BEATLES POR TULIO MOURÃO

27 janeiro, 2015
É inegável a influência dos Beatles no jazz. Uma tendência que se materializou, ainda nos anos 60, nas interpretações de Ella Fitzgerald para "Hey Jude", "A Hard Days Night" e "Can´t Buy me Love", e Wes Montgomery com "A Day in the Life", que, inclusive, foi título de seu álbum.
Na música contemporânea, surpreendentes interpretações solo como em "Eleanor Rigby" por Stanley Jordan, "Come Together" por Michael Hedges e "And I Love Her" por Pat Metheny; além de álbuns inteiros em tributo protagonizados por George Benson (The Other Side of Abbey Road, 1970) e John Pizzarelli (Meets the Beatles, 1998). Esses citados são uma amostra entre tantas outras versões e tributos.


Em foco aqui o pianista mineiro Tulio Mourão, que apresenta o álbum Come Together: Tulio Mourão Plays Beatles, em um verdadeiro passeio pelo repertório do quarteto de Liverpool com uma roupagem bastante particular, recheada de improvisos.
No repertório estão "Lady Madonna", "Can´t Buy me Love", "Here There and Everywhere", "Black Bird", "And I Love Her", "Eleanor Rigby", "Come Together", entre outras. Ao lado do piano de Tulio Mourão, que também fez a direção musical e arranjos, estão Eneias Xavier, Pablo Souza e Vagner Faria no contrabaixo, e Lincoln Cheib e Edivaldo Ilzo na bateria.

Nas breves palavras escritas no encarte do álbum, Tulio afirma que tocar Beatles não se trata de escolha, mas fundamentalmente de identidade; e que algumas das canções do álbum tiveram força para tornar a Música sua escolha profissional, e que, além de mero registro, é um emocionado tributo.

tuliomourao.com.br/


ALTA PRESSÃO COM TONY MONACO

17 janeiro, 2015
Uma sessão realmente explosiva registrada no álbum Fiery Blues, do organista Tony Monaco.
A fórmula do orgão Hammond no Blues realmente coloca pressão no caldeirão, e este álbum é energia pura.
No repertório, alguns clássicos do Blues tradicional como "Every Day I Have the Blues", "Crosscut Saw", "Stormy Monday", estas que contaram com a voz de Willie Pooch; e ainda "All Blues" (Miles), "The Preacher" (Horace Silver) e "Mellow Soul" (Don Patterson).

E onde tem um orgão Hammond, não pode faltar uma guitarra também incendiária. Aqui, Tony Monaco está acompanhado pelos guitarristas Robert Kraut, Derek DiCenzo e Tom Carroll; os bateristas Louis Tsamous e Jim Rupp; e Gene Walker no sax tenor.

Tony Monaco teve como mentor ninguém menos que Jimmy Smith, a quem ouviu aos 12 anos de idade, percebendo, ali, que o Jazz era o seu caminho. Ainda adolescente, já estava nos palcos de Columbus, sua cidade natal no estado de Ohio, e tinha como guru o também organista Don Patterson. Aos 16 anos já estudava com Jimmy Smith, que mais tarde o convidou para tocar em seu clube de Jazz na California.
Quem produziu seu primeiro álbum, "Burnin Grooves" (2001, Summit Rec), foi o organista Joey deFrancesco, que também participou da gravação ao lado do guitarrista Paul Bollenback e o baterista Byron Landham. Tony ganhou destaque e passou a ser bastante requisitado, aparecendo em gravações ao lado de Pat Martino, Harvey Mason, Terrell Stafford, Eric Alexander, Russell Malone, Peter Bernstein, Kevin Mahogany, entre muitos outros.



