AARON DIEHL : UMA ESTRELA EM ASCENSÃO

31 maio, 2013
Aaron Diehl
Coluna do Luiz Orlando Carneiro 
JBOnline, 25 de maio

A última eleição da Jazz Journalists Association (JJA), que congrega mais de 400 críticos do mundo inteiro, o pianista Aaron Diehl, 28 anos, foi escolhido o músico em ascensão da temporada 2012-13 (Up and Coming Artist of the Year).

Em 2011, o ex-aluno da Juilliard School, “descoberto” por Sua Excelência Wynton Marsalis, que o contratou para o seu septeto, já tinha conquistado um relevante primeiro lugar na Cole Porter Fellowship in Jazz Competition da American Pianists Association.

O pianista está de novo em evidência com o lançamento do CD The Bespoke Man's Narrative (MackAvenue Records), uma coleção de 10 faixas, das quais sete em quarteto com o vibrafonista Warren Wolf, o baixista David Wong e o baterista Rodney Green. Ou seja, uma formação que não pode deixar de lembrar o lendário e celebrado Modern Jazz Quartet, o conjunto de jazz “camerístico” que encantou os ouvidos mais exigentes durante três décadas, e deixou saudades quando se despediu, oficialmente, em 1974.
No MJQ, o pianista-compositor John Lewis era a cabeça e Milt Jackson (vibrafone) o coração. Percy Heath (baixo) e Connie Kay (bateria) eram os braços e as pernas daquele combo que dosava aspectos formais da música erudita (fuga, contraponto) com o feeling do blues e a causa formal do jazz, aquela pulsação anímica também chamada de swing.

Aaron Diehl não esconde sua admiração por John Lewis (1920-2001). Ainda quando estava na Juilliard, ele ajudou a viúva de Lewis, a iugoslava Mirjana, a organizar o arquivo de partituras, tapes e discos do grande músico. Mas deixa bem claro que este seu novo álbum não é, propriamente, uma ode ou um tributo ao MJQ ou ao seu líder.
A chave do CD da MackAvenue está no seu curioso título. De acordo com a apresentação da gravadora, nos círculos da moda, a palavra bespoke refere-se a roupas “feitas sob medida”. E Diehl explica que a ideia da metáfora é que o conceito musical das performances teve em mente, especificamente, as personalidades dos quatro jovens músicos, que executam peças concebidas, “sob medida”, por e para eles. Mesmo que cinco delas sejam arranjadas e improvisadas a partir de temas bem conhecidos nos campos do jazz e da música erudita: Moonlight in Vermont (7m), standard bem popular nos anos 50/60, e The Cylinder (5m30), de Milt Jackson, em quarteto; Single Petal of a rose (6m35), de Duke Ellington, Le Tombeau de Couperin (10m50), de Ravel, e Bess You is my Woman (8m15), de Gershwin, em trio (sem o vibrafone).
As composições da pena de Aaron Diehl são Prologue (1m55), Generation Y (6m50), Blue Nude (7m40), Stop and Go (5m40) e Epilogue (3m). E o fato de o CD ter um prólogo e um epílogo demonstra ter ele pretendido, e conseguido, que o todo (o álbum) fosse a soma harmoniosa das partes (as faixas).

A interação, a troca de passes constantes entre os membros do grupo – não impede que Diehl e o excelente Warren Wolf se destaquem como solistas, da mesma forma que o econômico John Lewis e Milt Jackson eram as estrelas do MJQ (Milt mais efusivo, John mais introvertido).
Aaron Diehl é um virtuose completo, de dedilhado cristalino, infenso a exibicionismos. Neste sentido, são particularmente admiráveis as recriações da terceira parte (Forlane) da suíte pianística de Ravel (os seis minutos do original são quase duplicados), de Bess You is my Woman, e também as fulgurantes performances dos originais Generation Y e Stop and Go.

E, finalmente, vale dizer que o grand piano de que se serve Diehl nesta gravação é o Fazioli F-228, considerado a Ferrari dos instrumentos de 88 teclas e sete oitavas.

O QUE ROLOU NO BOURBON PARATY FESTIVAL 2013

29 maio, 2013
Bourbon Paraty Festival


Uma colaboração do nosso amigo e amante incondicional da música Paulo Cesar Nunes, nosso conhecido PC, que pegou a estrada e desembarcou no Bourbon Paraty Festival para três dias de muita música.
E ele nos conta o que aconteceu por lá.

por Paulo Cesar Nunes

No final de semana de 24 a 26 de maio se realizou na cidade histórica de Paraty a quinta edição do Bourbon Paraty Festival, evento que já tem enorme importância no calendário cultural do país.
A programação musical se dividiu entre dois palcos - o principal, ao lado da Igreja da Matriz e usado para os shows maiores à noite; e o palco menor, no descampado em frente a Igreja de Santa Rita, com shows à tarde. Este ano tivemos chuva nas noites de sexta e sábado, o que atrapalhou um pouco devido a grande quantidade de guarda-chuvas, e também alguns atrasos no início dos shows, mas nada disso diminuiu o nível das apresentações.
Na noite de sexta-feira o lendário músico Raul de Souza e seu quinteto abriram o festival com mais uma memorável apresentação. O mestre brasileiro do trombone, muito conhecido no exterior por seu inigualável domínio de linhas distintas em seu instrumento como jazz, soul e gafieira, desfilou seu ótimo repertorio nessa mistura que o torna referencia para os trombonistas do mundo inteiro, e apresentou seu  souzabone, um trombone elétrico criado por ele. Em destaque, o empolgadíssimo baixista Glauco Solter, que animou o público com sua estupenda técnica.
Depois vieram os ingleses do Incognito, a primeira atração internacional. Uma das mais empolgantes formações de acid jazz-soul music e com muitos albuns lançados, os ingleses desceram a mão com grande atuação de seu maravilhoso naipe de metais e o destaque para as vozes de Vanessa Hayne, Tony Monrelle e Natalie Williamns, além do mestre de cerimonias, lider e guitarrista Jean Paul "Bluey". Mesmo com as mudanças no grupo ao longo de três décadas, seguem firmes com muita empolgação. Bluey chamou Ed Motta para subir ao palco e uma soul jam se armou com uma sintonia de arrepiar, e nós nem ligamos pra chuva. Um dos pontos altos do festival.
Encerrando a noite e com atraso de 1 hora, a Serial Funkers detonou sua mistura dançante já atacando de Let's Groove e outras do Earth, Wind and Fire, com o detalhe do falsete do vocalista Regis Paulino, tornando o calçamento pé de moleque da cidade em uma grande pista de dança. O convidado especial Ed Motta detonou seus hits e o show contou ainda com a participação do Bluey. Foi um bailão em Paraty.

