CARLOS CAFÉ APRESENTA BAGAGEM CÓDIGO BLUES

28 junho, 2012
A nossa guitarra blues mantém-se em alta.
Apesar da pouca divulgação ou mesmo falta de interesse das mídias mais expressivas em divulgar o estilo, o público é fiel e os palcos estão voltando a saciar a sede de drives e bends calorosos.
Vários lançamentos vem surgindo e mostrando fôlego, sejam com composições autorais ou com interpretações de clássicos.

Aqui o guitarrista Carlos Café apresenta Bagagem Código Blues, lançado de forma independente pela Café&Café Produções Artísticas.

Café tem estrada, são mais de 30 anos de palco mostrando que blues é coisa séria. Músico, professor e diretor musical, teve sua formação no CIGAM, escola de música fundada por Ian Guest, e no GIT (Guitar Institute of Technology) na California. Como mestre, criou sua própria metodologia didática com enfoque em improvisação, que se aplica a qualquer estilo musical.
Seu primeiro disco lançado em 2009 intitulou-se "Carlos Café & Os Mestres do Blues", em que interpreta clássicos do estilo em reverência àqueles mestres que sempre o influenciaram. Participaram deste trabalho o contrabaixista Dôdo Ferreira, o baterista Guto Goffi e o guitarrista Big Gilson.
"Bagagem Código Blues" é um projeto de retrata suas experiências musicais. São 8 composições autorais e 3 interpretações incluindo Blackjack (Ray Charles), Bluesman (BB King) e um clássico da nossa música popular Faltando um Pedaço (Djavan) em uma forma instrumental e com atmosfera bem bluesy.
Neste projeto, Café conta com a participação de vários músicos, entre eles Renato Rocha, Fabio Brasil, Guto Goffi, Gil Eduardo, Mimi Lessa, Pedro Leão, Luciano Lopes, Pedro Peres e sua esposa e tecladista Fafá.

Com a palavra, Carlos Café  -

GC: Muitos anos de estrada e o caminho sempre é longo. Como começou sua história com a guitarra?
CC: Minha historia com a guitarra começou quando eu tinha mais ou menos uns 15 anos, vendo na televisão Led Zeppelin, Hendrix, Johnny Winter, Rory Gallagher e toda essa geração dos anos 60 e 70 que tinha no blues a sua principal matriz criativa. A programação do radio também era muito estimulante. Nessa época se produzia aqui no Brasil um música riquíssima em qualidade e diversidade.
Nunca me intimidei com aqueles "amigos" que diziam - "isso é muito difícil", "voce nunca vai tocar como esses caras"; esse tipo de comentários. Eu sempre soube que eu iria conseguir. Claro, tinha aquele sonho de ser o melhor do mundo, mas isso é coisa de criança. Tenho uma dívida eterna com meus pacientes vizinhos que, no processo, foram expostos a todos os tipos de ruídos que, para mim, sempre foram a música mais lírica e profunda, principalmente quando eu comprei o meu primeiro pedal de distorção. Coitados ...
Mas sempre fui disciplinado e evoluí rápido. Naquela época era muito difícil achar material de estudo, não tinha internet, youtube, etc. Era na base da insistencia, dedução, bom senso e dicas de amigos que a gente ia se aperfeiçoando. Para desespero de meus vizinhos o processo foi um pouco mais longo do que seria hoje em dia.

GC: Hendrix, Dixon, B.B. King e Stevie Ray Vaughan são reverenciados no seu primeiro CD, assim como o soul de Wilson Picket e o compositor George Gershwin, que inspirou tantos standards no jazz. Como o rock, o blues e o jazz influenciam sua música?
CC: O meu primeiro CD foi um tributo à essencia do que há de mais puro e fundamental na minha música. Quando voce compõe, trabalha, principalmente, com as suas emoções arquivadas de coisas que ouviu e te marcaram. O rock e o blues, para mim, sempre estiveram ligados. Tudo que eu gostava de rock tinha uma clara raiz no blues. Inclusive eu fui conhecendo e gostando do blues de Chicago pelas releituras dos músicos de rock. E depois de conhecer BB King e Buddy Guy fui ficando cada vez mais apaixonado por esse estilo. O jazz aparece posteriormente quando tive oportunidade de me aprofundar em meus estudos de improvisação, harmonia e arranjo. Mas, no final, tudo "se embola".

GC: Voce também mostra uma pegada bem rock na guitarra. Há uma geração que mantém essa chama da guitarra blues-rock acesa nas mãos de Jonny Lang, Kenny Wayne Sheppard e Joe Bonamassa, citando os mais expressivos. A formação de um músico assim leva tempo. 
Você é um saudoso do rock clássico dos 70?  
CC: Totalmente !!! O punk rock foi um corte desnecessário na história da música. Tem uma ou duas gerações que quase não tiveram oportunidade de ouvir um belo solo de guitarra. Com a internet isso está mudando um pouco, mas isso pesa na formação de vários músicos dessa geração. Essas primeiras influências são fundamentais na formação do gosto musical, seja músico ou não. Dou aulas de guitarra há muito tempo e sei bem do que estou falando.

GC: Bagagem Código Blues. Como surgiu a ideia deste novo disco?
CC: O primeiro, Carlos Café & Os Mestres do Blues, como eu disse, foi um tributo às minhas raízes. Fiz várias releituras de clássicos e quatro composições minhas homenageando os meus mestres. O Bagagem Código Blues já é um painel do que eu andei vivendo e tocando ao longo da minha vida, mostrando um pouco de minha bagagem acumulada. São oito composições próprias e tres releituras. Queria contar um pouco mais de minha história pessoal e musical. As letras falam de vivências, de personagens, de idéias e observações pessoais. A música e as letras são simples e diretas. Acho que a maturidade traz a simplicidade.
Queria aproveitar a oportunidade para agradecer aos músicos que participaram da gravação do Bagagem Código Blues - Renato Rocha, Guto Goffi, Fabio Brasil, Gil Eduardo, Fafá, Pedro Peres, Pedro Leão, Mimi Lessa e Luciano Lopes.

