ANTÍTESE

22 fevereiro, 2016
Os guitarristas Ivan Barasnevicius e Rodrigo Chenta apresentam o disco Antítese, o segundo do duo, trazendo um repertório totalmente autoral em que elementos experimentais são criados no momento da execução, fazendo uso de jogos de improvisação e aplicando partes literalmente livres.
Muita interação entre eles, passeando pelos ritmos brasileiros, a bossa, o jazz moderno, o samba e o groove. Como eles afirmam, a diversidade de timbres é uma das características mais marcantes do duo. Rodrigo Chenta, no canal esquerdo, prioriza a utilização do som acústico de seu instrumento; Ivan Barasnevicius, no canal direito, dá mais ênfase ao som do amplificador. O disco foi gravado ao vivo, sem overdubs, e o resultado é espetacular, mostrando mais uma vez a nossa música instrumental em estado de excelência.


Com a palavra, Ivan Barasnevicus e Rodrigo Chenta -

“Antítese” é o segundo trabalho do duo. Que aprendizado vocês tiveram nesse tempo tocando juntos?
Rodrigo Chenta: ​Com este tipo de produção musical aprende-se muito sobre arranjo e as diversas possibilidades de execução de uma mesma música. As soluções para esta formação instrumental aparecem mais rapidamente com o tempo, e tudo parece sair mais naturalmente. De uma forma geral, tudo fica mais fácil com o tempo.
Ivan Barasnevicius: ​Certamente aprendemos a ter cada vez mais cuidado com a execução, pois neste tipo de situação tudo fica muito mais aparente. Desenvolvemos também novas soluções para os arranjos não se tornarem repetitivos. Essa busca, sem sombra de dúvida, adicionou bastante para a nossa vivência musical e estudo do instrumento. É algo contínuo, que vamos desenvolver
mais e mais.

Ritmos brasileiros, introspecção e improvisações livres se fazem muito presentes no repertório. Como se deu a concepção desse novo trabalho?
Rodrigo Chenta: Ao concluir que existiam três vertentes neste recente trabalho, como canções mineiras, jogos de improvisação e mais da estética abordada no primeiro disco gravado, foi fácil chegar no conceito de antítese que já fazia parte do duo implicitamente. A parte gráfica do CD trabalha o conceito de antítese em vários pontos, como a troca das imagens dos integrantes do duo em relação ao logo na capa, as partituras escritas à mão e as com o uso de editores de partituras, os
tempos de duração das músicas, etc. No caso da improvisação livre, ela aconteceu somente na parte B da música “Crossfades”, que é um misto de jogo de improvisação com improvisação livre criado pelo Ivan.
Ivan Barasnevicius: ​De alguma maneira, esse é um retrato das nossas influências no momento da elaboração do trabalho, das coisas que estávamos ouvindo e pesquisando. Embora o conceito de antítese presente no disco seja bastante claro, trata-­se de um processo natural que aconteceu em nossas composições dessa época. Não é algo forçado, assim como a concepção do “Novos Caminhos” também não foi. Certamente o terceiro trabalho trará uma outra proposta, mas que, apesar de diferente das anteriores, certamente reforçará a identidade sonora do duo.

De que forma "Antítese" se relaciona com o primeiro disco do duo “Novos Caminhos”?
Rodrigo Chenta: O disco “Antítese” possui grandes diferenças quando comparado com o “Novos Caminhos”, mas possui mais do que aconteceu no primeiro CD como o distanciamento do tradicional formato standard nas execuções e improvisações, a preocupação com a diversidade timbrística dos instrumentos, o uso de estruturas muitos distintas dos respectivos temas na hora da improvisação, e outras coisas mais.
Ivan Barasnevicius: ​O disco “Antítese” apresenta um aprofundamento de algumas questões que já foram trazidas pelo duo em “Novos Caminhos”. Por exemplo, a improvisação mais livre já havia sido abordada na música “Contrastes”, peça solo do Rodrigo. Porém, não tínhamos feito experiências mais radicais, como fizemos no segundo disco com “Crossfades” e “Antítese”. A preocupação com a elaboração de melodias cantáveis já tinha acontecido em “Valsa para Ana” e “Novos Caminhos”, mas certamente aconteceu em maior escala no segundo trabalho, com os dois temas de “Suite#1”, “Faça­-se a luz!” e “Nove Horas”.