No sábado a música reiniciou na bonita tarde ensolarada e a bela vista da baía de Paraty, local do palco Santa Rita. O violonista local John Wesley e o mestre Carlos Barbosa Lima dividiram o palco desfilando clássicos do instrumental brasileiro e chorinhos, como Odeon, Sons de Carrilhões, Trenzinho Caipira e outras pérolas de um rico repertório. Degustação de música de muita qualidade que a plateia acompanhou maravilhada. Depois subiu o veterano do Blues Paulo Meyer e os Thunderheads, que esquentaram a plateia com Blues dançantes e um repertório com Jonnny Cash, Credence e temas próprios. E uma surpresa espetacular - a cantora californiana Alissa Sanders, que participou cantando alguns temas. O ponto alto foi Simpathy for the Devil (Stones), numa levada meio country-rock, emoldurada pela gaita do Meyer e os backing vocals. À noite no palco principal a paulistana Céu apresentou seu novo album, Caravana Sereia Bloom, sequencia de seu trabalho que é uma mistura de ritmos e que ela gosta de separar da MPB, com tempero atrevido dos efeitos do DJ Março. Não faltaram seus sucessos de discos anteriores, como Lenda, Vagarosa e Malemolencia, cantados pela atenta platéia, apesar da chuva.
E a noite seguiu com o nome mais forte desta edição, Stanley Clarke, que fez um espetacular set acompanhado por seu quarteto formado pelo californiano Kamasi Washington sax, o genial pianista Mahesh Baasooriya e um inquieto baterista Mike Mitchell, com quem Clarke dialoga constantemente. Clarke apresentou sua técnica soberba tanto no baixo elétrico quanto no acústico e é muito difícil escolher um ponto alto aqui, mas me permito o atrevimento de mencionar a surpreendente introdução de Goodbye Pork Pie Hat, clássico de Mingus, no arranjo feito por Jeff Beck, uma insinuante sensação triste e bela ao mesmo tempo, em que Clarke traduziu à perfeição para o seu instrumento. Apresentação espetacular deste ícone da música e um dos pilares do fusion.
E para quem pensou que a noite tinha terminado subiu ao palco o endiabrado trombonista Sammie Williams à frente do quinteto de New Orleans Big Sam's Funky Nation. Doses cavalares de soul-funk marcados pelo incessante ritmo dos integrantes, praticamente encadeando um tema no outro, numa festa interminável de hip-hop, dance e soul . Todos tocaram muito e destaque para a guitarra ora pesada, ora ritmada, do guitarrista Joshua Connely, e a cozinha do baterista Desmond "Chocolate Milk" Williams e do baixista Jerry Henderson. Big Sam e o trompetista Andrew Baham fizeram os vocais e os passinhos de dança engraçados, e também tocaram muito. Pancadaria de grosso calibre, o grupo representou com maestria o lado mais soul que prevaleceu neste festival.

Domingo, último dia, o belo palco de Santa Rita abriu os trabalhos com mais um representante da linha jazz-samba-funk, o ótimo quinteto  paulistano Tuto Ferraz Funky Jazz Machine, liderado pelo baterista Tuto Ferraz, que apresentou repertorio do disco novo À Deriva . Destaque para nos solos do guitarrista Angenor de Lorenzi, do tecladista Pepe Cisneros e do sax de Clayton Souza e a elegante condução de Sidiel Vieira no contrabaixo. Depois Jefferson Gonçalves e sua bem sucedida mistura de Blues com ritmos nordestinos acompanhado por Kleber Dias, Fabio Mesquita, Marco BZ, Marco Arruda e o convidado especial Big Joe Manfra em uma apresentação vibrante e plateia em delirio. O show teve ainda a participação de Vasco Faé, o one man band, que era visto nas ruas de Paraty no segmento Buskers do festival.
De noite, a atração mais Jazz do festival, a tradicional Players New Orleans Jazz Band, com a cantora Germaine Bazzle, uma senhora que representa com maestria a escola mais antiga do cancioneiro americano. Esbanjando swing do alto dos seus 81 anos, a diva abusou dos scats. Infelizmente o saxofonista Alonzo Bowens não veio, mas ela foi muito bem acompanhada pelo trio formado pelo baterista Ocie Davis, o contrabaixista Mitchel Player e o maravilhoso pianista Leslie Martin, que desfilou stride e twist boogie e encantou a platéia. Brilho intenso de todos no standard Bye Bye Blackbird em que a senhora Bazzle apresentou os músicos de forma inusitada, usando scats. Uma verdadeira aula de jazz em Paraty.
Depois o virtuoso do bandolim Hamilton de Holanda acompanhado de André Vasconcelos no contrabaixo e Thiago da Serrinha na percussão. No repertorio, seu novo album Trio e temas como Roda Viva (Chico Buarque) e Canto de Ossanha (Baden). Essa formação e repertório diferente do quinteto anterior dá uma guinada mais intimista e sóbria ao trabalho de Hamilton que, mantendo a execução sempre virtuosa e inspirada, teve que fazer dois bis a pedido do público.
Palco e público em temperatura mais alta, por volta de 1h de segunda feira o encerramento ficou a cargo da cantora Mart'nalia.

Mais uma edição com muita música de qualidade. Parabenizamos a produção e esperamos a edição de 2014. Hasta la vista!

