A PEQUENA GIGANTE HIROMI

29 setembro, 2013
Hiromi
foto : Earl Gibson III, AP

Ela nasceu na província japonesa de Shizuoka, Japão, e conquistou o mundo com seu estilo empolgante e vigoroso de tocar piano. Hiromi omeçou o estudo do piano clássico aos 6 anos e aos 14 já tocava com a Czech Philharmonic Orchestra. Destino e sorte a fizeram encontrar, por acaso, com Chick Corea, e no dia seguinte ao encontro já estava convidada para dividir o palco com ele.
Em 1999, ganhou uma bolsa de estudos e partiu para a Berklee, em Boston, onde teve como mentor o pianista Ahmad Jamal, que produziu seu primeiro album solo, Another Mind (2003, Telarc).

Este que vos escreve teve a oportunidade de vê-lá no Blue Note, uma pequena japonesa que chega ao palco com um jeito apreensivo, um olhar atento na lotada platéia e dando a impressão de que era sua primeira apresentação, tal o estado de êxtase que ela transpirava.
Sua discografia contempla tanto a roupagem acústica e mais jazzística, em trio, quanto a pegada fusion junto com o grupo Sonicbloom, o qual ela lidera em uma onda em que pilota teclados e que tem como coadjuvante o ousado guitarrista David Fiuczynski, aliás, não poderia existir outro guitarrista que dialogasse tão bem com Hiromi.
Em projetos paralelos, gravou um excelente álbum em duo com Chick Corea (2008, Stretch Rec), lançado no Japão; e o trio com Stanley Clarke e Lenny White intitulado Jazz in the Garden (2010, Contemporary Rec).

"Quando voce escreve uma música dificil, ela não soa dificil; a dificuldade é fazer esta música soar como se fosse facil de tocar", disse ela em sua entrevista para a revista Downbeat.

E essa pequena guerreira afirma que tem muita inspiração em Bruce Lee e Jackie Shan, compondo até uma homenagem no tema Kung-Fu World Champion em duas versões (Brain, 2004; Spiral, 2006); e ainda protagonizou a trilha para o cartoon Tom & Jerry (Another Mind, 2003).

Hiromi ao piano é incendiária, contagiante, intensa, de habilidade e técnica impecáveis. Ela traz também para o repertório composições clássicas, incorporando Beethoven na Sonata número 8 e Debussy em Clair de Lune, ambas com bela roupagem jazzística.

Hiromi
Seu álbum Move (2013) é o segundo da série que ela intitula The Trio Project, iniciada com Voice (2011), ambos lançados pela Telarc. E o trio que a acompanha é formado por dois gigantes e de formações bem distintas - as seis cordas do baixista nova-iorquino Anthony Jackson e a pegada fusion baterista inglês Simon Philips.
Mesmo em formato acústico, Hiromi não larga as intervenções no teclado eletrônico, mas é sua pegada no piano que impressiona, seu ataque, sua sensibilidade, é uma verdadeira usina de ideias e ela empurra o time, que não perde tempo e, literalmente, "quebra tudo".

Ela descreve o álbum Move como uma trilha sonora para um dia, do despertar com a faixa título até o adormecer com o tema "11:49pm". E é um dia realmente intenso, que passa por momentos frenéticos como a enérgica "Brand New Day", a suíte intitulada "Escapism", dividida em três partes - "Reality", a bela e melódica "Fantasy" e "In Between"; e ainda espaço para o funkeado de "Margarita!".
Um discão.


hiromimusic.com/

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Hiromi Marcin Wasilewski

A BOSSA NOVA PERDE UM DOS SEUS MESTRES : MORRE OSCAR CASTRO NEVES

28 setembro, 2013
Oscar Castro Neves
A Bossa Nova perde um dos seus grandes mestres.
Oscar Castro Neves faleceu aos 73 anos, vítima de um cancer, em Los Angeles, California, cidade onde morava.

