RODICA: BLUES IN MY BLOOD

31 outubro, 2012
Blues in my Blood
Uma viagem pelas raízes do blues e suas vertentes musicais como o country, soul e o jazz. Assim é como a cantora Rodica define seu novo trabalho, Blues in my Blood, lançamento Delira Blues.

No show de lançamento do disco, Rodica mostrou a intensidade do seu canto, evocando spirituals e fazendo reverência aos mestres do blues que tanto a influenciam, como JB Lenoir e Howlin Wolf.
Ao seu lado os Blues Groovers, formado pela guitarra de Otavio Rocha, o baixo de Ugo Perrota e a bateria de Beto Werther, mais os convidados especiais na voz de Sergio Pererê, a gaita de Flavio Guimarães e os teclados de Marco Tommaso.

Impecável e muita pressão do início ao fim, um retrato deste novo trabalho.
Na abertura, Swing Low, Sweet Chariot, com Rodica ao lado de Pererê em um verdadeiro ritual spiritual, a capela, cuja canção nos remete ao início do século passado e retrata em canto o sofrimento do trabalho escravo. Ainda com Pererê em cena, os Blues Groovers sobem ao palco para interpretar Down in Mississipi (JB Lenoir), canção de protesto inspirada nos direitos civis, e numa interpretação com pegada bem enraizada no blues.
Rodica falou da sua parceria com Pererê, excelente voz e criativo percussionista, e a importância da sua presença neste momento, uma oportuna continuidade ao trabalho que realizaram juntos em seu primeiro disco Do Mississipi ao São Francisco.
O repertório continuou com os temas do novo album, destacando Hit the Ground (Lizz Wright); Grandma´s Hands (Bill Whiters); Feeling Good (Newley), imortalizada na voz de Nina Simone, aqui em trio com Flavio Guimarães e Tomaso; chamou novamente Pererê ao palco para I Want to Go (JB Lenoir) em uma versão muito invocada, e um show a parte de Pererê nas vozes de apoio e percussão;  Slow Down (Keb Mo); Moanin’ at Midnight (Howlin Wolf) numa sombria versão, bem ao estilo do autor; fez uma versão bluesgrass em Angels from Montgomery (John Prime); e deu uma atmosfera jazzy em Into my Soul (Clary, Bottini, Terrenato); além do tema título do álbum.
A banda muito bem entrosada e Rodica destacou o apoio dos Blues Groovers desde a sua chegada ao RJ quando teve que reiniciar seu trabalho, compartilhando novas ideias e novos temas, e o suporte dado pelo grupo foi fundamental. E realmente tem que ressaltar a guitarra slide de Otavio Rocha, que foi um destaque nesta apresentação; e quando o assunto é slide no blues brasileiro, o cara é mesmo uma referência.

Além dos músicos presentes no show de lançamento, o álbum ainda traz as participações do Julio Bittencourt Trio, formado Juliano Bittencourt bateria, Luciano Bittencourt guitarra e BJ Bentes contrabaixo, Rogerio Delayon na guitarra e banjo, Bruce Henri contrabaixo, João Hermeto percussão e Alamo Leal e Ricardo Werther vozes.

Como afirmou Flávio Guimarães - “Blues in my Blood é um álbum de surpreendente qualidade e Rodica veio para ficar, puxando para cima o nível do blues nacional”.



Mais sobre Rodica -


FRED HERSCH BEM VIVO NO VILLAGE VANGUARD

26 outubro, 2012
Coluna do Luiz Orlando Carneiro 
Jornal do Brasil, 15 de setembro

Fred Hersch, 56 anos, é um mestre consumado da arte do piano jazzístico e o mais expressivo herdeiro da poética musical de Bill Evans. Mas não se limita a retocar — com a técnica, a criatividade e o requinte harmônico que o caracterizam — joias do Great American Songbook. É também capaz de recriar a seu modo, sempre cool, a temática desafiadora de Thelonious Monk ou de Ornette Coleman. Além disso, é um compositor inspirado (A Lark, At the Close of the Day, Phantom of the Bopera, Evanessence).
Hersch é um daqueles músicos consagrados que se apresentam anualmente no Village Vanguard, a catedral-catacumba do jazz em Nova York. De sua discografia já constavam dois álbuns gravados pela Palmetto, ao vivo, naquele clube que comemorou 75 anos de idade em 2010: Live at the Village Vanguard (2002, em trio com o baixista Drew Gress e o baterista Nasheet Waits) e Alone at the Vanguard (um set solo de dezembro de 2010).