GC: Fale um pouco do grupo que o acompanha. 
CC: Eu sempre gostei de trabalhar com uma banda fixa. Com uma formação constante voce constrói uma sonoridade orgânica e única. A banda "viaja junto comigo", não fica só acompanhando.
Nos teclados a Fafá, minha esposa, faz um trabalho de base excepcional. Simples e essencial. Trabalhar em power trio traz grandes limitações, principalmente quando se toca músicas mais lentas. Ela já me acompanhou como percussionista em outra formação e no início dessa nova fase como violonista também.
No baixo, Pedro Peres, já trabalha comigo desde o primeiro CD, há mais ou menos cinco anos. É um músico preciso, confiável e muito generoso. Grande parceiro! Gravou a maioria das faixas do disco.
Tenho que citar Pedro Leão também. Grande baixista, substitui Pedro Peres algumas vezes e gravou tres faixas no CD - Vivendo e Aprendendo, Dedo no Olho Não Vale e Noite Fria.
Na bateria tivemos diferentes participações. Durante algum tempo Gil Eduardo foi nosso batera, excelente vibe nos shows. Ele gravou três faixas no CD - Blackjack, Blues Man e Canto o meu Blues. Depois tocamos com Élcio Cáfaro, Cássio Acioly e meu amigo Guto Goffi, respectivamente.
Tenho um trabalho paralelo com o Guto, no quinteto Guto Goffi, de música instrumental. Ele participou ativamente das gravações dos meus dois discos. No primeiro gravou todas as bateras e neste participou em Blues pro Raul e um outro tema que acabou ficando fora por problemas com a editora.
Para esse novo CD quero um novo parceiro fixo para a bateria. Estamos começando um trabalho com um jovem batera, Rui Lessa. Estamos no início do processo, mas os resultados são bastante promissores.

GC: Você faz todos os arranjos?
CC: Sim, os arranjos são meus. Gosto de construir a estrutura base das músicas primeiro. Depois a banda vai "interferindo" naturalmente, cada um com sua pegada, mas sem nunca perder a idéia central. Vamos conversando e maturando a sonoridade nos ensaios. Daí a importância de uma banda fixa.

GC: Quais equipamentos você usa no disco?
CC: As guitarras foram várias. São todas modificadas ou montadas por mim, tem características bem distintas. São elas :
-  uma Fender Strato 74 com captadores Fender vintage noiseless; uma Telecaster Squier bem modificada, com ponte Gotoh e captadores Fender Custom Shop; uma Strato montada por mim com captadores Fender Texas Blues e Seymour Duncan Lipstick na posição middle; uma híbrida Strato/Tele com captadores Seymour Duncan; uma 87X com corpo de Strato esculpida por mim em 1987 e com captadores humbucker Seymour Duncan Custom e Bill Lawrence.
-  amplificadores Peavey Classic 30; Fender Hot Rod de Luxe; Pedrone 5F4 (feito sob minhas especificações);
-  falantes Jensen P12N; Jensen C12N; Weber Vintage 12F150;
-  pedais Fulltone Fulldrive II; Fulltone OCD Overdrive; Compressor Boss Pro CL 50; Option 5 Destination Delay X2; MXR Eq M108;
-  slides de latão e vidro da Jim Dunlop;
-  microfones Shure SM 57 e Shure Beta 57.

GC: Em shows, o que costuma usar?
CC: Atualmente em shows uso uma pedaleira com o Fulldrive II, Eq da MXR, Delay Option 5, Fulltone Catalyst, pedal de volume Morley e um Compressor MXR Custom Comp.
Mas essa configuração muda frequentemente.

GC: Com o avanço tecnológico e a facilidade para criação musical em estúdios caseiros, o mercado fonográfico tornou-se muito restrito em razão das mídias digitais. Considero o registro em CD ainda importante, pelos créditos e pela ilustração gráfica. 
Ainda é uma forma de divulgação eficiente, apesar dos meios jornalísticos tradicionais não darem o devido valor?  
CC : O CD continua uma forma bastante eficiente de divulgação, principalmente para contratantes. Penso o CD como um "cartão de visitas de luxo". E também como uma forma do público ficar com uma recordação de um bom momento. Vendo muitos CD após os shows.
Acho que o pouco espaço que os meios jornalísticos tradicionais dão aos CD é reflexo direto da crise das grandes gravadoras. Havia um circuito direto das "majors" para os jornais e grandes meios de divulgação para os seus lançamentos. Com a crise, esse elo está quebrado e acho que a grande mídia ainda não se deu conta da grande e diversa produção artística que temos por aqui.

GC: Voce é professor de guitarra. A relação passional de quem tem esse dom de tocar é algo impressionante. Geralmente os aprendizes estão preocupados com velocidade e em tocar escalas; entendo que o segredo está justamente na harmonia, na colocação pontual das notas e na forte exploração dos licks. O que voce considera importante no desenvolvimento do músico ?
CC: Conhecer profundamente a relação dos acordes com escalas, a estrutura fundamental da música. Com isso, o músico está habilitado a construir seu estilo, sua "voz" no instrumento. Os licks tem sua importância no começo, como uma matriz inicial apenas. O ideal é analisá-los e entender como foram construídos para, posteriormente, incorporar essas idéias como novas palavras a um vocabulário próprio, único.
Eu sempre procuro estimular meus alunos a descobrirem e desenvolverem seu estilo. A técnica vem com o tempo e é moldada pelo próprio estilo do músico. Afinal Música é Arte, Expressão!

GC: Três discos por Carlos Café. 
CC: From the Craddle, Eric Clapton; Captured Live, Johnny Winter; e qualquer um do Led Zeppelin.

Obrigado Carlos Café, e sucesso.

www.carloscafeblues.com.br
Contatos para shows : (21) 9134-3713  e  caferj@terra.com.br

ILHA COMPRIDA BLUES FESTIVAL 2012

divulgação

Mais festivais !

Agora em julho a sétima edição do Ilha Blues Festival, que acontecerá em Ilha Comprida, litoral sul de São Paulo, entre os dias 20 e 22 de julho.

O evento é gratuito e será realizado no Iate Park Hotel.

A programação está muito boa e traz artistas internacionais e nacionais de grande valor.
No elenco internacional, o guitarrista Rip Lee Pryor, o filho de Snooky Pryor; Mud Morganfield, o filho de Muddy Waters; a cantora Deitra Farr, uma das vozes do Blues de Chicago; o guitarrista Tom Hunter; e a harmônica do argentino Nico Smoljan com sua banda Shakedancers representando o estilo do país vizinho; no elenco nacional, nossa cantora número 1 Taryn Szpilman, os guitarristas Igor Prado, Andre Cristovam, Décio Caetano e Faísca, o teclado de Adriano Grineberg, a banda Blues Etilicos e a Arquivo Blues Band.