Violonista, compositor e arranjador, é considerado um dos pais do movimento da Bossa Nova ao lado de Jobim e João Gilberto.
Esteve presente no histórico concerto do Carnegie Hall, NY, no início dos anos 60. Mais tarde integrou os grupos de Stan Getz, Sergio Mendes, Paul Winter e  contribuiu como arranjador e produtor para muitos artistas como Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi, Quincy Jones, Toots Thielemans, Eliane Elias, Diane Schuur, entre muitos outros, a lista é imensa.

Oscar Castro Neves nasceu em 15 de maio de 1940 no Rio de Janeiro.
Foi nomeado pelo governo brasileiro, com honras, como membro da Ordem do Rio Branco, em reconhecimento por sua contribuição para a disseminação da música e cultura brasileira ao redor do mundo.
Deixa uma bela discografia como líder, arranjador e produtor. Seus dois últimos albuns, Playful Heart (2003) e All One (2006), foram lançados pela gravadora Mack Avenue.

Oscar Castro Neves : 1940-2013

PAT METHENY ANUNCIA NOVO INTEGRANTE PARA A UNITY BAND

24 setembro, 2013
Pat Metheny Unity Band
Pat Metheny anunciou em sua página oficial na internet um novo integrante para a Unity Band - o pianista italiano Giulio Carmassi.

Indicado pelo baixista Will Lee, grande amigo de Metheny, Giulio Carmassi é multi-instrumentista, toca também sopros, guitarra, baixo, bateria e, como afirma o líder, ainda canta como um anjo.

Disse Metheny -
"O projeto da Unity Band  foi muito marcante na minha carreira. Liderei grupos de músicos talentosos e passar tanto tempo junto com esse grupo foi inspirador. Quando fizemos nosso último show, tudo que eu pensei era que isso não acabasse, e eu sabia que o sentimento era o mesmo para Chris, Antonio e Ben".

E Metheny sempre pensou em ter um multi-instrumentista em um de seus projetos.
Para Carmassi, é um sonho pois sua inspiração veio pela música de Metheny quando, ainda jovem, o assistiu em uma apresentação na Italia.

O novo album da Unity Band tem lançamento previsto para fevereiro de 2014.
fonte : patmetheny.com
Assista Giulio Carmassi interpretando o tema First Circle -

O TROMPETISTA FLAVIO BOLTRO

22 setembro, 2013
Flavio Boltro
Em destaque, o trompetista italiano Flavio Boltro.
Sopro vibrante, enérgico, na melhor escola do bop. Teve na figura paterna um trompetista e um fã de Jazz, e aprendeu a amar a música desde cedo iniciando o estudo do trompete aos 9 anos. Nos anos 80, foi integrante da Turin’s Symphonic Orchestra e da RAI Symphonic Orchestra, e teve sua iniciação no Jazz em gigs ao lado de Steve Grossman, Cedar Walton, Billy Higgins e David Williams. Em 1986 foi premiado como melhor músico de Jazz pela revista italiana Musica Jazz. Em 1987, participou de uma homenagem ao selo Blue Note no album intitulado Into the Blue, lançado somente na Itália, em uma reverência ao Blues, com uma abordagem moderna. Neste album participaram Michele Bozza tenor, Piero Bassini piano, Riccardo Fioravanti contrabaixo e Giampiero Prina bateria.
Gravou seu primeiro album em 1992, Flabula, na formação de quarteto ao lado de Massimo Farao piano, Aldo Zunino contrabaixo e Giulio Capiozzo bateria. Ainda nos anos 90, participou junto com o saxofonista Stefano Di Battista na Orchestre Nationnal de Jazz, liderada pelo pianista frances Laurent Cugny, com a qual gravaram três albuns; e ambos participaram do sexteto do pianista Michel Petruccianni.
Em 98, arregalou os olhos de Wynton Marsalis, que afirmou ser um dos melhores trompetistas de Jazz.

Boltro lançou três álbuns como líder pela Blue Note - Road Runner (1999), 40 degrés (2003) e Milestones, un Encontro in Jazz (2007). Nessa época, também liderou um quinteto intitulado Sidewinder, em tributo a Lee Morgan.

