MICHAEL WOLLNY TRIO

29 dezembro, 2014
O pianista alemão Michael Wollny já é um dos nomes de destaque no cenário Jazz europeu, pela sua musicalidade imprevisível, sempre procurando reinventar a si mesmo, o seu som e suas composições. A crítica já o vê como uma das mais populares personalidades musicais surgidas no país desde o trombonista Albert Mangelsdorff.
Seu atual trio é formado pelo contrabaixista Tim Lefebvre e pelo baterista Eric Schaefer, e lançaram o álbum Weltentraum pela gravadora ACT.

Michael Wollny Trio

Tim Lefebvre também pode ser ouvido nos trabalhos do trompetista Till Bronner e dos guitarristas Wayne Krantz e Chuck Loeb, entre outros, além de integrar o grupo Rudder.
Eric Schaefer é um baterista muito atuante, eclético, integra o trio do fantástico guitarrista Arne Jansen, tem álbum solo gravado pela ACT - "Who Is Afraid Of Richard Wagner?" (2013), e está presente no trio de Wollny desde seus primeiros álbuns, que tinha na formação a contrabaixista Eva Kruse - "Call It [em]" (2005), "[em] II" (2006), "[em] III" (2008) e Wasted & Wanted (2012).
Wollny ainda tem um belíssimo álbum em piano solo - "Hexentanz" (2007), em que descreve a música como gótica, em uma linguagem que mescla Schubert com Bjork.

Wollny não está preocupado com emoções superficiais. Sobre seu processo de composição, afirma começar com uma ideia, um som ou uma estrutura, e associa isso com um monte de outras coisas; e conforme vai se apresentando em shows vão surgindo novas ideias. Ainda esclarece que suas composições funcionam como um laboratório, em que tem todos os componentes estão sob seu alcance podendo trabalhá-los intencionalmente e, muitas vezes, inconscientemente.
Michael WollnyWeltentraum é um trabalho baseado em melodia, com simples arranjos em formato de piano trio, e foi realizado em muito pouco tempo no estúdio; e traz ainda a participação do vocalista Theo Bleckmann em 1 faixa.
Wollny é um artista de Jazz em plena ascensão, o que o colocou como primeiro alemão a ilustrar a capa da edição de março de 2014 da Jazzwise, publicação inglesa e uma das mais importantes quando o assunto é Jazz. O álbum ainda recebeu na Alemanha o prêmio pela German Record Critics; além das 4 estrelas na prestigiada Downbeat americana.



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FELIZ NATAL COM CHARLIE BROWN

25 dezembro, 2014
A trilha sonora de A Charlie Brown Christmas, do compositor Vince Guaraldi, tornou-se tão conhecida quanto a história em si. O tema Linus and Lucy passou a ser reconhecido como a assinatura musical das tirinhas cômicas intitulada Peanuts, criado pelo cartunista americano Charles Schulz nos anos 50. Adicionalmente, Christmas Time is Here tornou-se também uma canção popular.
A trilha sonora foi lançada pela Fantasy Records em 1965.


Uma pequena história do Natal de Charlie Brown
(fonte : wikipedia)

