DOWNBEAT CRITICS POLL 2013

27 junho, 2013
Divulgada a lista do 61th Downbeat Critics Poll, uma das mais abrangentes do mundo quando o assunto é Jazz.

O saxofonista Wayne Shorter foi o nome desta edição, premiado em 4 categorias - artista de Jazz do ano, melhor album com Without a Net, melhor sax soprano e melhor grupo de Jazz.
Como disse Frank Alkyer, editor da Downbeat - "Todos querermos ser como Wayne Shorter quando nós crescermos. Quase aos 80 anos e criando música de qualidade ... inspira gerações após gerações de improvisadores, compositores e fãs."
Alkyer reconhece o tempo e esforço dos 165 críticos que realizaram a votação na edição deste ano e que o resultado não quer mostrar somente os vencedores, mas o reconhecimento de todos os artistas ao redor do mundo.

Ainda em destaque na edição 2013, a inclusão no DownBeat Hall of Fame do contrabaixista Charlie Haden e de Robert Johnson, um dos artistas mais representativos do Blues; e o foco para os artistas em ascensão como a saxofonista Tia Fuller e o cantor Gregory Porter.

A lista completa dos vencedores será publicada na edição de agosto de 2013 -

Hall of Fame: Charlie Haden
Veterans Committee Hall of Fame: Robert Johnson
Jazz Artist: Wayne Shorter
Jazz Album: Wayne Shorter Quartet, Without A Net (Blue Note)
Historical Album: Miles Davis Quintet Live In Europe 1969: The Bootleg Series Vol 2 (Columbia/Legacy)
Jazz Group: Wayne Shorter Quartet
Big Band: Darcy James Argue’s Secrety Society e Maria Schneider Orchestra
Trumpet: Dave Douglas
Trombone: Wycliffe Gordon
Downbeat Critics PollSoprano Saxophone: Wayne Shorter
Alto Saxophone: Rudresh Mahanthappa
Tenor Saxophone: Joe Lovano
Baritone Saxophone: Gary Smulyan
Clarinet: Anat Cohen
Flute: Nicole Mitchell
Piano: Jason Moran
Keyboard: Robert Glasper
Organ: Joey DeFrancesco
Guitar: Bill Frisell
Bass: Christian McBride
Electric Bass: Stanley Clarke
Violin: Regina Carter
Drums: Jack DeJohnette
Vibes: Stefon Harris
Percussion: Cyro Baptista
Miscellaneous Instrument: Béla Fleck (banjo)
Male Vocalist: Kurt Elling
Female Vocalist: Cassandra Wilson
Composer: Wadada Leo Smith
Arranger: Darcy James Argue
Record Label: ECM
Producer: Manfred Eicher
Blues Artist or Group: Dr. John
Blues Album: Dr. John, Locked Down (Nonesuch)
Beyond Artist or Group: Robert Glasper Experiment
Beyond Album: José James, No Beginning No End (Blue Note)

Artistas em ascensão (Rising Star) -
Jazz Artist: Gregory Porter
Jazz Group: Ambrose Akinmusire Quintet
Big Band: Orrin Evans’ Captain Black Big Band
Trumpet: Christian Scott aTunde Adjuah
Trombone: Trombone Shorty
Soprano Saxophone: Anat Cohen
Alto Saxophone: Tia Fuller
Tenor Saxophone: Jon Irabagon
Baritone Saxophone: Vinny Golia
Clarinet: Ben Goldberg
Flute: Tia Fuller
Piano: Gerald Clayton
Keyboard: Jason Lindner
Organ: Jared Gold
Guitar: Rez Abbasi
Bass: Ben Williams
Electric Bass: Derrick Hodge
Violin: Zach Brock
Drums: Gerald Cleaver
Vibes: Jason Marsalis
Percussion: Dan Weiss
Miscellaneous Instrument: Toumani Diabaté (kora)
Male Vocalist: Gregory Porter
Female Vocalist: Karrin Allyson
Composer: Robert Glasper
Arranger: John Hollenbeck
Producer: Robert Glasper

MAIS UMA VOZ DO BLUES CALOU: MORRE BOBBY BLAND

24 junho, 2013
por The Associated Press
23 de junho
fonte : NY Times

Bobby "Blue" Bland, o renomado cantor que combinava o Blues sulista e o Soul em sua música, morreu aos 83 anos.
Rodd Bland disse que seu pai morreu de complicações devido a uma enfermidade crônica em sua casa em Memphis, Tennessee, e estava cercado pelos parentes próximos.
Bland foi homenageado no Memphis Music Hall of Fame em 2012. 

Bland foi conhecido como o "Sinatra do Blues" e foi fortemente influenciado por Nat King Cole, e frequentemente gravava com arranjos ousados para acompanhar sua voz. Ele mesmo imitou Frank Sinatra na capa do album Two Steps From the Blues, em pé na frente de um edifício com um casaco jogado por cima do ombro.
Lawrence "Boo" Mitchell, filho do lendário músico e produtor Willie Mitchell, disse que ele trouxe um certo nível de classe para o estilo.
Da mesma geração de B.B. King, era um dos últimos conectados com as raízes do Blues. Teve seu nome inserido no Rock and Roll Hall of Fame em 1992 e foi uma influência para muitos jovens roqueiros.
Após a sua inclusão, a entidade percebeu que Bland era o segundo em importância, atras de B.B. King, como um produto da cena Blues da Beale Street em Memphis.

Nasceu em Rosemark, Tennessee, e mudou-se para as proximidades de Memphis ainda adolescente onde tornou-se um membro fundador dos Beale Streeters, grupo que também incluía B.B. King e Johnny Ace. 
Depois de uma temporada no Exército, ele gravou com o produtor Sam Phillips, que ajudou a lançar a carreira de Elvis Presley e Johnny Cash no início de 1950, e não demorou muito, ainda nesta década, para  Bland começar a encontrar o sucesso.
Emplacou seu primeiro hit na categoria R&B com Further On Up the Road em 1957, e foi nessa época que ele ganhou seu apelido, tirado de sua canção Little Boy Blue, porque seu repertório era muito focado nos assuntos do amor. Com I’ll Take Care of You, no início de 1960, Bland lançou uma dúzia de hits de R&B seguidamente, incluindo Turn On Your Love Light, em 1961.
Das suas canções mais conhecidas se incluem Call on Me e That’s the Way Love Is, ambas lançadas em 1963, e Ain’t Nothing You Can Do, em 1964.
Lead Me On, outra muito conhecida, quebra o coração do ouvinte na abertura - You know how it feels, you understand what it is to be a stranger in this unfriendly land (voce sabe como é sentir isso, voce entende o que é ser um estranho nesta terra hostil).

