A TRAJETÓRIA DO ROCK AO JAZZ DO GUITARRISTA JORGE SHY

18 março, 2016
O guitarrista Jorge Shy foi um dos protagonistas da cena rock nacional nos anos 80. O interesse pelo jazz o levou a ingressar na Berklee College of Music, em Boston, no início dos anos 90, época em que lá, como ele mesmo afirma, transpirava o estilo; afinal muitos grandes músicos embarcaram nessa experiência. Graduou-se em Jazz Composition e Film Scoring, e desde então carrega em sua música os elementos da improvisação e da experimentação, reservando as influências do rock, do jazz, da bossa e da música brasileira.

Somebody’s Waiting é o terceiro álbum de sua discografia, e Jorge Shy está acompanhado pelo seu habitual trio formado por Marcos Flo no contrabaixo e Caio Milan na bateria, juntos desde 2008, e conta com as participações de Rubinho Antunes no trompete, Ricardo Pacheco no piano, Israel Ring no sax, Rubens de La Corte no violino e Sandra Tornicce no violoncelo.
O álbum foi gravado entre julho de 2014 e março de 2015, e traz 8 composições em que Shy não se prende a uma busca de uma única definição estilística, ele quer oferecer aos amantes da música instrumental uma obra consistente, que se complementa a cada composição.


Com a palavra, Jorge Shy -

Como deu-se a sua ligação com a música instrumental e o jazz?
A minha ligação com a música instrumental vem de longa data. Ainda um roqueiro consciente, comecei a conhecer a música de Miles Davis, de John McLaughlin e a Mahavishnu Orchestra, e comecei a frequentar aquelas primeiras edições do Free Jazz Festival, onde assisti um show do Pat Metheny Group no Palace, acho que em 1983. Ali foi um divisor de águas para mim, e comecei a me interessar e estudar música mais a fundo.

Berklee é uma escola de referência, e você tem a formação em jazz por lá. Como você descreve essa experiência, e o quanto ela transformou sua forma de pensar música?
Berklee na minha época ainda transpirava jazz (nao sei hoje em dia), e o fato de você ouvir grandes músicos estudando e tocando nos bares é bastante estimulante; fora a competição saudável de todos em alcançar seus objetivos . Na verdade, tocar enquanto eu estava lá nunca foi a prioridade, eu queria escrever musica e fui pra Jazz Composition, Film Scoring, este tipo de coisa . Tocava sim, jazz, acid jazz que na epoca era "moda", música brasileira e estudava improvisação e piano. Acho que tudo isso fez com que eu ganhasse "estofo", e  diria que ficou armazenado e ainda está, pois ainda exploro ideias e conceitos de um época mágica. O tema "Somebody's Waiting foi composto e tocada lá, assim como "Campana".

Em “Somebody’s Waiting” você reforça algumas influências. Fale sobre a música que o inspira.
Verdade. Eu demorei para encontrar o meu som, vinha do rock e blues, estudei erudito, me envolvi com jazz, a música de Jobim e Toninho Horta; foi difícil colocar tudo isso em um liquidificador e resultar no que faco hoje em dia, que, na minha modesta opinião, é música contemporânea. Misturo minha veia de rock e blues nos solos e na pegada com a guitarra elétrica, e desenvolvo esee trabalho de violão que me permite utilizar outras influências como parte de composição, harmonia da música brasileira, folk e outros estilos .


Como formou-se o grupo que o acompanha nesse trabalho?
Comecei a tocar com o baixista Flo e a experimentar coisas novas, ele trouxe o baterista Caio Milan e começamos a fazer shows e experimentações no Souza Lima, onde leciono. Desde 2009 iniciamos esse processo e eles foram me ajudando e compreendendo o estilo. O mesmo aconteceu com o pianista Ricardo Pacheco, que conheço de Boston e tocamos muito juntos há muitos anos .

Que equipamentos usou nessa sessão?
Nesse trabalho utilizei Gibson Les Paul, Fender Telecaster modificada, Cort Jim Triggs e uma Stratocaster Bill Nash. Na parte de amplificação usei um Jazz Chorus antigo, do inicio dos anos 80, um valvulado Hughes and Kethner e um Fender Vibrolux. Na parte de violão utilizei um Martin DCP e um OM Greg Benett , alem de um violão do famoso luthier Virgilio (Sabara) e um violao de nylon espanhol Alhambra.

Como adquirir o álbum?
Nas lojas virtuais do iTunes e Amazon; e pode ouví-lo por streaming nos canais Soundcloud, Spotify, Deezer, além de outras mídias. O CD fisico está a venda em shows e por e-mail.
Estou fazendo uma coisa muito legal - para impulsionar o meu novo site - www.shymusic.com.br - a pessoa se cadastra, deixa o seu e-mail e ganha um CD de presente. Vale conferir.

Obrigado Jorge Shy, e sucesso.

VAI DEIXAR SAUDADE, NANA VASCONCELOS

09 março, 2016


A percussão brasileira sempre foi muito bem representada na música contemporânea pelas mãos de Nana Vasconcelos, que morreu nesta data, aos 72 anos, vítima de um câncer no pulmão.
Sem a menor dúvida a assinatura de Nana influenciou novas gerações de instrumentistas. Sua genialidade sempre se fez presente, dando seu talento e criatividade em diversos trabalhos ao lado de artistas grandiosos como Pat Metheny, Egberto Gismonti, Don Cherry e Jan Garbarek, entre tantos outros. Um músico sempre tão original e empolgante, o que o levou a estar, por diversas vezes, na lista dos melhores percussionistas do mundo pela revista Downbeat.

Pernambucano, iniciou na música nas bandas de maracatu, e ganhou o mundo.
Eu conheci sua música no fantástico “Dança Das Cabeças” (1977), registro gravado com Egberto Gismonti durante três dias em estúdio e que tornou-se a porta de entrada de Gismonti na gravadora ECM. Naná se projetou e colocou o berimbau definitivamente na rota da música moderna; ainda com Gismonti gravou “Sol do Meio Dia” (1978) e “Duas Vozes” (1984). No final dos anos 70, integrou um dos grupos mais experimentais do jazz contemporâneo, Codona, ao lado do trompetista Don Cherry e do citarista Collin Walcott, era uma música livre de formas e cujo trabalho rendeu 3 álbuns – “Codona 1” (1979), “Codona 2” (1981) e “Codona 3” (1983), também lançados pela ECM.

Minha conexão com a música de Nana se fortaleceu no trabalho ao lado do guitarrista Pat Metheny, em que destaco a intensidade de sua interpretação no tema “The Fields, The Sky”, inserido no álbum “Travels” (1982), gravado ao vivo, um intenso registro improvisado de berimbau e guitarra em um diálogo realmente impressionante. Naquele momento de audição, definitivamente, já o tive como uma referência. Nana é uma usina sonora, um mestre na arte da vocalização percussiva e que encontrou na música de Metheny um verdadeiro oásis para essa expressão, melódica e rítmica, como se ouve também nos extraordinários álbuns “As Falls Wichita, So Falls Wichita Falls” (1981) e Offramp (1982), todos também gravados pela ECM.

Juvenal de Holanda Vasconcelos nasceu em Recife em 2 de agosto de 1944.
Nana Vasconcelos deixa uma extensa discografia, cuja música foi, é, e sempre será genial.

Nana Vasconcelos: 1944-2016