DUBAI-LIMA GUITAR PROJECT

30 novembro, 2012
São mais de 40 anos de bateria, um marco registrado no disco Quarenta (2006, Rob Digital), e uma história na nossa música, não só Instrumental e no Jazz, mas na Música Brasileira.
Uma referência no instrumento.
Pascoal Meirelles apresenta o disco Dubai-Lima: Guitar Project, em que coloca a guitarra como protagonista, representada pelas mãos de Nelson Faria, Alexandre Carvalho, Leonardo Amoedo, Mateus Starling, Ricardo Peixoto e Kamal Mussalan.
Um fato não muito comum reunir talentos de grande expressão do instrumento em um único disco, uma celebração às seis cordas liderada pelas baquetas de Pascoal, que assina 7 dos 11 temas e que traz também composições de Toninho Horta (Luisa) e Vitor Assis Brasil (Joanne).

Pascoal Meirelles
Nelson Faria dispensa comentários, um músico do primeiro time, que não se prende a estilos, com extrema fluência no Jazz e que também atua na música popular e no clássico com a maior naturalidade. Uma escola de guitarra;
Assim como Alexandre Carvalho, espetacular músico e um guitarrista de Jazz na essência. Passou uma temporada em Berklee, mas graduou-se aqui pela UFRJ onde defendeu sua tese de mestrado baseada na textura musical de Pat Metheny, não é para poucos;
O uruguaio Leo Amoedo é sensação quando sobe ao palco. Ganhou muita evidência por aqui como sideman de Ivan Lins e marcou com seu incendiário improviso no tema Dinorah Dinorah; e está sempre presente nas gigs pelo RJ contagiando o público admirador do instrumento;
Mateus Starling é um dos guitarristas mais expressivos da nova geração. Formando em Berklee, especializou-se em performance e recebeu a maior honra concedida pela escola. Sempre citado nas melhores revistas do gênero pelo mundo inteiro e teve seu nome em destaque no All About Jazz como "um guitarrista muito promissor que toca sem ter que soar como os outros";
Ricardo Peixoto reside na California e é um músico muito influente por lá, representando a nossa música. Também ingressou em Berklee para estudar violão clássico, mas seguiu o caminho do Jazz. Mudou-se para San Francisco para estudar no Conservatory of Music e lá juntou-se a outros músicos brasileiros onde atua como solista e compositor;
Kamal Mussalan nasceu no Kuwait e reside em Dubai. Descobriu o Jazz nos nomes de Metheny, Miles, Benson e McLaughlin, suas principais influências, e desenvolveu o seu próprio estilo de tocar. E foi uma grande oportunidade esse encontro com Pascoal Meirelles.

Neste trabalho ainda participam os contrabaixistas Augusto Matoso, Jefferson Lescowitz, Alberto Continentino e Sergio Barrozo; os pianistas Osmar Milito, Vitor Gonçalves e Julio Merlino; o percussionista Mingo Araujo; e os sopros de Daniel Garcia, Nivaldo Ornelas, Mauro Senise e Altair Martins.
No repertório, um passeio pelo instrumental contemporâneo nos temas Pro Helvius, liderado pela guitarra de Mateus Starling e o único tema com todos os sopros em cena; Dubai-Lima, que traz Milito ao piano e a guitarra de Kamal Mussalan; um tempero Blues em Pontanegra, nas mãos de Nelson Faria; o balanço brasileiro nos temas Malaysa, Diida e Salseiro, esta que Pascoal dedicou a sua esposa Nina, nas mãos de Nelson Faria, Alexandre Carvalho e Leo Amoedo, respectivamente; e o belo tema Luisa no improviso do violão acústico nas mãos de Ricardo Peixoto.

