faleceu neste domingo, 6 de maio, no aeroporto de Atlanta no momento em que caminhava para embarcar em um vôo de conexão que o levaria de volta a sua cidade natal.
Michael retornava de uma turnê pela Europa.

Um dos grandes bluesman a quem tive o privilégio de assistir na edição de 2011 do Tampa Bay Blues Festival.
De familia musical, o avô tocava Delta Blues e o pai era baixista, aos dois anos de idade já tinha a guitarra pendurada nos braços e teve no pai um grande incentivador e professor.

Um grande músico que ganhou reputação e passou a fazer parte do catálogo da Alligator Records onde gravou 3 discos - Make It Rain (2001), I Smell Smoke (2003) e Iron Man (2008).
Burks foi premiado em 2004 como Melhor Guitarrista pela Critics' Award da Living Blues Magazine e recebeu uma nomeação neste ano de 2012 na categoria Gibson Guitar Award pela Blues Music Award.

Uma grande perda para o Blues contemporâneo.

Michael Burks : 1957-2012

A LINGUAGEM SECRETA QUE HÁ NOS GESTOS DOS MAESTROS

02 maio, 2012

Gestos valem mais que 1000 palavras.
Estudos afirmam que os movimentos corporais representam 55% da comunicação, 38% a maneira e o tom da voz e apenas 7% as palavras.

E se analisarmos a linguagem dos maestros ?!
O quanto de técnica se expressa em sua comunicação com os músicos, a vibração, as expressões ?!

Uma interessante matéria publicada na Folha, extraída do NY Times, retrata o universo dos movimentos de um maestro em sintonia com os músicos durante uma regência.
(tradução de Clara Allain)

(a imagem é uma representação gráfica feita na Universidade de Nova York que registra movimentos do maestro Alan Gilbert)

por Daniel J. Wakin
NY Times

Braços esculpem o ar. Uma mão se fecha. Um dedo indicador se projeta. O torso oscila para frente e para trás. E, não se sabe como, música jorra em resposta a essa dança misteriosa no pódio, música coordenada com precisão e emocionalmente expressiva.
O público dos concertos sintoniza os ouvidos na orquestra e invariavelmente fixa os olhos no regente. Mas mesmo o ouvinte mais experiente pode não ter consciência da conexão sutil e profunda entre a sinfonia de movimentos do maestro e a música que emana dos instrumentistas.
Assim, num esforço para compreender o que acontece, entrevistamos sete regentes que passaram por Nova York em temporadas recentes, procurando decompor os movimentos em partes do corpo mão esquerda, mão direita, rosto, olhos, pulmões e, o mais indefinível, cérebro.

O objetivo fundamental do regente é infundir vida a uma partitura escrita, através do estudo, de sua personalidade e sua formação musical. Mas ele demonstra o sentido da música por meio de seus movimentos corporais.
Imagine-se tentando falar com alguém em uma língua totalmente desconhecida por você. Se quisesse expressar algo a essa pessoa sem recorrer à linguagem, como você faria?, disse o regente britânico Harry Bicket.
É isso o que fazemos, na realidade.

Cada regente usa um estilo singular, mas todos querem arrancar dos músicos a performance mais grandiosa possível. Portanto, nossa decomposição do gestual traz algumas generalizações inerentes.
É preciso lembrar que a arte de reger não se limita a gestos semafóricos. É uma dança em compasso de dois tempos, envolvendo corpo e alma, gestos físicos e personalidade musical. Um regente com o maior domínio técnico do mundo pode produzir performances insossas. Outro, que faça gestos aparentemente incompreensíveis, é capaz de gerar transcendência.
Você pode fazer tudo certinho e não criar absolutamente nada interessante, comentou James Conlon, diretor musical da Los Angeles Opera. E pode ser enigmático, mas produzir resultados.