Charlie Brown confidencia a Linus que, mesmo chegando a data do Natal, ainda se sente deprimido, apesar dos presentes, cartões e as árvores de decoração. E sua caixa de correio está vazia. Isso é devido ao sentido materialista que as pessoas davam para a data. E sua depressão só aumenta conforme ele vai andando pela vizinhança.
Eventualmente, Charlie Brown visita Lucy em seu consultório psiquiátrico. Ela o aconselha a se envolver mais e pede a ele participar de um evento de Natal. Charlie Brown aceita, mas o que deveria ser uma lição acaba se tornando uma experiência frustrante.
Charlie Brown então passa na casa do Snoopy e o encontra freneticamente ocupado na decoração do seu lar. Depois que Charlie Brown lhe pede uma explicação sobre isso, Snoopy entrega um panfleto sobre uma competição de luzes de Natal no bairro, o que chateia muito Charlie Brown porque o seu próprio cão também se tornou materialista. Seguindo seu caminho, ele encontra sua irmã Sally, que pede para ele escrever uma carta para Papai Noel pedindo uma grande quantia de dinheiro, e isso deixa Charlie Brown ainda mais desanimado.
Enfim Charlie Brown chega para o ensaio, mas é incapaz de controlar a situação pois as crianças não cooperam e estão mais preocupadas em festejar e dançar, a música que toca é Linus and Lucy.
Charlie Brown, no entanto, está determinado a não deixar o evento se tornar tão comercial e se concentra no lado tradicional da história. Pensando que tem que manter o bom humor, decide que eles precisam de uma árvore de Natal, então Lucy assume o posto e o manda para arrumar uma grande árvore de metal.
Junto com Linus, Charlie Brown parte em sua busca, mas quando chegam ao mercado de árvores, Charlie Brown se encanta com uma pequena árvore que, ironicamente, e simbolicamente, é a única árvore real que lá tinha.
Linus fica relutante com a escolha de Charlie Brown, mas ele está convencido de que, depois de decorá-la, será perfeita para o evento. Eles voltam para o auditório da escola com a árvore e todos riem de Charlie Brown. Desesperado, Charlie Brown começa a imaginar se ele realmente sabe o que o Natal representa.
                                 
Percebendo que ele não tem que deixar o lado materialista estragar seu Natal, Charlie Brown calmamente pega a pequena árvore e vai embora. Na volta, ele para novamente na casa decorada de Snoopy, que ostenta agora uma fita premiada do concurso. Ele pega uma bola ornamental e a coloca no topo da árvore, e o galho, com a bola ainda sobre ele, prontamente se curva para o lado em vez de permanecer em pé, levando-o a declarar - "eu o matei ", com profundo desgosto.
Mas o resto da turma, percebendo o quanto estavam sendo duros com Charlie Brown, calmamente o seguiram. Então Linus vai até a árvore e gentilmente acerta os adereço de volta para a posição vertical, colocando uma proteção ao redor da árvore. Depois de adicionarem as decorações que faltavam, as crianças começaram a cantarolar uma canção de Natal.
Charlie Brown chega e fica surpreso; e as crianças então desejam a ele um Feliz Natal antes de cantar mais uma música, e Charlie Brown junta-se a eles.

Feliz Natal !

9 VEZES MICHEL LEME

11 dezembro, 2014
É sempre uma enorme satisfação ouvir o guitarrista Michel Leme, músico que transpira emoção, intensidade e prazer no tocar. É a música pela música.
E nos apresenta mais um excelente trabalho, 9, cujo título representa o nono disco de sua discografia, que também conta com 2 DVDs gravados ao vivo - "Arquivos Vol.1" e "Na Montanha".
Neste trabalho, a base do trio se mantém com Bruno Migotto no baixo e Bruno Tessele na bateria, "os Brunos", e um convidado muito especial vem somar ao grupo - o pianista Felipe Silveira, que, aqui, coloca o Piano Rhodes como protagonista.

Michel Leme 9

O disco foi gravado ao vivo, sem overdubs e sem efeitos, com um repertório autoral em seis composições, totalizando pouco mais de 50 minutos de muita pressão.
A abertura é uma breve composição de 55 segundos, "Abrindo as Portas", como um portal que nos levará a momentos de espontaneidade, virtuosismo e perfeita interação de grupo.
"Gentleman", originalmente tocada em trio, coloca Migotto em foco na primeira parte do tema, seguido pelos improvisos de Michel e Felipe. A formação de quarteto deu outra dinâmica ao grupo e está contagiante nos temas "Elvin Jones" e "Siga Aquele Diploma!". A primeira traz a forma blues em andamento rápido desenhado pelo walking de Migotto, e não faltou inspiração para Felipe e seu rhodes dando um colorido todo especial não só no seu improviso como também nos desenhos de base sob a improvisação livre de Michel; e pela referência ao título do tema, de baterista para baterista, Tessele também deu seu recado solo.
"Siga Aquele Diploma!" se desenvolve sobre a forte pulsação de Migotto e Tessele, com Michel e Felipe inspiradíssimos e um intenso diálogo entre todos ao final do tema.
"14" é uma belíssima balada, intensamente melódica, um deleite para a pontuação solo de Migotto e o improviso de Felipe, criando o perfeito mood, como uma lavagem na alma, um verdadeiro estado de transpiração.
"70" fecha o disco em 16 minutos com a atmosfera característica que muitos mergulharam nos anos 70, aquela mistura de elementos livres do jazz e da pulsação do rock e progressivo que sempre se registrou em longos temas, em que, frequentemente, faz surgir grandes insights para a improvisação. O registro cru da guitarra de Michel e o rhodes de Felipe contribuíram muito para essa assinatura sonora. Uma verdadeira viagem, e, aqui, com a nossa identidade.