Pascoal nos conta um pouco sobre esse trabalho -

GC: Dubai-Lima: Guitar Project coloca a guitarra em primeiro plano. Como surgiu a ideia desse projeto ?
PM: A ideia surgiu de uma viagem que fiz com meu trio formado com Nelson Faria na guitarra e Augusto Mattoso no contrabaixo para a Malásia no Penang Jazz Fest e na Indonésia no Java Jazz Festival. Conheci o Kamal Musallan quando o avião fez escala em Dubai. Para resumir, fiz uma base da minha musica Dubai Lima no Brasil e enviei o mp3 para o Kamal gravar no seu estudio em Dubai. A partir desse inicio, convidei outros cinco guitarristas e gravei três musicas com o Nelson Faria, duas com o Alexandre Carvalho, duas com o Leo Amoedo e uma com Ricardo Peixoto, que é um guitarrista brasileiro radicado na California. O Mateus Starling, guitarrista que recebeu uma bolsa integral para estudar no Berklee College, colocou sua guitarra na musica Pro Helvius, dedicada à memória do grande pianista Helvius Villela.
Nelson Faria gravou meu disco de trio dedicado ao Jobim, Tom (2002) e fizemos uma tour na Malásia e Indonésia. Quando voltamos, o Nelson começou a ficar ocupado com os shows do João Bosco e chamei o Alex Carvalho para seguir no meu projeto do Trio e fomos fazer o Festival Jazz In Situ, em Quito, Ecuador.
As outras musicas do disco são a linda Luisa do Toninho Horta, Bambelô do cancioneiro do RN e Joanne do Victor Assis Brasil.

GC : Além dos guitarristas, muitos convidados participam deste trabalho. Foi um desafio juntar esse time todo ?
PM : Como são músicos muito preparados para trabalhar em estúdio, eu consegui a adesão total de todos. O clima das gravações transcorreram em ótimo astral e conseguimos gravar tudo em um mês. O projeto demorou nas mixagens pois no meio desse trabalho fui contratado pela Berklee Network-Ecuador para dar aulas na graduação durante os anos de 2010 e 2011, e acabei terminando as mixagem em Quito no estúdio do musico equatoriano Juan Donoso.

GC : Eu passei a entender a bateria como mais que um instrumento rítmico, e sim um instrumento melódico e parte essencial na interação com todos os outros elementos. 
É essa dinâmica que torna o instrumento fascinante ?
PM : Eu tenho uma visão bem melódica da bateria pois com meu trabalho de solista tenho a obrigação de fazer uma versão melódica em um instrumento que não tem afinação definida. Por isso o desafio é conduzir as idéias rítmicas sugerindo uma improvisação sobre o tema escolhido.
No Jazz, esse quesito entre os melhores bateristas já está em franco desenvolvimento. E não é só nos solos, o baterista  precisa acompanhar atentamente o que os solistas fazem para aplicar idéias de como motivar os solistas a impulsionar seus caminhos na improvisação dos temas.
Na música Diida (Pius Bachenlob), por exemplo, comecei a faixa com um solo de vassourinhas, tentando emoldurar a concepção do tema que viria a ser exposto em seguida. Tenho isso tão claro em minha concepção musical que lancei um livro denominado "A Bateria Musical", exatamente para que instrumentistas, e não somente bateristas, possam acompanhar o desenvolvimento das minhas ideias e toca-las em grupos, caso queiram, como forma de estudo.

GC : É fato que as pessoas querer ouvir boa música e pedem espaços para isso; e sempre haverá oportunidade para criar novos públicos. Voce vê um certo preconceito na mídia tradicional para divulgação da música instrumental ?
PM : O que passa é que no Brasil vive-se de modismo. Os meios de divulgação não estão divulgando com seriedade os trabalhos dos músicos porque a mídia voltou-se para musicas que, no entender das gravadoras, são mais fáceis de serem digeridas. Isso é um erro crasso de avaliação, pois toda vez que tocamos em praça publica as pessoas ficam vidradas quando ouvem um bom grupo, com grandes solistas. Se as mídias apoiassem com criticas honestas e com seriedade, esse tipo de musica voltaria a ser consumida, como foi o Samba Jazz na Bossa Nova e depois na década de 80, com grupos mostrando repertório próprio, divulgando as variadas tendências dos ritmos brasileiros.
A Niterói Discos, atraves da Fundação de Artes de Niterói, há 20 anos divulga os músicos que tem aceitação popular no município de Niterói, e as outras prefeituras deveriam usar esse exemplo louvável da Secretaria de Cultura deste município.