Mão Direita
Tradicionalmente (pelo menos para os destros), a mão direita segura a batuta e marca o pulso. Ela controla o tempo e indica quantas batidas ocorrem em um compasso. A batuta geralmente assinala o início de um compasso com um movimento para baixo (o downbeat). Um movimento para cima (upbeat) é a preparação para o downbeat.
Os manuais de regência dizem que o upbeat e o downbeat devem levar o mesmo tempo e que o intervalo deve ser igual ao comprimento da batida. O upbeat é a preparação para qualquer evento, disse Alan Gilbert, diretor musical da Filarmônica de Nova York.
É crucial definir o tempo certo para uma frase musical. Ninguém menos que o compositor Richard Wagner (1813-83), que também foi um dos primeiros maestros modernos, disse que o dever do regente está contido em sua capacidade de sempre indicar o tempo correto.

Mas um regente não é um metrônomo de casaca. Um dos grandes equívocos em relação ao que os regentes fazem é a ideia de que eles ficam lá, marcando o tempo, disse Bicket. A maioria das orquestras não precisa de ninguém marcando o tempo.
A batuta também pode moldar o som. A natureza do downbeat abrupta, delicada transmite à orquestra que tipo de caráter deve conferir ao som que vai produzir. A batuta pode suavizar fraseados agitados, realizando o movimento de modo mais abrangente.
Um gesto mais horizontal pode pedir uma qualidade mais lírica, disse James DePreist, ex-diretor de estudos orquestrais e de regência da Juilliard School. Um gesto para baixo que imite um movimento de arco de violino, disse Bicket, pode colorir o ataque. De acordo com Gilbert, mesmo quando marca o tempo em notas longas, o regente deve procurar comunicar a qualidade sonora que busca, por meio do movimento da batuta.

Predecessor de DePreist em Juilliard, o professor de regência Jean Morel, ensinava que a mão e o pulso direito devem ser totalmente autossuficientes, segundo James Conlon, um de seus alunos; devem marcar o tempo, a expressão, a articulação e o caráter para que você possa então aplicar a mão esquerda e reter conforme deseja.
Xian Zhang, que é mestre em esculpir uma linha musical com sua batuta, demonstrou isso quando ensaiava a Sinfonia Concertante para Violino e Viola de Mozart com uma orquestra de estudantes na Juilliard School.

O movimento de sua batuta correspondia estreitamente ao caráter da música, delicado nas passagens suaves, pequeno para acompanhar as cordas, maior para uma melodia de trompa e oboé. Os gestos de seus braços ficavam amplos nas frases vigorosas. Em alguns momentos, os gestos de elevação da batuta pareciam literalmente arrancar os sons.
Alguns regentes preferem não usar a batuta em alguns momentos ou o tempo todo.
Yannick Nézet-Séguin, que a partir de setembro será o diretor musical da Orquestra da Filadélfia, é um deles. Sua formação se deu principalmente em corais, nos quais raramente se emprega a batuta.
As mãos estão ali para descrever um certo espaço do som e moldar aquele material imaginário, disse Nézet-Séguin. Aquele corpo imaginário de som está em frente ao maestro, entre o peito e as mãos, ele explicou. É mais fácil quando não há nada em uma mão. Ele começou a usar batuta quando começou a atuar como regente convidado de grandes orquestras, que estavam acostumadas com isso.

Valery Gergiev é outro maestro que frequentemente não usa batuta. Sua técnica foi evidenciada num ensaio da London Symphony Orchestra, no Avery Fisher Hall, preparando uma apresentação da Sinfonia nº 3 de Mahler.
Gergiev ficou sentado numa cadeira, de modo geral imóvel. Quase toda a ação vinha de sua mão direita, que em muitos momentos estava plana, com o polegar paralelo, como as mandíbulas de um jacaré. Sua mão esquerda fazia pouco, mas era usada ocasionalmente para apontar e encerrar acordes.
Gergiev não marca o tempo com sua mão direita, exatamente, mas mexe os dedos no ritmo da música. Seus dedos geralmente estavam esticados, com as palmas para baixo, o pulso voltado para cima na altura de seu rosto. Às vezes ele formava um círculo de ok com o polegar e o indicador e mexia os outros três dedos. À medida que o tempo acelerava, seu pulso ficava mais mole.
Em entrevista, Gergiev sugeriu que o balançar de sua mão, que descreveu como sendo um hábito, pode ter derivado do fato de ele tocar piano. Sou pianista, e às vezes eu toco a textura, explicou.
Ele disse ainda que uma batuta pode se contrapor a um som de canto. O mais difícil na regência é fazer a orquestra cantar, e é aqui que as duas mãos precisam basicamente ajudar os instrumentistas de sopros ou cordas a cantar.
Gergiev disse que movimentar uma batuta no ar é como praticar esgrima: Não acho que isso ajude o som.

