UMA VIAGEM SONORA COM O GUITARRISTA JAKOB BRO

26 setembro, 2014
O óbvio das coisas parece perder o sentido quando a interpretação delas vai além do significado comum. Angústias metafísicas existem, de fato, e fazem parte do universo pensante; são questionamentos muitas vezes sem respostas, e o ciclo nunca se fecha.
Viagens insólitas se apresentam e nos conduzem a estados que só a nossa própria imaginação é capaz de entender, e, sob uma análise mais racional, não encontramos elementos para explicar porque ali chegamos e ali estamos, e, mais ainda, porque aquilo pensamos. Assim nos percebemos em uma espécie de transe, em que, sem perceber, partimos em uma viagem sem rumo e no retorno desta jornada nos encontramos de volta em uma estranha realidade.
A música muitas vezes torna-se o veículo para essa, talvez, desorientada percepção, quando junto a ela se inserem atmosferas envolventes, intensas, melódicas e até mesmo sombrias.

Um dos protagonistas dessa viagem sonora é o guitarrista dinamarquês Jakob Bro. Músico de uma sonoridade ímpar, que o levou ao Jazz Denmark Hall of Fame e o mantém sempre em destaque no Danish Music Awards, as mais destacadas premiações do universo do Jazz em seu país.

Jakob Bro

Integrou o grupo liderado pelo trompetista Tomasz Stanko no disco "Dark Eyes" (2009, ECM), em uma de suas formações mais elétricas; e teve ao seu lado, em álbuns como líder, músicos como Bill Frisell, Kurt Rosenwinkel, Chris Cheek, Mark Turner, Ben Street e Paul Motian, entre outros. E mantém seu trio regular com o contrabaixista Anders Christensen e o baterista Jakob Hoyer, em que gravaram um disco de standards intitulado "Who Said Gay Paree" (2008).

Realizou um trabalho extraordinário junto com o saxofonista Lee Konitz e o guitarrista Bill Frisel, uma trilogia registrada nos álbuns "Balladeering" (2009), que inclui o contrabaixista Ben Street e o baterista Paul Motian, eleito como disco do ano pelo Danish Music Awards; "Time" (2011), ao lado do contrabaixista Thomas Morgan; e "December Song" (2013), novamente com Morgan e o pianista Craig Taborn. Esta trilogia marca uma música bastante intimista, quase etérea, e destacou-se no Nordic Councils Music Prize 2014, premiação dada para artistas de países nórdicos.
Jakob Bro também dá um enfoque na música experimental, evidente no disco "Bro/Knak" (2011), realizado em parceria com o produtor de música eletrônica Thomas Knak, cujo trabalho traz ainda uma super formação, que conta, entre outros, com Paul Bley, Kenny Wheeler, Jeff Ballard e o The Royal Danish Chapel Choir. O registro é um disco duplo, dividido em dois sets com leituras diferentes dos mesmos temas. Este trabalho também recebeu destaque pela Danish Arts Foundation pela gravação do tema 'Pearl River".

December Song Balladeering Time Bro Knak

Em sua passagem pelo capital carioca, que se estendeu a outras praças, Bro apresentou-se na formação de trio ao lado de Christensen e Hoyer, e realmente se mostrou um guitarrista fora do comum. Abraçado com uma Telecaster, não teve o virtuosismo como elemento protagonista, mas seus desenhos de formas melódicas ampliavam-se com o pleno domínio dos efeitos e recursos eletrônicos aplicados pelos seus pedais.
Entreter a audiência em uma viagem musical dessa natureza é uma arte para poucos, e méritos também para o trio, que soube cadenciar as dinâmicas necessárias para toda essa ambientação.
Percebe-se no seu toque uma forte influência de Bill Frisel, no timbre, na atmosfera; e fez reverência a dois outros grandes músicos que nos deixaram recentemente - o trompetista Kenny Wheeler e o saxofonista Yusef Lateef.

jakobbro.com/

A ARTE MUSICAL CONTEMPORÂNEA DESENHADA PELAS MÃOS DO DUO NAZARIO

20 setembro, 2014
Poder se expressar livremente é o grande desafio da arte musical. E experimentações musicais sempre fizeram parte do universo dos irmãos Lelo e Zé Eduardo Nazario, o DUO Nazario.
Nos anos 70, a prática da improvisação livre os levaram a integrar o grupo de Hermeto Pascoal, este que sempre se mostrou além do convencional; e eram nos momentos de pausa das apresentações com o grupo do bruxo que o DUO costumava construir sua própria sonoridade, inserindo elementos da música eletrônica e do jazz.
Ainda jovens, já mostravam domínio dessa linguagem improvisada e, assim, criaram uma identidade muito particular.