JoyfulEm Joyful (2012) conta com um novo quinteto formado por Rosario Giuliani sax, Pietro Lussu piano, Darryl Hall contrabaixo, André Ceccarelli bateria e traz a participação vocal de Alex Ligertwood, que marcou a voz no grupo do Santana.
No repertório, Boltro assina 5 das 9 composições, e traz versões muito próprias de alguns clássicos - "Over the Rainbow" (Arlen), em um belíssimo duo entre trompete e contrabaixo; resgata os Jazz Messengers e Horace Silver em "The Preacher"; traz o espírito dos 60 com "Sidewinder" de Lee Morgan, aqui pontuada na voz de Ligerwood; e revive a popular "Every Breath You Take" do The Police, que conta também com os vocais de Ligerwood.
Ainda destaque para um contagiante diálogo entre Boltro e Ceccarelli na introdução de "Black Jack" e a rítmica funk e balançada de "See You Tomorrow" marcada pela voz de Ligerwood.

MORRE O GUITARRISTA JIMMY PONDER

18 setembro, 2013

O guitarrista Jimmy Ponder, um dos mais expressivos na onda do Soul-Jazz, morreu aos 67 anos, vítima de cancer.
Ponder incorporou a técnica de Wes Montgomery, tocando com o polegar, e atuou ao lado de Lou Donaldson, Houston Person, Stanley Turrentine e de grandes organistas como Charles Earland, Jimmy McGriff, Lonnie Smith, Jack McDuff e Richard Holmes.

James Willis Ponder nasceu em 10 de maio de 1946 em Pittsburg. Começou a tocar guitarra aos 11 anos quando seu irmão mais velho se apresentou na Marinha, deixando o instrumento para ele.
Praticando mais de seis horas por dia, Ponder não demorou muito para estar nos palcos e aos 16 anos se apaixonou pelo Jazz. Em uma apresentação do organista Charlie Earland em sua cidade, Ponder subiu ao palco e tocou, deixando Earland impressionado, convidando-o para integrar seu grupo, mas a mãe de Ponder disse que só ia deixá-lo ir para a estrada quando terminasse os estudos e, dois anos mais tarde, Earland voltou à cidade e novamente fez o convite, que foi prontamente aceito.
Nessa época, predominava forte a era do Hammond e o movimento do Soul-Jazz.
Seu encontro com Wes Montgomery aconteceu em Atlanta quando assistia uma apresentação dele. Aos 18 anos, um tímido e nervoso Ponder recebeu de Wes sua guitarra para que tocasse o tema "Chitlins con Carne" de Kenny Burrell, e a performance agradou o mestre. A técnica de Wes teve muita influência em seu desenvolvimento e forma de tocar, tanto que largou a palheta e passou a tocar com o polegar. Após a morte de Wes, Ponder soube que o mestre confiava a ele em levar seu legado e sua técnica de tocar adiante.

Um apaixonado pela Gibson Super 400, sua preferida.
Jimmy Ponder deixa uma grande discografia, como sideman e como líder, inclusive trabalhos em guitarra solo.
Era artista residente na Duquesne University, em Pittsburgh.

Jimmy Ponder : 1946-2013

O CAMALEÃO ADEMIR JUNIOR

16 setembro, 2013
Camaleão significa "leão da terra", nome derivado das palavras gregas chamai (na terra, no chão) e leon (leão). Seu movimento é lento para não ser notado antes do ataque e sua mudança de cor tem um papel importante na comunicação durante as lutas entre a espécie. As cores indicam se o oponente está assustado ou furioso, mas também ajuda em sua camuflagem, embora esta não seja uma ocorrência frequente, e sim ocasional.

Ademir JuniorAs múltiplas formas do camaleão aqui se apresenta na forma de sopro, no sax de Ademir Junior - arranjador, compositor e um mestre na improvisação.
Iniciou o estudo da música aos 7 anos, com a clarineta, influenciado pelo pai, mas levou um tempo para começar a levar o assunto a sério. Aos 13 anos já se apresentava como clarinetista. Ingressou na UnB e teve a oportunidade de estudar com o clarinetista Luiz Gonzaga Carneiro, o trompetista Moises Alves e o saxofonista Idriss Boudrioua, mas a paixão pelo sax só veio aos 18 anos por influência do saxofonista Widor Santiago, e teve nestas pessoas seus verdadeiros tutores.
E não demorou para se apaixonar pelo som de Coltrane, Brecker, Shorter e Branford, entre muitos outros mestres do instrumento cuja música tanto o influenciou.
Ademir Junior já tem três discos lançados - Gratidão (2002), Vitória na Cruz (2007) e Brasilidades (2009).