Mão Esquerda
Tendo entregado as incumbências rítmicas à mão direita, a mão esquerda tem finalidade bem mais maleável. Para explicar em termos grosseiros, se a mão direita esboça os contornos gerais da pintura, a esquerda preenche as cores e texturas.
A mão direita cria a casca de chocolate do bombom, e a mão esquerda molda o recheio. Sua principal utilidade prática é dar deixas aos naipes ou músicos individuais sobre quando entrar e quando cortar, o que faz muitas vezes com dedo indicador apontado.
Se a mão esquerda se fecha ou o polegar e os dedos se fecham, isso pode fazer a frase musical encerrar-se suavemente. Um movimento rápido para baixo indica um corte abrupto no som.

James DePreist descreveu os gestos de mão esquerda às vezes inexplicáveis de outros regentes. William Steinberg costumava esfregar os dedos, como no gesto usado universalmente como símbolo de dinheiro. Antal Dorati fazia movimentos de empurrar abruptamente, como se estivesse fazendo uma bola de som subir e ficar boiando no ar. Eugene Ormandy muitas vezes mantinha a mão esquerda segurando a lapela da casaca, enquanto a Philadelphia Orchestra produzia cascatas de sons, observou DePreist.
Nézet-Séguin é um dos regentes mais expressivos fisicamente, em razão de sua baixa estatura, disse ele. Sua mão esquerda se movimenta constantemente. Ele contou que procura mantê-la em posição lateral em relação à orquestra, para que sua região palmar anterior não seja vista pelos músicos como uma barreira simbólica.
Em outro ensaio na Juilliard, Nézet-Séguin indicou entradas fazendo um círculo de ok ou abrindo seu dedo indicador, para assinalar um ataque mais leve. Um dedo indicador que se eleva com cada batida indicava mais volume.
Nos acordes de alto volume, ele colocava a mão em forma de concha voltada para cima. Uma mão em forma de concha voltada para baixo pedia uma linha sonora sustentada. Acordes marciais retumbantes eram assinalados por uma mão em punho.
A mão plana, com a palma para baixo, pedia um som sustentado e suave. Entradas repetidas eram assinaladas por movimentos como tiros de revólver.
Gilbert observa que não é preciso dizer a músicos profissionais em que momento de um compasso eles devem entrar. Ele frequentemente se prepara para dar a deixa a um músico, olhando para ele antes da hora, para criar uma conexão com ele e intensificar a energia. O objetivo de uma deixa é fazer com que as pessoas entrem na hora certa e do modo certo, dentro do fluxo, disse Gilbert.

Rosto
Depois dos braços, a parte mais importante do arsenal do maestro é seu rosto. Sinto como se meu rosto cantasse com a música, disse Nézet-Séguin. Comunicar-se com os músicos por um olhar pode tranquilizá-los e encorajá-los. Por outro lado, alguns regentes, como Fritz Reiner, não mudam de expressão, mas suas gravações são completamente eletrizantes, afirmou Bicket. Manter-se inexpressivo também pode beneficiar a moral dos músicos.
Demonstrar sua frustração ou seu desagrado na expressão facial é algo que não ajuda ninguém, disse Bicket. Mas sobrancelhas erguidas podem ser maneiras sutis de transmitir insatisfação. O rosto se torna ainda mais importante quando as mãos estão ocupadas com outra coisa, como, por exemplo, quando um regente toca um teclado simultaneamente, prática comum de especialistas em música antiga, como Bicket.
Os próprios olhos são o mais importante de tudo quando se rege, disse Zhang. Eles devem ser o que mais revela a intenção musical. Os olhos são as janelas do coração. Eles mostram o que você sente em relação à música.
Um semicerrar dos olhos, por exemplo, pode conferir à música uma qualidade distante, disse DePreist. Um truque para criar um bom som orquestral é olhar para os músicos nos fundos da seção de cordas. Com isso, você faz com que eles sejam incluídos no jogo, disse Nézet-Séguin.
Gergiev utiliza a mesma técnica com os músicos sentados ao fundo. O fato de olhar para ele significa que estou interessado nele. Se estou interessado nele, ele está interessado em mim. Certo? Procuro fazer tudo a partir da expressão e do contato visual.
Às vezes é igualmente importante não olhar para os músicos, especialmente durante solos importantes. Essa é uma parte grande dos segredos de regência que não costumam ser verbalizados, disse Zhang. Isso pode evitar que o músico ceda ao nervosismo.
E existe um ou outro caso raro do maestro que rege com os olhos fechados e produz grandes performances, como muitas vezes fez Herbert von Karajan.