Sobre essa exposição de temas mais longos dar mais inspiração para o improviso, Michel diz -
"Não há táticas quanto a favorecer a inspiração. Para este grupo, basta cada um estar lá que o ímpeto de criar música juntos estará também."

Que o 9 se multiplique exponencialmente.
Uma aula de jazz, na forma em que se apresenta. Uma aula de Música.
Obrigatório.

Michel Leme nos conta sobre o quarteto e as composições deste trabalho -

O disco 9 mantém a formação base com "Os Brunos" e agora com o piano de Felipe Silveira. Como surgiu a formação do quarteto?
Depois de gravar o CD "Na Hora", lançado em 2013, e de lançar o DVD "Arquivos - Vol. 1" em maio deste ano, eu senti a vontade de colocar alguém tocando teclado com timbre de Fender Rhodes nesse grupo. Desde o começo eu pensei no Felipe Silveira pra preencher este espaço. Nós tocamos juntos desde 2008 - não tão frequentemente como eu gostaria, porque ele mora em Campinas - e ele sempre se mostrou um músico que realmente gosta de ouvir e tocar em relação ao que está acontecendo na hora, além, é claro, do conhecimento, honestidade e capacidade. Quando comentei com o Tessele e o Migotto sobre convidá-lo para o grupo ambos tiveram reações no mínimo entusiasmadas. Aí foi só ligar pro Felipe e convidá-lo para o trabalho com o qual ele irá ganhar menos dinheiro em toda sua vida - e ele topou rapidamente.

A soma de um instrumento harmônico dá à guitarra mais possibilidades, libertando-a um pouco da harmonia e melodia. Pode-se afirmar isso?  
Ao tocar em trio, o guitarrista tem a responsa de deixar as exposições dos temas bem claras e também preencher harmonicamente as melodias (seja do tema ou dos solos) quando sentir a necessidade. Eu, particularmente, adoro este papel e trio é a formação que mais tem registros meus tocando por aí.
Neste trabalho com o Migotto e o Tessele, que é mais um som do qual tenho a boa sorte de fazer parte, mas com a diferença do repertório ser formado apenas por minhas composições, eu senti que o Felipe traria mais riqueza harmônica e poderíamos, por exemplo, tocar acordes juntos sem prévios combinados que soassem cada vez mais intrigantes, assim como eu poderia expor as melodias como faria um instrumento de sopro. No primeiro acorde que ele tocou com a gente a coisa já soou como eu imaginava – tem um take de “Gentleman” no Sagrada Música (ver vídeo abaixo) que foi a primeira apresentação com a nova formação; depois de cinco dias nós gravamos o disco.
Ainda quanto ao piano, nos meus solos eu não deixo de tocar em bloco nos momentos em que sinto que devo tocar, assim como eu não deixo de acompanhar os solos do Felipe. Eu acho uma perda de tempo o combinado entre guitarristas e pianistas que tocam juntos que consiste em "no seu solo eu não toco". Oras, se é pra ouvir o outro, porque não somar com o outro? Claro, o problema, tanto de guitarristas quanto de pianistas, é ser chato ao acompanhar e raras são as exceções, mas, neste caso, quanto mais tocamos juntos, mais legal fica.