Ivan Barsnevicius Rodrigo Chenta

Há uma referência no título do tema “Suite #1” ao guitarrista Derek Bailey, um ícone da improvisação livre. O quanto esse movimento inspira a música de vocês? 
Rodrigo Chenta: Esta é uma homenagem do Ivan para o Derek Bailey, o guitarrista que mais levantou esta bandeira. Particularmente, me interessa bastante esta sonoridade muito abordada pelo ingleses como Evan Parker, Han Bennik, Gavin Bryars e todo o catálogo da gravadora britânica Incus. É uma proposta bastante radical na quebra de paradigmas e que leva a improvisação a um nível com muito mais liberdade. Já havia gravado no disco “Novos Caminhos” uma improvisação chamada “Contrastes”, que, apesar de ter alguns idiomas, é bastante livre quanto ao ritmo, notas, forma e convencionalidade na maneira de execução do instrumento. A citação de "Donna Lee" é uma brincadeira que os dois gostam muito de fazer. Somente para falar das minhas, na música “Novos caminhos 2” citei no meu primeiro solo “Fear of the Dark” do Iron Maiden, e no improviso da coda na mesma música citei “Question and Answer” do Pat Metheny e “Valsa para Ana” do Ivan Barasnevicius. Isso é muito comum de se ouvir nas improvisações aqui no Brasil. É uma brincadeira muito saudável.
Ivan Barasnevicius: ​Quando pesquisávamos sobre a sonoridade do Derek Bailey, um disco que chamou muito minha atenção foi Ballads (2002). Veja a maneira como ele trata tão conhecidos standards como “Body and Soul” e “Stella By Starlight”. Me parece mais ousada do que ele o que ele fez em discos como "Pieces for Guitar" (1966) ou "Guitar, Drums’n’Bass" (1996). É um tratamento bastante violento para estas belas composições sobre as quais os músicos normalmente gostam de fazer belos solos; e isso foi bastante impactante para mim. Quando estava compondo “Suite#1”, comecei a pensar de que forma poderia trazer a concepção de Derek Bailey para esta peça. A melodia do primeiro movimento é bastante marcante, e seria um chorus muito confortável para improvisar, mas essa seria uma solução usual. Então pensei em colocar no segundo movimento da “Suite#1” algo bastante caótico: uma guitarra improvisando frases rápidas e sem uma tonalidade pré­ definida, enquanto que a outra deve improvisar utilizando apenas harmônicos naturais. Tudo sem nenhuma relação aparente com o tema inicial. A minha citação de "Donna Lee" acontece de forma proposital, e funciona como um aviso: a partir dela, o Rodrigo deve improvisar utilizando somente harmônicos naturais. Vale lembrar também um procedimento presente nessa composição que remete ao conceito não-­standard citado pelo Rodrigo anteriormente. Se olharmos para “Suite#1 (For Derek Bailey)” como uma peça só, veremos que temos um tema no começo, um jogo de improvisação no meio e no final outro tema diferente do existente no começo da peça, ou seja, o oposto do que acontece normalmente, quando o mesmo tema é tocado no início e no fim da peça.