Camaleão é o título que dá nome ao seu novo trabalho, o primeiro de uma trilogia em que pretende mostrar suas diversas influências como Choro, Erudito, Samba, Jazz, Salsa, Bolero e Pop - "Todos esses estilos me influenciaram e me ajudaram a entender as belezas que a música produz em nossa vida interior e como influencia em nossa vida cotidiana", diz Ademir no encarte do disco.

Neste novo trabalho, Ademir formou um super sexteto com Jesse Sadoc trompete, Lula Galvão guitarra, Vitor Gonçalves piano, Jefferson Lescowich contrabaixo e Rafael Barata bateria; e as participações especiais de Bob Mintzer, Alexandre Carvalho e Idriss Boudrioua.
Ademir assina 6 das 9 composições, Jesse Sadoc contribuiu com 3. E a atmosfera hard bop está presente por todo o disco, e Sadoc é realmente um expoente nessa onda, orgulho nosso em ter um instrumentista desse nivel. E é bom demais também ouvir novamente Lula Galvão tocando guitarra, matando uma saudade do tempo que ele abraçava o instrumento nas boas jams do final dos anos 80.

O disco abre com o tema Melhor de 8, dando as "boas-vindas" ao fraseado contagiante de Ademir. O samba-jazz aparece em A Prata e o Ouro, com um belo diálogo entre Ademir, Sadoc Vitor e Barata ao final do tema; faz uma roupagem gipsy no tema título, que se transforma ao longo do tema, com muito balanço, espaço para o improviso de Vitor e novamente um belo diálogo entre Ademir e Sadoc; o tema Livre Acesso nos remete a uma bela viagem, um retrato fiel da nossa música instrumental com aquela levada de baixo balançado em um arranjo que nos faz, literalmente, flutuar sobre as notas.
Duas baladas - Feelings e Elegia pro Freddie, homenagem de Sadoc a Freddie Hubbard e que traz uma atmosfera a la "João Donato".
Bob Mintzer aparece no tema JC, uma homenagem a Coltrane, e junto com Ademir abrem o tema no melhor ensemble, e aqui participa o guitarrista Alexandre Carvalho. Idriss participa da composição Entre Amigos. O disco fecha com JT, outro tema na melhor escola sambop.
Um disco espetacular.


www.ademirjunior.com/

Leia também: Ademir Junior é endorsee dos saxofones Selmer -

Ademir Junior

GARY BURTON EM AUTOBIOGRAFIA

11 setembro, 2013
por Nate Chinen
fonte : NY Times  (tradução livre)

Há um momento em Learning to Listen: The Jazz Journey of Gary Burton que relata o encontro de Gary Burton com Miles Davis no festival de jazz de verão em sua cidade natal, Indiana. Para Burton, esse encontro provavelmente poderia ter sido um pouco melhor. O ano era 1959 e Burton tinha 16 anos, um precoce vibrafonista matriculado na Stan Kenton Jazz Camp. Davis estava tocando no festival com seu sexteto, o grupo que fez o disco Kind of Blue. Burton descreve - "Enquanto ele andava atrás do palco, eu tirei uma foto dele com a minha câmera Brownie, e, ao piscar o flash em seu rosto, ele respondeu simplesmente, de forma sarcástica - obrigado, garoto".
Esta é somente uma das histórias contadas no livro e que captura algo essencial sobre Burton. Assim ele conta - "Eu sempre fiquei fora da badalação, vim de um lugar de campo, tocando um instrumento que muitas pessoas não conheciam. Era jovem e todos os integrantes de grupos que toquei estavam na faixa dos 40 anos; e eu estava contente, embora não tivesse como descobrir muito naquela época".