Fred Hersch
A essa discografia acrescente-se agora o CD duplo Alive at the Vanguard  (Palmetto), registro de fevereiro deste ano, com o líder à frente do trio que formou com John Hébert (baixo) e Eric McPherson (bateria). De acordo com o próprio Hersch, trata-se, talvez, do seu melhor disco em trio, em termos de amplitude, de som, do aqui e agora (being in the moment), do modo de tocar.
Ele acrescenta: “E, sonicamente, acho que captura realmente o Vanguard...você se sente como se estivesse lá”.

O alive do título do álbum, e não simplesmente live, é muito significativo. Hersch convive e luta, há muito tempo, com a Aids. Em 2008, esteve muito perto da morte, em coma, durante dois meses. Ele praticamente renasceu, mas ainda estava muito abatido em julho de 2009, quando tive a oportunidade de vê-lo e ouvi-lo lá no Vanguard.
Neste novo CD duplo, Fred Hersch demonstra que está mesmo alive and well, em 15 faixas, das quais sete composições de sua lavra. São elas: Havana (6m45), uma valsinha romântica com o Latin levemente acentuado por McPherson; Tristesse (6m20), balada dedicada ao lendário baterista-compositor Paul Motian (1931-2011); Dream of Monk (6m10), uma espécie de collage de temas de Monk, como Crepuscule with Nellie e Blue Monk; Opener (7m20), peça escrita pelo pianista para destacar o baterista; Jackalope (6m45), bem swinging, de raras assimetrias harmônico-rítimicas; a lírica Rising, Falling (6m45), inspirada na música de Wayne Shorter; Sartorial  (5m), descrita pelo autor como um tributo a Ornette Coleman, “uma das mais charmosas (snnaziest) figuras do mundo do jazz”.

Hersch também celebra ícones de sua especial devoção em quatro faixas do volume 1 de Alive at the Vanguard. Ele interpreta Softly as in a Morning Sunrise (5m50), o velho standard da Broadway, e Doxy (6m45), de Sonny Rollins, explicando que os dois temas, na sua mente, sempre estiveram associados ao grande saxofonista. As fascinantes melodias de Lonely Woman (Ornette) e Nardis (Miles Davis) são fundidas pelo trio num take de mais de 12 minutos. Charlie Parker está presente numa animada reinvenção de Segment (6m50). No volume 2 do CD, Hersch junta, numa mesma faixa (13m30), The Song is You, de Jerome Kern, e Played Twice, de Monk.

UM PALCO. UM PIANO. UM GÊNIO. KEITH JARRETT.

25 outubro, 2012
Keith Jarrett
Rio, noite de quarta-feira.
O cenário : um palco, um piano e um gênio.

Pelo segundo ano consecutivo, Keith Jarrett desembarcou em solo carioca para a séria Jazz All Nights, promovida pela Dell Arte.
Em sua última apresentação, em abril de 2011, o espetáculo foi registrado no álbum duplo Rio, lançado pela ECM, e tornou-se mais um registro histórico e com lançamento relâmpago e que, para Jarrett, foi uma das suas melhores gravações em seus cinquenta anos de música. Este que vos escreve não assistiu esta apresentação ao vivo, a degustação ficou restrita ao álbum.

E enfim, me vi diante deste espetacular músico em um Teatro Municipal lotado para uma apresentação brilhante, cujo título, An Evening of Solo Piano Improvisations, só comprovou o talento, a criatividade e seu pleno domínio na arte de conduzir uma apresentação solo em cerca de duas horas de duração, dividida em dois sets.
Sua exigência foi um piano Steinway D, que foi cedido pela OSB e veio de São Paulo; e a afinação do instrumento ficou na responsabilidade de George Boyd.