Programação -

20 de julho, sexta-feira
     21h00 : Arquivo Blues Band e Adriano Grineberg
     22h15 : Taryn Szpilman
     23h30 : Rip Lee Pryor
21 de julho, sábado
     21h00 : Tom Bluesman Hunter
     22h15 : Blues Etílicos
     23h30 : Mud Morganfield e Nico Smoljan & Shakedancers
22 de julho, domingo
     21h00 : Andre Christovam Trio e Faiska
     22h30 : Deitra Farr, Décio Caetano e Igor Prado Band

O Iate Park Hotel fica na Av Sarnambi 100.

Ilha Comprida fica distante 200 km de São Paulo pela Rodovia Régis Bittencourt (BR116) até o trevo de Iguape, seguindo pela Rodovia Casimiro Teixeira SP-222, acesso Iguape-Ilha via Ponte prefeito Laércio Ribeiro; de Curitiba 260 km pela BR116 até o trevo de Pariquera-Açu, pelas Rodovias Ivo Zanella e SP226 até Iguape, acesso Iguape-Ilha via Ponte prefeito Laércio Ribeiro.

POÇOS DE CALDAS JAZZ E BLUES FESTIVAL

divulgação

A quinta edição do Poços de Caldas Jazz e Blues Festival ocorrerá entre os dias 5 e 8 de julho.
Após as quatro primeiras edições e várias outras produções isoladas, a edição deste ano investe no Blues, e foi a vontade do público levar adiante a história do estilo que deu origem ao jazz e ao Rock.
Muito mais que uma opção, uma verdadeira missão !
Apesar da forma mais Blues, o festival continua a difundir a amplitude do conceito Jazz e estará sempre produzindo seus grandes mestres e novos talentos, muitas boas coisas estarão acontecendo, muitas possibilidades vão surgir, mas o Blues... The Blues Is Alright!

O evento será realizado no Espaço Cultura da Urca, na Praça Getúlio Vargas, no Centro, em frente ao Relógio Flora.

Programação -

5 de julho, quinta-feira
     21hs : Luciano Boca & Blues Fellas
     (Troque 1 agasalho ou 1 Kg de alimento por 1 ingresso)
6 de julho, sexta-feira
     20hs : The Headcutters
     22hs : Tom Bluesman Hunter
7 de julho, sábado
     20hs : Alma Thomas
     22hs : Rip Lee Pryor
8 de julho, domingo
     11hs : Jam Session ao ar livre com novos talentos
     (entrada franca)

Ocorrerá um Workshop de Jazz e Blues para guitarra e outros instrumentos com o guitarrista Naná Maran no dia 6 de julho, sexta-feira, às 14hs com entrada franca.

Ingressos : R$ 50 e R$ 25 (meia entrada para estudantes e idosos)
Os pontos de troca de agasalhos e alimentos para o primeiro dia do evento são na GSC Eventos, Rua Prefeito Chagas, 305 sala 308 ou no local do evento na Praça Getúlio Vargas, s/n.

Das principais capitais do Sudeste, Poços de Caldas está distante 243km de São Paulo, 460Km de Belo Horizonte e 470Km do Rio de Janeiro.

Mais informações em http://jazzbluespocosdecaldas.com.br/site/

FESTIVAL JAZZ & BLUES - NO IMPROVISO APRESENTA BADI ASSAD

22 junho, 2012
divulgação

A violonista Badi Assad é a próxima atração do Festival Jazz & Blues - No Improviso que acontece em Curitiba no Teatro Bom Jesus entre os dias 29 de junho e 1 de julho.

Na noite de abertura uma super jam com o arranjador e compositor curitibano Murillo Da Rós, músico da escola clássica e antenado com a música flamenca e o jazz.
Em sua apresentação solo, Badi mostrará um repertório baseado no seu DVD intitulado Badi Assad com outras composições autorais.

Badi é reconhecidamente uma violonista do primeiro time, pioneira na arte vocal percussiva junto com o violão e que também incorpora a dança e cenários performáticos em suas apresentações. Tem 8 discos gravados e um especial ao lado dos guitarristas Larry Coryel e John Abercrombie.
Encerra o festival com um workshop falando sobre as formas diferentes de ouvir e viver a música e sobre como ampliar o horizonte musical dos participantes, experimentando os sons presentes em tudo sempre de forma muito lúdica e acessível. Badi também falará sobre alternativas para a leitura musical, novas ideias de como misturar estilos e como manter a mente aberta para infinitas possibilidades musicais.

Mostras fotográficas com registros de grandes referências dos nomes trabalhados no festival e audição de vinil também fazem parte da programação, que será aberta ao público de 25 de junho a
1 de julho.

Programação -

29 de junho, sexta-feira, 20:30hs :  Jam Session com Badi Assad e Murillo Da Rós (R$ 20 e R$ 10)
30 de junho, sábado, 20:30hs Badi Assad (R$ 30 e R$ 15)
1 de julho, domingo, 16hs :  Workshop com Badi Assad R$ 10 e R$ 5)


O Teatro Bom Jesus fica na Rua 24 de Maio 135, Curitiba.

Ingressos a venda nas Livrarias Curitiba, no site Alô Ingressos e bilheteria do Teatro Bom Jesus.
Mais informações : (41) 2105-4034

Este projeto é realizado com incentivo fiscal por meio da Lei Rouanete tem o apoio do Hospital Pequeno Príncipe.

VANESSA RODRIGUES: GROOVE E ALMA FEMININA NO HAMMOND

18 junho, 2012

Vanessa Rodrigues nasceu em Edmonton, capital da província canadense de Alberta. Começou a tocar piano aos 5 anos e aos 8 se encantou pelo som dos orgãos de tubos. Mas a dificuldade e o acesso restrito ao instrumento a fez ter o piano como instrumento de estudo por um longo tempo.
Teve como base uma forte formação clássica e descobriu o jazz aos 14 anos em um programa chamado Summer Jazz na Universidade de Alberta.
Mudou-se para Montreal em 1996 e graduou-se em Piano na McGill University. Neste período integrou a melhor orquestra de salsa de Montreal chamada Orquestra Pambiche, uma das suas paixões, e formou um super banda funk com 11 componentes chamada Groove Prophecy tocando Hammond e a frente da direção musical. Em 2002 já liderava seu próprio Soul-Jazz Organ Trio e desde então compartilhou palcos com Joey deFrancesco, Kenny Garret, John Abercrombie, Dave Douglas, Doug Riley, Ronnie Cuber e realizou um grande trabalho com o contrabaixista peruano Oscar Stagnaro.

Com 4 discos gravados - Soul Project (2005), Soul Food for Thought (2009), Live at the Rex (2007) e Buckaloose The 270 Sessions (2010), essa moça com cara de menina já é uma das mais talentosas e promissoras instrumentistas no Hammond.