Fiery Blues (2004, Summit Rec)
www.b3monaco.com/

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OURO SOBRE AZUL

08 janeiro, 2015
Andre Mehmari
foto : Maristela Martins
André Mehmari é um dos mais talentosos e criativos pianistas da nossa Música Instrumental.
Na infância, encontrou a música por influência de sua mãe, também pianista, que ouvia Chopin, Tom Jobim e Scott Joplin, e o pai, apreciador de Música Clássica. Esse interesse pela arte o levou a descobrir o Jazz, a improvisação e o piano erudito, quase como autodidata, e ainda adolescente já ensinava e compunha peças musicais infantis. Toda essa musicalidade e virtuosismo o fez vencedor do Prêmio VISA Instrumental em 1998, época em que gravou seu primeiro álbum, Odisséia, ao lado do contrabaixista Célio Barros e o baterista Sergio Reze, um registro de verdadeira alma jazzística.
Construiu uma bela discografia, em que destaco os álbuns Canto (2002); o belíssimo "Lachrimae" (2003); dois álbuns com Hamilton de Holanda - Continua Amizade (2007) e Gismonti-Pascoal (2011), este em tributo a dois gigantes da nossa música; um registro em piano solo em homenagem ao Clube da Esquina (2008); e o excelente duo de piano com Mario Laginha, gravado ao vivo no Ibirapuera. Todos registros obrigatórios.

Mehmari apresenta mais um belíssimo trabalho, Ouro sobre Azul, em que recria o repertório de Ernesto Nazareth. É mais uma homenagem ao compositor, cujo registro surgiu a partir de um convite do Instituto Moreira Sales para que ele apresentasse um concerto em homenagem aos 150 anos de Ernesto Nazareth, em março de 2013, época em que este álbum foi gravado. Para Mehmari, a música de Nazareth tem importância e reconhecimento históricos, como Pixinguinha e Villa Lobos.

Ouro sobre Azul

Ernesto Nazareth nasceu na capital carioca em 1863, pianista autodidata, a quem Villa Lobos dedicou seu "Choros nº 1", para violão. O tema "Brejeiro", escrito em 1893, um de seus grandes sucessos, ganhou repercussão no ano de 1914 e teve seu registro publicado na Europa e EUA. O tema recebeu grandes interpretações, e deu ao violonista Yamandu Costa o destaque e o Prêmio Visa Música Instrumental em 2001. Ernesto Nazareth faleceu aos 70 anos em 1934, e nos deixou amplo repertório entre tangos, valsas, sambas, marchas, entre tanta diversidade em cerca de 200 composições.

Para Mehmari, ainda permanecem as lembranças da infância na música de Ernesto Nazareth, que tanto o fascina e assombra, e que se amalgama em seu mais sagrado lugar de seu ouvido-coração musical, como ele mesmo diz nas breves linhas do encarte do álbum, que ainda traz o relato descritivo do pianista e pesquisador Alexandre Dias e sua percepção sobre o trabalho, afirmando que podemos ouvir Ernesto Nazareth em combinações raras, assim, em resumo -

abre aspas
A "Sagração da Primavera" (Stravisnki) se mescla com "Reboliço", fazendo um paralelo inédito entre dois mundos e continentes aparentemente tão distantes. Ouvimos o tema de Tristão e Isolda (Wagner) se transfigurando no tango "Furinga". Citações de Beethoven, Chopin, Ravel, Gismonti, Gonzagão e Guinga; em que todos esses intercruzamentos acabam por evidenciar novos ângulos da obra de Nazareth, até então ocultos. Mehmari tem um método engenhoso em desconstruir a peça até seus motivos mais celulares em "Famoso", e depois reconstruir a partir de seus contratempos e dissonancias em "Fon-Fon".
Mehmari brinca com as tonalidades sem pedir licença e faz uso  proposital de "notas erradas", empréstimos de tons distantes, sempre surpreendendo o ouvinte. E mostra, de uma vez por todas, que a obra de Nazareth não é "de um mundo caduco", mas sim matéria prima em ebulição pronta para infinitas releituras contemporâneas.
fecha aspas

O álbum traz as participações do contrabaixista Neymar Dias e do baterista Sergio Reze em 3 faixas - "Ouro sobre Azul", "De Tarde" e "Suite Bis".

Obrigatório !