EDWARD SIMON TRIO EM SEU PRIMEIRO ALBUM AO VIVO

27 maio, 2013
O pianista Edward Simon já lançou dois albuns em trio acompanhado pelo contrabaixista John Patitucci e o baterista Brian Blade. Os temas de seu novo album já foram gravados pelo menos uma vez, mas nunca como em At Jazz Standard (2013, Sunnyside), seu primeiro registro ao vivo.
E gravações ao vivo sempre são diferentes, contagiantes, é como se esses registros alimentassem os improvisadores de Jazz estimulando a criação no momento da execução, e com um público que interage, o oposto de uma produção em estúdio. E eles se permitem a esse prazer.
Simon é capaz de divagar e transmitir idéias e fazer descobertas líricas bem além de onde começou. Ele não economiza em sentimento, como no tema de sua autoria Poesia, de 11 minutos, em que responde a isso tudo. Reciprocamente, ele tem tempo para retornar às ideias que ressoam e repetí-las em rituais.
O tema de Jobim Chovendo Na Roseira é um ciclo hipnótico cuja recorrência se constrói em um drama por 14 minutos.
Simon está extraordinariamente bem acompanhado pela seção rítmica de Wayne Shorter. Os solos de John Patitucci são tão descritivos quanto os de Simon, que por muitas vezes se entrega a partir das explosões de Brian Blade. O contrabaixo de Patitucci permanece no centro de Chovendo Na Roseira, em andamento 7/4, para as articulações de Simon.
E Simon escreve melodias sombrias. Em Pathless Path o tema mantém-se estático enquanto Patitucci suspira com o arco para então arrancar um escuro ostinato para Simon flutuar livremente. A melodia permanece por todo o tempo e por 16 minutos é perseguida e se expande por transformações exuberantes para, finalmente, se concentrar de volta para dentro de si e círcular como um obsessivo ritual.

Edward Simon nasceu na Venezuela e muito pouco se fala sobre ele quando o assunto refere-se aos pianistas do Caribe e América do Sul, mas ele pode, certamente, ser o mais completo e criativo artista entre eles. Cresceu ouvindo musica latina e caribenha e credita ao seu pai o desenvolvimento e sua paixão pela música, assim como seus irmãos Marlon e Michael, baterista e trompetista respectivamente.
Iniciou os estudos de música clássica e o incorporou o Jazz quando transferiu-se para Manhattan School of Music, onde estudou com o pianista Harold Danko. Ganhou reputação na meca de New York, integrou os grupos de Bobby Watson e Terence Blanchard e hoje é o pianista da SF Jazz Collective.

fonte : Jazz Timesedwardsimon.com     
Som na caixa !

JOHN ZORN POR PAT METHENY: BOOK OF ANGELS VOL.20

21 maio, 2013
Pat Metheny dá sua contribuição no ambicioso projeto de John Zorn com o lançamento de Tap: The Book of Angels, Volume 20.
É a primeira colaboração entre os dois músicos, considerados um dos mais inovadores de suas gerações. Ao lado do seu habitual companheiro de grupo, o baterista Antonio Sanchez, Metheny toca todos os instrumentos - guitarras, cítara, baixo, teclados, orchestrionics, eletrônicos, bandoneon, percussão e flugelhorn.

No início nos anos 90, Zorn escreveu 500 canções inspiradas na música tradicional judaica, que tornaram-se conhecidas em dois volumes do Masada Book. Ele interpretou as primeiras 200 canções do "Book One" com vários integrantes do Masada for uma década antes de escrever as próximas 300 canções do "Book Two" em apenas três meses.
Passados oito anos, as canções do Book Two foram gravadas como volumes intitulados "The Book of Angels" com  várias formações, incluindo o Masada Quintet, Masada String Trio, Medeski Martin & Wood, e Marc Ribot.
Zorn disse sobre a gravação de Metheny - "Pat, com certeza, é uma lenda viva. Sua dedicação, imaginação e curiosidade infinitas o distingue como um dos maiores músicos do planeta. E Tap é uma vitrine para essa sua imaginação, técnica, paixão e amor pelo mundo. Não importa quantas vezes eu ouço esta gravação, estou sempre com a sensação de como se fosse a primeira vez."
E Metheny complementa - "Admiro John Zorn desde o fim dos anos 70 e sigo seu extraordinário trabalho. Trocamos e-mails por muito tempo e, acredite, nunca nos encontramos pessoalmente durante muitos anos. Mencionei que seguia sua série Book of Angels desde o início e senti que poderia contribuir com algo para sua série."

Confira a entrevista com Pat Metheny e John Zorn publicada no NY Times em 19 de maio, em que falam sobre o lançamento do album Tap.
( tradução livre )

A carreira de voces se desenvolveram quase que ao mesmo tempo e cada um criou um público devoto e de mente aberta. Que afinidades são estas para voces ? 
Metheny : Temos mais ou menos a mesma idade e realizamos nossaos estudos juntos. É interessante que tivemos poucas oportunidades de nos encontrar até agora. Eu sou um fã de John desde que o ouvi pela primeira vez, na época que comecei a tocar, no final dos anos 70.

John, quando voce se tocou sobre Pat Metheny ?
Zorn : Isso vem desde os primeiros registros da ECM, quando todo mundo estava ouvindo essa música. E isso foi muito bom, essa sua paixão e liderança, mas também a capacidade de transcender a linguagem de uma música que, na verdade, nunca me empolgou muito. Você mencionou estar com a mente aberta e acho que isso é muito importante para ouvir esse album. Seja um purista do Jazz, um metaleiro, ou mesmo um ouvinte de música clássica, eles têm uma alcance muito estreito do que eles se permitem em suas vidas. As pessoas que ouvem o que nós colocamos para o mundo tem que ter a mente aberta porque somos pluralistas.

Como foram escolhidas as composições para o album ?
Zorn : Cada registro da série Book of Angels é unico em termos de composição. De todos os registros, e há 20 deles agora, eu escolho os temas. Havia apenas um segundo sentido em que eu dizia - "eu posso ouvir Pat tocando isso".

Minha impressão sobre Book of Angels é que está envolvido em um momento solitário de composição, seguido por um algo sem obrigação com o mundo
Zorn : Na criação do segundo "Book", eu o descreveria como um correnteza. Isso porque o primeiro "Book"  foi esculpido da rocha, levou anos por ser uma nova linguagem. Então eu toquei aquelas peças por 10 anos e tornei-me proficiente naquela linguagem, e começou a fluir. Mas há uma habilidade que envolve  adicionar uma pura inspiração, que é algo que eu admiro muito em Pat.
Metheny : Estou sempre inspirado quando há solidez no material que está na minha frente. Eu peguei as anotações de John e elas me inspiraram milhões de coisas, muitas das quais eram improvisadas, muitas que eu não sei exatamente o que é. O que eu procuro nos músicos é essa grandeza e assim voce segue infinitamente.