Sobre as composições do disco -

"Abrindo as portas". Qual a inspiração, ou mesmo aspiração, implícita no título da composição?
Eu estava tocando com o Nino Nascimento e o Ivan de Castro na Luthieria quando, no final de um rhythm-changes, eu fiz o tema principal do que viria a ser "Abrindo as portas". O video está disponível no youtube, dá pra sacar claramente o momento do seu nascimento. Quando comecei a pensar no "9", eu sabia que iria usar essa melodia, porque ela tem um clima diferente, e acabou servindo como introdução.
O título pode ser uma alusão a "abrir as portas da percepção", que é, talvez, uma das possíveis salvações para a nossa sanidade mental neste mundo governado pela mais abjeta e galopante estupidez. Também é uma alusão a um termo que a prima de John Coltrane cita no final do livro "A Love Supreme" de Ashley Khan, quando Coltrane se levanta pra se unir à igreja, uma simbologia e tal. E, como nós gravamos o “9” no salão da igreja Betesda de Diadema – muitíssimo bem-recebidos pelo querido Miguel Garcia e sua esposa, importante dizer - acho que tem muito a ver.

"Gentleman". Uma homenagem a alguém especial?
De minha parte, é uma homenagem ao Edgard Teixeira, músico, baterista, marido da Sara Chrétien, pai do Cuca e do Wilson Teixeira. Ele foi um verdadeiro gentleman, não no sentido de afetação quanto a normas sociais, mas quanto a ter o espírito de um real cavalheiro. Só tenho as melhores lembranças dele, e quando estava tocando o tema antes de concluí-lo e apresentar para os caras, o Edgard era sempre o inevitável homenageado.
"Gentleman" também representa um valor a não ser esquecido, afinal, cavalheirismo nunca é demais.

"Elvin Jones". Um ícone da bateria no Jazz, o motor do lendário quarteto de Coltrane. É uma referência?
Total. Elvin Jones é um dos mestres que nos ensinam o real espírito da coisa, o espírito que ainda habita apenas em alguns. E estes poucos tem e terão o desafio de viver com as migalhas da sociedade caso escolham ser íntegros. É o que diz a frase de Krishnamurti: “Não é sinal de saúde estar bem ajustado a uma sociedade doente”. Ou seja, você tem o espírito? Então será colocado à margem, porque o que está na via principal neste modo de vida é apenas morte. Estamos vivendo a inversão de valores num de seus picos mais surreais. Exagero? Observe ao redor e me diga.
Coloquei este título porque o tema, a estrutura, enfim, o clima me remeteu a ele. Elvin Jones é daqueles caras que eu ouço em qualquer situação e fico com vontade de tocar guitarra e melhorar como músico e como pessoa.

"Siga aquele diploma!". O diploma é o nosso sonho?
Espero que não. Este título é sobre o poder do marketing das instituições que destilam na sociedade a ideologia "só será um músico sério aquele que tiver um curso superior em música". Será?
Já toquei com vários "mestres" destas instituições, por exemplo, e, com a exceção de uns pouquíssimos, eles talvez tenham talento para outras áreas da atividade humana, mas não para a música. Se fosse só isso, ok, porque talvez pudessem ser bons professores, mas vários "músicos formados" por estas instituições me procuram para ter aulas e chegam sem repertório, sem saber fazer uma levada decente ao acompanhar, além de presos ao extremo ao improvisar - e isso sem falar nos relatos acerca de como procedem os tais “mestres”.
Então, estas e outras me levam a crer que algo muito errado está acontecendo dentro dos muros da “academia”. Quanto aos alunos, muitos deles são pessoas que realmente amam a música e, por isso, insistem, mesmo depois de ter sido atacados pelos lobos.
Tem caras que são apenas um diploma, uma "carteirada" andando por aí; você os seguiria?