No repertório, em cada tema, a única certeza era um início. O meio e o fim eram decididos em tempo do momento criativo, cuja improvisação, livre e despretensiosa, levava a caminhos sonoros imprevisíveis e ao mesmo tempo belos e instigantes. Sua música fala com o corpo, como se suas inteligências musical e cinestésica convergissem em torno da própria criação musical instantânea, indo ao encontro de um cenário imaginário de música improvisada.
Incitou a platéia em dois momentos - quando os aplausos iniciaram antes do término de um tema, aguardou os ânimos baixarem e colocou somente os dois acordes finais, como que dizendo – “agora sim, podem aplaudir”; e ao final, antes do início de um tema, a campainha de um celular o fez balançar a cabeça em tom de reprovação. Mas sempre se reverenciou ao público em sinal de agradecimento.

O Rio de Janeiro parece mesmo ter cativado Keith Jarrett. O samba, de uma nota só, se multiplicou exponencialmente nas teclas brancas e pretas, como pedras portuguesas explodindo em ousadia e malandragem e cujos passos eram conduzidos pelas suas mãos e pés.
E nem o público nem Jarrett pareciam querer ir embora, por duas vezes voltou ao palco e, mesmo com tanta bagagem musical, se entregou ao silêncio e compartilhou com o público – “não tenho idéia do que tocar”; e das mais variadas manifestações, recriou Gershwin (Summertime) e Harold Arlen (Somewhere Over the Rainbow).

Um verdadeiro espetáculo !

BLUES & SOUL SESSIONS COM A IGOR PRADO BAND

20 outubro, 2012
Soul : termo empregado no início dos anos 60 para passar a ideia de forte sentimento na interpretação, principalmente no Blues, onde as técnicas usadas no spiritual e gospel estão sempre presentes, oriundas do canto negro.

A definição está no Glossário do Jazz, de Mario Jorge Jacques, e ilustra a identidade do estilo Soul, enraizado no Rhythm & Blues, cujo termo, no jargão americano, se baseia no orgulho e cultura da raça negra, é a música popular negra, a intensidade no canto, os coros, o bater das palmas, o movimento corporal, o ritmo.
Historicamente, o estilo tem seus registros muito referenciados em duas grandes gravadoras, a Stax e a Motown, baseadas em Memphis e Detroit respectivamente. Ambas com características muito particulares - de um lado os Memphis Horns colocavam os sopros na assinatura na Stax, suportados por Booker T and MGs; por outro os Funk Brothers na liderança do baixista James Jamerson, cujas linhas de baixo embalaram os maiores hits do catálogo da Motown.
A era marcante do soul estabeleceu-se fortemente nos anos 60 e 70 e célebres artistas deixaram sua assinatura no estilo como Ray Charles, Etta James, Aretha Franklin, Otis Redding, Wilson Pickett, Little Milton, Solomon Burke, Marvin Gaye, Al Green, entre muitos e muitos outros, a lista é imensa, e estreitaram a fronteira com o jazz e o blues tradicional.


Para retratar um verdadeiro tributo ao estilo, a Igor Prado Band, formada pela fenomenal guitarra de Igor Prado, o baixo de Rodrigo Mantovani e a bateria de Yuri Prado, muito influenciados pelo estilo, selecionou alguns clássicos, chamou as vozes de Tia Carrol, J.J Jackson e Curtis Salgado para dar a interpretação vocal necessária ao projeto, o hammond de Flavio Naves, o piano de Donny Nichilo e Ari Borger, e arregimentou os sopros no tenor de Sax Gordon, no trompete de Sidmar Vieira e no barítono de Denilson Martins, nossos Memphis Horns brazucas, para gravar Blues & Soul Sessions.

A produção deste trabalho tem as mãos de Igor Prado e, a fim de criar a atmosfera das gravações da época, escolheram o estúdio Comep em São Paulo para registro das sessões, que foram feitas ao vivo, sem overdubs e com uso de equipamento vintage. E as imagens destas sessões em estúdio foram registradas no DVD que acompanha o luxuoso pack com o CD, em que Igor, Rodrigo e Yuri relatam a experiência de reviver a música Soul, falam sobre os temas, sobre os artistas que tanto os influenciaram e contam muitas histórias.