O tema chamado "Tharsis" parece um bom exemplo disso porque tem um pedaço discreto da melodia que se contrói dentro um estrutura muito complexa, e a melodia se mantém intacta.
Zorn : Sim. Uma catedral gótica. Uma das incriveis habilidades do Pat é como ele penetra na cabeça do músico. O que realmente me surpreendeu foi o último tema do album, que no jargão "Masada" chamamos de "event tunes", em que a composição é uma série de frases alteradas ou aparentemente não relacionadas.
Isso é uma das coisas mais radicais que já fiz, apenas em termos de trabalhar com o tempo. Pat mergulhou de cabeça. Essa faixa é espantosa para mim. Esse é o maior salto que você faz em termos de abrir caminhos e conectar nossos mundos.
Metheny : O que eu quis fazer era o núcleo da ideia base e extrapolá-lo em um outro nivel de desenvolvimento, mais do que apenas improvisar sobre ela. Outra coisa que eu amo é ouvir músicos que desenvolvem contextos por eles mesmos. E isso é o que admiro muito em John, poder estar o mais próximo do ápice. Ele é um mestre em chegar com oportunidades para a música existir, seja uma ópera ou mesmo um quarteto de cordas.

"Nós só somamos. Não jogamos nada fora. 
Nós inserimos, inserimos, inserimos"
  John Zorn 
    fonte : NY Times, patmetheny.com
Mais Pat Metheny -

Orchestrion Unity Band What´s All About Live at Vienna Opera House

QUARTETO À DERIVA APRESENTA MÓBILE

16 maio, 2013

às vezes ouço passar o vento, e só de ouvir o vento passar vale a pena ter nascido
Fernando Pessoa

A citação do poema de Fernando Pessoa pode ilustrar um tanto do que é estar à deriva, ao som do vento, não necessariamente estar sob o silêncio, mas se situar em um momento de reflexão que dá o início de uma grande jornada. Melhor quando esses caminhos se constroem em forma de música, moldados por melodias, ritmos e improvisos livres, guiados por emoções e sentimentos que acontecem no momento da interpretação.

O Quarteto À Deriva mostra no disco Móbile, o quarto da sua discografia, que não existem fronteiras quanto o assunto é Música, basta simplesmente deixar fluir a expressão mais bela que há dentro de nós e criar esse movimento de ondas sonoras.
O grupo é formado por Beto Sporleder no sax e flauta, Daniel Muller no piano e acordeon, Rui Barossi contrabaixo e Guilherme Marques na bateria, extraordinários músicos que estão juntos há 9 anos mostrando o quanto está viva, e criativa, a nossa música instrumental.

Móbile é um trabalho autoral e reflete a busca por novos caminhos com ênfase na improvisação e interação livre entre os músicos. Assim o grupo define sua música no belo encarte que resume o CD, ilustrado pelo ensaio fotográfico da artista Mariana Chama.
O disco foi gravado ao vivo no estúdio Comep, São Paulo, em fita analógica, ganhando, assim, uma sonoridade mais calorosa.
Abre com o tema Carvoeiro, como um fractal guiado pelo soprano de Sporleder que repousa no piano de Daniel em Reminiscências, uma bela balada que abriu espaço para o improviso melódico do contrabaixo de Barossi. Segue crescente, com uso de instrumentos percussivos e flautas, e apresenta a veia contemporânea em Il Cane Vuk, dando um ar europeu conduzido pelo contrabaixo e sax desenvolvendo a melodia.
5 Haicais se reveste de tango, com a característica atmosfera sombria proporcionada pelo acordeon de Daniel. E mais um belíssima balada, Bom Retiro, uma verdadeira viagem sonora destacando as pontuações da bateria de Guilherme e o belo solo de piano de Daniel. Aqui, se reforça a textura do sopro de Sporleder, em que percebe-se o traço de um primitivo Wayne Shorter, e é um dos pontos altos do disco. De Areia é quase um poema citado pela introdução em piano solo de Daniel. Alguma coisa blue surge em Atras da Corda vem o Boi, espontâneo, sem formas, sem rótulos; e um epílogo com o soar dos gongos em Onde o Silêncio faz Eco, para reverberar no infinito. 

Por definição, Móbile é uma escultura móvel formada por elementos suspensos, perfeitamente equilibrados, que se movimentam com a passagem do ar ou ação motora criando uma experiência visual de dimensões e formas. E assim podemos definir sobre este excelente disco, uma verdadeira experiência sonora.

Com a palavra, o Quarteto À Deriva -

Como se formou o grupo ? 
Daniel : Um embrião do À Deriva existe desde o tempo em que eu, o Guilherme e o Rui estávamos na Unicamp cursando a graduação em música popular. Tocávamos juntos e compartilhávamos o gosto por grupos de jazz mais voltados para a improvisação coletiva ou em que os acompanhantes tinham liberdade para tocar de forma muito livre e improvisada, interferindo e contribuindo bastante na interpretação do solista.
Quando nos formamos, essa vontade de tocar música improvisada de uma forma mais solta se condensou em um trio, que, por volta de 2004, foi batizado de Trio À Deriva. Mais ou menos nessa época, encontramos, aqui em São Paulo, o Beto. Fizemos algumas apresentações do trio com participação dele e, como a afinidade se revelou de forma muito clara, nos tornamos um quarteto. Nesse tempo, tocamos muito na noite paulistana. Em geral, repertório de outros compositores, jazz e Música Brasileira.
Tínhamos uma espécie de ritual – a escolha do repertório ocorria ali na hora, na gig, e era rotativa, isto é, cada um escolhia um tema, os demais acatavam e tocavam. Os temas eram quase que um pretexto pra improvisação e procurávamos sempre inventar formas diferentes de interpretá-los.
Não demorou muito e decidimos gravar um CD. Levantamos o repertório entre as composições de todos e depois de poucos meses estávamos em estúdio.

