UM POUQUINHO DO QUE ROLOU NO RIO DAS OSTRAS JAZZ E BLUES 2015

25 agosto, 2015
Não há crise que supere o poder da música, e foi sobre essa magia que aconteceu a décima terceira edição do Festival de Rio das Ostras, entre os dias 20 e 23 de agosto. Apesar da diminuição da grade de atrações, mas nem por isso menos interessante, o festival comprovou porquê é um dos maiores e melhores festivais desse país.
Não pude curtir a note de abertura do festival, mas me restaram outras duas noite de absoluta intensidade de acordes e vibrações musicais que, como sempre, me reservaram algumas surpresas.

Omar Hakim Experience

O festival começou pra mim com o som do grande baterista Omar Hakim e seu grupo Experience, acompanhado por uma super banda formada pela sua esposa e tecladista Rachel Z,  o irrevente Scott Tibbs também nos teclados, o sax de Bob Franceschini, o baixista elétrico Jerry Brooks e o guitarrista Nic Moroch. Brooks e Nic já estiveram em edições passadas, o primeiro ao lado do trompetista Michael Stewart e o segundo na edição dos 10 anos do festival ao lado de David Sanborn. Omar desfilou muita técnica, fez uso de vocalizes e deu muito espaço para os integrantes do grupo, explorando bastaste os teclados de Scott e os belos improvisos de Nic Moroth; além de Franceschini, a frente do grupo, alternando entre o tenor e flauta. Passagens bem contemporâneas, progressivas, e em destaque o repertório do álbum "We are One" com os temas "Remember to Remember", "Transmigration", "With Every Breath" e "Walk the Walk".

A noite seguiu e ficou mais intensa com a voz e guitarra da texana Carolyn Wonderland. A ruiva é simplesmente espetacular, cresce ao vivo, e com seus cabelos de fogo incendiou a platéia com sua postura às vezes teatral, às vezes dramática, e pulsando uma energia fora do comum. Ela estava realmente feliz em estar no palco, na formação de organ trio formado por Kevin Lance na bateria e Cole El-Saleh nos teclados, fazendo o baixo num pequeno e simples teclado conectado a um vintage Alexis NanoBass.
Que apresentação desta moça, uma voz rasgada e o estilo fingerstyle de tocar guitarra, uma bela Telecaster Thinline. Alternou com um Lap-Steel em algumas composições e fez um repertório que não escondeu reverência a Blind Willie Johnson e B.B.King, e muito Blues. A sensação do festival.

Carolyn Wonderland

Fechando o palco principal, a nova identidade do Blues nacional, o guitarrista Artur Menezes, acompanhado por Nino Nascimento no baixo elétrico, Mateus Schanoski no hammond e Wladimir Catunda na bateria. No repertório, seu recente álbum "Drive Me". Um privilégio para Artur estar pela segunda vez no festival e fechando a noite no palco principal. Manteve muita interação com o público e, na melhor tradição, foi tocar junto com a galera.

Sábado de tarde parti para o palco de Iriri em dose dupla - novamente a apresentação de Artur Menezes, aqui com uma canja da gaita de Jefferson Gonçalves; e o guitarrista inglês Matt Schofield, este que eu queria muito assistir pois perdi sua apresentação noite de abertura, mas foi a oportunidade de conferir no palco mais fervoroso do festival. Matt em formação de organ trio, ao lado de Jonny Henderson no hammond B3 e Kevin Hayes na bateria. Sua primeira apresentação em palcos brasileiros e, eu, fã de carteira do inglês, assisti quase que anestesiado ao lado do palco uma performance impecável, com direito a um slow blues quase que lisérgico, levadas funkeadas e muita pegada na sua guitarra modelo strato SVL.