O que é uma verdade sobre Burton é que ele se encaixa nesse perfil insider, e se sente orgulhoso da sua trajetória. Ganhou 7 Grammys, um deles com Chick Corea. Foi um pioneiro no nascimento do jazz-rock e seus grupos serviram como incubadora para jovens artistas, como Pat Metheny. Durante mais de 30 anos como afiliado da Berklee College of Music em Boston, ajudou a transformar a educação do jazz e transformou o cenário da música atual. Felizmente, o som predominante do jazz, harmonicamente sofisticado, ritmicamente simples e não autoconsciente dessa mistura de tradições, suporta a influência de Burton..
"Muitos jovens músicos de hoje não estão vindo de uma escola ou de outra, eles estão vindo de um lugar mais amplo. E Gary foi sempre veio desse grande lugar."", disse o saxofonista Joe Lovano, que detém a Gary Burton Chair in Jazz Performance na Berklee.

Burton cultiva um pouco da atmosfera mística de Miles Davis e outras grandes figuras do jazz. Sua educação sempre se baseou nos seguintes princípios - seja educado, cortez e tente fazer as pessoas se sentirem bem. Muitas vezes ele encontra pessoas pela primeira vez e elas se surpreendem em aprender em saber que ele é um músico de jazz - "Voce parece um professor de colégio", muitos dizem.
O livro lança uma nova luz sobre sua inserção no jazz. Burton cresceu com uma marimba, e com um professor de vibrafone começou a estudar música aos 6 anos. Sua família sempre se programava para viagens em torno dele para que se apresentasse em programas de talentos.
Na adolescência, já era conhecido nas jams locais. Um dos que ficaram impressionados com o ainda garoto foi o saxofonista Boots Randolph, que fez os arranjos para Hank Garland, guitarrista de Nashville. Garland, que pensava em gravar um disco com vibrafone, convidou Burton para passar um verão em Nashville e tocaram juntos no festival de Newport, em que também participou Chet Atkins. O disco que Garland gravou, “Jazz Winds From a New Direction", se tornou um clássico. Com o suporte de Atkins, Burton fez seu próprio acordo com a gravadora RCA.
Curioso o fato que os dois primeiros mentores de Jazz de Burton não eram músicos de jazz, mas lendas da música Country. Realizou seu disco de estreia, "New Vibe Man in Town" (1961), enquanto estudava em Berklee e não demorou muito para trabalhar como sideman, primeiro com o pianista George Shearing e depois com o saxofonista Stan Getz, com quem gravou Getz/Gilberto, registro que marcou a química entre o jazz e outras tradições musicais. Esse sucesso significava que Burton logo encontraria seu próprio rumo.
O público gostava de sua performance com as quatro baquetas - The Burton Grip, como era conhecido, e atuava como diretor musical também. Manfred Eicher, fundador da ECM, disse que viu Burton no quarteto de Getz e ficou impressionado com sua criatividade melódica como solista e, é claro, pela técnica fenomenal que estava sempre a serviço da expressão lírica. Burton carregou essas qualidades por toda a sua carreira como líder - "Uma das razões que me senti motivado a tentar combinar rock e jazz era ter visto Stan Getz combinar estilos por três anos e pensei - eu quero fazer algo assim". Inspirado pela energia do som do rock dos anos 60, formou o Gary Burton Quartet com o guitarrista Larry Coryell. O primeiro disco do grupo, "Duster", foi lançado em 1967 com Steve Swallow e Roy Haynes. Mais tarde o quarteto se solidificou com o baterista Bob Moses em turnê pela Europa.

Burton disse que se sentiu menosprezado por muito tempo por relatos de que o jazz-rock começou com "Bitches Brew", álbum que Miles Davis fez em 1969. Na época, o Gary Burton Quartet foi devidamente creditado por desbravar novos caminhos e a eleição dos leitores da Downbeat em 1968 o elegeu como o jazzman do ano. O guitarrista Bill Frisell, que viu o grupo de Burton naquele verão, lembra o momento - "O que Gary fez foi uma espécie de modelo para tantas coisas que eu ainda faço".
Frisell é atualmente um dos muitos guitarrista que não passou pelo grupo de Burton. Após Coryell, passaram John Scofield e Kurt Rosenwinkel. Pat Metheny foi outro que se antenou com Burton ainda jovem, se tornando uma descoberta preciosa e um verdadeiro parceiro, diz ele - "Para mim ele foi a síntese do que um músico moderno devia ser, ele é um poço de ideias e melodias. Isso fica um pouco perdido por causa da natureza do instrumento. Com essas quatro baquetas voando pelas notas, muitas vezes sinto que as pessoas podem perder o conteúdo real das ideias, das linhas, e é impressionante a visão disso tudo".