O repertório está impecável, são 13 faixas no CD e 12 faixas no DVD. Melhor que ouvir, é assistir e sentir a vibração das gravações. O tema de abertura, Prado´s Special, instrumental, vem com muita energia e com arranjo suportado pelos metais e pelo hammond de Flavio Naves; e serviu como uma apresentação aos músicos da banda base desse trabalho, com improvisos de Flavio, Sidmar, Denilson e Sax Gordon, além de Igor, cujo tema ele fez uma adaptação da versão de Hooker Special, de Earl Hooker. Tem que destacar a vibração no sopro de Sax Gordon, é um daqueles saxofonistas que se voce der a ele 27 chorus para improviso, é capaz dele ressuscitar Paul Gonsalves e seu efusivo solo do festival de Newport em 1957 na banda de Duke Ellington (Diminuendo and Crecendo in Blue). Espetacular músico.
Oh Poo Pah Doh (Wilson Picket) e If I Can´t Have You (Etta James) trazem JJ Jackson e Tia Carroll dividindo os vocais; You Hurt Me (Little Willie John) põe o improviso no piano de Donny Nichilo e Rodrigo Mantovani abraça o contrabaixo acústico dando aquela atmosfera soul sob a voz calorosa de Tia Caroll, que também interpreta It´s Your Thing (Isley Brothers) com bastante veneno, e How Sweet It Is (Holland-Dozer), um clássico do Motown e um tema super alto astral que embalou muita gente, aqui em belíssima versão.
Greg Wilson embarcou das areias cariocas para interpretar Tramp (Lowell Fulson) e I´m Ram (Al Green), ambas com aquele swing funkeado e a voz de Greg caindo perfeita, inclusive em Tramp quase que dialogando com a base harmônica do tema, aqui sem os metais. Curtis Salgado interpreta Lucky Loser (James Carr) e divide os vocais com Igor em Don´t Turn Your Header On (Steve Cropper). 
Igor assina One for Duck Dunn, uma homenagem ao baixista Donald Duck Dunn que fez parte do Booker T and MGs e é uma das maiores influências de Rodrigo Mantovani.
Keep Knocking (Bill Mays) fecha o trabalho no melhor estilo rock´n´roll, de raiz, cujo tema foi incendiado por Little Richards no final dos anos 50, mas aqui quem colocou fogo foi o piano de Ari Borger.
Um disco obrigatório.

Igor Prado nos conta um pouco sobre o trabalho e, como sempre, uma aula de música.

A guitarra de Igor Prado tem a marca registrada do Jump Blues, com aquele puro recheio do Swing sem perder a essência Blues. Como deu-se essa iniciativa de mostrar a influência da música Soul e a ideia de gravar um disco em tributo ?
A gente sempre foi fã de Soul Music, há muito tempo, e claro que todo nosso embasamento musical vem do Blues tradicional. Muita gente não sabe que o West Coast Blues/Jump Blues é calcado no Blues tradicional, vide os principais artistas nos anos 50 - T-Bone Walker, BB King, Pee Wee Crayton e Lowell Fulson, todos vieram do Blues de raiz. As pessoas tem a mania de muitas vezes separar coisas que andam muito juntas ou criar rótulos.
Certa vez eu estava em Chicago conversando com o editor de uma revista muito tradicional e falávamos de estilos e tal e ele me disse : - "Igor, sabe quem inventou essas nomenclaturas como Texas Blues, Jump Blues, Chicago Blues?" E ele disse para meu espanto : - "O homem branco da Inglaterra nos anos 60, pois o Blues tinha ido para lá e era uma novidade, uma febre na Europa, época do American Folk Festival e quando as bandas inglesas estavam levando os negrões de convidados; por uma questão mais mercadológica eles dividiram e inventaram alguns estilos".
Provavelmente se você disser para o BB King - “Agora vc esta tocando Jump Blues!", ele vai olhar na sua cara e vai dar risada. Na verdade é tudo o Blues. E essa discussão vai além, uma vez o BB disse que, para ele, o Jazz e o Blues são a mesma música, mas isso é assunto para outra entrevista.
Mas enfim, estávamos numa fase bem Blues-Soul e então resolvemos montar esse projeto, que foi gravado todo ao vivo, nos moldes dos discos dos anos 60, com todos os músicos na mesma sala tocando ao mesmo tempo. Por isso tivemos que achar um estúdio que comportasse esse tipo de gravação. Até as vozes foram gravadas todas ao vivo.
O Chico Blues, produtor do CD/DVD, registrou praticamente toda a gravação em 3 câmeras e montamos um DVD extra para as pessoas verem como foi gravado "de verdade", coisa rara hoje em dia, não tem overdub, não tem auto tune (software de computador que reafina a voz) e não tem edições também.

