A CRIATIVIDADE NAS MÃOS DO GUITARRISTA MICHEL LEME

27 maio, 2014
Há dois elementos base quando falamos de Inovação - a Criatividade, o ato de criar; e a Aplicação, o ato de usar. Inovar tornou-se um mantra da modernidade, a palavra de ordem em um mundo onde a velocidade e volume de informação são cada vez mais intensos, e para processarmos todo esse conteúdo é necessário muita disciplina, atenção e dedicação.

Michel LemeA música é um universo perfeito para se explorar a criatividade, a fluência das ideias em tempo real, o improviso, o improvável.

O guitarrista Michel Leme é, sem dúvida, um dos mais criativos e atuantes músicos em atividade. A guitarra é sempre protagonista e Michel constrói sua trajetória musical sem se prender a rótulos ou qualquer segmentação de estilo.
O lançamento de Arquivos Vol.1, seu segundo DVD, registra esse cenário. O trabalho traz vasto material gravado ao vivo em apresentações realizadas entre os anos de 2010 e 2013. São mais de 100 minutos de música e Michel está acompanhado por Bruno Migotto no baixo e Bruno Tessele na bateria, "Os Brunos", um super trio que está em sintonia desde 2008.

Um trabalho totalmente autoral e, além de muito improviso, composições dos albuns 5° (2010) e Na Hora (2013). Como o próprio líder afirma, é o primeiro registro "pirata-oficial", que, inicialmente, era para ser um acervo pessoal, mas que agora torna-se disponível para os amantes da guitarra.

Os registros foram captados no auditório da EM&T, Café Piu-Piu, Sesc Ipiranga e Mind Expanding Festival; e foram filmados com apenas uma câmera por Flávio Tsutsumi da Sho-You, mas com ótima qualidade de imagem e áudio. A arte gráfica é da Taty Catelan.

Na entrevista abaixo, Michel Leme compartilha um pouco das suas idéias sobre Criatividade na Música, sobre como pensá-la e a importância do prazer de ouvir o que a gente gosta.

GC: Vamos falar do improviso, que é um produto da criatividade, o resultado de ideias que surgem em tempo real. Como voce trabalha a criatividade ?
ML: A criatividade é a zona do inexplicável, como o quarto no filme "Stalker" de Tarkovsky, por exemplo. Não tenho como falar sobre a criatividade em si, mas posso arriscar-me a falar do que está em torno dela, do que pode alimentá-la. Uma das coisas que faço é ficar em contato com o meu instrumento e ficar atento em relação a diferentes manifestações artísticas, para abrir a mente. Estas práticas vão garantindo que eu fique mais confiante, tranquilo, alimentado e concentrado. No mais, eu tento fazer a lição de casa que aprendo com os mestres, como Sonny Rollins, por exemplo, que diz: "antes de tocar eu tento manter a mente em branco". Conceitos assim me ajudam a focar no que realmente é importante. A questão talvez seja criar condições para a criatividade fluir.

GC: Teorias, escalas formatadas, licks, modos, etc. Muito se fala sobre, mas na hora real do improviso, com a forte dinâmica da Música pulsando, não há tempo para pensar nessas coisas, tem que deixar as mãos levarem. Você concorda com isso e, ainda, que toda nossa história, tudo que a gente ouviu e ouve, é expressado de alguma forma?
ML: Não só deixar "as mãos levarem", mas você como um todo precisa estar alerta e presente ao máximo na música que toca. É realmente um acúmulo de toda a sua história, como você diz, e mais - as coisas que você ama tocar, o que voce sente no momento, considerar o que seus amigos estão tocando ao seu lado, o que voce pratica em sua vida diariamente, enfim, não é algo vazio como “se parecer com” ou “vou tocar tal coisa ou fazer tal gesto para impressionar”. Esta arte demanda compromisso e verdade, porque é profunda e tem o poder de transformar.

GC: O que você pensa quando toca?
ML: A música tocada é o foco. Então, o que tento fazer é não me iludir ou me envolver com pensamentos que possam atrapalhar no momento. Tento ter a música que está sendo tocada como guia, sempre voltando a minha concentração para ela. Várias coisas passam pela mente, a mente não para, mas a concentração e tornar-se cada vez mais honesto são fatores que direcionam as suas escolhas para o que é mais elevado, lógico e prazeroso. E não adianta se concentrar ou querer ser correto apenas no momento de tocar; voce toca o que voce é. Então, menos hipocrisia e mais auto-observação. Vejo muita gente escrevendo e falando bonito por aí – e até usando coisas que eu disse em outras entrevistas, porque vivem do aplauso de seus bajuladores, mas, na hora de tocar, eles perdem a oportunidade de construir música com seus companheiros, porque estão focados em “construir uma carreira”, e, assim, só se prestam a destruir. Isso é muito comum, infelizmente, porque tem muita gente sem noção, sem ética, sem autocrítica, sem consciência de classe, sem elegância, apenas com pose de artista. O nosso potencial não é para ser jogado no lixo desta maneira. Não dá pra trocar a elevação que a música proporciona progressivamente por qualquer outra coisa. É um presente poder tocar, então há que se valorizar esta dádiva, cada vez mais.