GC : Para finalizar, 3 discos por Pascoal Meirelles.
PM : Minha principal referência foi o LP Edison Machado é Samba Novo, de meados da década de 60. Eu estava começando a tocar e me entusiasmaram muito os arranjos e a atuação brilhante do Edison Machado na bateria. Entre os lançamentos de jazz, Giant Steps do John Coltrane e com Elvin Jones na bateria; e o Three Blind Mice do Art Blakey sexteto, com Freddie Hubbard, Wayne Shorter e Curtis Fuller. Em 2007 fiz um disco baseado nesse sexteto do Blakey a convite do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil).

Obrigado Pascoal Meirelles, e Sucesso.

Você encontra o disco "Dubai-Lima: Guitar Project" na Livraria Arlequim.


SALSEIRO from Pascoal Meirelles on Myspace

UM TOQUE FEMININO NA INTERPRETAÇÃO DE CHET BAKER

26 novembro, 2012
"Chet Baker nunca pensava muito nas outras pessoas, mas sabia tocar; adorava carros e dirigia rápido demais, mas sabia tocar; usou e abusou das drogas durante quarenta dos seus cinquenta e oito anos, mas sabia tocar"

Luciana Souza
Estas palavras são de Russ Freeman e constam no prefácio do livro No Rastro de Chet Baker (Bill Moody, Zahar Editora).

Que Chet foi, e é, inconfundível, ninguém tem dúvida, tanto pela assinatura do sopro do seu trompete quanto pela sua voz, não uma voz de cantor, mas uma voz singular e que transmitia emoção do seu próprio jeito, nos seus vocalizes, nos scats pontuais e cujo resultado causava total inércia ao ouvinte. Um gigante maltratado pelas drogas até sua morte em 1988.

Muitos prestaram homenagens a esse gênio da música contemporânea, e uma destas, em especial, tem um toque feminino, nasceu em terras brasileiras e tornou-se uma das vozes mais extraordinárias do cenário jazzístico atual.

Luciana Souza apresenta The Book of Chet (Sunnyside Rec), uma coletânea de standards americanos interpretados com a inspiração da atmosfera intimista de Chet Baker.
Acompanhada por Larry Koonse guitarra, David Piltch contrabaixo e Jay Bellerosse bateria, faz uma viagem introspectiva por baladas que foram imortalizadas na voz e no sopro do mestre.
A ausência do piano neste trabalho coloca a responsabilidade harmônica na guitarra de Larry Koonse, excelente músico, e que faz um trabalho quase minimalista neste album, com um toque melancólico, mas sem abrir mão dos voicings e dos improvisos, muito bem colocados. Um casamento perfeito com a voz de Luciana, aqui, sublime, reflexiva, um tanto solitária, bem ao estilo.

Este album representa a primeira gravação de Luciana exclusivamente com standards americanos, e teve a produção de Larry Klein, que realizou muitos trabalhos com Joni Mitchel.
No repertório, clássicos como Oh You Crazy Moon, The Touch Of Your Lips, The Very Thought Of You, I Fall In Love Too Easily e You Go To My Head.
Um disco espetacular.


lucianasouza.com/

JUAREZ MOREIRA LANÇA SEU PRIMEIRO DVD

20 novembro, 2012
Juarez Moreira
Ele é uma das vozes instrumentais com grande destaque do nosso cenário musical.
Por influência do pai, um violonista amador, iniciou os estudos no violão como autodidata, cresceu com a música até estrear profissionalmente no grupo instrumental de Wagner Tiso em 1978, o que foi muito promissor e abriu portas para realizar trabalhos com Toninho Horta e Yuri Popoff em meados de 1980 e fazer parte dos grupos de Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, entre outros.
Hoje, com 12 discos em sua discografia, a certeza de que contribuiu, e muito, para levar a música das Minas Gerais, a nossa música, para o mundo.