Vanessa hoje é nossa prata da casa. Residindo no Rio de Janeiro, formou um Organ Trio com o acompanhamento luxuoso da guitarra de Ricardo Silveira e a bateria de Rafael Barata, dois músicos da maior expressão da nossa música instrumental.
O trio coloca muito pressão e muito swing em interpretações de Batucada (Marcos Valle), Sundown (Wes), História de Lilly Braus (Edu Lobo) e Canto de Ossanha (Baden), além de standards como Body & Soul.

Apaixonada pela cidade, Vanessa também realiza um trabalho em um projeto social voluntário na Rocinha, ensinando violino e outros instrumentos de cordas para crianças da comunidade.
Uma atitude louvável e empreendedora e que merece todos os elogios.

Vanessa nos conta um pouquinho da sua trajetória musical, suas influências e projetos -

Gustavo Cunha: Voce também toca piano. O que a levou a escolher o Hammond como primeiro instrumento?
Vanessa Rodrigues: Na verdade, foi o órgão Hammond que me escolheu (risos). Sempre gostei do som tão poderoso dos órgãos de igreja, e tambem crescí escutando música de ritmo africano-americano (USA, Caribe, America do Sul). Toquei piano muitos anos, então foi lógico para mim tocar o Hammond com aquela combinação de gostos.

GC : Dos grandes e gigantes instrumentistas do Hammond, entre eles e elas, alguma em particular?
VR: Os primeiros organistas que me influenciaram foram grandes mestres da música Soul e R&B - Chester Thompson e Billy Preston, depois John Medeski (MMW) e Neal Evans (Soulive). O orgão jazz veio depois, com Dr. Lonnie Smith, Brother Jack McDuff, Jimmy Smith e Jimmy McGriff.

GC: Geralmente o Hammond está acompanhado por um grande guitarrista, na formação de Organ Trio. Por que essa interação tão grande entre estes instrumentos?
VR :  Como o grande guitarrista John Abercrombie diz - "guitarra e órgão vão juntos como bolo e sorvete". Acho que nem cabe explicação além disso, é uma mistura gostosíssima de sons.

GC: Seus discos trazem muitos samples, conta com a presença de um DJ, carrega o Funk e traz um pouco do Rap e Hip-hop. Até onde isso influencia na sua música?
VR:  Eu conheço melhor o Funk, o Soul e o R&B no som do Tower of Power, Parliament, James Brown e Earth Wind & Fire do que o mundo de hip-hop, mas sempre gostei do som do DJ Scratch e tambem de Rap. Acho que o toca-discos e a voz usados com jeito de instrumento de percussão, ambos sendo muito característicos da música hip-hop, foram duas das revelações mais interessantes da música popular desde os anos 70. Sou fã de grupos como The Beastie Boys e The Roots, combinações muito legais de bandas de funk ao vivo com rap e aqueles sons de scratch e samples.

GC: Você tem muita empatia com a música latina. Alguma referência na música brasileira?
VR:  Vou falar um momento do meu grande amigo Sacha em Montreal, que é meio brasileiro, e foi importante na minha formação como musicista. Ele tinha um órgão Hammond no porão de casa além de tocar muito tamborim e pandeiro; e a primeira vez que toquei o órgão Hammond foi num ensaio na casa dele. E foi ele que me apresentou a música brasileira. Começar a tocar percussão com ele me deu uma paixão incuravel pela música brasileira e o sonho de algum dia desfilar no
sambódromo com uma bateria tremenda de uma escola de samba. Por 12 anos quis fazer isso e finalmente o ano passado consegui tocar tamborim na bateria da Rocinha no desfile do Carnaval.
Como falei, cresci escutando a música Calypso, e com 15 anos me apaixonei da música Salsa, que toco no piano até hoje com varias bandas, então sempre adorei o ritmo e o som da música latina.

GC: Projetos futuros?
VR:  Neste momento, o trio do Ricardo Silveira é meu foco principal musical aqui no Brasil. Também estou fazendo projetos menores de jazz, samba-jazz e salsa com muitos músicos cariocas maravilhosos com quem tenho a sorte e alegria de trabalhar junto.

GC: 3 discos que você considera especial.
VR:  Dr. Lonnie Smith, Too Damn Hot; Tower of Power, Back to Oakland; e Medeski Martin & Wood, Last Chance to Dance Trance.

www.vanessarodrigues.com/

Obrigado Vanessa, e Sucesso !

ENFIM JAZZ : BMW JAZZ FESTIVAL 2012

14 junho, 2012


O BMW Jazz Festival, em sua segunda edição, já se consolida como nosso principal evento no gênero. E a edição deste ano superou as expectativas e trouxe um elenco de primeira.

Pena que a agenda no Rio de Janeiro não tenha sido tão completa quanto em São Paulo, que teve ainda as presenças do trompetista Ambrose Akinmusire e dos Clayton Brothers e, lógico, uma apresentação gratuita, ao ar livre.



E os acordes comecaram em plena segunda-feira, que podia ter sido estendida para acomodar por mais tempo a apresentação do trio de Chick Corea, Stanley Clarke e Lenny White.
Assistir Corea e Clarke juntos é como a passagem do cometa halley ou um eclipse solar, não é sempre que voce vai ver isso tão de perto e ainda na véspera de Corea completar seus 71 anos, no palco, com direito a um "parabéns pra voce" de um Teatro Oi Casagrande lotado para 1 hora e 40 minutos de apresentação.
E foi a última apresentação do trio nesta turnê e um passeio pelo Return to Forever. Na abertura, três temas de vinte minutos cada iniciando com Sometime Ago/La Fiesta, Light as a Feather e o standard How Deep is the Ocean. Corea muito à vontade e em plena forma, tocou demais. E Clarke, em noite inspirada somente ao contrabaixo acústico, desenvolveu walkings maravilhosos, fez uso do arco, usou o contrabaixo como instrumento percussivo e improvisou absurdos. A interação do trio e espantosa e evidente e Corea respondia aos improvisos de ambos como em um diálogo de velhos amigos. Sensacional !
Ainda teve No Mistery, cujo album homônimo ganhou um Grammy na época (1975), e cujo tema foi intenso; e um suspiro de emoção e surpresa quando interpretaram All Blues. Romantic Warrior fechou a apresentação e, lógico, um bis com 500 Miles High.
Simplesmente espetacular !