GC: Está comprovado que o estudo musical tem importância significativa em nosso comportamento - disciplina, introspecção, entre outras qualidades. Você também é um educador. Que recado você deixa para os que aprendem Música ?
ML: Tenham critérios e coloquem a música em primeiro lugar. Isso é um bom princípio. A música tem a ver com o que há de mais elevado, portanto temos que merecer estar em contato ela.

GC: 3 discos por Michel Leme. 
ML: Tudo do Miles Davis Quintet (1964-1967); tudo de Sonny Rollins, Joe Henderson, Wayne Shorter, John Coltrane; tudo dos compositores clássicos que você ouvir falar sobre; tudo da música oriental que você puder ouvir; tudo da música brasileira que você sentir que é honesto e bom.
Sei que isso passa dos três discos, mas não temos limite de caracteres, certo?

Com certeza, Michel Leme. Não há limite de caracteres e não há limite para a Música.
Um super Obrigado pela entrevista, e sucesso.



"Arquivos-Vol.1" tem apoio cultural dos parceiros D Addario, EM&T, Espaço Sagrada Beleza, Luthieria.Net, Rotstage, Sho-You e Tecniforte.

Para adquirir o DVD, envie e-mail para michel@michelleme.com
www.michelleme.com/

Confira também o primeiro DVD de Michel Leme "Na Montanha" -

Michel Leme DVD Na Montanha

O TALENTO MULTIFACETADO DO BATERISTA BRIAN BLADE

21 maio, 2014
Brian Blade
Brian Blade é um dos mais extraordinários bateristas em atividade, não à toa lidera as baquetas nos grupos dos saxofonistas Wayne Whorter e Joshua Redman há tanto tempo.
Blade nasceu na Louisiana, em Sherveport, cerca de 500 kilômetros ao noroeste de New Orleans, cidade que mistura o blues, o country, folk e o jazz. Teve a música inserida em sua vida pelas canções gospel na igreja em que seu pai, Brady L. Blade Sr, foi pastor durante 25 anos. Aos 9 anos iniciou o estudo do violino e, inspirado pelo irmão mais velho, partiu para a bateria, e começou a ouvir Coltrane, Charlie Parker, Miles, Art Blakey, Monk e Elvin Jones, este que é uma de suas grandes inspirações.
Em 1997 criou a Fellowship Band com o pianista Jon Cowherd,  um trabalho realmente magnífico e que nos transporta em uma verdadeira viagem sonora. Integram a Fellowship Band os sopros de Melvin Butler e Myron Walden e o contrabaixo de Chris Thomas, e traz convidados como os guitarristas Marvin Sewell, Jeff Parker e Kurt Rosenwinkel.
O grupo, aqui, tem 4 discos gravados - Brian Blade Fellowship (1998, BlueNote), Perceptual (2000, BlueNote), Season of Changes (2008, Verve) e Landmarks (2014, Blue Note).
Blade também gravou um disco totalmente autoral em que a bateria não é protagonista, Mama Rosa (2009, Verve), um trabalho muito particular em que Blade mostra sua total versatilidade tocando guitarra, piano e cantando, dando um ar contemporâneo na música Folk, quase psicodélico, mostrando uma musicalidade singular e que poucos ousam colocar em prática.

Para Blade, a ideia do título, Landmarks, representa "o fato de estarmos aqui e agora, e passamos deixando sinais ao longo deste caminho".