O guitarrista e violonista Juarez Moreira nos brinda com o lançamento do seu primeiro DVD, gravado ao vivo no Palácio das Artes em Belo Horizonte.
Esse trabalho só vem reforçar a maturidade musical alcançada ao longo da sua carreira, e convidou velhos amigos para participar deste projeto - o piano de Wagner Tiso, o violão de Toninho Horta, os sopros de Nivaldo Ornelas, Mauro Rodrigues e Marcos Flávio e o quarteto de cordas Taron; além da sua banda base formada por André Dequech piano, Kiko Mitre contrabaixo, Cleber Alves no sax e Nenem Ferreira bateria.

Um DVD muito bem gravado, com três trilhas de áudio, Dolby 2.0, 5.1 e DTS, e uma seção de extras com um making of do ensaio em estúdio com os convidados, algumas histórias contadas por Juarez e ainda em um momento de intimidade com seu violão.
São 18 temas gravados, 15 autorais e Juarez revive Sue Ann (Tom Jobim), Alegria de viver (Luiz Eça) e Um Chorinho Diferente (Gaucho & Zé Menezes). Das composições autorais, uma retrospectiva da sua carreira desde o lançamento de seu primeiro trabalho, "Bom Dia" (1989). Os arranjos foram elaborados por Juarez e Cleber Alves.

O tanto de simplicidade que Juarez transmite, passa em intensidade na sua música.
E essa sonoridade das Minas Gerais faz a diferença quando a ela se junta a bossa, o choro, o jazz e o blues, traduzindo esses elementos em uma rítmica muito particular e gostosa de se ouvir; e, aqui, de se ver. Juarez, de estilo fingerstyle, reveza entre a guitarra, uma 335, e o violão, um belo Takamine modelo Hirade.
No repertório, um passeio pelo balanço da bossa nos temas Carioca e Alegria de Viver; traz o choro na forma de tango em Choro para Piazzolla, uma homenagem ao mestre, e o reveste de bossa, como se dançasse samba, em Chorinho Diferente. Um ar seresteiro revive Jobim em Sue Ann; e ilustra a fronteira do samba com o blues em Samblues, arrastando a melodia com muito swing e com o colorido dos improvisos de Dequech, Juarez, Cleber e as divisões rítmicas aplicadas pontualmente pela bateria de Nenem. Um espetáculo.
Nivaldo Ornelas aparece na flauta em Belle Epoque e no tenor em Cantiga Bossa Nova, aqui em um improviso bem desenhado compartilhado pelo piano de Dequech.
No tema Trópicos, algo nos leva à Bahia, de todos os santos, de todas as crenças, de todos os ritmos, que encontra na melodia a originalidade da música de Juarez. Percebe-se influências muito presentes, primariamente a característica forte da sua origem, da música de Minas, como em Depois do Amor, cujo tema nos remete a uma nostalgia do Clube da Esquina; às vezes paira um ar "methenyiano", às vezes um ar de Toninho Horta.
Toninho se apresenta em Samba pra Toninho, assumindo a 335 de Juarez, que volta ao violão, e fazem uma interpretação impecável, traduzindo um verdadeiro retrato da nossa música instrumental e com todos os sopros no palco, com muito balanço e um certo ar emsemble. Toninho ainda divide o violão com Juarez e o piano de Wagner Tiso em Valsa para Maria, uma balada belíssima, de originalidade e sensibilidade únicas. Wagner Tiso também interpreta Cine Pathe, quase como um encontro com os "anos dourados" de Jobim.
O quarteto de cordas Taron, formado por Jovana Trifunovic e Frank Haemmer nos violinos, Katarzyna Druzd na viola e Lina Radovanovic no violoncelo, deu um ar erudito na apresentação nos temas Baião Barroco e Valsa para os Beatles.
Encerrando a apresentação, o belíssimo tema Você Chegou Sorrindo, e chegou mesmo para ficar com uma daquelas melodias que a gente sai assobiando por aí; e é isso que faz a nossa alegria de viver.

Viva a Música Instrumental Brasileira.