A noite seguiu como grupo Ninety Miles e mudou um pouco a onda da noite, mas nem por isso menos espetacular. As noventa milhas que separam Cuba dos EUA, em analogia ao nome do grupo, realmente não são suficientes para mostrar a grandeza da apresentação do quinteto liderado pelo vibrafonista Stefon Harris ao lado de Christian Scott e David Sanchez. O show é muito mais vibrante que o disco e fazem muito bem a proposta de conectar as raizes caribenhas com o jazz. Scott e Sanchez deslocaram-se muito pelo palco e volta e meia pontuavam, a capela, os improvisos de Harris, do pianista Edward Simon, que, alias, improvisou pouco, e do excelente baterista Henry Cole, que deu um show a parte.
Gostei demais.


A noite de terça-feira prometia festa muito funk. E não por menos, os J.B. Horns Maceo Parker, Pee Wee Ellis e Fred Wesley representam a escola do estilo.
Na abertura, Trombone Shorty e sua elétrica banda. Fez 1 hora de apresentação, porém um show frio apresentando temas dos seus discos Backatown (2010) e For True (2011). Levantou o público das cadeiras na interpretação de I Got Woman (Ray) e de forma bem pesada mandou os standards St James Infirmary e Sunny Side of the Street onde levou ao delírio o público sustentando uma nota por alguns minutos com a técnica de respiração circular. Ao final, como é comum em suas apresentações, todos os músicos revezaram nos instrumentos.
Seguiu a noite com a apresentação mais esperada, Maceo Parker. Um verdadeiro showman, bem à vontade, dançando e brincando no palco. Afirmou que o jazz tem muito da alma funky e fez um breve improviso bem ao estilo mainstream em duo com o tecladista Will Boulware simulando um Hammond. Chamou Fred Wesley e Pee Wee Ellis separadamente ao palco e foram suportados por um super banda com o Parliament Rodney Curtis no baixo, o guitarrista Bruno Speight e o excelente Marcus Parker na bateria, filho de Maceo; ainda complementando os metais o trompete de Lee Hogans e dois backing vocals, entre eles a cantora Marta High, que fez parte do grupo original de James Brown.
Pegada funk-soul na veia e que só teve espaço para a balada Children´s World. Voltou para o bis com Let´s Get it On (Gaye) e um medley com Pass the Peas, Soul Power e Get up!.


Quarta-feira enigmática.
Charles Lloyd realmente é um gigante. Que estilo, que elegância, que sopro. Um apresentação memorável.
Ecos de Coltrane soavam com uma solidez impressionante e o pianista Jason Moran realmente "quebrou tudo", está tocando muito; incorporou freneticamente o estilo do piano de Monk e mostrou porquê é um dos pianista mais conceituados desta nova geração. Reuben Rodgers e Eric Harland completaram o quarteto e ambos também tiveram muito espaço para improvisos e nestes momentos Lloyd sempre se recolhia ao canto ou sentava-se no banco ao lado do piano. Largou o tenor pela flauta em um tema e fechou a apresentação com Forest Flower, seu clássico album.
Fiquei impressionado com o que eu ouvi. O show do festival !


E a noite encerrou com Darcy James Argue e sua Big Band Secret Society composta por 18 músicos, entre eles a trompetista Ingrid Jensen e o saxofonista John Ellis, este que esteve por aqui no festival de Ouro Preto acompanhando a guitarrista Kate Schutt.
A Big Band traz uma proposta muito particular, diferentemente do som cerebral da Maria Schneider ou da melodiosa Cinematique Orchestra. Produz uma intensa massa sonora, característica das big bands, e explora algumas tendências contemporâneas com o uso de drive e slide na guitarra e o piano Rodhes. Gostei da proposta do grupo cujo público parece não ter entendido muito visto que muitos deixaram a apresentação antes do final.

JAZZTIMES ELEGE OS MELHORES DISCOS DE SAX TENOR DE TODOS OS TEMPOS

12 junho, 2012
Coluna do Luiz Orlando Carneiro 
JB, 26 de maio

A matéria principal da edição deste mês de junho da Jazz Times tem como título The  Top 50 Tenor Sax Albums of All Time. Segundo o editor da referencial revista, Evan Haga, a ideia surgiu da constatação da importância do instrumento no desenvolvimento  dos diversos estilos de jazz, a partir da década de 1930, e da sua condição de “ícone cultural” desse modo de expressão musical nascido em Nova Orleans, no início do século passado, desenvolvido em Chicago e Nova York, e hoje disseminado pelo mundo todo.
A JT convidou 50 críticos e/ou músicos para a tarefa de nomear de cinco a 10 álbuns (Lps, Cds ou faixas de discos) contendo “grandes performances” que “ajudaram a formar a tradição do saxofone tenor no jazz”.
Feitas as contas, não houve grandes surpresas. Dentre os 10 registros fonográficos que obtiveram mais pontos, seis foram de John Coltrane e Sonny Rollins. O primeiro encabeçou a lista com A love supreme (Impulse, 1965), chegou em terceiro com Giant steps (Atlantic, 1960) e em nono por conta de Crescent (Impulse, 1964). Os álbuns de Rollins com mais citações foram: Saxophone colossus (Prestige, 1956), 2º no cômputo geral; The Bridge (Bluebird, 1962), 7º; Way out west (Contemporary, 1957), 10º.

Os outros quatro saxofonistas tenores que mereceram o mesmo destaque (10 primeiros dos 50 top albums) foram: Coleman Hawkins (4º), por seu solo sobre Body and soul (1939), hoje constante de uma compilação da RCA, editada em 1996; Lester Young (5º), tal como registrado na antologia da Mosaic intitulada Lester Young with Count Basie, 1936-1940; Wayne Shorter (6º), pelo LP Speak no evil (Blue Note, 1965); Paul Gonsalves (8º), por seu célebre solo de 27 choruses em Diminuendo and crescendo em blue, faixa do LP Ellington at Newport (Columbia, 1954).

Na relação da JT dos top 50 álbuns de saxofonistas tenores de todos os tempos, Coltrane e Rollins aparecem também, cada um deles, em outras quatro gravações, como líderes ou em destaque. Trane por sua atuação em Kind of blue (Columbia, 1959) — a lendária masterpiece de Miles Davis — e ainda em John Coltrane and Johnny Hartman (Impulse, 1963), The complete 1961 Village Vanguard recordings (Impulse) e Lush life (Prestige 1961). Sonny Rollins por: A night at The Village Vanguard (Blue Note, 1957); Our man in jazz (RCA, 1962); Sonny side up (Verve, 1958), na companhia do parkeriano Sonny Stitt; Sonny meets Hawk (RCA, 1963), o encontro único em disco com o mestre Coleman Hawkins.