Um quarteto muito inspirado e cuja música carrega uma textura bem contemporânea, alternando intensidade e introspecção. Que influências voces trazem na hora de compor ?
Beto: As influências são inúmeras e aparecem de formas diferentes, tanto na forma como cada um dos músicos toca quanto nas composições que cada um apresenta. Como nos arranjos, todos feitos coletivamente. Mas não é a toa que o nome de Wayne Shorter surgiu aqui, um músico e compositor que sempre se preocupou mais com o fazer musical do que seguir ou impor padrões estéticos ou estilos; sempre se preocupou com que sua música fosse universal e, como tal, servisse a todo tipo de fruição. Como compositor sempre optou pala liberdade de criação. Inclusive, o seu trabalho atual é praticamente todo voltado para a improvisação livre, com certeza é uma grande inspiração.

Voces utilizam instrumentos percussivos, flautas e acordeon em algumas composições e isso reflete uma aproximação com a nossa regionalidade. Há uma fronteira entre essa fusão de rítmos nativos com o improviso livre ?
Rui: Os instrumentos percussivos que utilizamos nesse disco são, na verdade, materiais retirados do lixo, cujas possibilidades sonoras nos interessavam. Eles não foram fabricados com o intuito de emularem o som de instrumentos tradicionais de percussão. O que nos interessou neles foi justamente a busca por incluir o que chamamos de "ruído" no nosso trabalho, de um jeito musical, orgânico.
Acho que a música regional brasileira está presente como sempre esteve na nossa música, ela faz parte intrínseca da nossa personalidade musical como criadores, como artistas. Mas o À Deriva nunca teve a preocupação específica de incluir a música regional brasileira como gênero no nosso trabalho. Ela está lá assim como muitas outras coisas que escutamos, que tocamos, que admiramos e que naturalmente fazem parte do nosso jeito de compor e de tocar. Mas a nossa busca sempre foi por tornar as fronteiras entre os gêneros cada vez mais difusas, indefinidas. Até por isso temos dificuldade em responder quando nos perguntam "que tipo de música vocês fazem?".
Nunca conseguimos encaixar o nosso trabalho em um gênero que o definisse, porque procuramos fazer música a despeito de quaisquer rotulações ou barreiras de gênero, então acho que sempre nos definimos da maneira mais ampla e aberta possível – fazemos música instrumental improvisada.
Tudo nos interessa como artistas e como músicos, até o ruído retirado do lixo, assim como diria Manoel de Barros, o poeta. Da mesma maneira, a flauta e a sanfona são elementos que fazem parte dessa busca por caminhos diferentes (a flauta já tinha sido usada nos nossos dois primeiros discos, a sanfona é a primeira vez), independente de qualquer barreira ou ditame estilístico. Simplesmente achamos que o timbre funcionava para aquela determinada música e pronto. Simples assim.


Daniel: Em outros trabalhos em que participamos individualmente, muitas vezes nos aproximamos mais diretamente dos gêneros brasileiros que no À Deriva. Cito meu caso como exemplo – toco no grupo Quatro a Zero, que mergulha no Choro em busca da matéria prima pras suas criações musicais; e também no grupo Conversa Ribeira, um trabalho de canção que se inspira na música caipira.
Acho que todos do À Deriva compartilham a admiração pela riqueza e diversidade dos gêneros musicais que existem no Brasil. Mas o mais importante, na estética que elaboramos coletivamente para o À Deriva, é a admiração que compartilhamos pelo ser humano de uma forma mais geral, em sua capacidade criativa, sem distinções.
Nos incomoda um pouco, inclusive, um conceito que circula há um bom tempo pelo nosso país e que define como legítima apenas a Música Instrumental, que se fundamenta nos gêneros brasileiros - samba, baião, maracatu, etc. Nosso caminho não é esse, mas também não é um caminho de negação da cultura do país em que vivemos.

A expressão "à deriva" traduz-se como "sem rumo certo"; ao mesmo tempo voces afirmam que é simplesmente "não estar". É esta é a ideia, estar sempre em movimento, explorando novas possibilidades deixando se levar pela emoção ?
Guilherme: Sem dúvida. Além de uma postura aberta às várias manifestações musicais, ou melhor, aos vários estilos – jazz, música brasileira, rock, improvisação livre, free jazz, música de concerto e etc – dado que já demostra uma preocupação nossa de não fechar e delimitar nossas fronteiras musicais. Posso dizer que nossa música é bastante permeável por outras formas de expressão artística – teatro, cinema, artes visuais, literatura, etc. Nunca tivemos preocupação em rotular e delimitar um gênero específico que traduzisse nosso som. Ele é aberto, está aberto ao novo, à mudança, aos desafios de tocar o que ainda não é ou o que pode ser. A vida é assim, dinâmica, muda a todo instante. De certa forma nossa música reflete muito mais que uma tentativa de expressar algo num padrão estético fechado. Nossa música reflete nossa busca constante por explorar novas possibilidades de expressão artística através de nossos instrumentos. É uma forma de dar significado musical às nossas vidas, que estão sempre em movimento.
Beto: Fazer música não como um fim, mas sim como um meio, um instrumento de celebração da vida, acima de tudo.