Juarez Moreira

Mais sobre Juarez Moreira em  www.juarezmoreira.com.br/

ALFREDO DIAS GOMES AO VIVO EM BROADCAST PARA O MUNDO

15 novembro, 2012
divulgação


A idéia é oportuna e vem ao encontro da modernidade do mundo virtual. Assim como os principais clubs de jazz de New York estão transmitindo seus shows ao vivo, em broadcasting, a iniciativa também já está chegando por aqui, vide o bar Jazz nos Fundos, em São Paulo.

E quem faz as honras é o baterista Alfredo Dias Gomes.
Reconhecido pelo meio artístico brasileiro, por já ter trabalho com boa parte deles, o baterista e compositor constatou, há cerca de cinco anos, o poder da web. Através do site americano ReverbNation, que divulga informações e músicas de artistas de todos os continentes, comprova a máxima - "A (boa) música brasileira continua prestigiada e apreciada em todos os cantos".
Com mais de 130 mil fãs pelo mundo, ocupa há um ano o segundo lugar na categoria jazz no ranking global do ReverbNation e o primeiro lugar do Brasil. A repercussão de seu trabalho na web o incentivou a criar workshops de percussão com transmissão ao vivo do seu estúdio. Foi por causa dessa exposição na rede e a boa aceitação do programa, batizado de ADG Studio Live, que começaram a surgir pedidos de shows dos mais diferentes pontos do planeta.

A apresentação com seu trio, formado pelo guitarrista israelente Yuval Ben Lior e pelo baixista Weslen Lima, já tem data e hora marcados - dia 25 de novembro, às 20h, e o local é no endereço virtual -
http://www.alfredodiasgomes.com.br/

No repertório, composições do último CD de Alfredo, "Corona Borealis", e de "Atmosfera", trabalho de 1996, além de músicas do guitarrista Ben Lior.

Como vivemos em uma nova aldeia global, todas as transmissões são anunciadas na web com o horário oficial de Brasília, mais os horários de Los Angeles, Nova York e Londres.
“Muitos portais e sites passam shows ao vivo aqui e no exterior, mas um show feito especialmente para ser transmitido pela internet é uma nova forma de alcançar seu público”, avalia o músico, que tem mostrado seu poder com as baquetas, no estilo jazz rock, não só pelo site americano, mas também no MySpace e Facebook.
Entusiasmo não falta na hora de descobrir novas formas de utilizar a rede como aliada, diz ele - “Fui buscando softwares, câmeras, enfim, todas as ferramentas que poderiam me ajudar a concretizar essa ideia. Saí do estúdio de música para entrar no estúdio de vídeo”.

A divulgação deste evento tem a Assessoria de Imprensa da Tempo3 Comunicação.

ELIANE ELIAS VOLTA A LANÇAR CD DE JAZZ PROPRIAMENTE DITO

11 novembro, 2012
Coluna do Luiz Orlando Carneiro 
Jornal do Brasil, 22 de setembro

Há quatro anos, a pianista Eliane Elias produziu com o marido Marc Johnson, refinado baixista que integrou o derradeiro trio de Bill Evans (1978-80), o CD Something for You: Eliane Elias Sings and Plays Bill Evans. Escrevi então, nesta coluna, que “o fato de o verbo cantar estar antes de tocar no título do álbum já é um recurso apelativo, até porque há mais faixas puramente instrumentais (10 em 17) do que com a voz doce, bonitinha, mas não extraordinária, da cantora, mais pop do que jazzy”.

Nesta última década, essa paulista de 51 anos, dos quais 30 vividos em Nova York, fez uma clara opção comercial, dando ênfase à sua carreira de singer de smooth jazz, em detrimento de sua arte puramente pianística, como atestam os discos Dreamer (Blue Note, 2004), Kissed by Nature (RCA, 2009) e Light my Fire (Concord Picante, 2011).
Os críticos e jazzófilos mais exigentes estavam à espera de um novo registro puramente instrumental do alto nível de Everything I Love (Blue Note, 1999), em trio com Johnson e Jack DeJohnette (bateria), e de Shades of Jade (ECM, 2004), novamente com o marido e os eminentes Joe Lovano (sax tenor), John Scofield (guitarra) e Joey Baron (bateria).