As vozes de Tia Carroll, J.J Jackson e Curtis Salgado foram fundamentais nesse trabalho. Como vocês se conheceram e como eles receberam o convite para este projeto ?
O JJ já é parceiro de longa data, eu e o Yuri o conhecemos quando eu tínha 17 anos e o Yuri 16, foi numa jam session no antigo Sanja Jazz Bar aqui de São Paulo. De lá pra cá estamos sempre fazendo coisas juntos quando podemos.
A Tia Carroll conhecemos em uma das tours na Europa. Tocamos no famoso Lucerne Blues Festival em 2010 com o Lynwood Slim e o guitarrista Kid Ramos, e foi lá que tivemos o primeiro contato com a Carroll. No ano passado trouxemos ela para o Brasil e todo mundo adorou, ela já veio 4 vezes e fizemos mais de trinta shows.
Não poderia deixar de destacar a participação do cantor e gaitista Curtis Salgado, figura lendária que já tocou com Robert Cray e Carlos Santana e no ano passado ganhou o BMA (Blues Music Awards) como melhor cantor de Soul-Blues de 2011 nos EUA. Ele é um monstro e também peça fundamental no projeto, não só pela participação mas pela influência que ele exerceu nesses últimos anos mostrando material, ensinando várias coisas sobre Deep Soul e Gospel Music para a gente.

Ainda tem as participações no piano de Donny Nichilo e Ari Borgher e a voz de Greg Wilson, que é um dos pioneiros do Blues no Brasil.
O Greg é um parceirão de longa data, talentosíssimo, é o simbolo disso tudo que queríamos no disco. Ele pode estar tocando Blues-Rock, tocando trompete, cantando Blues tradicional ou cantando em português. Ele tem uma personalidade musical muito bem definida e está muito acima dos rótulos.
O Donny também já é de casa e convidei ele para algumas tracks e ele topou na hora.

Eu chamo essa espetacular seção de sopros como os "Memphis Horns" brazucas. Que energia desses caras.
Pois é, o Denilson e o Sidmar são pessoas diferenciadas mesmo, eu sempre falo isso, são geniais. Eles vieram totalmente da Gospel Music e o feeling que esses caras tem para tocar esse estilo é um negócio absurdo. Atualmente estou produzindo o disco solo instrumental do Denilson com previsão de lançamento para o ano que vem, e terá a participação mais que especial do Sax Gordon, que pra mim é um dos músicos mais geniais da atualidade.

A influência do soul invadiu a praia do Jazz no anos 60 e, para a guitarra, um dos ícones nessa onda foi o Grant Green, juntamente com a explosão dos Organ Trios. Como foi essa identificação e influência da música soul na sua formação ?
É isso mesmo, essa sua pergunta ilustra totalmente o que eu venho falando. Tanto o Grant Green quanto  o Bill Jennings, que entraram nessa onda do Soul-Jazz ou Acid Jazz nos 60, começaram tocando swing de big band, blues. Vide Bill Jennings, que acompanhou o saxofonista Louis Jordan nos 50. Então é jazz??  Mas Louis Jordan é swing, é jump blues ... e jump blues é blues??
Ops ... então tudo acaba no Blues ou começa também ! percebe ?!

Obrigado Igor Prado, e sucesso.

 

SPECTRUM ROAD RESGATA O BOM E VELHO FUSION

15 outubro, 2012
É inegável a importância do baterista Tony Willians na transformação musical que ocorreu a partir da segunda metade dos anos 60, quando o segundo quinteto de Miles Davis, do qual Tony liderava as baquetas, apontava para a música livre e caminhava de encontro com o Rock.
Tony Willians foi um dos precursores do fusion baseado no Jazz Rock, e teve a líderança do grupo Lifetime, inicialmente um organ trio formado com McLaughlin e Larry Young, criado em 1969.
Um baterista com assinatura própria e uma escola para as gerações seguintes.