Bland não era tão conhecido como muitos de seus contemporâneos, mas foi uma grande influência para as primeiras estrelas do rock. Muitas de suas canções, especialmente Further On Up the Road e I Pity the Fool, foram gravadas por jovens roqueiros, incluindo David Bowie e Eric Clapton

Bobby "Blue" Bland: 1930-2013

MINGUS MINGUS MINGUS BIG BAND

22 junho, 2013
Charles Mingus foi um dos grandes contrabaixistas do universo do jazz, polêmico, atuante, louco como somente ele poderia ser. Sua música sempre foi muito intensa, tantas vezes ilustrada por intervenções vocais e ferozes improvisos.
Como descreve o jornalista Roberto Muggiati no livro "Saindo da Sarjeta" (Ed. Zahar), Mingus sempre foi uma pessoa sensível aos problemas sociais e humanos que o cercava, e isso pesou demais levando-o a se internar em um hospital psiquiátrico. O livro retrata uma biografia de Mingus, porém resume-se muito à vida leviana que o protagonista levava.

Meu primeiro álbum de Mingus foi "Tijuana Moods", um vinil duplo, espetacular, uma verdadeira aula de jazz. O álbum trazia todos os alternate takes dos temas principais, e a primeira edição lançada em CD simples não trazia todos eles, deixando de fora justamente uma das mais intensas do álbum, Ysabel´s Table Dance. Mais tarde foi lançada uma edição especial em CD duplo que trouxe tudo isso e muito mais. O próprio Mingus afirmou que esta foi a melhor gravação que ele fez em um período um tanto "blue" da sua vida, durante uma viagem a Tijuana, México, regada a muita tequila, drogas e mulheres. Assim era Mingus, que morreu em 1979.

Quem celebra e leva adiante o legado da música do grande gênio é a Mingus Big Band, que se reveza com a Mingus Orchestra e a Mingus Dinasty no palco do Jazz Standard, na rua 27 em New York, todas as segundas-feiras, já conhecidas como "Mingus Mondays", um programa obrigatório.

Após receber seis nomeações para o Grammy, a Mingus Big Band finalmente foi reconhecida e levou o prêmio em 2011 como Best Large Jazz Ensemble pelo álbum Live at Jazz Standard, gravado na véspera do ano novo de 2009.
O trabalho é o décimo da discografia do grupo, e para Sue Mingus, viúva de Charles e quem gerencia o grupo, este prêmio foi muito especial pois o grupo foi criado nessa casa, uma das mais tradicionais da "big apple", e a gravação celebra exatamente 50 anos da primeira gravação de Mingus.

Com a liderança do contrabaixista Boris Koslov, a formação aqui conta com a seção de sopros de Randy Brecker, Kenny Rampton e Earl Gardner trompetes; Wayne Scofery e Abrahan Burton nos tenores; Vincent Herring no alto; Douglas Yates soprano e flauta; Lauren Sevian barítono; Ku-Umba Frank Lacy, Earl McIntire e Conrad Herwing trombones; e ainda David Kikoski piano e Jeff Watts bateria.

Um repertório contagiante, não poderia ser diferente, e encontramos a característica marcante da música de Mingus - o caos, a fúria e a energia das suas interpretações, e é isso que sentimos nos temas Birdcalls, Self-Portrait In Three Colors e Moanin'. 
O álbum abre com o tributo que Mingus fez a Charlie Parker em Gunslinging Bird, tema que era uma resposta aos músicos que tentavam imitar Parker, ironizando que ele se fosse um pistoleiro haveria muitos imitadores mortos; e essa atmosfera "parkeriana" do bebop aparece em New Now Know How e Open Letter To Duke.
O blues se apresenta marcante em Cryin’ Blues, introduzido pelo trompete de Kenny Rampton; e a clássica Goodbye Pork Pie Hat, aqui ilustrada pelos vocais de Ku-Umba Frank Lacy.
Tem que destacar o sax barítono de Lauren Sevian, essa bela moça toca um absurdo e merece uma atenção mais que especial aqui. Um disco obrigatório.

Mais sobre as Mingus Bands em  mingusmingusmingus.com/mingus-bands

GUITARRISTA JOHNNY SMITH MORRE AOS 90 ANOS

19 junho, 2013
por Jeff Tamarkin
fonte : Jazz Times 

Johnny Smith, guitarrista de grande destaque nos anos 40 e 50, morreu aos 90 anos de causa natural em 11 de junho, em Colorado Springs.
Embora tenha sido um guitarrista muito atuante e cujo sucesso veio em 1952 com o album Moonlight in Vermont, que teve a participação do saxofonista Stan Getz, Smith é lembrado como o autor do tema Walk, Don´t Run, que escreveu em 1954. Uma versão rock deste tema foi gravada pelo grupo The Ventures em 1959 e tornou-se um hit no ano seguinte. Chet Atkins, Herb Albert e muitos outros também gravaram versões populares deste tema.
Entre os guitarristas, seu trabalho é altamente reverenciado e de muita influência. Sua tonalidade cool, sua técnica e a forte digitação fez do album Moonlght in Vermont uma audição essencial para aspirantes da guitarra.