Leonard Bernstein foi um dos regentes mais expressivos fisicamente dos tempos modernos, fato que, às vezes, atraía o desprezo dos críticos. Mas também era capaz de reger com as mais sutis expressões faciais, conforme foi evidenciado por um vídeo clássico no YouTube em que suas sobrancelhas dançam, seus lábios se comprimem e seus olhos se arregalam.

Costas
Nézet-Séguin disse que tomou consciência da postura das costas ao assistir a videoteipes de Karajan. Na época, Nézet-Séguin trabalhava com Carlo Maria Giulini. A diferença principal entre o som de um e outro se devia às atitudes humanas deles, que eram expressas por suas costas, disse ele. A postura básica de Karajan era muito orgulhosa, com os ombros para trás e atitude de estar no comando.
É a atitude de alguém que espera que as coisas venham a ele. Para Nézet-Seguin, essa qualidade podia ser fria, majestosa, distante.
Mas o magrelo Giulini se debruçava para frente assim que a música começava, num gesto de aproximar-se das pessoas, de lhes dar alguma coisa, de servir.
É uma linguagem corporal muito reveladora, disse o regente, e estava relacionada às interpretações calorosas de Giulini.
Zhang costuma debruçar-se para frente para arrancar mais intensidade da orquestra. Às vezes, inclina-se para trás para fazer com que os músicos toquem mais suavemente. Ou então se inclina para frente para cobrir o som, disse ela, como quem apaga um incêndio.

Pulmões
Os regentes muitas vezes falam da importância da respiração: de inalar junto com o upbeat, para preparar para uma entrada, mais ou menos como um cantor inala antes de começar a cantar. As cordas precisam ser incentivadas a respirar, disse Nézet-Séguin, tanto quanto os instrumentos de sopros. Isso torna a coisa toda mais natural.

Para Bicket, respirar junto quando ele rege é uma necessidade. Se suas mãos estão ocupadas de outro modo, tocando cravo ou órgão, sua deixa para as entradas muitas vezes é uma respiração audível. A natureza dessa respiração pode afetar a música. Uma inalação forte e aguda gera um som mais nítido e destacado.

Cérebro
Nas entrevistas, os regentes deixaram claro que, para eles, os movimentos corporais são menos importantes que a preparação mental e as ideias musicais que residem em outra parte do corpo: o cérebro. Os regentes precisam até certo ponto não ter consciência do que estão fazendo com seu corpo, disse Nézet-Séguin.
Ele disse ainda que Giulini ensinava que a clareza de um gesto vem da clareza de sua mente. A confusão decorre daquela fração de segundo de hesitação, em que a mente está decidindo qual gesto usar.
Zhang utiliza uma técnica adotada de seu mentor, Lorin Maazel: Uma projeção mental. Uma imagem mental clara do som que você quer ouvir permite uma entrada clara. Projetar mentalmente o pulso e o som, ela acrescentou, comanda nossas próprias mãos.

Como disse Conlon: Poderíamos discutir gestos e posturas físicas interminavelmente, mas, em última análise, há um elemento impalpável e carismático que pesa mais que tudo isso. Até hoje ninguém conseguiu enquadrar esse elemento. Graças a Deus.