GOLDINGS BERNSTEIN STEWART

25 novembro, 2013
O desafio é encontrar o equilíbrio em formas desconexas, assimétricas. Mesmo que exista uma linha de contorno direcionando os movimentos, qualquer deslize pode comprometer a meta. A dispersão deve ser mínima. É nessas horas que torna-se necessário conhecer os detalhes, reconhecer o improvável e estar preparado para o ataque certo, na hora certa, sem hesitação.

O organ trio formado por Larry Goldings, Peter Bernstein e Bill Stewart tem os elementos para essa aventura. Com outros trabalhos em paralelo como líderes ou sidemen, o grupo já grava junto há mais de duas décadas, com uma ampla discografia, e a sintonia que esses caras tem juntos é algo impressionante, vai além da Música.

Larry Goldings, Peter Bernstein, Bill Stewart

A inspiração de Larry Goldings é o organista Jimmy Smith. Como sideman já atuou ao lado de Maceo Parker, Michael Brecker, John Scofield, Harry Allen, e só gente grande. Teve seu nome indicado para o Grammy em 2007 pelo album Saudade (ECM), também um organ trio ao lado de John Scofield e Jack DeJohnette. Seu mais recente album é um trabalho em piano solo intitulado In My Room (BFM Jazz), com temas autorais e interpretações de Beatles, Brian Wilson e Joni Mitchell.
Peter Bernstein é onipresente no cenário novaiorquino, gravou um DVD no Smoke, fantástico clube de jazz local, onde sempre se apresenta nas terças-feiras de groove com o grupo do organista Milke LeDonne. Teve como mentor o guitarrista Jim Hall, uma das suas grandes influências. Atuou por muito tempo ao lado do organista Melvin Rhyne, tem um boa discografia e já contribuiu com sua guitarra no som de Joshua Redman e Brad Mehldau.
Bill Stewart ganhou muita expressão no grupo do John Scofield, o qual integrou entre os anos de 1990 e 1996. É também um músico muito atuante, tem suas baquetas em registros de Maceo Parker, Pat Metheny e Bill Carrothers, e afirma como suas grandes influências os bateristas Bernad Purdie e Idris Muhammad.

Larry Goldings, Peter Bernstein, Bill Stewart O último trabalho oficial lançado do organ trio foi gravado no Smalls, em NY, em uma sessão incendiária, registro de três noites em janeiro de 2011.

O LOBO WARREN

18 novembro, 2013
Com timbre muito particular, da família dos instrumentos de percussão, o vibrafone tem em suas teclas um tubo metálico oco afinado e um disco de diâmetro menor no topo deste tubo. Esses discos estão ligados a um eixo girado por um motor elétrico que, uma vez acionado ao toque de uma tecla, as notas soam em um efeito de vibrato, causado pela abertura e fechamento rápido dos tubos. O músico pode variar a velocidade de rotação, controlando esse efeito. Com o motor desligado, os tubos ficam abertos e o vibrafone apresenta um som semelhante ao de um sino. A extensão usual de um vibrafone compreende 3 oitavas.
Criado no início do século passado para compor a percussão das orquestras dos teatros populares, o vibrafone rapidamente se inseriu no Jazz e se popularizou nas mãos de Lionel Hampton, em plena era do swing, inserindo no estilo a primeira geração do instrumento. Mais tarde, outro gigante protagonizou com maestria o instrumento, Milt Jackson, a frente do Modern Jazz Quartet, dando ao bebop um colorido especial. O legado do instrumento foi levado adiante e ganhou importância na música contemporânea e no Jazz pelas baquetas de Bobby Hutcherson, Gary Burton, Roy Ayers, Joe Locke, Steve Nelson, Stefon Harris, entre outros.

Warren Wolf

Aqui em foco, um dos representantes desta nova geração no instrumento - Warren Wolf .
Desde os 3 anos de idade tem intimidade com o vibrafone e a marimba, a bateria e o piano. A influência veio pelo pai, percussionista amador, e mergulhou fundo em vários estilos de música - Clássico, Ragtime e o Jazz.
Estudou música clássica por oito anos na Baltimore School for the Arts, e partiu para a graduação em Berkelee, Boston, onde estudou com o vibrafonista Dave Samuels, e lá começou a explorar a fundo o Jazz. Milt Jackson e Bobby Hutcherson eram suas referências no vibrafone, mas foi Charlie Parker sua grande influência, assim como Miles, Hancock e Corea, que fortemente definiram sua direção.
Voltou aos palcos e atuou como sideman nos grupos de Bobby Watson, Christian McBride, Wynton Marsalis, Cyrus Chestnut e Ron Carter.
Warren Wolf foi apelidado pelo pai como Chano, em homenagem a Chano Pozo, que liderava as congas no grupo de Dizzy Gillespie.

