O SUCESSO DO SAXOFONE BRASILEIRO NA FRANÇA

24 março, 2014
O músico brasileiro, mais uma vez, se inclui na extensa lista de representantes no exterior.
Os saxofonistas Ademir Junior e Carlos Gontijo, representando o saxofone no Jazz e no Erudito, selam contrato com a mais importante e tradicional fábrica de saxofones do mundo, Selmer Paris. Além de terem se tornado artistas Selmer, também fecharam como artistas Vandoren, a mais conceituada marca de palhetas do mundo.
As empresas enxergaram nos dois músicos grandes potenciais para representá-las no Brasil e na América Latina. Ambos foram convidados para participar do Festival Portes Ouvertes em Rouen, e, pela primeira vez em mais de 50 anos de existência do festival, um artista brasileiro marca presença divulgando a nossa música.
Ademir Junior ainda lecionou dois workshops de música brasileira - um para uma classe de improvisação e outro para uma classe de Big Band. Em Paris fizeram a “Noite Brasileira” na Selmer, show que celebrou o contrato como artistas da fabricante, como resume Ademir Junior -
"O publico aplaudiu muito, foi caloroso e curtiu cada momento, principalmente nas musicas brasileiras, quando mexiam o corpo sugerindo o ritmo da musica executada. Foi um dos melhores shows da minha vida".
Carlos Gontijo também ficou impressionado com a recepção do público, diz ele -
Tivemos muitos elogios e o mais marcante foi o elogio de dois compositores de Paris que achou a 'música clássica' brasileira extremamente refinada e que nossa interpretação foi impecável. Um deles pegou meus contatos e disse que iria escrever uma peça para mim."

Ademir Junior testando os saxofones Selmer

A Vandoren foi procurada por muitos formadores de opinião que estavam presentes, e afirmaram que aqueles dois músicos brasileiros que tocaram na Selmer também deveriam ser artistas Vandoren. Um dia depois foi fechado o acordo.
O diretor do Conservatório de Rouen, Claude Brendel, afirmou que, apesar de extremamente bela, a música brasileira é muito rica em aspectos rítmicos, e para eles, franceses, tem contextos de partituras que são extremamente complicados para se interpretar.
Ademir nos conta que a receptividade na Selmer foi surpreendente e, apresentado ao diretor comercial Florent Milhaud, ficou super a vontade para testar os diversos saxofones. Ademir escolheu um
para tocar no concerto e no outro dia acabou  ficando com outro. Ainda afirma que percebeu que há uma carência dentro e fora do Brasil com relação ao conhecimento da nossa música, técnico e acadêmico.
"Nós estudamos a música europeia e americana, enquanto os americanos e europeus desejam estudar a nossa música. A nossa música em geral ainda é gerada de forma popular, mas não estudada profundamente como deveria. Não temos muitas escolas de música no país que mostrem os valores e o legado que já existe em nossa música.", diz Ademir.

Encerrando a viagem, já reunidos como artistas da Vandoren, foram abençoados pelo grande Jean-Paul Gauvin, que os brindou com a oportunidade de representar essa excelente marca de palhetas, boquilhas e acessórios musicas. Uma grande oportunidade de representar essas duas excelentes marcas e também representar o Brasil e a nossa música em cada oportunidade por meio das portas que se abrirão.

Valeu Ademir Junior e Carlos Gontijo. Sucesso !
www.ademirjunior.com/

Não deixe de ler sobre o album Camaleão de Ademir Junior -

Ademir Junior

ENSIMESMADO

19 março, 2014
Estar ensimesmado é colocar-se em estado de introspecção, voltar-se para dentro de si mesmo, recolher-se em um olhar interior. Um termo que, talvez, tenha que ser encarado de forma romanceada. Visto de fora, muitos podem não compreender, mas, verdadeiramente, é um momento em que se promove a inspiração.

Ensimesmado é o título do disco de estreia do violonista e guitarrista Daniel Guimarães.
Um belíssimo trabalho totalmente autoral, cujo título retrata o estado de espírito do músico na época da criação dos arranjos, expressando nas cordas as melodias e harmonias que nos transpõem em uma simples e intensa viagem sonora.
Daniel está acompanhado pelo contrabaixista Auriu Irigoite e pela baterista Georgia Camara, e traz como convidados o violonista Felipe Machado e os acordeonistas Gabriel Geszti e Ricardo Rito.