Pois esse CD, gravado em fevereiro de 2010, acaba de ser lançado por Manfred Eicher, dono, cabeça e alma da ECM. Trata-se de Swept Away, título de uma das cinco peças compostas por Eliane Elias para o disco, que se somam a outras duas que ela escreveu com o marido (Sirens of Titan e Inside Her Old Music Box), a três originais do baixista colíder (When the Sun Comes Up, Midnight Blue e Foujita), e ao tema folclórico Shenandoah, interpretado em solo por Marc Johnson.

O primoroso trio Elias-Johnson-Baron reúne-se novamente, e Joe Lovano forma um quarteto para a interpretação de quatro faixas: It’s Time (5m50), tema de Eliane dedicado ao inesquecível sax tenor Michael Brecker (1949-2007), seu primeiro patrão, na década de 80, no grupo Steps Ahead; as etéreas When the Sun... (6m35) e Midnight Blue (6m); a animada e envolvente Sirens of Titan (5m50), impulsionada pelas acentuações indispensáveis de Joey Baron.
Assinadas pela pianista, One Thousand and One Nights (8m15) e B is for Butterfly (8m) são, a meu ver, as faixas em trio mais atraentes do álbum, em termos de emoção e execução técnica. A primeira, como fica claro no título (Mil e uma noites), tem um colorido melódico oriental; a segunda lembra os momentos mais alegres e interativos do trio de Keith Jarrett.

A atmosfera geral do novo CD é do jazz mais contemplativo que caracteriza a etiqueta ECM. Eliane e Marc Johnson admitem que o ambiente em que foram escritas as peças de Swept Away, a casa em que moram nos Hamptons, o balneário chique de Long Island, perto de Nova York, influenciou decididamente o seu mood. O baixista comenta: “Existe lá, definitivamente, um sentimento de quietude e de espaço que nos inspira. A natureza está mais próxima, e podemos realmente ver a mudança de estações. Acho que se pode ouvir isso no lirismo e na sinceridade da música (do álbum)”.

UMA ALEGRE BONECA DE PANO

07 novembro, 2012
As definições de bordel e cabaré, por vezes, misturam-se no imaginário. Enquanto o primeiro caracteriza-se como prostíbulo, o segundo é uma casa de diversão com shows realizados com mulheres, embalados por música e dança em apresentações sensuais e um local preferido das classes sociais mais abastadas.
Os cabarés foram muito populares na França, na época do Belle Epoque, período que iniciou no fim do século 19 e se estendeu até o fim da primeira grande guerra, de intensa movimentação cultural. A França apadrinhou este movimento pois concentrava grande quantidade de músicos, pintores, dançarinos, escritores e filósofos, e a solidão destes personagens era revestida pelo ambiente enfumaçado levando-os a um estado de êxtase que ia de encontro a falta de perspectiva para as suas vidas, às vezes, tão vazias.
Essa fascinação pelo encontro com as moças vestidas em íntimas lingeries e cintas-ligas transcende ao tempo e ainda hoje se fantasia pelos meios de acesso na modernidade da realidade virtual. Ainda e sempre, acaba tornando-se uma libido proibida, cujo feitiço será sempre o mesmo, à imagem e semelhança das fantasias eróticas, promíscuas e mundanas.
O piano sempre foi um instrumento marcante e característico destes locais. O piano de armário. Músicos se faziam presentes para compor a trilha destes ambientes, cujo estilo traçou seu próprio caminho e que até deu início a era do ragtime, que veio a ser rotulada como a música do pecado.

Glad Rag Doll (Verve Records) é o novo álbum de Diana Krall e revela um lado intimista e sensual, reproduzindo uma certa atmosfera de época, os anos 20 e 30, sob a ótica da modernidade.
Eleita a voz feminina pela votação dos leitores da Downbeat, Readers Poll 2012, Krall ainda ilustra a capa da revista na edição do mês de dezembro.