Amálgama é mais um resultado de toda essa musicalidade dos irmãos Nazario, cujo trabalho é consequência do Prêmio Funarte de Música Brasileira, que tem como objetivo estimular a criação e produção de projetos relacionados ao campo da música brasileira.
Somente com o uso de teclados e bateria, Lelo e Zé Eduardo Nazario apresentam uma música muito contemporânea, em que o acústico e o eletrônico se aliam em uma mistura de tendências promovendo passagens tão progressivas quanto melódicas, sem deixar de lado o universo da música brasileira.
Assim, o DUO se impõem como uma das mais vanguardistas formações da nossa Música Instrumental.

DUO Nazario

Amálgama é um álbum autoral, um verdadeiro diálogo entre Lelo e Zé Eduardo, com um repertório que traz novas leituras para temas antigos e novas composições, e Lelo é muito objetivo quando fala sobre elas -
"Refletem a enorme quantidade de eventos e informações que é gerada no mundo todos os dias, e busca exprimir em sons todos os aspectos dessa entropia crescente e suas consequências para a vida no planeta."
Para Zé Eduardo Nazario, o principal conceito de trabalho do DUO é experimentar múltiplas possibilidades de encontro entre linguagens e universos musicais com total liberdade criativa.

Lelo Nazario nos conta um pouco sobre o trabalho -

É fato que essa química musical foi criada dentro de casa. Como surgiu a proposta de se consolidar, de fato, como DUO e começar a gravar juntos ?
Isso se deu de uma forma natural, já que comecei, desde cedo, a compor material para tocarmos juntos e fomos, ao longo do tempo, consolidando um repertório extenso e bastante variado. O Zé Eduardo usa, além da bateria, muitos instrumentos de percussão, e eu gosto de criar “ambientes sonoros” com meus recursos eletrônicos e teclados, que são muito diferentes de música para música. Isto cria uma diversidade muito grande, ampliando a sonoridade do DUO. O fato é que, como irmãos, sempre estivemos juntos em vários trabalhos e nestes trabalhos sempre houve a possibilidade de realizar algo como duo também. Quando estávamos tocando com o Hermeto Pascoal ou com o Pau Brasil, muitas vezes era possível tocar algum material só nosso nas apresentações.
No final da década de 80, resolvemos “formalizar” o DUO, e começamos a fazer uma série de shows. Então, recebi o convite do maestro Roberto Farias para compor duas peças de vanguarda para a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo, cujas peças foram apresentadas em concertos e com o DUO como solista. A partir daí o trabalho foi se consolidando cada vez mais até hoje.

O título do álbum, Amálgama, tem implícito em seu significado a mistura de vários elementos, e aqui, é a Música o principal componente. É essa a proposta do DUO – misturar tendências, texturas e dar um novo significado sonoro às composições?
Exato. O DUO é terra e ar. Os tambores, pratos e a percussão exótica do Zé nos remete ao chão, às raízes africanas, ao ritmo e à pulsação. Os sons eletrônicos e texturas nos levam ao sonho, aos grandes espaços, às possibilidades sonoras que não temos com os instrumentos convencionais. Então essa mistura de elementos tão diferentes e aparentemente antagônicos nos dá uma nova perspectiva sonora e é nessa premissa que se baseia a proposta criativa do DUO.