Gabriel Grossi e Arismar do Espirito Santo
A noite de sábado começou com estilo. A harmônica de Gabriel Grossi coloca, sem dúvida, a música instrumental brasileira em um nível de excelência ímpar. Grossi estava acompanhado por Bruno Aguilar no baixo elétrico, Caio Marcio no belo violão do luthier Ricardo Amantea e Cassius Theperson na bateria; e um convidado muito especial - o gigante Arismar do Espírito Santo. A abertura foi com "Dama de Ouro", tema do acordeonista Bebe Kramer, com quem Gabriel gravou o álbum "Realejo"; seguiu com "Ruidos Urbanos" em um improviso estonteante de Gabriel e espaço para Caio, Bruno e Cassius. Homenageou as Minas Gerais com "Forrozinho Seus"; e em uma mistura de ritmos e tendências, lembrou Hermeto em "Suite Norte Sul Leste Oeste". Fez analogia ao jargão "Toca Raul", citando o 'Seixas' e o 'de Souza', e, num prelúdio solo, citou Trenzinho Caipira de Villa-Lobos de forma magnífica. Foi a hora de chamar ao palco Arismar, que abraçou uma bela Ibanez GB10 e atacou de "Cadê a Marreca", "Chutando o Côco", e uma reverência a Gil e Dominguinhos na belíssima "Lamento Sertanejo", e com muito groove. Uma apresentação emocionante.

Outro grande nome desta edição, Robben Ford subiu ao palco em formação de power trio ao lado do baixista Brian Allen e  do baterista Wes Little. Um setup matador, envenenado por um amp Dumble e caixa Mesa Boogie com um som realmente impecável. Alternando com as guitarras SG e Telecaster, explorou o repertório de seu álbum “Into the Sun” e homenageou dois outros gigantes do Blues – Freddie King com “Cannonball “Shuffle” e B.B.King com “Indianola”. Muito espaço para Brian, que fez um solo absurdo ao lado de Wes, momento em que o líder retirou-se do palco deixando ambos em total liberdade. Um gigante, sempre com muito calor em suas apresentações ao vivo.

Robben Ford

Depois da intensa apresentação de Ford, sobe ao palco o Incognito, um dos meus grupos favoritos dos anos 90.
Liderado pelo guitarrista Paul 'Bluey' Maunick, mostrou um repertório com muito balanço nas vozes de Tony Momrelle, Vanessa Haynes e Katie Leone e uma super seção de metais, Foi a oportunidade de reviver os álbuns "Positivity", "Tribes, Vibes and Scribes" e "Inside Life" nos temas "Colibri", "Talkin Loud", "Still a Friend of Mine" e "Always There", além dos clássicos de Stevie Wonder "Star Up in the Sky" e "Don´t Worry About a Thing", e "Brazilian Love Affair" de George Duke. Tem que destacar a parte da improvisação em duo do baterista Francesco Mendolia e do percussionista João Caetano.

Não fiquei para o show do Dwayne Dopsie; mas quem lá esteve afirmou que a festa continuou com muita intensidade. E assim, já esperamos uma próxima edição.

DRIVE ME

09 agosto, 2015
Artur Menezes é, sem dúvida,  um dos grandes nomes que surgiram na guitarra Blues nacional. Com o lançamento de seu terceiro álbum, Drive Me, se consolida como mais que um grande guitarrista, mostrando que a veia de composição está muito viva.
Drive Me traz 9 temas, 8 deles autorais e cantados em inglês, e 1 interpretação do tema "Cartão Postal", resgate do original composto por Rita Lee em um dos álbuns mais fantásticos do Rock Brasil - Tutti Fruti (1975).

Um super time está ao seu lado neste trabalho - Wladimir Catunda na bateria e Nino Nascimento no baixo, os convidados muito especiais Jefferson Gonçalves na gaita e Adriano Grineberg no hammond e piano elétrico, as vozes de Eloiza Paixão e Estela Paixão, e os metais de Paulo Malheiros no trombone, Sidmar Vieira no trompete e Luiz Neto no sax tenor.

