UMA MENSAGEM PARA PACO DE LUCIA

27 fevereiro, 2014
Morre Paco de Lucia, um mestre na arte do violão flamenco, vítima de infarto aos 66 anos.
Perda irreparável para a Música.

Abaixo, transcrevo o belíssimo e emocionante texto do músico Lulla "10 cordas" Oliveira.
A mensagem de quem um dia apreciou e viveu, e sempre viverá, intensamente a música do seu Mestre.
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abre aspas

Quando um Leão se põe, nasce um Sol
Para Paco de Lucia
por Lulla "10 cordas" Oliveira

Que tipo de sentimento é capaz de fazer um homem adulto chorar? Quando morre alguém que ele nunca conheceu pessoalmente ou alguém com quem nunca conviveu em sua intimidade e com o qual, em nenhum momento pode trocar um simples aperto de mão, ou sequer um olhar?
Este sentimento decorre do fato da expressão artística da alma do homem falecido ter alimentado, incentivado e direcionado a alma artística e a expressão sentimental do homem que chora durante toda sua vida.
Determinadas coisas da vida apenas nos damos conta quando surge a maturidade. Hoje, sei que quando eu era um moleque pré adolecente e que precisava de um referencial sobre o que era ser um homem forte e viril, era a guitarra de Paco de Lucia que me ensinava. O Vigor de suas notas intensas e apaixonadas, sua aparência física de um Leão Corajoso e ao mesmo tempo sensível.
Com sua morte, sem querer percebi que muito do homem que sou hoje como adulto, foi primeiramente forjado na figura e na paixão da música de Paco de Lucia.
Uma outra cultura, outra língua, a expressão de uma alma mais velha e distante, mas ao mesmo tempo tão irmã e tão paterna. Hoje constatei que quando toquei minha primeira vez a corda de um violão e a pele de uma mulher, muito do espírito "Duende Flamenco" já estava em minha alma, em minha sensibilidade. Eu já havia sido contaminado e abençoado pelo espírito feroz do Leão Espanhol chamado Paco de Lucia.
Engraçado é que apenas hoje, com sua Morte, é que me dei conta disto.
Depois, quando fiquei adulto e me tornei um "Homem", tendo que batalhar pela vida e desbravar novos caminhos, foi a figura de Paco de Lucia, inseguro, com dores de cabeça na hora dos solos, duvidando de sua própria capacidade, tocando ao lado de John Mclaughlin e Al di Meola ou tocando o Concerto de Aranjuez com orquestra, sem saber sequer ler uma nota da partitura, mas derramando sua alma generosa e apaixonadamente melancólica, que me ensinou que, apesar das inseguranças e dúvidas, nunca podemos perder o foco, sempre temos que ter coragem para enfrentar os desafios e aproveitar as chances que a vida nos oferece ou cobra. E mesmo que nunca sejamos os melhores, sempre seremos únicos!
É justamente nisso que está nossa maior Glória, o melhor de nós mesmos, naquilo que somos únicos, como o Sol de nós mesmos.

Quando tive a oportunidade de ver Paco de Lucia tocar aqui no Brasil recentemente, fui excitado para ver e ouvir o Maestro que me embalara nos momentos de dor, que me fortalecia nas horas de dúvidas, que me inspirava quando me sentia frio e seco, que me iluminava com a sua figura de Leão e o seu brilho Solar nas horas em que eu precisava de calor e paixão nos momentos de entrega e solidão.
Percebi imediatamente que o Leão estava cansado, como se não quisesse estar ali. Estava frio, longe. Vi a sombra de um Gigante, que por ser enorme me fez sair do show preocupado por ele. "Mas como?", eu me perguntava. Que pensamento louco. Por que eu tinha este sentimento por alguém que nem conhecia?
Afinal de contas, era apenas mais um show.
Hoje percebi que eu era íntimo dele e ele de mim, pois sua arte era tão forte que alimentava almas, inspirava caráter e fortalecia convicções. Foi isso que a música de Paco de Lucia fez por mim, por toda minha vida, e eu sequer me dava conta disso, até o dia de hoje, dia de sua Morte.
Hoje foi o dia em Paco de Lucia morreu, e para minha surpresa chorei. Só hoje me dei conta que perdi mais uma vez um Pai. Um Pai que não me conheceu e nem eu a ele, um Pai de alma e arte, de espírito e verdade, de Paixão & Afago.
Hoje, quando um Leão morreu, nasceu em mim um Sol, e todas a guitarras do planeta ficaram sem cordas.
Eu também fiquei assim, sem cordas, o dia inteiro, e acho que vou ficar por um bom tempo.