Um argumento que Burton traz em seu livro é que ele também popularizou as apresentações solo e em duo com instrumentos além do piano. E isso é de extrema importância pois Burton ganhou seu primeiro Grammy por "Alone at Last", um álbum solo de vibrafone magistral lançado no Atlântico em 1971; além do duo com Chick Corea na mesma época com o album Crystal Silence, ECM, altamente aclamado. Para Manfred Eicher, Burton foi um artista marcante, assim como Keith Jarrett, com quem ele também gravou. A diferença entre os dois é que Jarrett cultivou uma personalidade mais introspectiva. Burton afirma - "Eu poderia ter acabado como Jarrett se não tivesse partido para o lado acadêmico, e a única coisa que acontece quando voce ensina, como em Berklee, é que voce está acessível para muita gente".

De Berkelee, onde começou como professor em 1971 e saiu como vice-presidente em 2004, Burton fez dessa acessibilidade sua doutrina, expandindo a base de estudantes além dos protocolos do Jazz.
Em 1994 colaborou com Astor Piazzolla, o mestre do novo tango, que o fez emergir em uma nova veia de expressão emocional. Mais de uma década depois, em 2010, lançou novo album com o espantoso guitarrista Julian Lage e uma super seção rítmica com o contrabaixista Scott Colley e o baterista Antonio Sanchez. Para Julian Lage, a experiência foi um momento marcante e afirma que, se olhar o trabalho de Burton cronologicamente, ele sempre está fazendo algo novo e sempre instituiu uma nova tradição.

MILES SMILES PROJECT

08 setembro, 2013
Miles Smiles Project
Miles Smiles dá nome ao disco que Miles Davis gravou em 1967 com seu segundo quinteto, ao lado de Shorter, Hancock, Carter e Willians. Foi o terceiro registro nesta formação e já sinalizava o início de uma nova direção na música do líder.

O título do disco inspirou o organista Joey deFrancesco, o trompetista Wallace Roney e o baterista Omar Hakim a criarem mais um tributo ao mestre, o Miles Smiles Project.
Além do trio, complementam a formação, em tempos distintos, os saxes de Rick Margitza e Bill Evans, as guitarras de Larry Coryell e Robben Ford e os baixos de Ralphe Armstrong, Darryl Jones e Victor Bailey.

Todos tocaram com Miles em sua fase "elétrica", alguns ainda muito jovens, como deFrancesco que, aos 17 anos, recebeu um convite do próprio Miles para integrar seu grupo e participou do disco Amandla (1989), junto com o saxofonista Rick Margitza. Já Darryl Jones tinha um grande amigo, Vince Wilburn Jr, sobrinho de Miles e com quem tocou em suas primeiras gravações, e justamente nessa época o mestre estava procurando um novo baixista e Darryl foi convidado, integrando o grupo de Miles em 1983 e participou dos albuns Decoy (1984) e You're Under Arrest (1985). O baterista Omar Hakim está na sessão de Tutu (1986) e foi Miles quem o apresentou para o Weather Report, do qual foi o último baterista.
Ralphe Armstrong e Robben Ford não gravaram nenhuma sessão em estúdio com Miles, mas estiveram com ele nos palcos. Armstrong em 1977, cuja trajetória foi interrompida devido a um acidente de carro com Miles, que o tirou dos palcos por um tempo; e Robben Ford aparece no festival de Montreux em 1986 em uma sessão incendiária. Para Larry Coryell, Miles foi um grande amigo e um dos grandes incentivadores em sua carreira, um exemplo de liderança. Apesar de terem gravado juntos, a sessão até hoje está esquecida nos arquivos da Columbia e nunca foi lançada comercialmente.
E ninguém melhor para representar a música e a textura do sopro de Miles do que Wallace Roney, cuja influência é muito evidente em seu timbre e fraseado. Roney tocou junto com o mestre em Montreux na histórica sessão de 1991 em que Miles voltou a tocar o Jazz após 30 anos. Após sua morte, Roney integrou um dos mais expressivos grupos em tributo ao mestre, o VSOP, ao lado de Hancock, Carter, Shorter e Willians.