Brian Blade

O baterista Fernando Baggio, colunista do site obaterista.com e integrante do grupo Instrumental RdT, tem verdadeira admiração por Blade, e não economiza palavras. Diz ele -
abre aspas
O que Brian Blade e seu grupo Fellowship representam para a música atual vai muito, muito além do universo do jazz. Sempre digo que ele é o amanhã. Seu estilo vem de uma profunda conexão com suas próprias crenças e verdades. Brian vem da escola dos Young Lions e tocou com muitos músicos locais, incluindo a família Marsalis, e caminhou para um norte bem diferente, sem perder as raízes. Sua estética em suas composições também deixa muito claro esse caminho. Brian encanta pela sua essência, pela sua energia, comove pela intensidade e conexão plena com a música, em êxtase transcendental.
Tecnicamente, ou “baterísticamente” falando, Brian Blade tem um toque particular, tira um som muito próprio do instrumento. Usa uma afinação baixa para os padrões do jazz, o que ressalta uma carga emocional em suas interpretações. É também um exímio apreciador dos sons dos pratos. Isso é relevante para o seu som. A maneira como ele usa os timbres, volumes, sons, enfatiza a beleza de suas performances. Blade “toca” pausas como ninguém; aproveita e cria tantos espaços em suas interpretações quanto pode, e isso mais uma vez traz densidade profunda em seu som. Dinâmicas, acentos explosivos, mudanças rítmicas repentinas, pulsação perfeita, timbres incríveis, enfim, muitos maravilhosos atributos para esse que é o maior baterista em atividade.
Brian faz música para sentir, e ele, mais que ninguém, sente cada milésimo de segundo dela. Antes de qualquer técnica musical, é isso que ele parece querer ensinar a todos mais que qualquer coisa: sinta e seja fiel a sua música. Viva Brian Blade!
fecha aspas

Obrigado Fernando Baggio, disse tudo.


brianblade.com/

Confira o trabalho do baterista Fernando Baggio com o RdT -

Rapazes do Trio

JOHN SCOFIELD TRAZ DE VOLTA O BALANÇO EM UBERJAM DEUX

17 maio, 2014
Para o guitarrista John Scofield, o Jazz tem uma linguagem ampla, que se desenvolve para todos os gêneros que se influenciam dele e cujos artistas são tão diferentes uns dos outros; não é apenas uma experiência intelectual.

O album Uberjam Deux traz Scofield novamente em seu melhor estilo, na onda do groove, e, aqui, com sua assinatura tão original. Foram mais de 10 anos após o lançamento do album Uberjam (2002), e Scofield nem mesmo se recorda do motivo deste trabalho, a não ser pela Música em si.
No repertório, levadas Funky, Reggae e uso de loops com uma segunda guitarra ritmica, nas mãos de Avi Bortnick, fazem a estrutura deste novo album, e o resultado é uma atmosfera dançante e de muito improviso.
Ainda integram o grupo o baixista Andy Hess, os bateristas Adam Deitch e Louis Catto, e a participação mais que especial de John Medeski, que já colocou o colorido do seu Hammond em outros trabalhos de Scofield, como em "A Go Go (1998)" e "Bump (2000)"; em contrapartida, Scofield contribuiu com o Medeski Martin & Wood em "Outlouder (2006)" e "Live (2011)".

E para quem estava acostumado a ver Scofield com sua bela Ibanez AS-200 nas mãos, seu fiel instrumento por mais de 30 anos, agora ele abraça os modelos Strato e Tele. Apesar de admitir que a AS-200 ainda é seu instrumento principal, Scofield diz que é divertido tocar com outros modelos, afirmando ainda que as Strato e Tele, por mais que voce as toque, sempre terão respostas diferentes e possuem sonoridades muito particulares que a Ibanez não oferece, disse em entrevista para a o site Premier Guitar.
Seus modelos são uma Fender Strato Custom Shop Relic’d Strat e uma Ibanez Telecaster.


BLUES MUSIC AWARDS 2014

09 maio, 2014

Anunciados os vencedores da edição 35 do Blues Music Awards, promovido pela Blues Foundation.
A noite de premiação ocorreu em 8 de maio em Memphis, em que compareceram integrantes da industria musical do Blues e artistas, em uma verdadeira celebração ao estilo.
As votações vieram de 81 países e 46 estados dos EUA.
Em destaque a Tedeschi Trucks Band, Trampled Under Foot, Charlie Musselwhite e os guitarristas Gary Clark Jr  e Ronnie Earl; e muitas novidades para ficarmos com os ouvidos antenados, em especial o violonista Doug McLeod, premiado com melhor album acústico e artista revelação.

Confira a lista dos premiados -

Acoustic Album : There's a Time, Doug MacLeod (concorreram Guy Davis featuring Fabrizio Poggi, Juba dance; Harrison Kennedy, Soulscape; Rory Block, Avalon; The Hound Kings, Unleashed)

Acoustic Artist : Doug MacLeod 
(concorreram Guy Davis; Harrison Kennedy; Little G Weevil; Rory Block)

Album: Remembering Little Walter : Billy Boy Arnold, Charlie Musselwhite, Mark Hummel, Sugar Ray Norcia, James Harman (concorreram Ben Harper with Charlie Musselwhite, Get Up!; Buddy Guy, Rhythm & Blues; James Cotton, Cotton Mouth Man; Lurrie Bell, Blues in My Soul)

B.B. King Entertainer : Buddy Guy 
(concorreram Bobby Rush; Buddy Guy; John Németh; Kim Wilson; Rick Estrin)