Ensimesmado

O tema de abertura, "Revoada", traz um ar setentão, uma mistura mineira com nuances da música progressiva e cuja melodia, daquelas que ecoam na nossa cabeça, ganha um certo ar de nostalgia reforçado pelo vocalize de Daniel. Um prático exemplo sobre estar ensimesmado se retrata no tema título, aquele momento introspectivo em que Daniel dialoga só com seu violão, realizando traços que lembram a textura de um Ralph Towner, mas com uma roupagem muito particular e muito brasileira. Uma bela interpretação.
E o toque mineiro se faz presente em "Valsa Antiga", que ganha a presença do acordeon de Gabriel Geszti suportado pela base do violão de Daniel e o colorido da bateria de Georgia Camara. O acordeon volta em destaque novamente na bela composição "Vida e Despedida", aqui nas mãos de Ricardo Vito.
Daniel coloca a guitarra em primeiro plano em "Como se fosse sombra", e mais uma vez colorindo o tema com seu vocalize e um intenso improviso; aqui percebe-se algumas de suas influências.
"Limbo" se introduz um tanto psicodélica, mas logo se transforma em frevo, e Daniel coloca o bandolim como protagonista. "Nossa Valsa" põe uma atmosfera jazzy pontuada pelo walking do contrabaixo de Auriu Irigoite, com Daniel revezando-se no violão e guitarra, entre melodia e improviso, e novamente o forte traço mineiro.
"Trinta anos" promove um belo duo de violões ao lado de Felipe Machado, em um tema recheado por uma melodia chorosa e ar seresteiro, e aqui a transpiração do mestre se apresenta na condução do tema. E o próprio Felipe Machado é o homenageado no samba improvisado e contagiante "Carnaval no Andaraí".
O disco fecha na voz de Daniel no tema "Ao que virá", mais um bela composição em que o mestre coloca a voz em primeiro plano e solta o canto; e assim "pede pro céu um sim, a cantar um sonho bom".

Com a palavra, Daniel Guimarães -

GC: Fale sobre sua formação musical.
DG: Sou Petropolitano, mas fui criado em Angra dos Reis.
Meu primeiro contato sério com o violão aconteceu quando um primo meu de Belo Horizonte veio passar as férias em minha casa em Angra dos Reis, e se dispôs a me ensinar alguns acordes. Eu tinha 14 anos e segui dali, primeiro com revistas como aprendendo musica Pop em geral e depois Rock pesado e o progressivo até chegar na Música Instrumental e o jazz, isso quando já havia me mudado de Angra para Belo Horizonte.
Em Belo Horizonte, na década de 90, comecei a estudar música de forma mais séria e tive a sorte de viver um momento muito musical por lá, tanto de Rock quanto de jazz e música mineira. Meu professor foi o Magno Alexandre, um grande instrumentista mineiro.
De Minas fui pro Rio, no final da década de 90 , já perseguindo uma carreira em Música, aí tive vários professores de harmonia e improvisação, e ingressei na faculdade de música da UniRio. Desde então tenho trabalhado em diversas áreas - teatro, gravações, aulas e apresentações sempre focando no jazz ou nos trabalhos autorais.

GC: Ensimesmado é um trabalho belíssimo, em que percebemos a forte presença do traço musical mineiro e o violão contemporâneo. Até onde você carregou suas influências musicais nesse trabalho?
DG: Você acertou em cheio! É bem essa mistura da música mineira com o jazz europeu da ECM, que sempre me encantou. Na guitarra e no violão minhas maiores influências são Toninho Horta, Pat Metheny, Ulisses Rocha, Guinga e Ralph Towner. Ouço também muito Blues e Blues-Rock dos anos 60 e 70.

GC: Fale sobre o grupo que o acompanha.
DG: Chamei dois amigos dos tempos da faculdade com quem sempre me identifiquei musicalmente - Auriu Irigoite no baixo e Georgia Camara na bateria, que realmente fizeram a diferença e soaram muito bem juntos. Não procuro músicos virtuosos mas aqueles que são musicais.
O Felipe Machado, outro colega dos tempos de faculdade e parceiro em duas músicas, também participou com seu violão maravilhoso; e ainda pude contar a participação dos grandes Gabriel Geszti e do Ricardo Rito, ambos no acordeon.