O trabalho gráfico ilustrado no CD Mobile, assinado pela artista Mariana Chama, é espetacular, ilustra o cotidiano e nos transmite essa sensação de movimento. 
Conte-nos sobre a artista e como esse ensaio se encaixou no trabalho do grupo.
Daniel: Bem, o À Deriva, desde o início, tem um apreço grande pelo CD, entendendo ele como mais que música. Um objeto mesmo, pra, além de ouvir, ver e manusear. Aliás, todos nós ainda compramos CDs e gostamos da experiência de pegá-lo, tirar o plástico, colocar no aparelho de som e ouvi-lo, inteiro, sentado ou deitado, enquanto olha o encarte. É uma experiência prazerosa, ainda, pra gente.
Somos estranhos ou é o mundo que mudou demais?
E a parte visual do CD é muito importante para nós também. Em todos os nossos CDs procuramos imagens que nos sugerissem sensações de alguma forma análogas a alguma sensação importante pra gente, contida na música que estávamos propondo e registrando nele.
Nesse 4º CD, desde quando ele era apenas um projeto, tínhamos uma ideia que ia um pouco além de encontrar essa imagem única. Queríamos um ensaio fotográfico, ao invés de uma foto apenas. E a Mariana Chama desde o início era a artista que estava em nossa mente, por uma questão de afinidade mesmo, e adoramos o trabalho dela.
Mas a história desse encarte é um pouco mais longa e começa com a escolha do nome do CD. Nesse disco usamos alguns materiais brutos pra produzir som  – pedaços de metal que fomos buscar em um ferro velho,  entre eles um prato enorme de aço inoxidável com um som grave estranhíssimo; pedaços de madeira que encontramos em uma marcenaria aqui do bairro, plásticos, papéis diversos; e uma boa parte desses objetos a gente pendurou pelo estúdio, assim como pendurados foram os gongos que o Guilherme mandou fazer especialmente para a música Onde o Silêncio faz Eco.
Nos ocorreu que aquele monte de objetos pendurados pareciam móbiles, as esculturas suspensas, em movimento, suscetíveis às transformações operadas pelo vento, luz e sombra, criadas pelo artista americano Alexander Calder. Achamos que estava aí uma chave para definir esse CD, além da palavra carregar a ideia de “em movimento”, totalmente em acordo com as novidades que estávamos incluindo na nossa música, em busca de transformá-la, explorando novas possibilidades.
Quando levamos essa ideia para o Lula Carneiro, parceiro do grupo e diretor de arte desse CD, ele desenvolveu uma forma bastante feliz de transpor a ideia do móbile do Calder para o encarte do CD e incluir, sem interferência de texto algum, as fotos da Mariana, e sem grampos. Dessa forma, a pessoa que manuseia o encarte pode alterar a ordem das folhas do modo que bem entender. O Lula também selecionou as fotos, de tantas que a Mariana nos disponibilizou, e as ordenou imaginando um primeiro conjunto de possibilidades de relações que se criam no encontro entre as fotos.
É que como as fotos do encarte são dobradas no meio, acaba que ao manusear o CD se defronta, num mesmo olhar, com duas metades de fotos, justapostas. E aí pode criar relações entre elas, ver continuidades ou contrastes de linhas, curvas, texturas ou significados. E essas relações se transformam totalmente a cada nova disposição que a pessoa quiser inventar. É um encante interativo, em movimento.


Guilherme: Essa relação com nosso parceiros é algo que cultivamos desde o início do grupo. Além deste aspecto visual que diz respeito diretamente ao trabalho da Mari e do Lula, tem o aspecto sonoro, ou seja, nossa opção por gravar música com qualidade. Neste sentido nosso grande parceiro, desde sempre, é o engenheiro de som Homero Lotito. Responsável por captar o som, gravar, mixar e masterizar todos os nossos discos. É um tipo de preocupação semelhante àquela que temos em relação ao aspecto gráfico dos nossos CDs. Ao gravar um disco nossa intenção é traduzir da forma mais fiel possível a qualidade sonora de cada um de nós como indivíduo e do grupo como um todo. Por isso a tamanha preocupação em relação ao registro e a mixagem dos discos. Neste ponto acredito que o Homero tem tanta importância para o resultado final do disco quanto cada um de nós.
Posso dizer que a preocupação que nos orienta quanto ao encarte dos disco é exatamente a mesma. Em relação ao encarte procuramos tratar nossos parceiros, Mari e Lula, com um grau de abertura e liberdade que os torne coautores do trabalho como um todo. Damos algum direcionamento, mas estamos sempre atentos e abertos às propostas deles, de forma que o trabalho de criação e elaboração destes artistas dialoga diretamente com a nossa música.

Como adquirir o CD ?
Rui: O disco é distribuído pela Tratore - www.tratore.com.br - assim como nossos outros discos, e pode ser encontrado em diversas lojas, como a Livraria Cultura, a Pops Discos, Submarino e Americanas. Para uma lista completa de lojas, quem quiser pode procurar no próprio site da Tratore.
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Cau Karam e Quarteto À Deriva


CRAIG TABORN, A NOVA ESTRELA DA ECM

13 maio, 2013
Craig TabornColuna do Luiz Orlando Carneiro 
Jornal do Brasil, 11 de maio

Craig Taborn, 43 anos, afirma-se, a cada disco, como um dos pianistas de jazz mais técnicos e criativos surgidos nas últimas duas décadas, ao lado de Vijay Iyer, 41, e de Jason Moran, 38. Ele começou a brilhar como coadjuvante do excepcional saxofonista James Carter, um “feroz” young lion do neo-bop, em dois álbuns editados pela Atlantic: The Real Quiestorm (1994) e Conversin' with the Elders (1995-96). Este último captou relevantes “conversas” de jovens talentos então emergentes com jazzmen veteranos da importância dos trompetistas Harry “Sweets” Edison e Lester Bowie, e dos saxofonistas Buddy Tate, Hamiet Bluiett e Larry Smith.
No ano passado, Avenging Angel (ECM), o primeiro recital solo gravado por Taborn, foi eleito um dos seis melhores CDs do ano 2011-12 (de abril a abril) por mais de 400 votantes da Jazz Journalists Association (JJA). Mais recentemente, o pianista foi convocado pelo saxofonista Chris Potter para compor o quinteto que aparece em The Sirens (ECM), uma suíte de nove partes da pena de Potter, inspirada na Odisseia, de Homero. Graig Taborn volta agora à cena com Chants, gravação de junho do ano passado, sempre na ECM de Manfred Eicher. Trata-se de seu quinto álbum na condição de líder, desta vez à frente de um trio integrado por outros dois músicos também muito refinados, o baixista Thomas Morgan e o baterista Gerald Cleaver, que tocam juntos há oito anos, e se intercomunicam telepaticamente.

Chants é uma seleção de nove peças do pianista-compositor, cujo ponto culminante é exatamente a faixa do meio, a quinta do álbum, que é também a mais longa: All the Night/Future Perfect (12m45). Um dos reviwers do site All about jazz, Dan McClenaghan, assim comentou, de maneira irretocável, esta faixa:
É aqui que o gênio deste trio floresce. A partir de um tortuoso tema que vagueia por diferentes dimensões, o trio entra num estado zen de coesa improvisação, numa bela atmosfera onírica nascida de um equilíbrio sem sinal de ego”.

Taborn é semelhante ao do trio de Keith Jarrett, que reinventa standards como se fossem matéria-prima original, em estado de suspense. As faixas iniciais de Chants, Saints (5m20) e Beat the Ground (4m), são particularmente hipnóticas. Na primeira, o pianista realça sua articulação formidável num fraseado contrapontístico; na segunda, um ostinato efervescente é a base para a improvisação grupal.
Há, no entanto, bastante espaço para ruminações bem espaçosas que harmonizam delicadamente o toque cristalino do pianista, o baixo cantante de Morgan e a percussão crepitante-pontilhista, à la Paul Motian, de Cleaver. É o que acontece, por exemplo, em Silver Ghosts (7m35) e em In Chant (8m15).