fecha aspas

Paco de Lucia : 1947-2014

LOWDOWN BOOGIE

25 fevereiro, 2014
Reunir dois dos nossos maiores expoentes do Blues em um mesmo album é mais que garantia de qualidade, sem exagero, é a certeza de que a Música vai soar do jeito que a gente gosta, com muito improviso e muito groove.
Assim é Lowdown Boogie, protagonizado pela guitarra de Igor Prado e o piano de Ari Borger, mais um lançamento Chico Blues Records. Acompanhados pelo contrabaixo de Rodrigo Mantovani e a bateria de Yuri Prado, a dupla traz convidados muito especiais - o guitarrista Junior Watson e os sopros de Denilson Martins e Sax Gordon.
O Boggie é a temática deste projeto e é a oportunidade de resgate de compositores da primeira metade do século passado nas teclas de Edgar Hayes, Jimmy Yancey e Lil Armstrong, nos sopros de Lee Allen, John Hardee e Morris Lane e o eletrizante Chuck Berry.
Piano Blues, R&B e Rock´n´Roll bem primitivos em uma fusão com sonoridade bastante original.
O album foi gravado de forma totalmente analógica utilizando tapes de rolo, sem overdubs, justamente para se obter o calor autêntico dessas gravações.


O Boogie foi muito popular na década de 30, e é um estilo pianístico de execução do Blues caracterizado por figuras de baixo na mão esquerda, no formato de riffs, enquanto a mão direita improvisa uma linha melódica sincopada, assim define o Glossário do Jazz (Mario Jorge Jacques). Segundo historiadores, o ritmo referia-se aos passos de uma dança afroamericana, o shuffle.
E ninguém melhor que Ari Borger para representar o estilo em nossas terras, um especialista, e esse reconhecimento o levou ao palco Piano Boogie no Cincy Blues Festival edição 2013 junto com outros pianistas do estilo. Nem preciso falar sobre Igor Prado, nosso embaixador do Blues e do Jump Blues, sempre presente em publicações especializadas do estilo como a Living Blues e a Blues Revue. É "o cara" !

Lowdown Boggie abre bem no estilo cinquentão com "Fat Meals & Greens", tema de Edgar Hayes, e já coloca o convidado Junior Watson em cena. Essa atmosfera primitiva continua em "Newborn Shuffle", tema de Igor Prado, que abre o improviso seguido por Borger e pelo jovem Denilson Martins, que rasga o sopro com uma energia que por pouco não nos teletransporta para os inferninhos de época.
"Joogie Boogie" resgata Lil Armstrong, ela que foi a segunda esposa de Louis Armstrong e que teve grande influência nas sessões de Hot Five and Hot Seven, grupo do trompetista na época, participando como pianista e cantora. No tema, um contagiante improviso de Borger e novamente Denilson Martins tomando conta do espaço.
O tema título é uma composição de Borger e retrata bem o estilo, e ele, como sempre, muito à vontade, e ainda espaço para os desenhos de Igor. Ainda nessa onda, "Boogie Oogie Barbecue", composição de John Hardee, um flerte com o R&B e um toque primitivo de Jazz no sopro de Denilson.
Borger coloca o hammond em foco em "Bee Hive", composição de Lee Allen, e Denilson novamente toma a frente com belo improviso. "Rocking at the Philarmonic" traz uma composição de Chuck Berry, e agora Igor é o dono da bola, desfilando riffs no melhor estilo e uma pegada invocada.
"Blues for Rafa" é outra composição de Borger, um Slow Blues envenenenado, protagonizado pelo piano e ainda espaço para um estonteante improviso de Igor. Ainda no melhor estilo da época, "Blue Jeans", composição de Morris Lane, que foi integrante da banda de Lionel Hampton nos anos 40, e mais um convidado aparece em cena, Sax Gordon, que também aparece em "Rock It", um clássico dos Rocking Brothers, grupo pioneiro da era Rock´n´Roll nos anos 50.
O disco ainda traz duas faixas bonus - "Getting Fat" (Igor Prado) e "Yancey Special" (Jimmy Yancey); e quando você acha que o disco chegou ao fim, tem uma surpresa pra você

Cada faixa desse trabalho é uma viagem sonora.
Lowdown Boogie foi eleito como destaque instrumental do ano pela Blues Junction.
Obrigatório.