O grande e muitas vezes esquecido Joe Henderson (1937-2001) teve expressivo reconhecimento na eleição promovida pela JT. Cinco álbuns de sua notável discografia para o selo Blue Note foram escolhidos entre os top 50: Inner urge, 1965 (17º); Mode for Joe, 1966 (22º); In’n out, 1964 (25º); The state of the tenor/Live at The Village Vanguard, 1985 (30º); Page one, 1963 (36º).

A revista também publicou os votos dos eleitores convidados, destacando tenoristas que se notabilizaram nas últimas três décadas, como Joe Lovano e Chris Potter.
Joe Lovano votou nas seguintes performances: Coltrane’s sound (Atlantic, 1960), gravado por John Coltrane nas mesmas sessões que renderam o antológico My favorite things; Our man in jazz, Sonny Rollins; Speak no evil, Wayne Shorter; The chase (MCA, 1952), a lendária sax battle Dexter Gordon-Wardell Gray; In ’n out, Joe Henderson.
As escolhas de Potter foram: A Love supreme, John Coltrane; Newk’s time (Blue Note, 1957), Sonny Rollins; Speak no evil de Shorter, também; Lester Young trio (Mercury, 1951); Inner urge, Joe Henderson.

RIO DAS OSTRAS JAZZ E BLUES 2012 MARCADO PELA CHUVA

11 junho, 2012
Os 10 anos do festival de Rio das Ostras foi marcado pela chuva, que foi intermitente durante todo o evento. Uma pena, pois a cidade estava cheia, hotelaria com ocupação em sua totalidade e muita vontade do público em ouvir boa música.
E comprometeu os shows que são ao ar livre, principalmente o palco principal de Costa Azul que é situado numa área de camping e a combinação de grama, terra e agua fizeram muita lama, causando desconforto em acomodação e locomoção do público presente.

Não assisti a noite de abertura do festival, mas comentários dos amigos que lá estavam revelaram a surpresa da Big Band 190 formada por membros civis da corporação militar do Rio de Janeiro, que contagiou em uma apresentação com standards e arranjos próprios; Helio Delmiro, que optou pelo violão em vez da guitarra e ainda com a bateria de Rafael Barata; e Celso Blues Boy, que apesar de não tê-lo visto na noite de abertura, cheguei em tempo de assistí-lo no palco de Iriry na quinta-feira a tarde. Apesar do mau tempo, Blues Boy subiu em seu palco preferido e espantou a chuva, fez aparecer um tímido sol e mostrou que tem seu público muito fiel e é um verdadeiro ícone. Apesar da aparência fragilizada decorrente da sua luta contra um cancer, Blues Boy fez um show emocionante, muito pela empatia e idolatria que o publico tem por ele e pela sua história na guitarra blues-rock no Brasil. Tocou temas de seu último disco Por um monte de cerveja e seus clássicos como Marginal, Sempre Brilhará, Fumando na Escuridão cantado pelo público e encerrou citando o hino brasileiro e seu clássico Aumenta que isso aí é Rock´n´ Roll. Teve as participações mais que especiais de Jefferson Gonçalves e Joe Manfra e ao final Blues Boy cumprimentou efusivamente o público agradecendo a reverência.
Parti dali direto para a Tartaruga onde Mike Stern Romero Lubambo ainda passavam o som para fazerem um show arrasador no final da tarde em um dos palcos mais excêntricos do festival. Acompanhados pelo baixista Janek Gwizdala e pelo baterista Lionel Cordew, mostraram puro virtuosismo. Stern com sua inseparável Telecaster modelo Pacifica Yamaha e Lubambo de Strato, ambos plugados em 2 Fender Twin Reberb, certeza absoluta de muito som.
O mau tempo insistiu e atrapalhou a noite de quinta-feira. O grupo Plataforma C abriu a noite debaixo de muita chuva, mas deu seu recado com uma apresentação focada em standards da música brasileira com espaço para Bananeira (João Donato), Berimbau (Baden), Ponteio (Edu Lobo), Trenzinho Caipira (Villa-Lobos) e Vera Cruz (Milton).
Mauricio Einhorn seguiu acompanhado por Kiko Continentino piano, Jefferson Lescowitch contrabaixo e Clauton Sales bateria. Aos 80 anos, mostrou que ainda está em plena forma, apresentou temas próprios, destacou sua autoria no tema Batida Diferente e fez alguns standards, entre eles Autumn Leaves. Uma bela apresentação apesar da chuva, que dispersou um pouco a atenção do show.
E esta sinistra chuva atrapalhou a única apresentação mais jazz do festival, o pianista Kenny Barron, que fez um show espetacular. Barron trouxe o trompetista Michael Rodrigues como convidado especial, ele que esteve aqui ao lado da pianista Carla Bley quando ela apresentou seu fenomenal album The Lost Chords. No contrabaixo Kiyoshi Kitagawa e na bateria Johnathan Blake, que, literalmente, quebrou tudo. Blake, com sua grande estatura e com uma disposição pouco comum da bateria com os ton ton posicionados horizontalmente, deu destaque na apresentação desenvolvendo absurdamente a condução dos temas straight-ahead de Barron. Um show contagiante, com espaço para um belíssimo tema em piano solo, uma interpretação estonteante de My Funny Vallentine e o encerramento com Monk. Showzão!
Mudando a forma da noite, Michael Hill subiu ao palco para um show de Blues bem elétrico. Assisti o início da apresentação, que estendeu-se até as três da madrugada, mas mesclou rock, reggae e ainda teve a participação da cantora Lica Ceccato interpretando Georgia on my Mind.