Nascido em 25 de junho de 1922 em Birmingham, Alabama, Smith era autodidata e aos 13 anos, morando em Portland, Maine, já estava ensinando a arte da guitarra. Iniciou a carreira em um grupo conhecido como uma banda caipira, chamada Uncle Lem and the Mountain Boys, e aos 18 anos deixou o grupo e o estilo e partiu para o Jazz, formando um trio que ele chamou de Airport Boys.
Após sua dispensa do exército e uma temporada na banda militar, ele encontrou trabalho na NBC Radio Orchestra, em Portland, o que o levou a uma posição de destaque em New York sob o comando de Arturo Toscanini. No início dos anos 50, Smith tornou-se um músico regular no Birdland, onde tocou com Getz e Zoot Sims em um quarteto, e neste período também trabalhou com Benny Goodman.
Smith ainda estava trabalhando ativamente em 1957 quando sua esposa morreu durante o parto e ele desistiu de tocar, se recolhendo em Colorado Springs. Abriu a Johnny Smith Music Store para sustentar sua filha enquanto dava aulas de música. Mais tarde voltou a tocar temporariamente em clubes de Jazz da cidade e gravava esporadicamente. Ainda realizou uma turnê com Bing Crosby em 1977.

Guild e Gibson fabricaram guitarras modelo Johnny Smith.

Johnny Smith : 1922-2013

TRIO STANDARDS DE KEITH JARRETT COMEMORA 30 ANOS

17 junho, 2013
Coluna do Luiz Orlando Carneiro 
JBOnline, 15 de junho

Em janeiro de 1983,  lá se vão 30 anos, o virtuose do piano Keith Jarrett, o Glenn Gould do jazz, gravou para a ECM o primeiro volume do seu trio Standards, com os inseparáveis Gary Peacock (baixo acústico) e Jack DeJohnette (bateria). Ele já era então famoso por seus longos concertos solitários, pontuados por gemidos e exclamações, cujo ponto culminante foi o Köln Concert (1975), álbum que vendeu mais de 3 milhões de cópias, e deu prestígio e solidez à gravadora ECM, de Manfred Eicher.

O 21º registro do trio que conquistou quase sempre, nas três últimas décadas, o topo da maioria das listas de melhor pequeno conjunto de jazz acaba de ser lançado por Eicher, com um razoável, ou estatrégico, atraso. Trata-se do CD Somewhere, gravado num concerto na Suiça (Lucerna), em julho de 2009. Ou seja, no mesmo ano em que a ECM “desovou” o álbum Yesterdays que, por sua vez, tinha sido gravado ao vivo, em Tóquio, em 2001, ano em que também foram registrados (e guardados) Always Let me Go (Tóquio), The Out-of-Towners (Munique) e My Foolish Heart (Montreux). Os releases destes três últimos ocorreram aos poucos, respectivamente, em 2002, 2004 e 2007.
Assim, é mais do que oportuna a pergunta: Por que adquirir o novo disco do Standards Trio de Keith Jarrett, ou algumas de suas seis faixas - sendo a mais longa de quase 20 minutos (Somewhere/Everywhere) e a mais curta de seis minutos (I Thought About You)?

Na crítica que escreveu para o Neue Zürcher Zeitung, o crítico Jürg Meier qualificou de Kontrollierte Ekstase (êxtase controlado) o clima deste concerto de Lucerna. E, em princípio, a expressão poderia ser aplicada a qualquer performance do “performático” mágico do teclado, sempre marcada por uma concentração físico-intelectual tão intensa que, no período 1997-99, nele provocou uma “síndrome de fadiga crônica”.
No entanto, Somewhere é mesmo um pináculo na discografia do Standards Trio de Jarrett. E, simplesmente, pelo fato de que vai se tornar tão inesquecível como os memoráveis Standards Vol.1 (1983), The Cure/Live at Town Hall New York (1990), Bye Bye Blackbird (1991) e Up for It/ Live in Juan-les-Pins (2002).

Keith Jarrett não é apenas um magistral improvisador que desenvolve com muita inspiração possibilidades melódico-harmônicas de um determinado standard, acolitado pela admirável “seção rítmica” formada por Jack DeJohnette e Gary Peacock. Ele é um improvisador que compõe (ou um compositor que improvisa), ainda que se aproprie de temática do Great American Songbook, como demonstra, mais uma vez, neste álbum de Lucerna. Sobretudo no tratamento das duas peças de West Side Story, de Leonard Bersntein: Somewhere, que o pianista torna uma “composição” de 19m30, com a hipnótica coda que ele chamou de Everywhere; e Tonight (6m45), recriada em tempo bem rápido, com swing intenso.
O mesmo se pode dizer da segunda faixa mais longa do recém-lançado CD, à qual o pianista-compositor deu o título de Deep Space/Solar (15m). O “espaço profundo” inicial comporta uns três minutos de divagações, até que vai surgindo o corpo e a “alma” de Solar, o precioso tema que Miles Davis tornou um jazz standard no LP Walkin' (Prestige, 1954).

“A gente acha que já tem tudo que precisa deste trio. Então, você ouve como Jarrett toca uma melodia com acentuadas hesitações que tornam Stars Fell on Alabama (7m25) algo único em sua pungência, e a gente sabe então que precisa de mais”, sentenciou Thomas Conrad na resenha de Somewhere, publicada na corrente edição (junho) da revista Jazz Times.

CARMEN INTORRE JR EM SEU PRIMEIRO ALBUM SOLO

14 junho, 2013
O baterista Carmen Intorre Jr. nasceu em Buffalo, New York, e desenvolveu o interesse pela música ainda criança, aos 5 anos, quando iniciou os estudo na bateria. Formado pelo The Institute for Jazz Studies na Juilliard School, já tocou e gravou com muita gente, destacando-se os nomes de Benson, Coryell, Marsalis, Monty Alexander, George Coleman, Eric Alexander, Benny Golson, Bobby Watson, entre outros.

Este que vos escreve teve a oportunidade de
assistí-lo no Birdland em abril último, um dos templos da "big apple", integrando o Pat Martino Organ Quartet, e esta foi a primeira vez que assisti Martino no palco, um guitarrista com uma impressionante história musical e de vida. E Intorre Jr. mostrou-se um gigante nas baquetas, suportando o forte groove imposto pelo hammond de Pat Bianchi, o tenor de Eric Alexander e a intensa guitarra do lider.