GC: Que equipamentos você usou nessa sessão?
DG: Meu equipamento é bem simples - guitarra Gibson 335, um violão de luthier, os bandolins e um violão Godin para palco. Na época da gravação do disco, 5 anos já se passaram, eu usei também uma guitarra cítara Danelectro, uma Telecarter Reissue 72 e alguns pedais, como o Boss RT 20 para simular sons de hammond.

GC: Você tem um estilo de tocar muito particular, fingerstyle, o tocar com os dedos em vez da palheta. Como se identificou com esse estilo?
DG: Quando eu tocava mais Rock usava palheta, mas minha técnica nunca foi boa. Ainda uso palheta para tocar bandolim, mas para guitarra e violão prefiro dedo por ter a liberdade de tocar melodias e acordes ao mesmo tempo.

GC: Você é um Mestre, um educador musical. Como percebe essa nova geração de músicos em um mundo de mídia tão popular e tão pouco criativo?
DG: O professor esta virando um intermediário entre o que chega da internet e o aluno. Isso é bom e ruim. De um lado as pessoas podem aprender  muita coisa, mas o lado ruim é que maioria delas não sabe o que esta aprendendo. Eu acho que ainda prefiro o modo antigo.

Obrigado Daniel Guimarães, e sucesso.

Para adquirir o disco diretamente com Daniel Guimarães, envie e-mail para daniguitarguimas@gmail.com



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AS MÚLTIPLAS FORMAS DE KIN

16 março, 2014
Quando é anunciado um novo álbum de Pat Metheny, a comunidade de adoradores de sua música pelo planeta fica ansiosa, afinal é certeza de mais um trabalho de grande magnitude.
Lógico que sempre existe um ponta de esperança de um dia ouvirmos novamente a formação do Metheny Group, aquela sonoridade tão particular, contagiante, quase que cinematográfica, e que selou eternamente a química musical de Metheny com o pianista Lyle Mays.
O último trabalho do Metheny Group data de 2005, The Way Up, e desde esse tempo Metheny realizou diversos trabalhos solo, extraordinários, como o fantástico What´s All About, o ousado Orchestrion e o inesperado Tap: Book of Angels, além da criação da Unity Band.


KIN(←→) é o título do álbum, que agora se forma como Unity Group.
O grupo mantém a base da Unity Band, formada em 2012 - Cris Potter, Ben Willians e Antonio Sanchez, e agora ganha o reforço do multi-instrumentista italiano Giulio Carmassi.
Apesar que muitos afirmam ser o Unity Group uma nova edição do saudoso Metheny Group, é fato que isso não é possível sem a presença da assinatura de Lyle, mas a entrada de Carmassi resgatou um pouco daquela atmosfera, com a adição de piano, vozes e sopros. É uma nova roupagem, sem dúvida, e traz passagens de outros momentos da trajetória de Metheny, como com as registradas com Charlie Haden, Ornette Coleman e Michael Brecker.
KIN(←→) é espetacular. Ponto.

A imagem que ilustra a capa, desenhada pelo artista Stephen Doyle, rendeu uma exposição na Azart Gallery em NY, intitulada "The Many Faces of KIN (←→)”, com uma coleção de 20 impressões que capturaram a evolução da arte da capa.
É fato que as capas dos albuns de Metheny sempre tiveram uma identidade com a música inserida nos albuns; e Kin não foi diferente, o objetivo foi criar uma face recortada representando todas as raças e culturas.