Há muita experimentação e improvisação livre na música do DUO. De onde vem as influências de vocês?
Estudamos música desde cedo e sempre gostamos de jazz e música contemporânea, então partimos daí para estabelecer a base do trabalho do DUO. Não tenho muito apreço por imitadores, então, mesmo quando estudava a música dos compositores e pianistas que eu admirava, procurava reescrever frases e achar outras inversões para certos acordes. Assim, faço sempre essa “filtragem” para tentar chegar a uma sonoridade mais pessoal.
Em 1998, lancei o CD “Simples”, que traz algumas composições dedicadas a estes pianistas que eu admiro - Denny Zeitlin, Clare Fischer, Roger Kellaway e outros, e tentei dar às composições um pouco da personalidade de cada um desses compositores, mas, no final, acaba prevalecendo a minha maneira de tocar. O mesmo se dá com o Zé com relação aos grandes bateristas contemporâneos, como Elvin Jones, Jack DeJohnette, Tony Williams ou ao trabalho do Grupo de Percussão de Strasbourg.

Como se deu o processo de gravação?
Em “Amálgama” optamos por gravar como se estivéssemos num concerto, ou seja, gravando um só take de cada música. Como já havíamos tocado bastante esse material nas turnês, acabamos optando por essa forma de gravar. Desse modo, o material soa mais vivo e os improvisos mais “quentes”. Tivemos a sorte de encontrar no estúdio Soundfinger parceiros que também trabalham dessa maneira, então o CD ficou com essa sonoridade viva, que é mais apropriada para o nosso repertório.

A Música Instrumental Brasileira, mesmo com tão pouco espaço na mídia tradicional, mantém seu público muito fiel. Como vocês encaram esse cenário atualmente?
A Música Instrumental no Brasil só existe graças a esse público e a poucos jornalistas que conseguem divulgar esse trabalho. Ao longo da nossa carreira, assistimos a grande mídia diminuindo paulatinamente os espaços para a divulgação da cultura em geral, não só a música. A competição pelo lucro e audiência é o mote dos empresários da comunicação, sem dar a mínima atenção para divulgar os bens culturais produzidos aqui. Nos países mais desenvolvidos existe, claro, a competição pelo lucro, mas lá existe também a consciência de que um bem cultural tem enorme valor e deve ser divulgado. É uma contrapartida que, aqui, existe cada vez menos. Certamente, isto tem um preço e as gerações futuras de brasileiros sentirão o efeito nocivo dessa prática.

Fale sobre o Utopia Studio e o Soundfinger.
Criei o Utopia Studio em 1980 para fazer experimentações com música eletroacústica e de vanguarda. Como consequência natural, passei a usar o estúdio também para produzir esse trabalho de maneira independente, já que não havia espaço para esse tipo de música na indústria fonográfica. Assim, lancei pelo Utopia meus álbuns solo em produções totalmente independentes, da gravação à distribuição. Além disso, comecei a criar trilhas para cinema, TV, dança, teatro e publicidade.
Sempre gostei também de engenharia de som e acabei me aprofundando nisso e assumindo essa função nos meus discos. Logo, comecei a receber convites de outros músicos para direção de gravação, mixagem e masterização e, com o tempo, o estúdio foi se firmando nessa área também, tendo um catálogo de grandes nomes da música brasileira, que inclui o Pau Brasil, Marlui Miranda, Nenê, Nivaldo Ornelas, Jorge Bonfá, Andrea Ernest Dias e outros.
No Soundfinger, encontramos um parceiro incrível para a produção de “Amálgama”. Paulo Aredes, seu idealizador, tem como filosofia dar prioridade a trabalhos autorais e gravações ao vivo, interferindo o mínimo possível na execução dos músicos. A ideia dele é resgatar técnicas e instrumentos usados nas décadas de 50, 60 e 70, mas com equipamentos de última geração. E foi nesse contexto de máxima sintonia e cooperação que gravamos e mixamos o album "Amálgama", que, depois, masterizei no meu estúdio.

O disco pode ser adquirido na Livraria Cultura, Pop’s Discos, Locomotiva Discos e Baratos Afins.



nazario.bugs3.com/

O ESPAÇO-TEMPO DE IVAN BARASNEVICIUS

12 setembro, 2014
Ivan Barasnevicius Trio

A palavra "continuum" tem origem em conceitos físicos e filosóficos, cujo significado se associa ao espaço e tempo. Da mesma forma que Einstein afirmou não haver distinção entre esses elementos, a filosofia também discorre do fato de que não é possível existir contato entre os mesmos. E isso tudo vai um pouco além, levando até a teoria da existência dos universos paralelos, proposta por Hugh Everett no meio do século passado.