Artur Menezes

Um imponente Chevrolet Impala sessentão ilustra a capa do álbum, e é o ronco dos motores que abre o repertório com o tema título em um Country-Rock contagiante. Mantendo a pressão, "I Have Screwed Up" coloca balanço cadenciado na forma Blues; e a pegada Rock se faz presente em "Bitterness", todas com intensos improvisos.
A balada "Getting Cold" ganha um ar Soul com a adição dos metais, e não diferente desse clima está "More Than You Know", ambas com desenhos de solos interessantes e um registro mais clean da guitarra.
Os metais também se mostram pontuais para a funkeada "Too Soon"; e dois temas instrumentais - "Novos Ares" e "Nosso Shuffle", esta com aquela atmosfera Texas Blues.
Fechando o álbum, o único tema cantado em português, "Cartão Postal", em duo acústico com a harmônica de Jefferson Gonçalves.

Com a palavra, Artur Menezes -

GC: "Drive Me" é mais um passo importante na sua carreira. Como deu-se a ideia desse trabalho? 
AM: É o meu terceiro disco solo. Estou muito feliz com o reconhecimento, pois o disco está maravilhoso e o público e crítica estão gostando bastante. A ideia foi a de seguir naturalmente nessa onda de fazer um Blues moderno misturando com vários outros estilos que gosto, como Funk, Soul, Rock e Country.

GC:  Talento e criatividade o levaram a representar boas marcas de instrumentos; e tem um pedal de efeito "drive" com seu nome. É importante essa parceria entre fabricante e músico? 
AM: Sim, é bem importante, mas não é essencial. Mas é interessante ter o nome vinculado a grandes marcas. Traz uma espécie de selo de qualidade e reconhecimento pelo trabalho. A parceria mais recente que fechei foi com a Suhr Guitars, uma das melhores guitarras no mundo, realmente um instrumento excepcional.

GC: Filho de cantora, Lucia Menezes, influência musical que vem de berço. Assim sendo, a música sempre foi regra em casa, certo? O que Artur Menezes sempre ouviu e, hoje, gosta de ouvir? 
AM: Isso. Desde criança vivo neste ambiente musical. O que eu costumo ouvir varia bastante, depende do momento. Às vezes descubro um artista que me emociona e então fico um bom tempo escutando e estudando sua obra. Um cara que venho escutando bastante ultimamente é o guitarrista Matt Schofield. O mais bacana é que o meu segundo show no Rio das Ostras Jazz & Blues Festival este ano vai ser antes do show do Matt.

Artur Menezes

GC:  Você partiu cedo para vivenciar a Música nos EUA, em Chicago, terra de tradição do Blues. O quão importante foi essa experiência na sua formação como músico? 
AM: Foi legal beber o Blues direto da fonte. Ao vivo, a música bate mais forte, entra por osmose, então peguei bastante do estilo ouvindo e tocando junto, essas coisas. Mas o mais importante nesta experiência foi ver que lá na terra do Blues os artistas mais velhos e tradicionais estavam mesclando o Blues com outros estilos como Hip-hop, Funk e Soul, e isso me deu o estalo pra poder fazer um Blues sem amarras e sem estar preso em fórmula ou figurino. Pensei - "Poxa, se aqui no EUA, terra do Blues, muitos artistas, até da velha guarda, não estão com essa obrigação de serem tradicionais, por que eu, cearense, brasileiro, teria que ser?"

GC: Você vem conquistando seu espaço com um trabalho de muita qualidade, e recentemente levou seu som em turnê pela Europa e México. O mundo respira Blues? 
AM:  Acredito que sempre vai. O Blues nunca vai morrer, é uma música muito forte e cheia de sentimento. Costumo dizer que existem dois tipos de pessoas - as que gostam de Blues e as que não o conhecem. Quem conhece passa a gostar. O que acontece é que o estilo não recebe a atenção e reconhecimento merecido da grande mídia, mas tenho certeza que isso vai mudar.

GC: Duas faixas instrumentais em "Drive Me". Podemos esperar um trabalho nessa linha no futuro? 
AM:  Não tenho muita vontade de fazer um disco todo instrumental. O que noto é que um trabalho todo instrumental é muito apreciado por músicos e por um público mais restrito. A canção é mais acessível e conquista mais gente.

Obrigado Artur Menezes, e Sucesso.



Arte da capa do álbum é de Pedro Grangeiro e fotografia de Ana Lu Grosso.
Artur Menezes é endorser da Suhr Guitars, Fire Custom Pedals e Santo Angelo Cables.