O repertório traz 9 composições e o tema de abertura, "One Day One", é um suspiro nostálgico em intensos 15 minutos, introduzido por intervenções percussivas e um improviso invocado de Metheny, ganhando novas nuances no andamento do tema para deleite de Potter, Willians e um epílogo com as vozes de Carmassi. Nessa mesma onda vem "Rise Up", em mais 10 minutos de composição que vão alimentar os ouvidos mais saudosistas, alimentados pela base acústica de Metheny, o piano mais presente de Carmassi, além dos contagiantes improvisos do líder e Porter. Impressionante a base rítmica imposta por Sanchez e Willians nesses dois temas.
E não fica por aí, "Sign of the Season" ganha o reforço do piano de Carmassi e o timbre característico de Metheny, e Porter ataca de soprano, com destaque ainda para improvisos de Willians e Sanchez que, como sempre, dá o colorido todo especial. É surpreendente como Sanchez se encaixou tão perfeitamente na linguagem da música de Metheny, e Cris Porter, que Metheny não esconde sua admiração, afirmando que esperou por 30 anos até que outro músico o inspirasse do mesmo jeito que fizeram Michael Brecker e Dewey Redman.
O tema título nos resgata para uma viagem de guitarra sintetizada, aquela sonoridade tão original pelas mãos de Metheny e que ficou eternizada com "Are You Going with Me".
Particularmente, o ápice do álbum é a balada "Born", de uma beleza melódica estonteante, quase um hino, nos elevando para a atmosfera de Missouri Sky, trabalho que Metheny realizou com Haden, uma semelhança sonora impossível de não ser percebida. Mais baladas com "Adagia", introduzida pelo violão de Metheny e desenvolvida no sopro de Potter; e "Kqu", com roupagem mais jazzy e com melodia desenhada pelas vozes de Metheny e Porter. "Genealogy" traz uma pontuação free, na onda do Song X, album de Metheny com Ornette Coleman; e ainda uma levada smooth em "We Go On".

Um discão.
Obrigatório.


www.nonesuch.com/albums/kin

Leia também as outras matérias sobre Pat Metheny -

Tap:Book of Angels Orchestrion Unity Band What´s All About Live at Vienna Opera House

RETRATOS

06 março, 2014
Uma nota que soa em um suspiro quase que solitário. Não há nota em vão.
Na ausência do silêncio, faz-se o cenário de uma nostalgia que parece não ter fim.
Se há uma razão, foi por escolha, por tentação. Escolhido o caminho, não há volta.
E são caminhos que se desenham por notas, e mais notas, e mais notas.
Em altos e baixos, sempre a certeza de ser intenso, sem hesitação.
Essas escolhas definem o rumo da harmonia, da melodia. Inquietação.
As notas tem um preço, se formam em intervalos como ondas, aumentadas, diminutas, justas.
Uma peça única, definitivamente não há outra.
A construção da imagem é lenta, às vezes pode não ser percebida, mas há uma forma oculta por tras dessa vibração. O desafio é encontrar sensibilidade para interpretá-la, de qualquer perspectiva.
Melancólico, sutil, contagiante, terno.

Christoph Adams: Portraits in Black & White

O piano, assim como qualquer outro instrumento em execução solo, é mais ou menos assim - uma viagem solitária, em que a criatividade se desenvolve e se conecta em tempo real.
O registro do pianista Christoph AdamsPortraits in Black & White, é um exemplo dessa viagem.
O disco parece uma produção independente, em registro duplo, gravado nos meses de janeiro de 1996 e 1997. Este exemplar raro garimpado na loja Jazz Record Center, no coração da big apple, perdido no meio de tantos outros. O quão oculto é o autor, assim não é a obra, cujo repertório se constrói em tributo aos gigantes que fizeram a história do jazz, incorporando nos temas um medley de composições de cada autor, não necessariamente pianistas, em puro improviso sob uma atmosfera totalmente introspectiva.
Das 10 composições, somente 1 tema autoral - "Self Portrait".
O repertório, seguindo os mestres -
Portrait Of Thelonious Monk (Misterioso, Evidence e Monk´s Mood);
Portrait of Herbie Hancock (Maiden Voyage e Dolphin Dance);
Portrait of Ornette Coleman (The Blessing, Beauty is a Rare Thing e Peace)
Carla Bley Medley (Closer, Batterie e Vashkar);
Portrait of Bill Evans (Prologue, College e Epilogue)
Portrait of Keith Jarrett (In Front e Everything that Lives Laments)
Portrait of Miles Davis (Bitches Brew, So What, Miles Ahead e Human Nature)
Portrait of Geri Allen (Drummer´s Song e When Kabuya Dances);
Lennie Tristano (Complex First Movement, Second Movement e Third Movement).


Portrait Of Miles Davis from Christoph Adams on MySpace

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