Mas o assunto aqui não é física, é música.
Na carona da semântica da palavra, os elementos aqui são desenhados por harmonias e improvisos.
Continuum é o segundo disco do guitarrista Ivan Barasnevicius, um super trio em que está acompanhado pela baixista Dé Bermudez e a bateria de Thiago Costa.

Este novo trabalho mantém a mesma proposta do disco de estréia, "Sintese" (2012), promovendo uma mistura de tendências que passam pelo rock, jazz e ritmos brasileiros, além de muita experimentação e improvisação.

Com a palavra, Ivan Barasnevicius -

Qual a proposta do disco?
A proposta deste disco é aprofundar as experiências de cruzamentos de sonoridades apresentadas no disco "Síntese", lançado em 2012. Apesar disso, vale lembrar que boa parte das composições já existia na época do lançamento do primeiro trabalho. Mas, certamente, com todo o aprendizado que tivemos no primeiro disco, conseguimos melhores resultados neste novo trabalho. Acaba sendo um grande desafio, tanto para os executantes quanto para o técnico de gravação, pois muitas vezes é como se tivéssemos duas ou três formações diferentes na mesma música.

A formação nesse disco é a mesma do disco de estréia. Fale um pouco sobre o grupo que o acompanha.
Sobre a Dé, como já citei em outras oportunidades, o mais interessante é que posso escrever para ela sem me preocupar com limitações. Grande instrumentista que é, toca o que estiver escrito, inclusive frases de difícil execução, já que um dos instrumentos que usa é de 6 cordas, e improvisa e conduz livremente sobre as harmonias propostas.
O Thiago também é um exímio instrumentista, que toca há muito tempo Jazz e música brasileira com diversos grupos, apesar de já ter tocado Rock por muito tempo, o que faz com que tenha um repertório de referências bastante eclético, sem limitações. Em ambos os casos, é muito confortável trabalhar com gente assim, pois é possível escrever sem limitar a criatividade.

O formato de Trio é sempre um desafio interessante, que exige muito mais dos músicos sobre ritmo e harmonia. É esse o caminho?
Sim, exatamente! Essa formação é interessante pois os três precisam fazer de tudo um pouco - improvisar, conduzir, convencionar. Em nosso trabalho, muitas vezes o baixo assume o papel de solista, o que torna necessário alguns procedimentos para que a guitarra e a bateria não tirem o espaço do baixo neste momento. Ou seja, é necessário que todos tenham cuidado com a dinâmica. Outro ponto é o trabalho com a variedade de timbres dos instrumentos. Mas estas são apenas algumas das questões, existem muitas outras particularidades, vantagens e desvantagens de se trabalhar em trio.

Influências à parte, há uma forte diversidade de texturas em sua música, entre abordagens melódicas e pegadas mais intensas com uso de drive. Como você trabalha as composições ?
IB : A proposta musical do trio é promover a junção de elementos muitas vezes conflitantes em uma mesma música, o que muitas vezes causa estranheza para quem ouve. Conseguir equilibrar estas sonoridades é um grande desafio, ainda mais quando se trata desta formação.
Por exemplo, em "Granizo" temos a mistura de elementos do Heavy Metal com uma levada de Samba-Jazz. Claro que tudo fica estilizado, mas a idéia é criar uma sonoridade diferente, mas de forma que os arranjos e composições tenham sempre a cara do grupo.

Fale sobre o processo de gravação do disco e os equipamentos usados.
"Continuum" não foi gravado ao vivo, e sim por camadas. Como somos apenas três, acabamos muitas vezes mudando os timbres dos instrumentos durante as músicas, como uma forma de ampliar as possibilidades de sonoridades. Para este formato, a gravação ao vivo prejudicaria o trabalho mais detalhado com os timbres utilizados. Assim, optamos pela gravação em camadas.
Os equipamentos foram mais variados do que em "Síntese", embora sejam coisas relativamente simples. Acredito que a sonoridade está antes de qualquer coisa nas mãos do próprio músico. Mas de qualquer forma, utilizei minha velha Gibson SG e Marshall Valvestate bem antigo nas faixas "Granizo" e "Groove pra Dé"; usei uma Telecaster com um P90 no braço plugada em um Fender Deluxe para gravar "Bizuca" e as partes com distorção de "Groove pra Dé"; e uma guitarra acústica com cordas flat plugada em um Fender Ultimate Chorus para "Hipnose", "Acalanto" e a faixa-bônus "Minuano", que, conforme falei será lançada posteriormente. Ainda, um violão canadense de cordas de aço emprestado do André Ferraz para gravar "Acalanto" e meu violão de nylon Caltram '98 para "Minuano".
Já a Dé utilizou seu Ibanez BTB de 6 cordas; e sua mais recente aquisição, um Fender fretless, utilizado nas faixas "Acalanto" e "Hipnose".