Após gravar dois album com lançamento exclusivo no mercado japones - "Incredible Jazz Vibes" e "Black Wolf", Warren assina com a gravadora Mack Avenue em 2011 e lança o album "Warren Wolf", que teve a seção rítmica formada por Christian McBride, também produtor do album, Peter Martin, Gregory Hutchinson e os sopros de Jeremy Pelt e Tim Green.
McBride não economiza elogios a Warren, afirmando ser um músico extremamente talentoso e criativo e um dos mais extraordinários surgidos na última década.

O album Wolfgang (2013, Mack Avenue), traz novamente McBride na produção, também dividindo o contrabaixo com Kris Funn; no piano Benny Green, Aaron Goldberberg e Aaron Diehl; na bateria Lewis Nash e Billy Willians Jr; e o vocal de Darryl Tookes no tema "Setembro", dos nossos ilustres Ivan Lins e Gilson Peranzzetta. Além de composições próprias, Wolf assina 6 das 9 composições, traz "Frankie e Johnny" (Hughie Connon), que Warren lembra a primeira que ouviu o tema intepretado por Milt Jackson, Ray Brown e Stanley Turrentine, e aqui, para ele, é um tributo que McBride presta a Ray Brown; e "Le Carnaval de Venise" (Jean-Baptiste Arban), uma valsa em duo com Diehl.
O líder aparece contagiante em "Grand Central", cujo título foi inspirado por um expectador em uma apresentação no Dizzy´s Club que, ao ouvir o tema, afirmou sentir-se em plena estação novaiorquina na hora do rush.
Outro duo com Diehl na belíssima "Wolfgang"; e um destaque para as teclas de Benny Green em "Things Were Done Yesterday".

Warren WolfUm passeio pelo Blues e pelo Clássico, e o líder afirma - "Quis mostrar a beleza do instrumento. Em um quinteto, voce fica limitado; já em quarteto voce pode me ouvir mais. Muitas vezes o vibrafone é tocado suportado pelo outros instrumentos, aqui mostro que eu mesmo posso segurar a onda."

DOWNBEAT READERS POLL 2013

10 novembro, 2013

Divulgada a lista do DownBeat Readers Poll, em sua edição número 78.
E o destaque, sem dúvida, é, finalmente, a inclusão do guitarrista Pat Metheny no "Downbeat Hall of Fame", além de ter sido eleito, mais uma vez, o guitarrista do ano.
A eleição para o DownBeat Hall of Fame teve início em 1952, é anual e é resultado das votações dos críticos e leitores da revista. Confira a lista completa aqui.

Uma alegria imensa para todos os "methenymaníacos" ver o nome de Metheny no "Hall of Fame". Um título merecido, afinal já foi premiado com 20 prêmios Grammy, tem uma extensa e excepcional discografia como líder e foi eleito por 7 anos seguidos como o guitarrista do ano pela Readers Poll.

Downbeat já teve Metheny ilustrando sua capa nos anos de 1979, 1986 e 1992; e lá esta ele mais uma vez nesta edição de dezembro, que traz uma super entrevista em que fala sobre sua carreira, projetos, albuns e todos os grandes músicos com quem tocou e gravou.
Vale conferir !


Outro grande vencedor desta edição da DownBeat Readers Poll é o saxofonista Wayne Shorter que, comemorando seus 80 anos de vida, levou 5 premiações nas categorias de artista, album, grupo, compositor e sax soprano.

Foram quase 25 mil eleitores nesta votação, a maior até hoje.
A lista completa está na edição de dezembro (edição digital aqui).