CURTIS SALGADO E DEREK TRUCKS SE DESTACAM NA PREMIAÇÃO DO BLUES MUSIC AWARDS 2013

10 maio, 2013
Blues Music AwardsA premiação do Blues Music Awards 2013, em sua edição 34, foi realizada no Cook Convention Center, em Memphis.

Os destaques desta edição, com três premiações, foram o vocalista Curtis Salgado com o melhor album de Soul Blues, artista destaque de Soul Blues e o título de B.B. King Entertainer (ainda concorreu para o prêmio de melhor canção com She Didn’t Cut Me Loose); e o guitarrista Derek Trucks premiado com o Gibson Guitar Award, melhor grupo e melhor album de Blues-Rock com a Tedeski Trucks Band.
Com duas premiações, o guitarrista Michael Burks, que faleceu ano passado, destacou-se com o melhor album do ano e melhor album de Blues contemporâneo (ainda concorreu ao Gibson Guitar Award); e Janiva Magness como a artista feminina de Blues contemporâneo e a melhor canção I Wont Cry (ainda concorreu ao album do ano, album de Blues contemporâneo e ao B.B. King Entertainer).

Vida longa ao Blues !

Confira os vencedores -

Acoustic Album : Not Alone, Ann Rabson with Bob Margolin
Acoustic Artist : Eric Bibb
Album of the Year : Show of Strength, Michael Burks
B.B. King Entertainer : Curtis Salgado
Band : Tedeschi Trucks Band
Best New Artist Debut : They Call Me Big Llou, Big LLou Johnson
Contemporary Blues Album : Show of Strength, Michael Burks
Contemporary Blues Female Artist : Janiva Magness
Contemporary Blues Male Artist : Tab Benoit
DVD : Muddy Waters & Rolling Stones, Live at Checkerboard Lounge
Gibson Guitar Award : Derek Trucks
Instrumentalist Bass : Bob Stroger
Instrumentalist Drums : Cedric Burnside
Instrumentalist Harmonica : Rick Estrin
Instrumentalist Horn : Eddie Shaw
Koko Taylor Award (Traditional Blues Female) : Ruthie Foster
Pinetop Perkins Piano Player : Victor Wainwright
Rock Blues Album : Everybody’s Talkin’, Tedeschi Trucks Band
Song : “I Wont Cry” written by Janiva Magness & Dave Darling, Stronger For It (Janiva Magness)
Soul Blues Album : Soul Shot, Curtis Salgado
Soul Blues Female Artist : Irma Thomas
Soul Blues Male Artist : Curtis Salgado
Traditional Blues Album : Double Dynamite, The Mannish Boys
Traditional Blues Male Artist : Magic Slim

Visite www.blues.org

BIG JOE TURNER ENCONTRA JIMMY WITHERSPOON

07 maio, 2013
Big Joe Turner, Jimmy Witherspoon
No ultimo ano da sua vida, Big Joe Turner juntou-se com Jimmy Witherspoon, este que também gritou o blues e gravou tanto quanto Joe Turner em mais de meio século de música.

Em Patcha, Patcha, All Night Long, Turner e Witherspoon documentaram sobre a arte de cantar o blues, as alegrias da vida, as frustrações e o quão complexo isso representa, assim como o lado bom e o lado mau do amor. Foram mais fundo do que as histórias pareciam ser, para contar porquê o blues toca o centro de todo ser humano.
Aqui, Big Joe e Witherspoon aqui dão claras evidências desta verdade.

O album foi produzido por Norman Granz e gravado no Group IV Recording Studios, California, em 1985, e participam além de Joe Turner e Witherspoon nas vozes, Ike Willians trompete, Red Holloway, Lee Allen e Jerry Jummonville nos sax alto, tenor e barítono respectivamente, Bobby Blevin teclados, Gary Bell guitarra, Rudy Brown baixo e Al Duncan bateria.




por Nat Hentoff
liner notes do album original
( tradução livre )

Mingus queria ouvir música, mas tinha que ser uma música que ele pudesse gritar e sentir. Então foi para um lugar no Greenwich Village chamado Cookery para ouvir Joe Turner. Ele cantou sentado em uma cadeira, mas tinha mais presença do que se estivesse em pé e pulando entre as mesas, porque sua voz preenchia todo o lugar. Sobre cantar blues, Joe Turner me faz lembrar como Billie Holliday, que conhecia o blues mas raramente tenha cantado de forma tão formal, descrevia profundamente essa clássica música americana - "O blues para mim é como estar muito triste, muito mal, é ir a uma igreja, é estar muito feliz. O Blues é um conjunto disso tudo junto, contanto que voce o sinta."
Jimmy Witherspoon também faz isso do mesmo jeito. Eu costumava ouví-lo com Ben Webster e o envolvimento que eles proporcionavam sobre as baladas, assim como nos blues, claramente transborda uma experiência real de vida fazendo com que a música mecanica que tocava no rádio parecesse tão vazia.
Ouvir Joe Turner e Jimmi Witherspoon juntos me faz lembrar como alguns gigantes se envolvem no blues assim como no Jazz instrumental. Quantos cantores teriam condições fazer isso? Quantos chegaram, mesmo conhecendo o caminho? Quantos conhecem as histórias desses dois brilhantes sobreviventes?