Spectrum Road é a homenagem definitiva a Tony Willians, talvez a maior celebração a esse grande músico desde sua morte em 1997, causada por problemas cardíacos após uma cirurgia de rotina de vesícula. Outro grande tributo foi o álbum Saudades (2006, ECM), em que Jack DeJohnette, John Scofield e Larry Goldings também prestam homenagem ao baterista.

Spectrum Road é formado pela guitarra de Vernon Reid, os teclados de John Medeski, o baixo de Jack Bruce e a bateria de Cindy Blackman Santana. Precisa dizer mais?!
Uma reunião de grandes ícones cujas influências carregam muito do rock, do blues e do instrumental contemporâneo.
E essa história vem de longe, desde que Jack Bruce, que tornou-se muito amigo de Tony, ingressou o Lifetime em 1970 assumindo o baixo e vocal no segundo álbum do grupo, Turn It Over. Bruce tinha Larry Young como um gênio, um mágico dos sons, e recorda quando ele tocou em sua cidade natal, Glasgow, levando o público ao êxtase - ele o considerava como o "Coltrane do Hammond".
A baterista Cindy Blackman lembra a primeira vez que ouviu Tony Willians, aos 15 anos, e ficou enlouquecida; o álbum em questão era Four & More do Miles, e quando soube que nesta gravação Tony tinha apenas 18 anos, não acreditou. Quando enfim ouviu a Lifetime, sabia ter encontrado ali seu estilo favorito e, para ela, Tony era uma obra de ficção científica.
Já o guitarrista Vernon Reid via algo de underground na música da Lifetime, e afirma que Tony nunca fez concessões a música comercial, queria fazer a música do seu jeito e por isso tornou-se único.
Medeski considera a Lifetime uma parte da história do Jazz, assim como seus integrantes; e lamenta que o grupo tenha sido tão pouco reconhecido pela importância que teve ao mudar a cara do Jazz e do Rock. E diz que a força que levou a criação do Spectrum Road foi trazer de volta a atenção a isso.

Spectrum Road foi gravado em quatro dias, em fevereiro de 2011, quando o quarteto encontrou-se livre das obrigações em seus respectivos trabalhos. São 10 temas em que 8 deles são composições gravadas por Tony Willians. O álbum traz uma sonoridade mais contemporânea, mesmo com as características tão distintas de Medeski e Vernon Reid em relação a Larry Young e McLaughlin, mas o resgate a forma fusion daquele tempo ficou muito evidente.

CONEXÃO TEL AVIV-MANHATTAN: GILAD HEKSELMAN

11 outubro, 2012
Gilad Hekselman
Desde que chegou em New York, em 2004, o guitarrista israelense Gilad Hekselman tornou-se um dos mais requisitados músicos da cena local, dividindo o palco com Chris Potter, Mark Turner, John Scofield, Anat Cohen, Ari Hoenig, Sam Yahel, Jeff Ballard, Jeff Watts, Tigran Hamasyan, Aaron Parks, Greg Hutchinson, entre outros.

Gilad nasceu em Israel em 1983. Aos 6 anos iniciou o estudo de piano clássico, e aos nove abraçou a guitarra. Adolescente, já estava nos palcos com uma banda própria apresentando-se em um programa de TV para o público infantil. Foi estudar na prestigiosa Thelma Yellin School of Arts e graduou-se com excelência na especialidade jazz aos 18 anos, o que o fez receber um convite da América-Israel Cultural Foundation Scholarship para estudantes estrangeiros em New York, onde se formou em Bachelor of Fine Arts em 2008.

Com seu primeiro disco, Split Life (2005, Smalls Records), acompanhado pelo contrabaixista Joe Martin e o baterista Ari Hoenig, o reconhecimento veio e rendeu-lhe o prêmio do Gibson Montreux International Guitar Competition. Gravou mais dois discos, Words Unspoken (2008, Late Set Records), acompanhado novamente pelo contrabaixista Joe Martin, o baterista Marcus Gilmore e o sax tenor de Joel Frahm; e Hearts Wide Open (2011, Harmonica Mundi) com o mesmo trio mais o sax tenor de Mark Turner, trabalho este que Gilad define como "seu melhor trabalho".

Gilad HekselmanA química musical entre Gilad e Hoenig foi intensa desde o encontro que deu-se por um amigo em comum, o contrabaixista Chris Tordini, com quem Gilad teve algumas aulas. A partir daí ambos começaram a se convidar para tocar em seus respectivos grupos. Gilad também está presente nos albuns Bert´s Playgroud (2008, Dreyfus)Lines od Oppression (2011, Naive) de Hoenig.