"Continuum" pode ser comprado no formato digital no iTunes e na cdbaby.com; em ambos canais é possível encontrar também disponível o primeiro trabalho do trio - "Síntese".
www.ivanbarasnevicius.com

Obrigado Ivan, e sucesso.

SOBRE CADA CANTINHO DE BADI ASSAD

07 setembro, 2014
Nós, amantes do violão, sempre teremos uma referência na assinatura musical dos Irmãos Assad, nas cordas harmonizadas de Sergio, Odair e a irmã mais nova - Badi Assad.
Um berço de música, que tem na verve clássica e instrumental elementos que transpiram emoção, virtuosismo e profunda beleza melódica, nos transportando em uma viagem de vibrações sonoras.
Este que vos escreve não podia perder a oportunidade de trocar algumas palavras com ela, Badi Assad, violonista que, um dia, quando a ouvi pela primeira vez interpretando solo os temas Valseana e Farewell, arranjadas por seus irmãos, me encantou profundamente, e me fez tê-la, a partir daquele momento, como uma das referências no instrumento.
O papo, muito descontraído, ocorreu no backstage do Festival de Jazz e Blues de Rio das Ostras.

Badi Assad

Os primeiros álbuns refletem o virtuosismo de Badi como instrumentista, cujos temas se enchiam de pontuações improvisadas, muita harmonização e a voz se colocando como contexto percussivo. São trabalhos geniais como "Solo" (1994), "Rhythms" (1995) e "Echos of Brasil" (1997).
Ao lado de Larry Coryel e John Abercrombie, gravou "Three Guitars" (2003), excepcional registro instrumental em que Badi manteve seu estilo próprio. Ela, muito original, disse quando aceitou o convite - "Eu topo, mas só se eu puder fazer minhas traquinagens"; e assim formaram juntos 3 escolas de violão na mais perfeita sintonia. Podemos até vislumbrar um novo trabalho nessa onda, mas Badi nos revelou que tem um projeto futuro com o incendiário violonista Roy Rogers, cujo trabalho também contará com um harpista. Interessante combinação, vamos aguardar.

A violonista Badi viu-se em certo momento da vida limitada com o instrumento devido a um problema na mão, diagnosticada com distonia focal, o que a levou a parar de tocar, obrigando-a a reinventar-se e fazer da voz o principal elemento da sua musicalidade. Mesmo após a recuperação, o violão de Badi deixou de ser protagonista, e a voz - o canto, a música falada - determinou a direção na sua carreira. Vieram os álbuns "Verde" (2005), "Wonderland" (2006) e "Amor e Outras Manias Crônicas" (2012), este que deu a ela seu primeiro prêmio internacional - Songwriting Competition - com a composição "Pega no Coco", na categoria World Music.
Comemorando 20 anos de carreira, lançou seu primeiro DVD, intitulado "Badi" (2010).

Para Badi, o corpo também é um instrumento, ele fala, ele canta. O violão, por ser um instrumento melódico e harmônico, nos dá muitas possibilidades, e é aí que entra em foco a capacidade criativa. Questionada sobre como ela desenvolve esse processo, Badi é muito assertiva -
"A criatividade não tem regra, não tem um começo, meio e fim; e quando somos criativos, não somos só com a arte, somos criativos na vida, a criatividade faz parte do ser. E com a música, ela está aliada com a técnica, e quando se consegue juntar essas duas coisas voce tem uma liberdade muito maior."
E sobre o que ela pensa quando toca, Badi diz que a imaginação é o veículo propulsor, toca sempre imaginando algo. Mesmo em seu momento atual, em que não faz mais música instrumental, Badi faz da letra a sua imaginação, vive cada palavra daquilo que está cantando e busca sentir de fato a emoção que está fluindo, procurando interpretar a música e levá-la ao seu extremo.