A B C ... RACHEL Z

04 setembro, 2013
Rachel Z
Rachel Carmel Nicolazzo é Rachel Z.
Eu conheci essa moça em uma formação bem inusitada, ao lado do grupo do saxofonista Wayne Scoferry no Jazz Standard. Nesta sessão, ainda estavam o pianista Orrin Evans, o contrabaixista Hans Glawischnig e o baterista Jason Brown.
Rachel Z, com um ar de mulher-gato, pilotava os teclados dando uma outra textura e uma abordagem um tanto eletrônica ao característico som acústico e straight ahead de Wayne.
Uma boa surpresa.

Rachel Z é uma nativa de NY, e teve a música e a arte no berço - a mãe cantora de ópera e o pai pianista. Cresceu frequentando o Metropolitan Opera House, onde a família assistia apresentações todas as semanas. Começou o estudo do piano clássico aos 7 anos e quando ouviu Miles Davis, aos 15, resolveu trocar o clássico pela improvisação, formando grupos locais fazendo covers de Joni Mitchell e Steely Dan. Graduou-se no New England Conservatory, premiada com honra em performance, e passou pela Berklee College e a Manhattan School of Music, onde teve  a oportunidade de estudar com Joanne Brackeen e Richie Beirach.
Nessa época tocava em pequenos grupos nas redondezas de Boston ao lado de Miroslav Vitous, Bob Moses e George Garzone. Retornou para New York e integrou o grupo Steps Ahead até 1996.
Colaborou com o premiado album de Wayne Shorter, High Life (1995, Verve), no qual foi convidada para elaborar um sistema computadorizado que simulasse uma orquestra e cujo registro foi premiado com o Grammy de melhor album contemporâneo na época. Mais tarde Rachel realizou um tributo a Wayne Shorter no excelente album On the Milky Way Express (2000, Crossover).

Em seu primeiro album solo, "Trust the Universe" (1992, Columbia Rec), que teve a produção de Mike Mainieri, dividiu-se entre o tradicional e o contemporâneo e teve as participações de Charnette Moffett e Al Foster de um lado e Victor Bailey e Lenny White de outro, ainda os sopros de David Sanchez e David Mann. Em "Room of One" (1996, NYC Rec), fez um tributo às mulheres artistas com arranjos realizados por Maria Schneider, registro que levou quatro estrelas pela Downbeat; e realizou um tributo a Joni Mitchell, que tanto a influenciou, em "Moon at the Window "(2002, Tone Center). Fez parte do projeto fusion chamado Vertú (1999, Sony Music) ao lado de Stanley Clarke e Lenny White e que ainda contou com o violino de Karen Briggs e a guitarra de Ritchie Kozen. Além de participar de vários trios em que fez novas leituras para o Jazz de temas do universo do pop-rock assinados por Steely Dan, Peter Gabriel, The Police, U2, Rolling Stones, entre outros.

The Trio of OzEm destaque aqui está o excelente projeto Trio of Oz (2010, Crossover), que traz Rachel Z junto com o marido e baterista Omar Hakim e a contrabaixista Maeve Royce em uma sessão contagiante. A proposta neste primeiro album do trio, que foi eleito na época de seu lançamento como o melhor album do ano pela Jazziz Magazine, é aproximar temas do Rock com a linguagem do Jazz, uma iniciativa que tem sido muito bem aceita e seguida por muitos grandes músicos do universo jazzístico.