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Igor Prado Band Donny Nichilo

NO ESPÍRITO DE GREGORY PORTER

20 fevereiro, 2014
Gregory Porter
A estrada está só começando para Gregory Porter. Já recebeu duas nomeações para o Grammy - melhor álbum de Jazz vocal por Water (2010), e melhor performance de R&B com o tema "Real Good Hands" do álbum "Be Good" (2012), ambos lançados pela Motema; e foi finalmente premiado na edição de 2013 com Liquid Spirit, sua estréia pela gravadora Blue Note, eleito como melhor álbum de Jazz vocal, concorrendo com talentos como Andy Bey, a também emergente Cecile McLoren Salvant e Tierney Sutton, além de ainda ter sido novamente nomeado por melhor performance de R&B com o tema "Hey Laura".

Muito merecido, afinal Gregory Porter é uma das vozes de maior expressão na atualidade, não por menos ganhou destaque na capa da edição da Downbeat em outubro passado.

Em Liquid Spirit, Porter está acompanhado pelo mesmo quinteto do álbum "Be Good", com os sopros de Yosuke Sato e Tivon Pennicott, o piano de Chip Crawford, o contrabaixo de Aaron James e a bateria de Emanuel Harold, além das participações especiais do trompetista Curtis Taylor e do organista Glenn Patscha.
É justamente essa inspiração no Jazz, Blues, R&B e Soul que faz Porter ser um cantor tão popular, somada a sua bela e potente intensidade vocal e uma sensibilidade que pouco se ouve nos cantores nestes últimos tempos.



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O Soul e o Jazz na voz de Gregory Porter

JACOB KARLSON

11 fevereiro, 2014
País que faz fronteira com a Noruega e Dinamarca, a Suécia insere-se geografica e históricamente no território que era conhecido como Escandinávia, terra dos lendários Vikings.
Hoje, tempos modernos, a região é berço de grandes músicos e o Jazz tem forte presença, principalmente nos pianistas, como o saudoso Esbjorn Svensson, Bobo Stenson, Jan Lundgren, além da bela voz da emergente Viktoria Tolstoy; muitos promovidos pela gravadora alemã ACT.

Aqui em foco, mais um deles - o pianista Jacob Karlson, cuja música se coloca na intersecção entre a melancolia e a sensibilidade, em uma combinação calorosa e apaixonada.
Um improvisador nato, de técnica e complexidade rítmica e harmônica, o que exalta comparações ao nível de Keith Jarrett e Bill Evans. Parece exagero, mas não é; e ele é enfático quando fala sobre sua música -
"Somos modernos, mas temos uma história, e é precisamente isso sobre o qual é refletida a minha música. Sou fascinado pela possibilidade de novas tecnologias. No entanto, também preciso do calor humano e da conexão com a terra a fim de me sentir feliz."

Sua musicalidade o fez muito popular, tornando-se um requisitado sideman já no início de sua carreira, atuando ao lado Nils Landgren, Viktoria Tolstoy, Billy Cobham e Kenny Wheeler, entre outros, reconhecimento este que impulsionou seus próprios projetos.
Em 2010, foi premiado na cerimônica Django d'Or como um artista em ascenção no Jazz contemporâneo e nomeado como músico de Jazz do ano pela Swedish Radio. Em 2012, foi eleito para o renomado grupo Steinway-Artists, cuja aceitação representa um verdadeiro reconhecimento pela excelência musical e pela confiança e dedicação ao instrumento da marca.

Jacob Karlson possui 8 albuns em sua discografia - More (2012), The Big Picture (2011), Heat (2009), Improvisational (2008), Big5 (2003), Today (2002), Going Places (1998) e Take your Time (1996).
Jazz contemporâneo, que se complementa com um repertório eclético - do evidente entusiasmo por Maurice Ravel, passando pelo Rock do U2 em "In God´s Country" (Joshua Tree) até uma versão ousada e jazzística do clássico do Pop "Maniac", tema do badalado filme Flashdance.
Seu atual trio, JK3, traz Hans Andersson no contrabaixo e Robert Mehmet Ikiz na bateria.


jacobkarlzon.com