Carmen Intorre Jr. nos apresenta seu primeiro album solo, For the Soul (Random Act Records), acompanhado pelo organista Pat Bianchi, o guitarrista John Hart e o sax de Jon Irabagon e um convidado mais que especial, Joey deFrancesco, que não poupa elogios a Intorre - "É um dos meu bateristas preferidos, tem um groove e uma pegada muito fortes e seu swing é impressionante".

For the Soul é uma sessão bem na onda organ-based e tem um repertório muito eclético que passa por Stevie Wonder em Too High, Steely Dan em Josie, Chick Corea em Steps, Freddie Hubbard em Gibraltar e Weather Report em Black Market. Um album sem fronteiras.

Sobre o disco, Intorre Jr. é direto - "Música para mim é a oportunidade em que renuncio a minha alma e me conecto com a alma do público. Eu quero que os músicos que estão comigo e as pessoas que ouvem minha música sintam-se elevados espiritualmente. Isso é o que For the Soul representa.".

PAT METHENY PARA LAVAR A ALMA

11 junho, 2013

Eu não economizo palavras para falar de Pat Metheny.
Torna-se praticamente impossível descrever o que é assistir ao vivo sua apresentação, de tanta energia e empolgação que sua música transmite. É uma oportunidade impar, como um cometa que cruza o céu e deixa seu rastro de luz. E na última noite da edição carioca do BMW Jazz Festival esta luz reverteu-se em pura emoção, euforia, nostalgia e simplesmente lavou a alma de um público que lotou o teatro do Vivo Rio.

Metheny acompanhado pelo sopro de Chris Potter, pelo contrabaixo de Ben Willians e pela bateria de Antonio Sanchez, um super grupo, um super trio que suporta a música desse gênio, um compositor de mão cheia, um maestro da música contemporânea e um dos mais brilhantes guitarristas do planeta.
Sim, eu sou um "methenymaníaco" !
A guitarra de Pat Metheny tem assinatura própria, sua digitação e seus riffs são facilmente reconhecidos e é uma escola de guitarra que influenciou uma infinidade de outros amantes do instrumento.

Na abertura do show, sentou-se para uma interpretação solo com seu exótico instrumento Pikasso, de 42 cordas, uma espécie de harp guitar, único, e foi minha primeira oportunidade ver este instrumento ao vivo, com uma sonoridade impressionante. O tema serviu para acomodar o ouvido da atenta platéia e trazer a Unity Band ao palco para o tema Come and See, do último album. Chris Potter ao clarone e Metheny revezou entre o violão acústico, a guitarra archtop e a sintetizada. A marca da música de Metheny já estava imposta e mais um tema da Unity Band, New Year, introduzido pelo violão acústico e um belo solo de Potter que, alias, tocou uma barbaridade, não à toa é reverenciado pelo lider como um dos mais extraordinários músicos da atualidade.
E a primeira surpresa da noite com o tema Police Police do album Song X que Metheny realizou com Ornette Coleman em sua mais próxima relação com o free jazz; e Potter não deixou barato, um extraordinário solo e ainda com espaço para a improvisação de Antonio Sanchez.
Em sua primeira interação com o público, Metheny falou da alegria de estar novamente tocando no Brasil e agradeceu o convite e a oportunidade. Lembrou Joshua Redman, que também participou do festival e é seu grande amigo e de todos no grupo, e seguiu com dois saudosos temas - a balada The Bat e James, ambas do album Offramp. Mesmo nas baladas Metheny é incansável, tão melódico quanto intenso, e novamente um belo solo de Potter. A versão de James foi um tanto excêntrica, após a melodia da introdução seguiu improvisada acompanhada somente por Sanchez para depois acomodar  o improviso no contrabaixo de Ben Willians, em diálogo com o baterista. Os saudosos "methenymaníacos" aplaudiram efusivamente.

E o show tomou um rumo bastante experimental com a apresentação de parte da parafernália eletro acústica Orchestronic (veja aqui), controlada mecanicamente usando solenóides e pneumáticos e acionada por pedais em sincronismo com sua guitarra modelo PM-120. Um visual impressionante e Metheny iniciou a performance solo fazendo uso de efeitos e loops e improvisou ao longo do tema. O grupo interveio ao final e Metheny novamente fez uso da guitarra sintetizada promovendo uma verdadeira viagem sonora.
Seguiu o show em formato de duos, primeiramente Chris Potter em um standard com All the Things You Are em uma versão improvisada livremente por ambos; depois foi a vez com Ben Willians e chamou a Insensatez de Jobim que, nos primeiros acordes, levantou aplausos calorosos do público e deu espaço para o longo improviso de contrabaixo. Ainda neste formato, a vez de Antonio Sanchez e a interpretação de Go Get It do album Trio 99-00 e cujo tema deu a Metheny o Grammy de melhor solo em 2000. Intenso !
Com o grupo todo em cena novamente, mais dois temas da Unity Band, Interval Waltz e Breakdealer, que, teoricamente, fechariam o show, mas Metheny queria mais, e o público tambem, e voltou 3 vezes para o bis. Primeiro com um medley acústico interpretando Minuano, September Fifteen, In her Family, Last Train Home e This is not America; na segunda volta, o clássico Are you Going with Me? do album Offramp com sua marcante batida e Potter realizando a melodia na flauta transversa e claro, o estonteante solo da guitarra sintetizada de Metheny; e para encerrar a apresentação a roupagem latina de The Good Life.
Um show memorável !


Na segunda noite do festival tivemos também as excelentes apresentações do trio do pianista Brad Mehlday e o grupo Sound Prints liderado por Joe Lovano e Dave Douglas. Como afirmou Luiz Orlando Carneiro em sua coluna semanal no JB, Douglas e Mehldau representam, como poucos, o constante renascer do jazz, no mais alto nível de técnica e criatividade; e Joe Lovano a quem afirma possuir raízes nas alquimias sônico-harmônicas de Coltrane, Shorter e Joe Henderson. Palavras de quem realmente entende do assunto.