O tema de Alice in Chains (Angry Chair) abre o album, e Rachel está contagiante com direito a uma citação de Softly as Morning Sunrise em seu improviso. Ainda Coldplay (Lost); a presença do rock alternativo dos 80 com New Order (Bizarre Love Triangle) e Depeche Mode (In Your Room); Stone Temple Pilots (Sour Girl); Morrisey (There is a Light); o rock independente do Death Cab For Cutie (I Will Possess Your Heart) e The Killers (When You Were Young); e uma bela versão para o clássico The Police (King of Pain).
Um discão.

rachelz.com/
thetrioofoz.com/


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Hiromi Marcin Wasilewski

BRITISH BLUES AWARDS 2013

01 setembro, 2013

British Blues Awards foi criado em 2010 por um grupo de entusiastas da Nottingham Blues Society, Reino Unido, com o objetivo de recompensar os artistas de blues britânicos pela dedicação e esforço em divulgar o estilo.
Um comitê formado por radialistas, escritores e produtores são questionados para nomear os artistas em cada categoria e a votação é feita pelo público, com suporte das rádios locais, gravadoras e internet.

Criaram o prêmio "Kevin Thorpe Memorial Award", que premia o compositor do ano. Kevin Thorpe foi um reconhecido cantor e compositor de Nottingham e brilhou no cenário Blues britânico, mas infelizmente faleceu de um ataque do coração durante e edição de 2010 do Newark Blues Festival.

Sue Hickling, uma dos criadoras da entidade, escreveu uma carta aberta ao mundo do Blues, que transcrevo em resumo para conhecimento de todos os amantes do estilo -
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Apesar do crescente interesse pelo evento, estamos considerando a continuidade do mesmo. 
Nós contamos com apoio de patrocínio e doações para financiar os prêmios, além da boa vontade dos colaboradores em ajudar e dispor de vossos tempos neste trabalho. Reconhecemos o suporte e força que recebemos das pessoas e organizações envolvidas e não queremos ser recompensados ou agraciados por nossos esforços. Nosso objetivo é identificar e valorizar os talentos em cena no Blues britânico. Não participamos nem interferimos sobre o resultado final, os votos são decididos pelo público.
No entanto, apesar de minoria, temos recebido feedback negativo e maldoso, o que é muito desanimador.
Vamos passar por um período de avaliação, discussão e decisão se e como vamos seguir em frente.
Para a imensa maioria, reconhecemos e agrademos todas as mensagens, comentários e sugestões positivas e construtivas, e é isso que nos motiva continuar o trabalho e que influenciará nossa decisão final.
fecha aspas

E nós, aqui do outro lado do continente, vamos apoiar -
acesse : www.britishbluesawards.com
acompanhe no Facebook : www.facebook.com/bbawards

Na votação deste ano, 107 países participaram. Na premiação, destacaram-se Ian Siegal, que levou três prêmios - vocal masculino, composição e disco do ano; Chantel McGregor com dois prêmios - vocal feminino e guitarrista do ano. Ambos artistas estão em foco pelo terceiro ano seguido - Ian Siegal foi premiado nas duas edições anteriores como vocal masculino e em 2012 também levou destaque no trabalho acústico; Chantel McGregor foi premiada na edição passada como vocal feminino e em 2011 como talento jovem, ela realmente é um espetáculo e já foi destaque aqui no site; e King King, o melhor grupo pelo segundo ano consecutivo e em 2011 levou o título de album do ano.

Confira os vencedores da edição 2013 -

Male Vocalist of the Year : Ian Siegal
Female Vocalist of the Year : Chantel McGregor
Band of the Year : King King
Acoustic Act of the Year : Marcus Bonfanti
Guitarist of the Year : Chantel McGregor
Harmonica player of the Year : Paul Lamb
Keyboard Player of the Year : Bennett Holland
Bass Player of the Year : Lindsay Coulson
Drummer of the Year : Wayne Proctor
Instrumentalist of the Year : Becky Tate
Young Artist of the Year : Dan Owen, Lucy Zirins
Festival of the Year : Hebden Bridge
Overseas Artist of the Year : Walter Trout
Independent Blues Broadcaster of the Year : Dave Raven
Album of the Year : Candy Store Kid, Ian Siegal and the Mississippi Mudbloods
Kevin Thorpe Memorial Award Songwriter of the Year : I Am The Train, Ian Siegal
Lifetime Achievement Award : Mike Vernon, Barry Middleton
British Blues Greats : Bill Wyman, Wilko Johnson e Chris Farlowe