"14" e "70s". O que os números representam?
"14" é a 5ª faixa do disco, uma balada bem lenta cuja estrutura principal é de 14 compassos. Obviamente não compus pensando neste número de compassos; procedi como sempre: depois de tocar bastante, ver que era uma música e não um exercício, aí eu escrevi (e contei). Na falta de um nome mais mirabolante, coloquei “14”.
"70s" tem a ver com o clima dos anos 70. Eu nasci em 1971 e me lembro apenas de flashes da década, mas esse pouco é muito legal, porque tem um clima mágico. É como se eu tivesse nascido num planeta muito diferente deste atual. Já o tamanho da faixa acabou ficando ideal para um single: 16 minutos! Minutagens à parte, é incrível como a música faz o tempo cronológico ser tão relativo, ou seja, é como em qualquer outra atividade na vida: se você está curtindo, vai ficar contando os minutos?

Felipe Silveira, Bruno Migotto, Michel Leme, Bruno Tessele

Michel ainda complementa -
"A experiência de compor, tocar e produzir o "9" foi, como sempre, um grande prêmio. Poder ouvir o que as pessoas estão falando a respeito e responder a entrevistas como esta são cerejas e raspinhas de chocolate nesse delicioso bolo. Muito obrigado pela oportunidade."

Eu que agradeço, Michel Leme, é sempre motivador entrevistá-lo.
Obrigado, e sucesso.

A distribuição física e digital do disco é da Tratore e você pode comprar diretamente enviando e-mail para michel@michelleme.com




Fotos e ilustrações de capa e contracapa são da Taty Catelan.
9 tem apoio cultural da D'Addario Brasil, EM&T Escola de Música e Tecnologia, Espaço Sagrada Beleza, Luthieria, Net, Sho'You Audio & vídeo, Rotstage, Tecniforte Cables e Timbres Instrumentos Musicais.

Leia também outra super entrevista com Michel Leme sobre o DVD "Arquivos Vol.1", em que fala sobre o processo criativo na música; e o DVD "Na Montanha", seu primeiro lançamento no formato -

Arquivos Vol.1 Na Montanha

50 ANOS DE MÚSICA: PASCOAL MEIRELLES

03 dezembro, 2014
São 50 anos de Música, de muita boa Música. Uma história que, indiretamente, também é parte da nossa própria história, afinal, nós, amantes incondicionais desta arte, fazemos dela o motor por onde potencializamos lembranças, momentos e sentimentos.
O baterista Pascoal Meirelles celebra esse marco com o lançamento do disco 50, uma verdadeira trajetória musical, o que o torna um dos ícones não só do instrumento mas da nossa Música em todas as suas formas. Independentemente de ritmo e de estilo - Samba-Jazz, Choro, MPB, Música Instrumental e Jazz - a assinatura de Pascoal Meirelles estará sempre presente, afinal são 50 anos fazendo música da melhor qualidade.


Mineiro, nascido em Belo Horizonte, autodidata, aos 16 anos já estava nos palcos. No calor do samba-jazz dos anos 60, formou o "Tempo Trio" ao lado do pianista Helvius Vilela e o contrabaixista Paulo Horta, e mudou-se para a capital carioca onde deu um novo rumo em sua carreira, passando a integrar o grupo do saudoso clarinetista Paulo Moura. Tocou e gravou com muita gente, e é também um dos protagonistas da nossa MPB, em que esteve presente ao lado de Gonzaguinha, Tom Jobim, Edu Lobo, Chico Buarque, Milton Nascimento, entre tantos outros.

Meu encontro com a música de Pascoal Meirelles deu-se em um momento de transformação no que eu mesmo ouvia, nos anos 80, naquela transição auditiva do Rock para o Jazz. E foi naquele calor intenso do movimento da Música Instrumental Brasileira que acontecia no cenário carioca quando ouvi pela primeira vez o grupo Cama de Gato e o tema Melancia. Uma formação fantástica, em que Pascoal estava ao lado de Artur Maia, Mauro Senise e Rique Pantoja - "o primeiro time" - e assim eu comecei a ver e sentir a música de outra maneira. O grupo, apesar de não ter mais a formação original, está junto até hoje.