Ben Ratliff, crítico do New York Times, não economiza elogios ao músico -
"A atmosfera de qualquer palco de jazz ganha intensidade quando Gilad desenvolve seus improvisos; carrega com ele a linha de Metheny e Rosenwinkel, com um tom de guitarra puro e envolvente, clara articulação, loucamente estendendo ideias de improvisação, rapidez quando precisa, um avançado conhecimento de harmonia e flexibilidade para ir onde o grupo quiser".
Gilad reafirma essas influências, cita Metheny pelo trabalho que fez e ainda faz, e concorda que muitos dos guitarristas de jazz moderno são influenciados por ele, direta ou indiretamente; e coloca Kurt Rosenwinkel como sua principal referência, afirmando que é um dos melhores guitarristas da atualidade.

www.giladhekselman.com/


CHICK COREA E GARY BURTON : O DUO MAIS TELEPÁTICO DO JAZZ

08 outubro, 2012
Coluna do Luiz Orlando Carneiro
Jornal do Brasil, 8 de setembro

Há quase 40 anos, em novembro de 1972, o pianista Chick Corea e o vibrafonista Gary Burton gravaram para o selo ECM, em duo, o antológico LP Crystal Silence. Em 1996, a dupla registrou o também inesquecível CD Native Sense (Stretch/Concord), com ênfase nas composições do pianista (a faixa-título, Duende, Love Castle, Rhumbatta), e na recriação de duas das 14 Bagatelles de Bartok. Em 2007, o reencontro dos dois em turnê europeia gerou o álbum duplo The New Crystal Silence (Concord), vencedor do Grammy de 2009 na categoria jazz instrumental.
Assim é que mesmo os admiradores desses músicos primorosos podem achar dispensável a audição/fruição de mais uma gravação do par, como é o caso do recém-lançado CD Hot House (Concord), já disponível nas lojas virtuais.

Contudo, o disco deve ser apreciado, especialmente, por ser um documento excepcional da interação, instantânea, telepática e do mais alto nível técnico imaginável, a que chegaram Corea, 71 anos, e Burton, 69, interpretando, em linguagem jazzística aqui e acolá enriquecida pela arte da fuga ou do contraponto, temas bem conhecidos (standards) do gosto pessoal deles.
A exceção é Mozart Goes Dancing (7m10), a única composição de Corea da seleção, tocada pelo duo com a “assistência” do Harlem String Quartet, e que é uma joia em matéria de Third Stream Music.
As outras nove faixas são as seguintes: Can’t We Be Friends (7m25), canção esquecida do repertório de Art Tatum, Ella Fitzgerald e Frank Sinatra; Eleanor Rigby (7m), de Paul McCartney; Chega de Saudade (10m45) e Once I Loved / O Amor em Paz (7m20), de Tom Jobim; Time Remembered (6m10), de Bill Evans; Hot House (3m55), a paráfrase de Tadd Dameron de What’s This Thing Called Love, e que se tornou uma das trade marks do bebop; Strange Meadow Lark (7m), de Dave Brubeck; Light Blue (6m), de Thelonious Monk; My Ship (11m 50), de Kurt Weill, que a associação Gil Evans-Miles Davis consagrou no jazz moderno em Miles Ahead (Columbia, 1957).

Gary Burton surgiu na década de 60, vindo do Berklee College, de Boston, e tornou-se o mestre por excelência do vibrafone no jazz, introduzindo a técnica hoje corrente do emprego de quatro mallets (marteletes), e não apenas de dois, num instrumento que sempre foi mais tratado como percussivo do que “harmônico”.  Com sua proficiência no desenvolvimento de acordes e sua “cabeça” de pianista, a parceria de Burton com Corea, virtuose do teclado tão íntimo de Bach como de Bud Powell, produz um resultado musical semelhante ao de um concerto de dois pianistas, a quatro mãos, em dois instrumentos. Tanto nas peças mais contrapontísticas (Can’t We Be Friends, Eleanor Rigby e Mozart Goes Dancing) como nas interpretações decididamente românticas (em Once I Loved e no tema de Brubeck).

