OURO SOBRE AZUL

08 janeiro, 2015
Andre Mehmari
foto : Maristela Martins
André Mehmari é um dos mais talentosos e criativos pianistas da nossa Música Instrumental.
Na infância, encontrou a música por influência de sua mãe, também pianista, que ouvia Chopin, Tom Jobim e Scott Joplin, e o pai, apreciador de Música Clássica. Esse interesse pela arte o levou a descobrir o Jazz, a improvisação e o piano erudito, quase como autodidata, e ainda adolescente já ensinava e compunha peças musicais infantis. Toda essa musicalidade e virtuosismo o fez vencedor do Prêmio VISA Instrumental em 1998, época em que gravou seu primeiro álbum, Odisséia, ao lado do contrabaixista Célio Barros e o baterista Sergio Reze, um registro de verdadeira alma jazzística.
Construiu uma bela discografia, em que destaco os álbuns Canto (2002); o belíssimo "Lachrimae" (2003); dois álbuns com Hamilton de Holanda - Continua Amizade (2007) e Gismonti-Pascoal (2011), este em tributo a dois gigantes da nossa música; um registro em piano solo em homenagem ao Clube da Esquina (2008); e o excelente duo de piano com Mario Laginha, gravado ao vivo no Ibirapuera. Todos registros obrigatórios.

Mehmari apresenta mais um belíssimo trabalho, Ouro sobre Azul, em que recria o repertório de Ernesto Nazareth. É mais uma homenagem ao compositor, cujo registro surgiu a partir de um convite do Instituto Moreira Sales para que ele apresentasse um concerto em homenagem aos 150 anos de Ernesto Nazareth, em março de 2013, época em que este álbum foi gravado. Para Mehmari, a música de Nazareth tem importância e reconhecimento históricos, como Pixinguinha e Villa Lobos.

Ouro sobre Azul

Ernesto Nazareth nasceu na capital carioca em 1863, pianista autodidata, a quem Villa Lobos dedicou seu "Choros nº 1", para violão. O tema "Brejeiro", escrito em 1893, um de seus grandes sucessos, ganhou repercussão no ano de 1914 e teve seu registro publicado na Europa e EUA. O tema recebeu grandes interpretações, e deu ao violonista Yamandu Costa o destaque e o Prêmio Visa Música Instrumental em 2001. Ernesto Nazareth faleceu aos 70 anos em 1934, e nos deixou amplo repertório entre tangos, valsas, sambas, marchas, entre tanta diversidade em cerca de 200 composições.

Para Mehmari, ainda permanecem as lembranças da infância na música de Ernesto Nazareth, que tanto o fascina e assombra, e que se amalgama em seu mais sagrado lugar de seu ouvido-coração musical, como ele mesmo diz nas breves linhas do encarte do álbum, que ainda traz o relato descritivo do pianista e pesquisador Alexandre Dias e sua percepção sobre o trabalho, afirmando que podemos ouvir Ernesto Nazareth em combinações raras, assim, em resumo -

abre aspas
A "Sagração da Primavera" (Stravisnki) se mescla com "Reboliço", fazendo um paralelo inédito entre dois mundos e continentes aparentemente tão distantes. Ouvimos o tema de Tristão e Isolda (Wagner) se transfigurando no tango "Furinga". Citações de Beethoven, Chopin, Ravel, Gismonti, Gonzagão e Guinga; em que todos esses intercruzamentos acabam por evidenciar novos ângulos da obra de Nazareth, até então ocultos. Mehmari tem um método engenhoso em desconstruir a peça até seus motivos mais celulares em "Famoso", e depois reconstruir a partir de seus contratempos e dissonancias em "Fon-Fon".
Mehmari brinca com as tonalidades sem pedir licença e faz uso  proposital de "notas erradas", empréstimos de tons distantes, sempre surpreendendo o ouvinte. E mostra, de uma vez por todas, que a obra de Nazareth não é "de um mundo caduco", mas sim matéria prima em ebulição pronta para infinitas releituras contemporâneas.
fecha aspas

O álbum traz as participações do contrabaixista Neymar Dias e do baterista Sergio Reze em 3 faixas - "Ouro sobre Azul", "De Tarde" e "Suite Bis".

Obrigatório !