Para essa sessão, como se deu o processo de gravação e que equipamentos usaram? 
Rodrigo Chenta: Usei uma guitarra acústica com encordoamento flat .013 e com ação das cordas bastante alta. Isso reflete na tocabilidade do instrumento e na sonoridade almejada. Foi utilizado um amplificador transistor microfonado mais o som de linha apenas para acrescentar se necessário. No entanto, o som no meu caso, veio principalmente dos microfones sendo um na frente da guitarra para que houvesse a captação do som acústico do instrumento e outro para ambiência da sala. Gravamos tudo ao vivo mas em salas separadas para preservar ao máximo o timbre de cada guitarra e não ter vazamentos indesejados. Em relação aos efeitos usamos apenas um leve reverb.
Ivan Barasnevicius: ​Utilizei uma única guitarra acústica com encordoamento do tipo flat .011. Utilizo a ação das cordas baixa, de forma a facilitar o meu trabalho, mas não em um nível onde tudo fica muito fácil de trastejar. Gravei o disco todo com apenas um amplificador transistorizado de 130w com dois falantes de 12”. Embora o André Ferraz tenha usado um microfone para captar a ambiência da sala, um na frente da guitarra e mais um na frente do amplificador, este último teve de longe a maior importância. Muitos guitarristas de jazz costumam fechar o tone da guitarra para obter um som mais aveludado e utilizar em diferentes níveis o botão de volume da guitarra para alterar o ganho. Normalmente utilizo o tone e o volume sempre abertos, e neste trabalho com o duo o captador utilizado é sempre o do braço. Uso apenas a mão direita para variar a dinâmica.

Obrigado Ivan e Rodrigo, e sucesso.



Você pode adquirir o disco na CDBaby,com
www.rodrigochentaeivanbarasneviciusduo.com

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Novos Caminhos O espaço-tempo de Ivan Barasnevicius

PAISAGEM SONORA, PELAS MÃOS DO GUITARRISTA EUDES CARVALHO

13 fevereiro, 2016
A palavra soundscape, de origem inglesa, refere-se a um dos elementos da ambientação acústica. O termo foi criado pelo compositor e ambientalista canadense Murray Schafer, cuja ideia consiste, em resumo, na percepção dos sons naturais, nas expressões sonoras dos seres vivos e os sons originados pela indústria tecnológica; enfim, tudo que pode ser sensibilizado pelo ouvido humano. A definição do termo foi padronizada pela ISO (International Organization for Standardization) em 2014.

Eudes Carvalho, guitarrista, violonista e compositor, protagoniza essas formas sonoras com o lançamento de seu primeiro álbum solo, Paisagem Sonora.
Natural de Brasília, iniciou na música ainda adolescente guiado pelo som do rock, da mpb e do pop, mas foi na Escola de Música de Brasília que descobriu o jazz e fez dele seu principal meio de expressão. Mestre pela própria universidade, partiu para a América e ingressou na University of Louisville, motivado por um programa de intercâmbio do governo brasileiro, e lá teve a oportunidade de estudar ao lado de Eddie Gomez, Lionel Loueke e Jamey Aebersold, entre outros.
Eudes também é integrante do grupo BeJazz.


Com pleno domínio da linguagem do jazz e com registro bem clean da sua guitarra, Eudes Carvalho apresenta em Paisagem Sonora um repertório de 11 composições, 7 autorais, em que mostra a força do nosso instrumental contemporâneo nos temas "Seu Olhar", "Amanhã" e "O Prazer de Viver" (Eudimar Braga, Eudes Carvalho); e nas belíssimas baladas "Saudade", "Novembro" (Naiara Lima) e "Bye Bye Brasilia" (Paulo André Tavares). O traço jazzístico aparece forte em "Avenida Sucupira", "SG4" e "4th St"; carrega o blues a la Wes em "Terça na Pinguela" (Jonathan Gardner); e traz um ar mineiro em "Minha Fotografia da Serra Dourada" (Hamilton Pinheiro).
Um belo registro da nossa música instrumental, em que Eudes Carvalho traz ao seu lado o contrabaixista Oswaldo Amorim, o pianista Misael Silvestre e o baterista Pedro Almeida.

Com a palavra, Eudes Carvalho -

O quanto é desafiador lançar um álbum de música instrumental por aqui?
Lançar um disco instrumental no Brasil é um desafio gigantesco, quem já viveu isso sabe do que estou falando. Este desafio começa na captação de recursos financeiros, e se estende por todo o processo - desde a gravação até a prensagem do CD e durante a divulgação e lançamento do trabalho, fase esta na qual me encontro no momento. Neste trabalho contei com a ajuda de muitos amigos e de pessoas que realmente acreditaram no meu som. Tenho que ressaltar  também a importância da Secretaria de Cultura e do Fundo de Amparo a Cultura do Distrito Federal (FAC-DF); fui contemplado no Edital Cassia Eller e isto me ajudou na captação de recursos financeiros para a realização do projeto.