Sexta-feira e mais chuva. Os palcos São Pedro e Iriry ficaram de fora da minha programação e o show do David Sanborn na Tartaruga foi cancelado pelo mau tempo, muito vento e maré alta. E a vantagem de estar no mesmo hotel dos músicos é ter a oportunidade de participar de uma jam super informal durante toda a tarde com o guitarrista Michael Hill e seu gaitista, desfilando blues e classic rock no melhor estilo violão e gaita e ainda com Lica Ceccato fazendo vozes.
Isso é um privilégio!
Mas a noite abriu sem chuva e o camaronês Armand Sabal-Lecco colocou fogo com uma super pegada slap, mostrando forte presença de palco e deu muito espaço para a banda, principalmente para o guitarrista Nir Felder, que desenhou ótimos improvisos e mostrou muita técnica, e o tecladista Barnaby McCall. Armand reverenciou Stanley Clarke, fez elogios a música brasileira e convidou Romero Lubambo ao palco para interpretarem dois temas. Destaque também para o percussionista brasileiro Gilmar Gomes.
Mike Stern e Romero Lubambo fizeram um show empolgante no palco Costa Azul. Assim como no palco da Tartaruga, Stern explorou muito o vocalize, abusou da dinâmica nos temas mais introspectivos e desenvolveu seus improvisos de forma muito intensa, realmente é um gigante. E Romero não ficou atras, surpreende quando abraça a guitarra. Mostrou que, além da excepcional técnica fingerstyle, tem pleno dominio do uso da palheta e fez solos absurdos. Ambos muito a vontade, brincaram, se divertiram, se homenageram e fizeram um show espetacular.
Seguiu a noite e, particularmente, o show do festival nas mãos de Duke Robillard, apesar da fina chuva que caiu no início da sua apresentação. Abraçado a uma guitarra sólida modelo Eastwood Airline, de fabricação canadense, mostrou uma técnica exemplar acompanhado por Bruce Bears no Hammond e teclados, Brad Hallen contrabaixo acústico e Mark Teixeira bateria. Fez um repertório abrangendo todas as escolas, jump blues, um denso e enigmático slow blues, arranjou tributos a B.B. King e T-Bone Walker, este numa bela interpretação de You Don´t Love Me, e criou uma atmosfera bem intimista com o standard If I Had You.
A noite de sexta-feira fechou em formato de um grande baile com a Big Time Orquestra. Performáticos, os componentes da banda empolgaram a plateia com seus irreverentes arranjos explorando as bases dos temas do filme Hawai 5 Zero e In the Mood (Miller); saí na interpretação de Hit the Road, Jack (Ray Charles).

Sábado cedinho choveu muito, mas dispersou ao final da manhã e novamente um tímido sol apareceu renovando a esperança de um dia normal. Assim, resolvi assistir a apresentação de Artur Menezes no palco São Pedro. Lá chegando desaba mais chuva, mas Artur não se intimidou e a frente de uma platéia colorida pelos guarda-chuvas iniciou uma espetacular apresentação e literalmente mandou a chuva embora. Abraçado a uma 335, mostrou muito carisma, passeou por toda a plateia, brincou com um garotinho presente fazendo uma citação fantástica do tema da Chapeuzinho Vermelho e Lobo Mau, desfilou blues em Messin´ with the KidLittle by Little (Junior Wells), soul em Everybody Needs Somebody (Solomon Burke), fez tributos à técnica de B.B. King e Buddy Guy e chamou o gaitista Jefferson Gonçalves para desenvolver a fusão de Bo Diddley com baião com base no tema título de seu primeiro disco, Early to Marry. Ainda entregou a guitarra para Kleber Dias acompanhar Jefferson numa super jam. Um super show e foi original até no bis onde ao interpretar Hendrix saiu do comum e mandou Wait Until Tomorrow.
É isso Artur Menezes, e voce já está eleito como nosso Mr.335!

Não fui assistir Roy Rogers no palco de Iriry e o show do Armand Sabal-Lecco foi cancelado na Tartaruga devido ao mau tempo. Mudança na programação do festival que incluiu Armand Sabal-Lecco no final da noite de sábado e alteração nos palcos do último dia passando Duke Robillard para o palco São Pedro e Sanborn e Cobham no palco de Iriry. Assim, teoricamente, entendi que o pianista Fabiano de Castro não se apresentaria mais e para minha surpresa ele antecipou a abertura da noite de sábado, mas só cheguei ao final de sua apresentação. E gostei muito do pouco que assisti. Estava em formação de trio com um som bem intimista, na atmosfera ECM e com muita influência dos trios europeus. Uma pena não ter chegado em tempo.
A noite seguiu com o grupo Cama de Gato representando, e muito bem, a nossa música instrumental, com destaque para o entusiasmo de Jota Moraes e a bela performance do baixista Andre Neiva.
Billy Cobham sobe ao palco com uma super configuração de bateria e faz uma apresentação muito técnica, acompanhado pela excelente Camelia Ben Naceur teclados, Christophe Cravero teclados e violino, o excelente Jean-Marie Ecay guitarra, Michael Mondesir baixo e Junior Gill na steel drum. Cobham mostrou-se muito à vontade e entusiasmado, alternou algumas cadências latinas, baixou a dinâmica para destacar o som dos teclados e violino e apresentou um repertório bem na linha fusion com muitos elementos de rock progressivo, em algumas passagens lembrou bastante o som do Ponty. Uma excelente apresentação.
Mas o esperado era David Sanborn, que surpreendeu com um repertório baseado em seus discos mais antigos abrindo o show com Chicago Song (Change of Heart, 87), Mapputo (Double Vision, 86) e Lisa (Hideaway, 79), temas que marcaram a todos que viveram a música instrumental naquela época, o que é o meu caso, e fez o show todo nessa linha. Aos 67 anos, Sanborn, extremamente magro, fez uma apresentação curta mas com muito groove e pontuações funkeadas suportados pela guitarra de Nic Moroch, o baixo de Ric Patterson, os Hammond e teclados de Ricky Peterson e a bateria de Gene Lake. Uma certa sessão nostalgia e prova a verdade como dita pelo maestro Daniel Barenboin - "a música desperta o tempo".
Roy Rogers subiu ao palco passava 1h da madrugada e debaixo de muita chuva, mas o público permaneceu no local em um cenário curioso entre muitas capas e guarda-chuvas. E realmente Roy Rogers dá um show de slide, tanto na guitarra double-neck quanto no violão folk eletrificado, pleno domínio da técnica e um super trio. Assisti a um início do show eletrizante, mas não fiquei até o fim.
É isso ! Ano que vem tem mais.

MORRE PETE COSEY, A GUITARRA ELÉTRICA DE MILES DAVIS

06 junho, 2012
Artigo publicado no NY Times em 6 de junho
por Ben Ratliff

(foto de Hiroyuki Ito para NY Times, Pete Cosey em 2008)









O artigo original voce lê aqui :
http://www.nytimes.com/2012/06/06/arts/music/pete-cosey-guitarist-with-miles-davis-dies-at-68.html

(tradução livre)

Pete Cosey tocou em muitas gravações de blues e rhythm & blues nos anos 60, mas se tornou mais conhecido por seu trabalho na fase elétrica de Miles Davis entre 1973 e 1975, com seu som encharcado em distorção e pontuado pelo pedal wah wah.
Pete Cosey faleceu em 30 de maio em Chicago aos 68 anos, cuja causa foi decorrente de complicações de uma cirurgia, disse sua filha Mariama Cosey.