Krall esclarece que conheceu as canções do início do século passado antes de conhecer os standards de Jazz. Seu avô trabalhava nas minas de carvão, não tinha dinheiro, mas tinha um piano; e nos domingos em família enquanto o avô ia para a jogatina, ela ia atrás das pilhas de partituras antigas para cantar. E assim conheceu o trabalho de Jean Goldkette e Gene Austin.
A capa do album é uma homenagem a Alfred Cheney Johnston, fotógrafo conhecido por seus retratos das showgirls nos anos 20 e 30; e mostra Krall, em seus 47 anos, muito sedutora.
E essa sedução se desenvolve nos 17 temas recheados de baladas acompanhadas por dobros, banjos, violões acústicos e ukulele, instrumento de quatro cordas muito característico dos anos 20, revezados por Marc Ribot, Howard Zoward Bryan Sutton, Colin Linden e T-Bone Burnet.
Krall ainda executa alguns temas só com voz e piano.
Ela sabe das coisas e entendeu que precisava de algo diferente para este álbum e, para reproduzir o estilo da época, utilizou um piano de armário nas gravações, um vintage Steinway de 1890. Na verdade, Krall cresceu  tocando neste tipo de piano e ela afirma que o instrumento faz voce tocar de uma forma diferente, a música soa diferente porquê, por si só, é um instrumento diferente.

Glad Rag Doll é um disco surpreendente e carregado com uma sonoridade bem rústica. Obrigatório.

Som na caixa !

DOWNBEAT READERS POLL 2012

03 novembro, 2012
Downbeat Readers Poll
A Downbeat divulgou a listagem do DownBeat Readers Poll, votação anual realizada pelos leitores da revista que chega em sua edição 77.

Como ressaltou Frank Alkyer, editor, esta é a mais abrangente eleição da história da revista e teve mais de 17 mil eleitores. E destaca a emoção de ver Ron Carter entrar no Hall da Fama, tornando-se o último membro do grande quinteto de Miles Davis a integrar a lista; e também um grande prazer ver Esperanza Spalding estrelar como um nome importante da próxima onda de jazz.

Uma competição bastante acirrada para o Hall da Fama e uma diferença de 15 votos colocou Ron Carter a frente de BB King; e um empate na categoria Barítono com James Carter e Gary Smulyan liderando a votação.

A listagem completa de todos os votados está na edição de dezembro da Downbeat.

A lista dos vencedores -

DownBeat Hall of Fame: Ron Carter
Jazz Artist: Esperanza Spalding
Jazz Album: Esperanza Spalding, Radio Music Society (Heads Up/Concord)
Beyond Album: Robert Glasper Experiment, Black Radio (Blue Note)
Historical Album: Miles Davis Quintet, Live In Europe 1967: The Bootleg Series Vol. 1 (Columbia/Legacy)
Blues Album: Wynton Marsalis & Eric Clapton, Play The Blues: Live From Jazz At Lincoln Center
Jazz Group: Dave Brubeck Quartet
Big Band: Maria Schneider Orchestra
Trumpet: Wynton Marsalis
Trombone: Trombone Shorty
Soprano Saxophone: Wayne Shorter
Alto Saxophone: Kenny Garrett
Tenor Saxophone: Sonny Rollins
Baritone Saxophone: James Carter e Gary Smulyan
Clarinet: Anat Cohen
Flute: Hubert Laws
Piano: Brad Mehldau
Keyboard: Herbie Hancock
Organ: Joey DeFrancesco
Guitar: Pat Metheny
Bass: Christian McBride
Electric Bass: Stanley Clarke
Violin: Regina Carter
Drums: Jack DeJohnette
Vibes: Gary Burton
Percussion: Airto Moreira
Miscellaneous Instrument: Toots Thielemans (harmonica)
Male Vocalist: Kurt Elling
Female Vocalist: Diana Krall
Composer: Wayne Shorter
Arranger: Maria Schneider
Record Label: Blue Note
Blues Artist or Group: B.B. King
Beyond Artist or Group: Robert Glasper