Mehldau veio acompanhado do seu habitual trio formado pelo contrabaixo de Larry Grenadier e a bateria de Jeff Ballard, todos que já formaram juntos com Pat Metheny. Mehldau, inclusive, gravou dois albuns intitulados Metheny-Mehldau com esta formação.
E o pianista comprovou que é um dos poucos que conseguem desconstruir brilhantemente temas enraizados no Rock e trazê-los para o universo do Jazz. A apresentação abriu com Hendrix, Hey Joe, e fechou com Allman Brothers, Midnight Rider. Isso foi bom demais.
E Mehldau, aos 42 anos, cada vez mais se apresenta como um verdadeiro herdeiro do piano de Keith Jarrett. Mostrou-se introspectivo nos espaços para as colocações solo, colocou swing quando evocado o Blues e deu destaque à música brasileira, que ele afirma ser um admirador, na citação de Trocando em Miudos de Chico Buarque. Grenadier largou a mão e Ballard com suas pontuações rítmicas intensas deram o colorido essencial para o show.
A noite fechou com o quinteto formado pelo sax de Joe Lovano, o trompete de Dave Douglas, o piano de Lawrence Fields, o contrabaixo de Linda Oh e a bateria de Matt Wilson. Que grupo espetacular !
A proposta do Sound Prints é inspirada na música de Wayne Shorter e a apresentação colocou em foco o verdadeiro Jazz na sua essência, sobrando virtuosismo em todos os músicos. A abertura foi implacável com o tema título do grupo, Sound Prints, ainda destacando-se os temas Dream State e Weatherman.
E tem que ressaltar a performance da pequena contrabaixista malasiana Linda Oh, que se agiganta no palco. Essa moça é um absurdo, uma pegada impressionante, improvisos sólidos e uma base impressionante que roubou o show com sua presença de palco, aplaudida com muito entusiasmo.

É isso. Eu ainda estou com a apresentação do Pat Metheny iluminando minha mente.
Esperamos que o BMW Jazz Festival se mantenha firme para a próxima edição pois há rumores de que está tenha sido a última. Este festival já se comprovou como nosso grande festival de Jazz, uma herança dos saudosos Free Jazz e Tim Festival.

E voce, are you going with me ?

CURITIBA APRESENTA A SEGUNDA EDIÇÃO DO FESTIVAL JAZZ E BLUES - NO IMPROVISO

10 junho, 2013
divulgação

A segunda edição do Festival No Improviso conquista espaço na cena curitibana e será realizado entre junho e novembro no Teatro Bom Jesus.

Mantendo a proposta de contribuir para o fortalecimento do gênero e democratizar o acesso aos shows, a curadoria de 2013 selecionou atrações nacionais e internacionais que farão apresentações improvisadas com músicos locais.

Carolina Montenegro, coordenadora geral do projeto, considera essa fórmula ideal, disse ela - “A informalidade destas jam sessions traz liberdade e improvisação no palco e esse formato promove a troca de experiências entre músicos de diferentes escolas.

Nesta edição apresentam-se Zimbo TrioSérgio AlbachBlues EtílicosSabrina Blues MendesNuno MindélisSaul TrumpetBadi AssadDiogo GuanabaraIgor PradoSax GordonMud Morganfield e Decio Caetano.

Já é um dos grandes festivais de Jazz e Blues do Brasil e teve sua primeira edição com uma força muito grande e com uma vantagem em relação aos outros festivais porque teve uma continuidade, destaca Flávio Guimarães, que volta ao palco com a comemoração dos 25 anos de carreira da banda Blues Etílicos.

Confira a programação -

junho, dia 22 : Zimbo Trio, com participação de  Sérgio Albach;
julho, dia 27 : Blues Etílicos, com participação de Sabrina Blues Mendes;
agosto, dia 31: Nuno Mindélis,  com participação  de Saul Trumpet;
setembro, dia 21 : Badi Assad, com participação de  Diogo Guanabara;
outubro, dia 19 : Igor Prado Band, com Sax Gordon e Michele Mara;
novembro, dia 13 : Mud Morganfield e Decio Caetano Blues Band,
participação de Tony Caster.

Local : Teatro Bom Jesus, Rua 24 de maio 135
Abertura do teatro às 20h30min e início do espetáculo às 21h
Ingressos : R$ 25 (inteira)
Mais informações pelo telefone (41) 3315-0808

O Festival Jazz & Blues No Improviso é realizado com incentivo fiscal, por meio da Lei Rouanet e mantém o apoio do Hospital Pequeno Príncipe. Patrocinado pelas empresas Frenesius Medical Care, TCP Terminal de Contêineres de Paranaguá, Ciapetro, Nórdica, Schattdecor do Brasil, Tratornew, Engepeças, Tratorcase, Sul Defensivos Agrícolas, Magparaná s/a , Slaviero Hotéis e Turismo, Horizonte Alimentos Agrícola, Tratormix,  Buzetti Pneus e apoiados pelos parceiros Adega Brasil, Audioshow, Bandnews, Mix Fm, 91 Rock, Comunicare, Hotéis Deville e  Mister Gorski.

BETH HART E JOE BONAMASSA RESGATAM CLÁSSICOS

08 junho, 2013
A parceria deu certo e novamente a cantora
Beth Hart e o guitarrista Joe Bonamassa apresentam novo disco, Seesaw.

A capa é uma quase homenagem ao album Live at Regal de B.B. King, gravado em 1965, este que figura entre os 500 grandes álbuns de todos os tempos pela revista Rolling Stone, e está inserido no livro "1001 discos para se ouvir antes de morrer".
Fazer música juntos só fez aumentar a amizade e a química musical que ambos carregam, na força do blues-rock na voz de Beth Hart, rasgada e dramática na interpretação das baladas, e na forte pegada blues da guitarra de Bonamassa.
Seesaw emplacou no "top list" da Billboard e sem dúvida é mais disco para audição obrigatória.
A produção novamente é de Kevin Shirley e participam do disco Blondie Chaplin na guitarra rítmica e percussão; Carmine Rojas no baixo; Arlan Schierbaum no piano, orgão e acordeon; Anton Fig na bateria; e os metais de Ron Dziubla sax, Lee Thornburg trompete e trombone; e Jeff Bova ficou responsável pelos arranjos de cordas.