Muito atuante no cenário musical, Pascoal Meirelles sempre busca trazer novos elementos para sua música. Construiu uma ampla discografia como líder, nas mais variadas formações, seja um trio em tributo a Jobim em "Tom" (2003), um sexteto hard-bop em "Tributo a Art Blakey" (2007), no samba-jazz em "Ostinato" (2009) e até com a guitarra como protagonista em "Dubai-Lima: Guitar Project" (2013).
"50" registra uma coletânea de toda a trajetória de Pascoal, e deve ter sido um grande desafio selecionar as 12 faixas que compõem o repertório, com temas dos álbuns "Considerações a Respeito" (1981), "Tambá" (1985), "Anna" (1988), "Paula" (1990), "Forró Brabo" (1997), "Tom" (2002), "Ostinato" (2010) e "Dubai-Lima Guitar Project" (2013). É um encontro de grandes músicos da história da nossa Música Instrumental ao longo de todo esse tempo, entre eles Jota Moraes, Jamil Joanes, Ary Piassarolo, Leo Gandelman, Victor Biglione, Artur Maia, Marcio Montarroyos, Nilson Matta, Daniel Garcia, Jesse Sadoc, Idriss Boudrioua,

No encarte do disco, uma dedicatória mais que especial de Mauro Senise, com quem Pascoal fundou o grupo Cama de Gato, que não economizou elogios, ressaltando a dedicação, entusiasmo e talento, servindo de exemplo para uma nova geração de músicos.

Exemplo reconhecido pelo baterista paulista Fernando Baggio, integrante do grupo RdT, que reforça em suas palavras - "Terra de tanto passado, tantos nomes, mas alguns deles não vieram aqui para ficar só no passado. Eles são na verdade atemporais. Não entram em uma linha do tempo por estarem em todos os momentos dela desde a sua existência. Pascoal Meirelles é um desses casos."

Deborah Fraguito, produtora executiva e musical da Rádio Pequistação, também é categórica -
"Pascoal é parte integrante, atuante, criativa, patrimonial e um dos pilares da Música Instrumental Brasileira, o que muito nos orgulha."

Considerações a Respeito Anna Forró Brabo Ostinato

Com a palavra, Pascoal Meirelles -

GC: 50 anos de Música, do Samba ao Jazz. Como começou essa trajetória ?
PM: Eu sou filho da Bossa Nova, e acompanhava junto dos meus colegas de Belo Horizonte (Nivaldo Ornelas, Helvius Vilela, Milton Nascimento,Wagner Tiso, Paulo Braga e Toninho Horta) o movimento musical do eixo Rio-São Paulo. Assisti a quase todos os shows com participação dos músicos da Bossa Nova que chegavam a BH. Me lembro de assistir em uma só noite Sergio Mendes e seu Sexteto com Raul de Souza, Hector Costita, Pedro Paulo, Tião Neto e Edson Machado e Radamés Gnatalli e seu Sexteto. Para não deixar de participar desse movimento, fazíamos um Festival de Jazz e Bossa e fundamos uma casa nos moldes do Beco das Garrafas chamada Berimbau. Tínhamos dois grupos fixos atuando - "Tempo Trio", com Helvius Vilela (piano), Paulo Horta (irmão mais velho do Toninho) e eu; "Berimbau Trio" com Wagner Tiso (piano), Milton Nascimento (baixo acústico) e Paulo Braga (bateria). Numa das noites do Berimbau estava presente o Milton Miranda, diretor artístico da EMI-Odeon na época, e contratou o "Tempo Trio" para gravar um LP. Fomos para o RJ 3 meses depois e gravamos em uma semana o disco. Durante nossa estada, a ODEON colocou o Trio para tocar na TV Tupi no Programa do Aerton Perlingeiro, usando para divulgar sua nova contratação. Voltamos e continuamos a tocar em BH e ganhamos o Prêmio de Melhor Grupo de Minas Gerais. Depois deste início auspicioso, a Bossa Nova começou a declinar vertiginosamente pois suas maiores atrações se mudaram para os Estados Unidos.