Confira os premiados -

Hall of Fame: Pat Metheny
Jazz Artist: Wayne Shorter
Jazz Album: Wayne Shorter Quartet, Without A Net (Blue Note)
Historical Album: Miles Davis Quintet, Live In Europe 1969: The Bootleg Series Vol. 2 (Columbia/Legacy)
Jazz Group: Wayne Shorter Quartet
Big Band: Jazz at Lincoln Center Orchestra
Trumpet: Wynton Marsalis
Trombone: Trombone Shorty
Soprano Saxophone: Wayne Shorter
Alto Saxophone: Kenny Garrett
Tenor Saxophone: Sonny Rollins
Baritone Saxophone: Gary Smulyan
Clarinet: Anat Cohen
Flute: Hubert Laws
Piano: Keith Jarrett
Keyboard: Herbie Hancock
Organ: Joey DeFrancesco
Guitar: Pat Metheny
Bass: Christian McBride
Electric Bass: Stanley Clarke
Violin: Regina Carter
Drums: Jack DeJohnette
Vibes: Gary Burton
Percussion: Poncho Sanchez
Miscellaneous Instrument: Béla Fleck (banjo)
Female Vocalist: Diana Krall
Male Vocalist: Kurt Elling
Composer: Wayne Shorter
Arranger: Maria Schneider
Record Label: Blue Note
Blues Artist or Group: B.B. King
Blues Album: Dr. John, Locked Down (Nonesuch)
Beyond Artist or Group: Robert Glasper Experiment
Beyond Album: Donald Fagen, Sunken Condos (Reprise)

AVALANCHE CRIATIVA

06 novembro, 2013

A proposta de colocar elementos da música brasileira junto à criatividade do Jazz e a energia do Rock é desafiadora, mas é real e está registrada no trabalho da pianista Marilia Giller.
Avalanche: Jazz Friction é o nome do album que retrata esse universo. Como afirma o musicólogo Acácio Piedade no encarte do album, a idéia dessa fusão, denominada como "jazzfriction", implica um hibridismo, que não se mistura e provoca uma fricção musical.

Uma avalanche musical, criativa e recheada de idéias originais distribuídas nas 12 composições do album.


Na seção rítimica, Marilia apresenta seus filhos Allan Giller Branco no baixo e Ian Giller Branco na bateria, e como ela mesmo afirma de forma divertida - "Criei minha própria cozinha". E os garotos não deixam espaço vazio, e tiveram a companhia das guitarras de Scott Henderson, Mario Conde, Ruan de Castro, Sergio Sofiatti, Gustavo Arthury e Emerson Antoniacomi.

Admiradora confessa da combinação do jazz e do rock, muito influenciada por Joe Zawinul e o grupo Weather Report, Marilia não economiza no uso dos teclados e sintetizadores em suas composições, alternando com o piano acústico. Uma sonoridade que mergulha no melhor universo do Jazz-Rock e que nos permite uma viagem pela escola do estilo.
Na abertura do album, o tema "Teoria da Situação" mostra viva a energia fusion transformada em uma roupagem de frevo com Scott Henderson protagonizando a guitarra em diálogo com os teclados de Marilia. Scott ainda coloca sua assinatura em "Horizonte Interno", com destaque para o baixo de Allan; e no tema título, que abre nas baquetas de Ian e com Scott largando a mão em um improviso contagiante. Pura "Avalanche", cujo tema foi introduzido pela curta e introspectiva viagem solo de Marilia em "Le Rayon Vert".
Allan também toma a frente no tema "Superagui", composição sua e de seu irmão Ian, em que desenvolve a linha de baixo e o improviso, e ganha reforço do drive da guitarra de Ruan de Castro. Allan também se destaca nos temas "July in Ritiba", novamente com um belo improviso e com um walking dando uma roupagem tradicional, e no tema "Eu Kiss", com o guitarrista Sergio Sofiatti e seu toque abafado e desenhado por oitavas, no melhor estilo.
O balanço brasileiro está presente em "Mandinga", ilustrado pela percussão de Marco Lobo, pela sonoridade acústica da guitarra de Mario Conde e, aqui, Marilia no piano acústico.
"Tempo" se apresenta com arranjo do mestre Nelson Ayres, e Marilia desenha a melodia nos teclados e piano e desenvolve o tema em duo com Allan. E o piano de Marilia também protagoniza o tema "Ritual Hermético", numa fusão cheia de balanço e novamente a guitarra de Mario Conde, com um belo improviso, e a percussão de Marco Lobo. "Instantaneous Minds" registra em memória o produtor e guitarrista Emerson Antoniacomi, que faleceu no período da gravação do album, vítima de um AVC.
O tema "Nascente" fecha o album com a guitarra de Gustavo Arthury.


É o jazz-rock brasileiro se mostrando muito vivo. Um disco com um belo encarte e texto do jornalista musical Roberto Muggiatti. Discão.

Marilia Giller é paranaense, residiu em Montreux nos anos 90 onde estudou Piano Jazz e, além da formação em Música, também é artista plástica. Como pesquisadora, realizou sua dissertação de Mestrado sobre história do Jazz no Paraná entre as décadas de 1920 e 1940.