No repertório, Them There Eyes, clássico dos anos 30 gravado por Bille Holiday em 1939 e aqui em uma versão com um ar west coast, em que se destaca o ataque dos metais e o solo de Bonamassa. Beth diz que sua mãe sempre cantava essa música para ela quando criança, uma importante influência dentro de casa. Close to my Fire é um hit do grupo alemão Slackwax, que mantém a mesma atmosfera reforçada pelos metais e pelas mãos de Bonamassa. A veia rock'n'roll aparece em Nutbush City Limits, que ficou marcada na voz de Tina Turner ao lado do marido Ike Turner, registro de 1973. Tina é uma das cantoras que Beth admira e para ela tornou-se um desafio gravar esse tema. Can’t Let Go levou o Grammy de 1998 na voz de Lucinda Willians; e Miss Lady é um tema de Buddy Miles que Beth inicialmente não queria gravar pois exigia muito da sua voz, mas o resultado foi muito positivo e, lógico, Bonamassa não economizou.
If I Tell You I Love You traz o songobook de Melody Gardot para uma versão meio folk meio
parisiense, com destaque para o acordeon de Alan na base dando uma atmosfera bastante sombria.
A balada I Love You More Than You’ll Ever Know é matadora. A introdução marcada pela guitarra repousa na voz melosa, quase de lamento, de Beth e tem um epílogo quase épico no solo de Bonamassa. Como na versão original de Donny Hathaway ou mesmo na interpretação na voz Amy Winehouse, é um belíssimo tema para arrepiar a alma.
A influência do R&B é marcante em Beth, e uma grande influência para ela é Etta James. Rhymes se apresenta com um bom groove, em que destaca-se novamente a guitarra de Bonamassa. A balada Sunday Kind Of Love é uma viagem na origem de Etta no tempo da Chess Records, aqui com uma seção de cordas ao fundo e é tema que tem muita importância para Beth pois era uma das preferidas de sua mãe.
O balanço, a energia de Bonamassa e um groove arretado imposto pelos metais dão a dose certa para o tema título, Seesaw, escrito por Steve Cropper e gravado por Aretha Franklin em 1968.
Fechando o disco, um hino - Strange Fruit. A canção, que ficou imortalizada nas vozes de Billie Holiday e Nina Simone, é um poema de protesto contra o racismo na América e foi escrita por Abel Meeropol. A versão de Billie Holiday foi incluída no Grammy Hall of Fame em 1978 e na lista das canções do século pela Recording Industry of America and the National Endowment for the Arts.

hartandbonamassa.com/

Leia também -

Joe Bonamassa : Don´t Explain

O QUE ROLOU NO RIO DAS OSTRAS JAZZ E BLUES 2013

04 junho, 2013
O Festival de Rio das Ostras mais uma vez mostrou a grandeza do seu evento, este que, para a cidade, já é mais importante que o carnaval quando comparado pelo aspecto econômico e evento turístico.
Em sua décima primeira edição, as novidades na infraestrutura do palco principal foram extremamente positivas, principalmente com a colocação do piso que permitiu melhor acessibilidade ao público e evitou o problema da chuva e lama que ocorreu na edição passada. E este ano a chuva passou distante, apesar dela aparecer na manhã e tarde de sexta-feira, mas não permaneceu de tanta que era a vibração do público de cerca de 30 mil pessoas circulando pela cidade e distribuída nos quatro palcos do evento.
Outra grande novidade foi a Rio das Ostras Web TV, que transmitiu ao vivo para o mundo as apresentações do palco principal de Costazul e com indicadores muito positivos - cerca de 25 mil acessos e 32 paises acessando o site para assistir em tempo real o maior festival da América Latina.

Posso parecer repetitivo, mas a cada edição o festival surpreende e, sem dúvida, esta foi a edição mais contagiante que eu presenciei em todos estes anos que frequento o evento.

Rio das Ostras Jazz e Blues 2013

Noite de quarta-feira, a tradicional abertura com a Orquestra Kuarup, formada por alunos do Centro de Formação Artística da cidade, e um repertório de clássicos da Música Popular Brasileira.
Seguida pela Big Band 190, os 18 músicos e oficiais da corporação mostraram que a polícia militar do Rio de Janeiro também tem swing circulando nas veias. No idioma de uma big band, destaque para os temas Retalhos do Maestro Cipó; a contagiante Melancia (Rique Pantoja), gravada pelo grupo Cama de Gato; e entre os standards, a clássica Take Five do quarteto de Dave Brubeck.
E o blues chegou pelas mãos do guitarrista Lancaster que, abraçado a uma bela Les Paul com uma sonoridade bem calorosa, apresentou clássicos do estilo acompanhado pelo guitarrista e gaitista Thiago Cerveira, o Hammond de Flavio Naves, o baixo de Izal Oliveira e a bateria de Andre Machado.
E a primeira noite encerrou com o melhor do Chicago Blues e no palco John Primer, acompanhado pela Real Deal Blues Band formada por Russ Green gaita, Melvin Smith baixo e Jason Ferguson bateria.
Desfilou um repertório do estilo da melhor qualidade, abraçado com sua bela Epiphone modelo Sheraton 335.
Homenageou Magic Slim, atacou de Mustang Sally (Wilson Picket), Let the Good Time Roll (BB King), Sunnyland Train (Elmore James), seu clássico Call me John Primer (Prime) e ao final trocou para uma Telecaster e trouxe o slide como protagonista mandando I Called my Baby on the Telephone (Prime) e Sweet Home Chicago (Robert Johnson). Uma primeira noite fervorosa no festival.

Quinta-feira, Lagoa de Iriry, o palco mais incendiado do evento, e novamente John Primer com a mesma energia, aqui amplificada pelo entusiasmo da platéia mais compacta e amontoada na arena local. Além do repertório da noite anterior, uma homenagem ao mestre Muddy Waters em Hoochie Coochie Man (Dixon) e I´m a man (Bo Didley). Dali parti para um palco da Tartaruga completamente lotado para o show de Stanley Clarke, mas fiquei saboreando a bela vista local e assisti o show pelo telão, restando-me esperar pela apresentação na noite seguinte no palco principal.