GC: Você foi muito atuante no final dos anos 60 e início dos anos 70, época de um regime de muita repressão.
PM: Isso aconteceu justamente quando resolvi me mudar para o RJ pois os trabalhos com Bossa Nova e Samba-Jazz simplesmente acabaram em BH. Cheguei ao Rio pronto para trabalhar no que me aparecesse. Tive muita sorte em conhecer dois músicos que foram muito importantes para eu ser aceito no mercado de trabalho do Rio - Maestro Paulo Moura e Osmar Milito. Com o Paulo fizemos a volta da Maysa Matarazzo ao Brasil, na inauguração do Canecão, com grande orquestra, gravação de LP ao vivo; e gravamos o Paulo Moura Hepteto (Darcy da Cruz, Oberdan Magalhães, Constâncio, Wagner Tiso, Luis Alves e eu) e Paulo Moura Quarteto (com a mesma seção rítmica). Com o Osmar Milito inauguramos uma casa noturna chamada "Number One", que logo se tornou o lugar mais importante da musica brasileira no Brasil. No nosso grupo tocavam Marcio Montarroyos, Oberdan Magalhães, Tião Baixo,Osmar Milito e eu. Essa casa era o "point" do Festival Internacional de Musica do Rio de Janeiro, e as atrações iam sistematicamente frequentar o espaço depois das apresentações e aí aconteciam as famosas canjas como o nosso grupo - tocamos com Nancy Wilson, Ella Fitzgerald, Piazolla, Spanky Wilson, Shelly Manne e quase todas as atrações internacionais da época.

GC: Você vivenciou alguma forma de restrição aos músicos e à forma de expressão artística ?
PM: Basicamente essa repressão atingiu os letristas da época. Se por acaso eu estivesse tocando com algum destes compositores, dava para sentir que os repressores foram cruéis. Toquei com Chico Buarque, Edu Lobo e Gonzaguinha, e todos os três tiveram muitas ameaças e musicas interditadas pela repressão.

GC:  Formar-se na Berklee College of Music é uma grande ambição na formação de muitos músicos, e isso aconteceu em uma época  que você já tinha uma carreira consolidada. Foi um momento de amadurecimento ?
PM: Não só foi um momento de amadurecimento, entendi que educação musical é fundamental para qualquer músico deslanchar na sua vontade de crescer. Tenho que agradecer essa grande sorte que tive na vida, e a pessoa que me proporcionou conhecer a forma de aprender música do Berklee College foi o diretor geral da Rede Globo na época - José Bonifácio de Oliveira- o Boni. Na época eu gravava quase que diariamente as trilhas das novelas da Globo, e Boni resolveu ajudar nossa carreira musical - Marcio Montarroyos, Guto Graça Mello e eu fomos agraciados com uma bolsa de estudos de 1 ano. Os dois retornaram e eu resolvi pedir mais 3 anos para terminar minha graduação. Consegui graças a bondade de Robert Share, diretor educacional, que teve sensibilidade para entender meus objetivos.

Cama de Gato Tom Tributo Art Blakey Dubai-Lima: Guitar Project

GC: O "Cama de Gato" aconteceu em um momento muito vivo da nossa Música Instrumental, nos anos 80, e que deu evidência a outros fantásticos músicos. Fale sobre o grupo, que se mantém ativo até hoje.
PM: O CAMA de GATO realmente é um grande trabalho de dedicação, determinação e paciência. Conseguimos inicialmente uma espetacular projeção dentro do mercado mundial, e fizemos shows no Brasil inteiro, torus na Espanha (5 cidades), França (Festival de Jazz de Paris), Bélgica (Festival de Jazz de Bruxelas) e terminamos essa tour no Town Hall em Nova York lançando o selo SOM da GENTE - Rique Pantoja, Arthur Maia, Mauro Senise e eu. Depois da nossa apresentação no Free Jazz Festival em São Paulo, Rique Pantoja teve propostas para se mudar para Los Angeles e resolveu aceitar. Cinco anos depois, Arthur Maia, pressionado pelo volume de trabalho que o Gilberto Gil lhe oferecia, teve que optar para sair pois na sua agenda não tinha mais espaço.Ai entraram Jota Moraes, André Neiva e Mingo Araújo. Nessa segunda formação resolvemos mudar a direção musical para musicas com as raízes brasileiras mais estabelecidas.