Burton e Corea começaram neste mês uma longa turnê pelos Estados Unidos e pelo Canadá, que só termina no fim do ano. Em janeiro, têm compromisso de uma semana, pelo Caribe, no Jazz at Sea Cruise.
O vibrafonista garante que se apresentar em duo com o velho parceiro, mesmo que quase diariamente, durante tanto tempo, é “uma surpresa constante”. E acrescenta: “Ele está sempre lançando bolas de efeito (curve balls), o que faz com que eu tenha de rebatê-las em outras direções. Nunca tocamos a mesma coisa, noite após noite. Mesmo se forem os mesmos temas, mesmo os que tocamos juntos há muito tempo”.

O SAGRADO CORAÇÃO DA TERRA

04 outubro, 2012
O Sagrado Coração da Terra é um dos mais intensos grupos da história da nossa música, cuja sonoridade poética, influenciada pela musicalidade e liderança do multi-instrumentista Marcus Viana, de formação erudita, deu ao grupo o rótulo de Rock Sinfônico, muito também pela influência dos grupos progressivos dos anos 70 e pelos elementos ecológicos e metafísicos inseridos em sua música.

Eu conheci a música do Sagrado na época que Juma Marruá se transformava em onça na novela Pantanal, da finada Rede Manchete, que teve a trilha sonora embalada pelos acordes e harmonias do grupo. A partir daí, o grupo tornou-se uma referência para a composição de outras trilhas e, mesmo com apelo comercial, manteve seu estilo e sua característica musical sem deixar de lado os improvisos e as viagens sonoras.

Nunca tinha assistido a uma apresentação ao vivo do grupo, apesar do seu longo tempo de existência, e há muito também não ouvia o trabalho deles, o que foi resolvido na noite de 3 de outubro no Teatro Rival. E foi surpreendente!
A formação do grupo nesta apresentação teve Marcus Viana e Daiana Mazza violinos, Augusto Rennó guitarra, Adriano Campagnani baixo, Neném Ferreira bateria, Danilo Abreu teclados e as participações especiais das vozes de Mila Amorim e Sergio Pererê.
E uma das surpresas da noite, e que tem que ser destacada, foi a interpretação vocal de Sergio Pererê, um show à parte, performático, revezando-se no violão, flauta e percussão e cuja participação no grupo era um antigo desejo de Marcus Viana. Pererê liderou os vocais em quase a totalidade dos temas; Mila Amorim também deu seu recado, liderando a voz nas interpretações em inglês e nos vocalizes, e trouxe em alguns momentos uma atmosfera meio celta, bastante evidente na interpretação do tema Sweet Water.
Marcus Viana alternou muito entre o violino e teclados, além das vozes, e contou com um segundo violino nas mãos de Daiana Mazza, integrante da Transfônica Orkestra, que, apesar de não explorar muito os improvisos, colocou pontualmente as intervenções melódicas além de ter dado um colorido especial no palco.

Muita interação de Marcus Viana com a platéia, contou histórias e lembrou que, na época do início do grupo, assuntos como ecologia, natureza e meio ambiente soavam muito distantes da sociedade e que hoje, com tantos discursos sobre sustentabilidade, o assunto tornou-se pauta obrigatória e está cada vez mais presente. Com a idéia de que a humanidade é varrida do mapa de tempos em tempos, o que, em teoria, é uma verdade, deu o tom para as interpretações de Eldorado e Grande Espírito, dois temas clássicos do grupo.
No repertório teve ainda Estrela Natal,  Raio e Trovão, Pantanal e as canções criadas com letras em inglês, Sweet Water e Firecircle, que Marcus esclareceu que não as traduziu para o português para manter a idéia e originalidade dos temas. Rapsodia Cigana abriu espaço para os efusivos solos do guitarrista Augusto Rennó, do excelente baixista Adriano Campagnani e do baterista Nenem Ferreira.

Um show com um certo ar de nostalgia, mas que soou como novo.
1h30min de apresentação e o público queria mais. Marcus Viana e grupo voltam ao palco para tocar um hino, como ele afirmou, Amor de Indio (Beto Guedes), com um arranjo magistral, bucólico, simplesmente espetacular.
Despediu-se desejando a todos – Paz, Alegria e Música !