Rio das Ostras Jazz e Blues 2013

Não cheguei em tempo de assistir a abertura da noite com a big band BYU Sintesis.
E minha noite iniciou com o violonista Diego Figueiredo, acompanhado por Gabriel Grossi gaita, Eduardo Machado baixo, Alexandre Piu piano e Robertinho Silva bateria, este a dois dias de completar 72 anos de vida e de grandiosa contribuição para a nossa música.
Diego abriu a apresentação em violão solo e o grupo foi chegando aos poucos, primeiramente Gabriel Grossi, nossa grande revelação da harmônica, e o duo faz uma bela interpretação de Amor em Paz (Jobim) e Canto de Ossanha (Baden) para uma atenta e extasiada audiência. Com boa presença de palco e técnica impecável abraçado a um violão Ovation, Diego mostrou destreza no tema flamenco Malaguena emendando com o tango La Cumparsita, em diálogo com o piano de Alexandre Piu. Muito espaço para os músicos e uma bela citação de Trenzinho Caipira (Villa Lobos) no solo do Eduardo Machado. Colocou o público para cantar Carinhoso (Pixinguinha) e na volta do bis o dividiu para fazer o ritmo no baião com direito a citações de Asa Branca (Gonzaga) e Stone Flower (Jobim). Diego é um músico que decide o repertório no momento do show, pelo calor do público e pela interação que tem com ele. E se fosse para conjugar essa apresentação - eu agradeço, tu agradeces, ele agradece e nós agradecemos Diego por este show espetacular.
A noite seguiu com Charlie Hunter e Leo Gandelman em uma apresentação recheada com muito groove, marcado pelas linhas de baixo do instrumento de Hunter. No palco, Serginho Trombone, a percussão de Frank Colon e a bateria de Renato Massa.
Hunter colocou-se em alguns momentos solo, como na bluesy Sittin' on the Dock of the Bay (Otis Redding), e sua técnica é realmente muito original nessa condução simultânea das linhas de baixo, acordes e improvisos.
No repertório, destaques para Vip Vop, tema título do último album de Gandelman; uma quase psicodélica Hard Head (Hunter); revisitaram Carlos Lyra em Quem Quiser Encontrar o Amor; e ao final colocaram groove na Reza (Edu Lobo), fazendo de "laia ladaia sabatana ave maria" quase um mantra e base para os longos improvisos de Serginho e Gandelman, que resolveu circular pela plateia e encerrar com o coro de A Love Supreme (Coltrane). 
É isso aí, Gandelman. Valeu eu eu eu eu !
A noite fechou com o tributo ao guitarrista Celso Blues Boy, que faleceu no ano passado, com um grupo formado pelos guitarras de Joe Manfra e Marcos Amorim Bart, o baixo de Roberto Lee, a bateria de Marcio Saraiva, a gaita de Jefferson Gonçalves e a voz de Ivo Pessoa. Clássicos do nosso mago da Fender incendiaram o final da noite.

Rio das Ostras Jazz e Blues 2013

Sexta-feira, tentei assistir ao show do guitarrista Mauro Hector, mas a chuva pela manhã não aliviou apesar de não ter sido problema para o público que lotou a arena da Praça São Pedro. Eu, sem capa e debaixo de muita chuva, não fiquei para assistir tudo mas gostei muito do pouquinho que vi e ouvi. Uma pena pois a guitarra de Hector estava falando em alto e bom som.
E a noite foi de contrastes. Na abertura, Artur Maia e uma super banda com um repertório de Música Instrumental Brasileira cheia de balanço, destacando-se os temas MacabuAlivio (Djavan), em que Arthur soltou a voz; e Brejeiro (Ernesto Nazareth). Apresentou outra promessa no instrumento - Michael Pipoquinha, aos 17 anos mostrando competência e que ja é uma das grandes promessas do nosso instrumental. Fechou a apresentação com a salsa Muchacha com o público marcando o ritmo com as palmas e deixou sua mensagem - "quem corre não atrasa, quem atrasa não adianta".
A noite seguiu com jazz de primeira linha com o grupo do trompetista Christian Scott, acompanhado por Lawrence Fields piano, Luques Curtis contrabaixo, Braxton Cook sax e Corey Fonville bateria. O grupo abriu implacável com o tema Jihad Joe, do album Christian aTunde Adjuah. O pianista Lawrence Fields já esteve presente no festival acompanhando o trompetista Nicolas Payton e desta vez sobrou muito mais espaço, principalmente quando o grupo detonou a clássica e empolgante Eye of the Hurricane (Hancock), no melhor estlo straight ahead. Destaque também para o sax alto reto de Braxton Cook, pouco comum. Scott apresentou-se com um trompete de angulação a la Gillespie, híbrido, nem tradicional nem flugel, que ele mesmo desenhou, cheio de adornos, e que deu o nome de "Katrina". Com uma bela sonoridade, mostrou que tem forte influência de Miles. No repertório, ainda atacou de K.K.P.D. e voltou para o bis com No Church in the Wild.
Uma apresentação espetacular!
Sobe ao palco o guitarrista Vernon Reid, introduzindo o show com uma textura um tanto blue, mas não demorou para abrir o som da guitarra, com muita distorção e muita técnica em um desfile de escalas. Não à toa, foi declarado como um dos 100 maiores guitarristas pela revista Rolling Stone. Teve sua primeira corda arrebentada no início do show e fez um som bem pesado, fora do convencional. O tecladista Leon Gruenbaum usou em alguns momentos um instrumento muito exótico, um teclado MIDI inventado por ele com uma sonoridade muito particular. Em um momento do show, Vernou detonou a base de Sidewinder (Lee Morgan) com um forte groove e o publico gostou.
A cantora Maya Azucena chegou ao palco e deu um pouco mais de sobriedade na apresentação, entrou com um belo vocalize e mandou Walking on the Moon, clássico tema do The Police, e The Scientist, do Coldplay.