Fale um pouco sobre os músicos que o acompanham no álbum.
São grandes amigos e a participação deles na gravação deu um toque especial. O responsável pelos pianos, Misael Silvestre, é um grande músico da cidade e possui uma forma pessoal de tocar e se expressar; na bateria, Pedro Almeida trouxe toda a fluência musical que possui, o que ajudou na construção da concepção do trabalho; e Oswaldo Amorim no contrabaixo acústico, intitulado entre os melhores contrabaixistas do Brasil, músico ativo no cenário musical brasiliense, foi meu professor na Escola de Música de Brasília e teve papel fundamental na minha formação musical.


O jazz se tornou predominante na sua formação. Que influências você carrega na sua música?
Eu tive meu primeiro contato com a música por volta dos 16 anos ouvindo rock e mpb, mas foi na Escola de Música de Brasília (EMB) por influência do professor Genil de Castro que descobri o jazz e comecei a me dedicar ao estilo. Mais pro fim do curso na EMB, tive contato com outro músico aqui de Brasília muito importante na minha formação chamado Paulo André Tavares, ele trouxe o lado do violão brasileiro me apresentando músicos como Toninho Horta, Hélio Delmiro e Lula Galvão. As minhas principais influências são os grandes músicos de jazz como Bill Evans, Jon Coltrane e Miles Davis, mas não posso deixar de lado músicos brasileiros como Tom Jobim, Hermeto Pascoal, Victor Assis Brasil, Milton Nascimento e Toninho Horta, que sempre me fascinaram com suas composições. Sobre os guitarristas de jazz sempre me chamou muita atenção aqueles que tocam com guitarras acústicas ou artchops estilo 175 ou L5. Acredito que, principalmente, por causa da sonoridade clássica da guitarra jazz. Os mais importantes na minha formação são Wes Montgomery, Jim Hall, George Benson e Pat Metheny, sendo que ultimamente tenho ouvido muito Peter Bernestein e Lage Lund.

Muito importante ter composições próprias, é a veia criativa em processo de transformação.
Como você trabalha o processo de composição?
Grande parte das minhas composições acontecem quando estou praticando. Geralmente a composição nasce a partir de algum motivo melódico, rítmico ou sequencia harmônica que chama a  minha atenção. A partir disso começo  a desenvolver a composição, realizo diferentes harmonizações para a mesma melodia até chegar a uma combinação que soe bem aos meus ouvidos. Procuro então, uma forma para a composição que me agrade e escrevo na partitura. Ao ouvir o trabalho, as pessoas mais acostumadas a ouvir musica instrumental e jazz vão perceber que algumas das composições possuem os formatos clássicos de standards de jazz. Além da consagrada forma AABA, algumas composições possuem o formato dos standards de jazz de 32 compassos ou do blues de 12 compassos; em outras faixas eu simplesmente optei em não seguir forma alguma deixando a música acontecer, realizando assim uma mistura de compassos e formas.

Que equipamentos usou nessa sessão de gravação?
Eu utilizei basicamente duas guitarras - uma Ibanez AF 105 com ponte de madeira e uma Gibson 175. Em uma das faixas gravei com um violão Godin Grand Concert Duet Ambiance, Sobre efeitos, utilizei um reverb Holy Grail da Electro Harmonix e em algumas faixas um delay Kronos da Fire. Utilizei amplificadores Fender e Roland.

Obrigado Eudes Carvalho, e sucesso.

Você encontra o álbum Paisagem Sonora nas principais plataformas digitais como iTunes, Google Play, Amazon. O disco físico pode ser adquirido entrando em contato direto com Eudes pelo site www.eudescarvalho.com