Solo Rhythms Amor e Outras Manias Crônicas Cantos de Casa

Quando o assunto é música, Badi é uma alma inquieta, sempre buscando surpreender a si próprio, e tem isso como um desafio. Assim, lançou "Cantos de Casa" (2014), seu primeiro álbum voltado para o público infantil, que, alias, tem sido sua grande paixão.

Sobre o que gosta de ouvir, não hesita em falar de Bjork, a quem tem como uma artista criativa, que leva suas experimentações para o mundo pop; e Tori Amos, pianista que também faz do corpo um instrumento, e esclarece, curiosamente, que após ver Tori ao vivo passou a tocar em pé.

badiassad.com/

A NOITE DE CHICK COREA & THE VIGIL EM PALCO CARIOCA

03 setembro, 2014
Chick Corea & The Vigil
foto : Vinicius Pereira
O pianista Chick Corea é um protagonista da música contemporânea, já viajou por várias tendências e participou da transformação do Jazz liderada por Miles no final dos anos 60. Um músico extraordinário, e, mais vez, a oportunidade de vê-lo em palco carioca, agora no Vivo Rio, na formação de seu novo grupo - The Vigil.
Corea veio ao Brasil para o Festival MIMO, sediado em várias cidades, e, apesar dos contratempos na sua saída da Argentina, que o fez cancelar algumas apresentações, a passagem pela capital carioca entusiasmou os amantes da boa música.

No palco, Corea alternou no piano e sintetizadores, acompanhado pelo californiano Charles Altura na guitarra e violão, o cubano Carlitos Del Puerto no contrabaixo, Tim Garland nos sopros, o venezuelano Luisito Quintero na percussão e Marcus Gilmore na bateria. Um super grupo, muito antenado e com muita liberdade dada pelo líder, que estava muito à vontade e interagindo com o público.
A formação no álbum de estúdio - The Vigil (2013) - contou com o contrabaixista frances Hadrien Feraud, e teve as participações do contrabaixo de Stanley Clarke, do sopro de Ravi Coltrane, da voz de sua esposa Gayle Moran Corea e do percussionista Pernell Saturnino.

E foi uma noite de várias homenagens em 2 horas de apresentação. Na abertura, Corea homenageou Wayne Shorter com "Fingerprints", em uma versão rearranjada do tema "Footprints"; seguiu dedicando "Royalty" ao baterista Roy Haynes, belíssimo tema autoral inserido no album The Vigil. Corea e Haynes estiveram juntos em um dos seus mais extraordinários albuns - Now He Sings, Now He Sobs (1968).
Haynes, curiosamente, é avô do baterista Marcus Gilmore.
E estando na terra da bossa nova, fez, especialmente para essa turnê, uma leitura fantástica de Jobim em "Desafinado". Fez graça com seu próprio nome, lembrando que também se chama "Antonio" (Armando Anthony Corea), assim como o mestre Jobim; e desenvolveu o tema com uma pegada bem latina, dando espaço para os improvisos de Altura e Garland, que, ao tenor, desenhou belos e melódicos improvisos.
Outro homenageado da noite foi um músico de grande inspiração para Corea, Paco de Lucia, com o tema "Zyryab", título de album homônimo de Paco (1990) que teve a participação do líder da noite. Uma interpretação com várias nuances, introduzida em duo por Corea e Altura ao violão, seguida pelo duo por Garland e Carlitos, e finalizada com todo o grupo com a típica textura spanish, onda que Corea sempre explorou com maestria.
Outro tema do album The Vigil, "Portals to Forever", introduzida por um longo improviso do percussionista Luisito Quintero, que fez a platéia participar junto com palmas e ritmos, e cujo tema deu sequencia em uma intensa viagem sonora, dando um ar progressivo e muito espaço para experimentações de Corea nos synths e um longo solo de Gilmore.
Para fechar a noite, não podia faltar a clássica "Spain", cuja melodia foi desenhada na flauta por Garland e Corea promoveu um verdadeiro diálogo com a platéia, fazendo todo mundo cantar junto.

Um gigante, sempre !