Encerrando a noite, a esperada apresentação de Stanley Clarke. Realmente um gigante, acompanhado por
Mahesh Balasooriya teclados, Kamasi Washington sax e Michael Mitchell bateria.
Abriu com Journey to Love e emendou com Goddbye Pork Pie Hat em eletrizantes trinta minutos. Muito empolgado com o público, falou sobre a riqueza da música brasileira e citou Tom Jobim, para delírio geral. Abraçou o contrabaixo acústico e atacou de No Mistery, clássico do Return to Forever, em mais trinta minutos de absoluta viagem com espaço para uma performance solo em que mostrou sua impecável técnica fazendo pontuações percussivas no corpo do instrumento e em alguns momentos uma pegada de mão direita lembrando a técnica flamenca de toque nas cordas, sempre com muita intensidade.
De volta ao baixo elétrico, a clássica School Days para um final apoteótico com uma citação de Stratus (Billy Cobham) e um verdadeiro diálogo entre ele e o excelente baterista Michael Mitchell, de apenas 17 anos.

A noite de sábado prometia e não foi por menos. A abertura com o grupo do baterista Will Cahoun, acompanhado por Donald Harrison sax, Marc Cary piano e Charnet Moffett contrabaixo.
Afro Blue (Coltrane) iniciou a apresentação que se manteve em intensidade durante todo o tempo. Cahoun contou sobre sua recente viagem a Recife onde encantou-se com o Maracatu e os ritmos regionais e sentou no case a frente do palco para uma pequena performance solo com um instrumento de percussão nativo.
Utilizou-se de outros instrumentos percussivos, inclusive eletrônicos com uso de loop, e flauta.
O grupo revezou a formação em trio e quarteto e foi nos momentos em trio que destacou-se o pianista Marc Cary, que largou a mão e mostrou porquê é um dos mais criativos do jazz contemporâneo. Moffett sempre presente, instigou o público em vários momentos e fez muito uso do arco e de efeitos no contrabaixo, promovendo uma verdadeira viagem sonora, quase lisérgica. Em um momento, na intensidade do grupo marcado pela bateria de Cahoun, seu solo me lembrou a ousadia do tema Egocentric Molecules do Jean-Luc Ponty. E Donald Harrisson também não ficou atrás, tanto nos momentos cerebrais que o tema impôs, inclusive até colocou o óculos, quanto nos espaços dado pelo trio, realizou solos contagiantes.
Um grande show e junto com o de Christian Scott representou o lado mais jazz do festival.

Rio das Ostras Jazz e Blues 2013

E foi a vez de Scott Henderson subir ao palco, acompanhado por Travis Carlton baixo e Alan Hertz na bateria. Com uma guitarra modelo Strato levemente cor-de-rosa, abriu o show com All Blues (Miles) e até pensei que seria uma apresentação com enfoque no estilo mas tornou-se uma apresentação bem fusion, muito técnica, de guitarrista para guitarrista, mas não menos contagiante.
Henderson mostrou pleno domínio da guitarra, fez uso da microfonia, deu um ar "Jeff Beck" em alguns momentos da apresentação e uma única balada para conforto do público.
E uma grande expectativa para o show de Victor Wooten. O que que é esse baixista ?!
Uma super banda de apoio com Derico Washington na bateria e simplesmente mais 3 baixistas de seis cordas que também suportavam a música com outros instrumentos - Dave Welsch, baixo e trompete; Anthony Wellington, baixo e teclados; e Steve Bailey, baixo e trombone. Wooten, com seu 4 cordas, abriu o show solo, como se estivesse filmando a plateia. A formação com o grupo completo no palco promoveu a "baixaria" total - muito groove, muito slap, muito tapping e muito walking. Wooten estava incansável, cantou e mostrou um domínio absurdo do instrumento com direito a acrobacias girando o baixo pelas costas levando o público ao verdadeiro delírio. A cantora Crystal Peterson deu o ar Soul que a apresentação pedia.

Rio das Ostras Jazz e Blues 2013

Uma usina de contrabaixos e todos desfilaram performances extasiantes, mas tem que destacar a performance solo de Wooten na citação do hino gospel Amazing Grace fazendo uso dos harmônicos e uma passagem intensa com Dave Welsch ao trompete em uma verdadeira onda Miles elétrico.
Doses cavalares de baixo elétrico que só suavizaram para formar a base para a bela Crystal, que mostrou boa extensão de voz e cantou clássicos como a pop Let´s Hear it for the Boys (Deniece Willians) e Overjoyed (Stevie Wonder) em uma versão que Wooten afirmou "como voces nunca ouviram antes".
Ao final, o Bass Tribute de Wooten e um bis bem ao estilo Motown, transformando a apresentação em um verdadeiro espetáculo, muito divertido e contagiante.
Fim de noite como uma verdadeira sessão de descarrego com o grupo de Lucky Peterson.
Ainda sem o lider no palco, o grupo abriu com muita pressão e em destaque o excelente e endiabrado guitarrista Shawn Kellerman, que deu um show à parte com seu ar um tanto "punk" e uma pegada escandalosa.
E Lucky chegou colocando mais fogo com seu jeitão extrovertido e olhos esbugalhados, atacou forte tanto no Hammond quanto na guitarra, que abraçou e mostrou muita competência e forte pegada blues.
Resolveu passear pela platéia e, vendo de perto a multidão contagiada, voltou e desfilou ao longo do corredor ao lado do público, sentou em cima da divisória por toda sua extensão e mandou clássicos como Voodoo Chile (Hendrix) e Johnny B Good (Berry) para vibração geral. A cantora Tamara Peterson chegou depois e não deixou por menos, incendiando de vez a apresentação no encerramento do palco principal de Costazul.

Rio das Ostras Jazz e Blues 2013

Uma edição para ficar na história deste festival, já consagrado mundialmente. E tudo indica que teremos mais novidades para a próxima edição, que já estamos aguardando desde agora.
Parabéns a toda a produção !

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