GC: Como você desenvolve o processo de composição ?
PM: Como qualquer estudo de um instrumento, o meu processo de composição é trabalhar arduamente numa estrutura harmônica e tentar desenvolvê-la com uma melodia em sintonia com os caminhos harmônicos. Entre 10 musicas que faço com essa estrutura, consigo salvar 1 !!
Esse processo de seleção inclui testar nos nossos ensaios para sentir as reações dos colegas dentro dessa nova ideia musical. Tenho que ter bastante disciplina para entender o que o outro tem a dizer sobre meu trabalho.

GC: Você realizou um disco em tributo a Art Blakey. É uma das suas grandes influências ? 
Fale um pouco sobre os bateristas que o emocionam.
PM: Quando comecei a ouvir Jazz me encantava muito a forma como era apresentado o Jazz Messengers do Art Blakey. Não foi pela forma explosiva que o Blakey tocava. Os arranjos das musicas marcavam muito as nuances tocadas pelos sopros e sonhava com o dia que eu poderia reescrever aqueles arranjos da minha maneira. Isso só foi possível quando estudei arranjo e composição formalmente. E ouvindo as interpretações do Blakey me indicaram o caminho a seguir.
Eu também segui os passos musicais dos bateristas brasileiros daquela época - Edson Machado, Dom um Romão, Hélcio Milito foram importantes pra mim. No jazz, além de Blakey, Tony Williams e Jack DeJohnette. Dentro do Rock Progressivo me interessei muito pelo Bill Bruford, muitas vezes por ele compor músicas inusitadas onde ele mesmo completava a composição com o seu toque baterístico. Passei a compor nesse estilo também, usando esse influência.

GC: Na comemoração dos 50 anos de carreira, também está sendo lançado um documentário sobre essa trajetória intitulado "Ostinato". Fale um pouco sobre.
PM: O Instituto Kreatori, na pessoa de Fabiano Cafure, me convidou para fazermos um documentário no modelo de um curta metragem, com duração máxima de 30 minutos. O principal ponto é vincular esse curta na TV em veículos como Canal Brasil, Curta e Bis. Havendo interesse e procura pensaremos em lançar em formato DVD.
A ideia do formato deste curta foi tentar, em 30 minutos, contar uma carreira de 50 anos. Missão quase impossível, mas conseguimos chegar perto. O Instituto Kreatori fêz um convite para 15 convidados de minha escolha para este almoço e a partir desse encontro, informalmente, ele gravaria depoimentos de todos. Alguns convidados que não puderam comparecer foram localizados após esse almoço e devidamente entrevistados. A segunda parte contém videos de vários shows que fiz durante fases distintas da minha carreira, imagens com o Cama de Gato; com meu quarteto (Daniel Garcia, Sergio Barrozo e João Castilho), com Eumir Deodato e a Sinfônica de Repertório de São Paulo (Victor Biglione, Alex Malheiros e eu na base da Sinfônica), e meu show no Teatro Sucre de Quito no Equador com Alex Carvalho e André Neiva.



GC: Como voce vê a nova geração de bateristas ?
PM: Como sempre, a evolução também influiu na nova geração de bateristas brasileiros e internacionais - Brian Blade, que também compõe muito bem e toca uma bateria muito sensível ao que a musica pede; Vinnie Colaiuta, por seu virtuosismo; e dos novos brasileiros me emocionam o Rafael Barata e o Kiko Freitas.

GC: Novos projetos a caminho ?
PM: Vou procurar sempre desenvolver minha composição pois ela vai ditar como posso interpretar bateristicamente o que transformo em música. E também continuar a ouvir muito Música Clássica e Contemporânea para sempre aprender com os mestres.
Estou preparando material inédito para o meu próximo CD autoral, que quero lançar no segundo semestre de 2015.

O disco "50" você encontra na Livraria Arlequim
Pedidos pela internet no e-mail pascoalmeirelles@yahoo.com.br e em sua página no Facebook

Obrigado Pascoal Meirelles, e vida longa à sua Música.



Leia também sobre "Dubai-Lima Guitar Project" -

Dubai-Lima: Guitar Project