Cosey estava trabalhando em Chicago no meio dos anos 60 quando foi contratado pela Chess Record, que estava tentando seguir a Motown em formar sua própria banda de estúdio. Como membro deste grupo, Cosey participou do hit Rescue Me, um top 10 de Fontella Bass. Pela Chess fez diversas sessões com Etta James, Little Milton, entre outros. Também tocou para a Motown Records com os Four Tops and the Marvelettes.

Mas seus mais conhecidos trabalhos para a Chess Records foram nos albuns Eletric Mud (1968) de Muddy Waters e Howlin’ Wolf Album (1969) de Howlin Wolf.
Ambas gravações foram lançadas por um subsidiária da Chess Records, Cadet Concept, fundada para focar em um som mais pesado e mais psicodélico. Eles colocaram duas das grandes vozes do Blues em um contexto blues-rock mais pesado, incluindo longos e intensos solos de Cosey.
Muddy Waters e Howlin Wolf não gostaram do resultado, mas as gravações tornaram-se marcantes e ao longo do tempo foram defendidas e comemoradas.

Entretanto, Cosey estava trabalhando muito. Foi membro da Association for the Advancement of Creative Musicians, uma cooperativa de Chicago voltada para improvisação experimental; excursionou com Aretha Franklin e com os saxofonistas de jazz Gene Ammons e Sonny Stitt; e tocou com Philip Cohran and the Artistic Heritage Ensemble em 1968 no album The Malcom X Memorial, um clássico do soul-jazz.
Na primavera de 1973, Cosey juntou-se a Miles Davis. Na época, Miles estava atras do verdadeiro groove afro-americano, com muita ênfase em bateria e rítmo, como ele mesmo afirmou em sua autobiografia. Cosey, disse ele, "me deu o som de Jimmy Hendrix e Muddy Waters que eu procurava".
Isso parcialmente descreve o som de Cosey. Sentado em um cadeira atras de uma linha de pedais, de óculos escuros, com seu estilo afro alto e de longa barba, usou seus temas originais, muitas vezes com uma guitarra de 12 cordas alternando com intensa rítmica com wah wah empurrando seus solos para delicadeza fantasmagórica ou arranhando com reverb e feedback.
Sua técnica influenciou outros guitarristas do rock e jazz, incluindo Vernon Reid, Henry Kaiser and Arto Lindsay.
Ele pode ser ouvido nos albuns Agharta, Pangaea, Get Up With It e Dark Magus, muitos dos mais experimentais e polêmicos albuns da carreira de Miles.

Anos mais tarde, Cosey apareceu no album Future Shock (1983) de Herbie Hancock; tocou em um grupo chamado Power Tools com o baterista Ronald Shannon Jackson e o baixista Melvin Gibbs; formou em 2001 uma banda chamada Children of Agharta com outros membros do grupo de Miles do meio dos anos 70; e participou nno grupo Burnt Sugar no album The Rites, uma versão improvisada de Rites of Spring de Stravinsky conduzida por Butch Morris.

Peter Palus Cosey nasceu em 9 de outubro de 1943 em Chicago. Cresceu em Phoenix mas retornou a sua cidade natal quando adulto. Sua mãe, Collenane Gertrude Clark, foi uma pianista e compositora que deixou o convento para se casar com seu pai, Antonio Maceo Cosey, um saxofonista que trabalhou com Louis Jordan, Big Bill Broonzy e outros.
Cosey vivia com sua companheira, Maxine Jordan, suas filhas Mariama Cosey, Aribiana Cosey-Ewing, Dunni CoseyGay e Karumah Cosey, seu filho Ishmak Cosey e seis netos.

Pete Cosey : 1943-2012

JOE BONAMASSA MOSTRA QUE É O NÚMERO 1 NO VIVO RIO: TOUR 2012

01 junho, 2012

Pontualmente, às 21:30hs, Joe Bonamassa subiu ao palco do Vivo Rio para mostrar que, hoje, é o número 1 da guitarra, sobrando com folga.
Um show com uma pegada bem Rock, ao seu estilo, acompanhado pela sua super banda de apoio formada por Carmine Rojas baixo, Rick Melick hammond e Tal Bergman bateria, este que deu um show a parte.

É a primeira vez que Bonamassa veio ao Brasil e já prometeu voltar com o Black Country Communion, disse ele em entrevista para a Folha de SP. Acrescentou que, ao contrário de muitos guitarristas, não tem uma rotina de tocar em casa, gosta de tocar na noite e que que não sai de casa para ver outros shows, só para tocar. Ainda afirmou que os mais puristas do Blues o odeiam, que este público não comparece em seus shows e que é um público que acredita numa única forma de fazer as coisas.
Pois é, fazendo uma analogia, isso lembra o polêmico disco Bitches Brew do Miles, um disco com roupagem bem fusion e na época muito criticado e rotulado pelos críticos de jazz como pura heresia.
Joe Bonamassa é um guitarrista de rock, por essência, mas que tem pleno domínio e fluência na linguagem do Blues. Assim é, e é melhor que assim seja.
Bonamassa é um músico completo e conhece muito de música.

Antes de subir ao palco do Vivo Rio, e o que parece ser uma tradição em seus shows, o tema Two Minutes to Midnight do Iron Maiden soa na caixas a todo volume, preparando a plateia para a intensidade sonora que seguiria com sua apresentação.
Bona conduziu todo o show abraçado com uma Les Paul, revezando entre os modelos Gold, Custom e um modelo com alavanca Bigsby, suportados por 3 super amplificadores Marshall isolados por uma Plexiglass, placa de acrílico para minimizar o impacto do som da guitarra.
Foram duas horas de apresentação impecável.
Entre os temas, a abertura com Slow Train; a reverência a Gary Moore em Midnight Blues; Dust Bowl; Ballad of John Henry; a bela balada Sloe GinWho’s Been Talking; uma super sessão blues onde mostrou o domínio da linguagem numa nova roupagem de Look Over Yonders Wall e no clássico Blues De Luxe; e um duelo espetacular entre Bonamassa e Tal Bergman, com Bonamassa no canto do palco respondendo aos improvisos, caretas e encenações de Bergman e com direito até a uma citação de Stairway to Heaven (Zeppelin), esta que contagiou a platéia.
O show fechou apoteótico com Young Man Blues (Who), que antecipou o bis com o tema título do seu último album Driving Towards the Daylight e uma super jam com mais algumas citações, entre elas Zeppelin e Black Sabbath.