Band : Tedeschi Trucks Band (concorreram Lil Ed & the Blues Imperials; Rick Estrin & the Night Cats; The Mannish Boys; Trampled Under Foot)

Best New Artist Debut : Daddy Told Me, Shawn Holt & the Teardrops (concorreram Adrianna Marie and Her Groovecutters, Double Crossing Blues; Clay Swafford, Rooster; Gracie Curran & the High Falutin’ Band, Proof Of Love; Paul Gabriel, What’s The Chance; Valerie June, Pushin Against A Stone)

Contemporary Blues Album: Badlands, Trampled Under Foot (concorreram Ben Harper with Charlie Musselwhite, Get Up!; Brandon Santini, This Time Another Year; Buddy Guy, Rhythm & Blues; Cyril Neville, Magic Honey)

Contemporary Blues Female Artist : Susan Tedeschi 
(concorreram Ana Popovic; Beth Hart; Bettye LaVette; Candye Kane)

Contemporary Blues Male Artist : Gary Clark Jr. 
(concorreram Buddy Guy; Johnny Sansone; Kim Wilson; Otis Taylor)

DVD: Ruf Records : Songs from the Road, Royal Southern Brotherhood (concorreram Blue Star Connection – Live at Knuckleheads (The Healers); High John Records – Time Brings About a Change (Floyd Dixon); J&R Adventures – An Acoustic Evening at the Vienna Opera House (Joe Bonamassa); Shake-It-Sugar Records – Live (Murali Coryell))

Historical Album : Bear Family, The Sun Blues Box (concorreram Death Might Be Your Santa Claus – Legacy Recordings; Freddie King The Complete King/Federal Singles – Real Gone Music; Roosevelt Sykes The Original Honeydripper – Blind Pig Records; The Jewel/Paula Blues Story – Fuel Records)

Instrumentalist-Bass : Danielle Schnebelen (concorreram Bill Stuve; Bob Stroger; Larry Taylor; Patrick Rynn)

Instrumentalist-Drums : Cedric Burnside (concorreram Jimi Bott; Kenny Smith; Tom Hambridge; Tony Braunagel)

Instrumentalist-Guitar : Ronnie Earl (concorreram Anson Funderburgh; Gary Clark Jr.; Kid Andersen; Lurrie Bell)

Instrumentalist-Harmonica : Charlie Musselwhite 
(concorreram Brandon Santini; James Cotton; Kim Wilson; Rick Estrin)

Instrumentalist-Horn : Eddie Shaw 
(concorreram Big James Montgomery; Jimmy Carpenter; Sax Gordon; Terry Hanck)

Koko Taylor Award : Diunna Greenleaf (concorreram Lavelle White; Teeny Tucker; Trudy Lynn; Zora Young)

Pinetop Perkins Piano Player : Victor Wainwright (concorreram Barrelhouse Chuck; Dave Keyes; Marcia Ball; Mike Finnigan)

Rock Blues Album : Made Up Mind, Tedeschi Trucks Band (concorreram Mike Zito & the Wheel, Gone to Texas; The Rides, Can’t Get Enough; Toronzo Cannon, John The Conquer Root; Walter Trout, Luther’s Blues)

Song : "Blues in My Soul", Lurrie Bell (concorreram He Was There, Cotton, Hambridge & Fleming, James Cotton; That’s When The Blues Begins, James Goode, Ruff Kutt Blues Band; The Entitled Few, Doug MacLeod, Doug MacLeod; The Night The Pie Factory Burned Down, Johnny Sansone, Johnny Sansone)

Soul Blues Album : Down in Louisiana, Bobby Rush (concorreram Dave Keller, Soul Changes; Frank Bey & Anthony Paule Band, Soul For Your Blues; Johnny Rawls, Remembering O. V.; Otis Clay, Truth Is (Putting Love Back Into The Music))

Soul Blues Female Artist : Irma Thomas 
(concorreram Barbara Carr; Denise LaSalle; Dorothy Moore; Sista Monica)

Soul Blues Male Artist : John Nemeth 
(concorreram Bobby Rush; Frank Bey; Johnny Rawls; Otis Clay)

Traditional Blues Album : Remembering Little Walter - Billy Boy Arnold, Charlie Musselwhite, Mark Hummel, Sugar Ray Norcia, James Harman (concorreram Barrelhouse Chuck & Kim Wilson’s Blues All-Stars; James Cotton, Cotton Mouth Man; Lurrie Bell, Blues In My Soul; The Cash Box Kings, Black Toppin’)

Traditional Blues Male Artist : James Cotton 
(concorreram Anson Funderburgh; Billy Boy Arnold; John Primer; Lurrie Bell)