Joe Turner trabalhava e cantava blues no The Sunset, em Kansas City, no início dos anos 30. Havia um outro clube do outro lado da rua, o Lone Star, e Jo Jones recorda - "Joe Turner comecava a cantar o Blues no Sunset e atravessava a rua para cantar no Lone Star ... e não era comum apresentações de 1 hora, 1 hora e meia. Ninguem se cansava."
Joe Turner foi para New York e tornou-se um verdadeiro contador de histórias, fez inúmeros hits de R&B, e em seus últimos anos incorporou clássicos do Blues em seu repertório. Ele canta com uma pegada que faz com ele possa swingar com qualquer grupo. E ele não tem que explicar nada porque os músicos conhecem a linguagem, sabem o tempo e o sentem do jeito que Joe faz.
Jimmy Witherspoon começou cantando em uma igreja batista em Arkansas quando tinha 5 anos. Aos 16 largou a escola e partiu para a California onde tornou-se pupilo de T-Bone Walker. Enquanto estava na Marinha Mercante, cantava com o grupo de Jazz do pianista Teddy Weatherford em Calcutá, e foi a primeira vez que ele cantou o blues. Isso veio naturalmente a ele e quando retornou para os EUA trabalhou com o grupo de Jay McShann, que gostava do seu jeito de cantar Wee Baby Blues de Joe Turner.
Witherspoon também é reconhecido na Europa e Japão, onde aparece muito mais na TV do que na America. Joe e Witherspoon certamente podiam ser vistos e ouvidos nas escolas americanas, em gravações e videos, como representantes da essência tradição musical americana.

Nesta gravação, Witherspoon, dirigido por um pulsante grupo, abre o disco no tema Patcha, Patcha.
Blues Lament é como uma antologia do vintage Blues. Em 1940, em certos clubes de Jazz, eu ouvia esse tipo de Blues por uma noite inteira e uma das mais brilhantes noites foi quando Oran "Hot Lips" Page manteve o swing por 1 hora meia sem repetir uma única palavra. Embora muitas das imagens em Blues Lament sejam familiares, Witherspoon aparece como nunca havia feito.
You Got me Running traz Witherspoon novamente com o grupo colocando um suave groove.
Joe Turner volta a Kansas City, mas não como um triunfo, Kansas City on my Mind é retrato de uma paixão adolescente, talvez pela garota de Wee Baby Blues que casou-se com outro e construiu uma família. Também como um contador de histórias aparece o guitarrista Gary Bell, um cara muito figura; e o tenor Lee Allen, que acompanhava o pianista Bobby Blevins.
J.T.´s Blues traz novamente Joe Turner e destacam-se Jerry Jummonville no barítono, Gary Bell na guitarra e o sax alto de Red Holloway.
I Want that Girl, com letra de Holloway, ilumina o romantismo de Witherspoon, melhorado atraves dos anos pelas lições de Blues.
Sobre Any Time, Jimmy Rushing uma vez disse - "Uma pessoa pode tocar e cantar o blues e ele tem a alma que o dá condições de  fazer qualquer coisa que queira. Os blues são como um conjunto de bases, como uma fundação de uma construção."

Ouvindo este álbum inúmeras vezes, penso em um comentário de Art Blakey - "O blues é o início do Jazz, é de onde veio. A última coisa que Charlie Parker me disse foi ele imaginando quando os jovens voltariam a tocar blues. Eu disse a ele que se você aprende a tocar blues, você pode tocar qualquer coisa."
E se você pode cantar o Blues com o sentimento e autoridade de Joe Turner e Jimmy Witherspoon, você pode ganhar a atenção de qualquer pessoa no mundo para suas histórias.

UM TRIBUTO PARA NINA SIMONE NA VOZ DE MORGAN JAMES

03 maio, 2013
Morgan JamesMorgan James nasceu em Boise, a capital e a mais populosa cidade do estado de Idaho.
Inicou os estudos de música e canto aos 13 anos quando morava na Carolina do Norte, local que deixou aos 18 para ingressar na Juilliard School, em New York. Inicialmente estudou canto lírico, mas tomou o rumo para o teatro musical, o que levou sua carreira para Broadway e deu a ela a oportunidade de participar de vários musicais. Hoje é integrante do espetáculo "Motown: The Musical", em cartaz no coração da Times Square.

E ela resume um pouco dessa trajetória  -
"Por muito tempo eu não estava certa sobre o que fazer com a minha voz, que não combinava muito com o que eu estava fazendo, então experimentei um monte de coisas para encontrar meu caminho".
E realmente encontrou. Circulou pelos clubes de jazz e tornou-se uma das mais surpreendentes vozes que surgiram nos últimos tempos, com um estilo muito próprio numa fusão do soul, do R&B e do jazz.
Assinou com a Epic Records e lançou seu primeiro álbum solo, Morgan James Live, A Celebration of Nina Simone, gravado ao vivo no Dizzy´s Club Coca Cola.

O álbum tem produção dela e de Mary Ann Topper, e a escolha deste tributo a Nina Simone não podia ser melhor, uma das artistas mais eloquentes do jazz e da música negra americana, que incorporava como ninguém, em sua plenitude, os spirituals, o lamento e a melancolia. É justamente essa inspiração que a levou a interpretar a diva, sentindo-se atraída por esse lado negro e ao mesmo tempo admirada pela forma como Nina nunca fugiu de sua tristeza.
Neste album de estreia, Morgan James está acompanhada por um time de primeira formado por Clarence Penn bateria, Doug Wamble guitarra, David Cook piano, David Finck contrabaixo e Ron Blake sax.

Morgan JamesNo repertório, a balada Don´t Explain (Billie Holiday);
o blues de várias formas em Tell me More and More and Then Some (Billie Holiday)Nobody Knows You When You´re Down and Out (Jimmie Cox)I Put a Spell on You (Jay Hawkins);
resgata o standard My Man´s Gone Now (Gershwin);
coloca a atmosfera soul nos temas Trouble in Mind (Richard Jones), que também foi interpretado por Cannonbal Adderley e Janis Joplin, e Save Me (Aretha Franklin);
e os imortais temas Little Girl Blue (Rodgers & Hart)Be my Husband (Andrew Stroud), My Babe Just Cares for Me (Walter Donaldson) em andamento acelerado, e a clássica Don´t Let Me Be Misunderstood (Bennie Benjamim), estes que foram bem marcantes na voz de Nina.

Um bela homenagem.
morganjamesonline.com/

Os originais de Nina Simone encontram-se nos seguintes albuns -
Don't Let Me Be Misunderstood, Save Me e I Put a Spell on You : Ne Me Quitte Pas (1954);
Be My Husband, Nobody Knows You When You're Down and Out, Trouble in Mind e Tell Me More and More and Then Some : Pastel Blues (1965);
My Baby Just Cares For Me, Don't Explain e Little Girl Blue : Let It All Out (1966);
My Man´s Gone Now : Sings the Blues (1967);
Funkier Than A Mosquito's Tweeter : It Is Finished (1974).