UM POUQUINHO DO QUE ROLOU NO RIO DAS OSTRAS JAZZ E BLUES 2016

22 novembro, 2016

Mais uma edição do Rio das Ostras Jazz e Blues Festival e, mesmo diante de tantas dificuldades e do momento de crise generalizada, a iniciativa e persistência do produtor Stenio Matos em promover um evento de qualidade superou as expectativas, conseguindo atrair um grande público e trazer diversão e boa música nos 3 dias de evento.

Não consegui chegar para a abertura nem para o tão esperado show de Gilson Peranzzetta, mas em tempo de assistir ao jazz grooveado do quinteto do trombonista Bocato. Ao seu lado, Glécio Nascimento no baixo, Clayton Sousa no sax, Ary Holland nos teclados e Igor Willcox na bateria, e um repertório passeando por clássicos de Donato a Hancock, tudo com muito groove sempre marcado pelos teclados de Ary. Bocato é uma referência no instrumento na música brasileira, do popular ao instrumental, e é sempre uma oportunidade ímpar vê-lo no palco.
Em seguida, o guitarrista argentino Danny Vincent subiu ao palco com seu blues elétrico, e teve a participação especial do gaitista Flávio Guimarães. Este que vos escreve, cansado do longo trânsito e de algumas horas de estrada, assistiu pouco da apresentação e partiu para o sono.

Noite de sábado e cheguei para assistir ao belíssimo tributo a Milton Nascimento liderado pelo contrabaixista Dudu Lima. Acompanhado pelo pianista Ricardo Itaborahy e pelo baterista Leandro Scio, fez uma viagem pelos temas deste que é um dos maiores artistas da nossa música. Na abertura, "Fé Cega, Faca Amolada", com direito a uma citação do nosso Gonzagão no improviso de Dudu. Em seguida um verdadeiro hino, "Clube da Esquina no.2", particularmente uma das mais lindas melodias já escritas, com uma introdução em improviso livre de Dudu fazendo uso do tapping, e, não resistindo a emoção generelizada, desceu do palco foi tocar junto com o público.
Chamou ao palco outro gênio da nossa música, Wagner Tiso, que abriu um improviso em piano solo. Dudu largou o baixo elétrico e assumiu o vertical, introduziram "Cravo e Canela" e emendaram uma contagiante "Vera Cruz" com passagens em uptempo frenético, vocalizes de Ricardo e espaço para o solo de Leandro.
Esta homenagem a Milton foi registrada no CD-DVD "Ouro de Minas".
Interpretaram Beatles com uma versão muito particular de "Come Together", novamente com um walking empolgante de Dudu; mandaram um tema original de Wagner Tiso, "Os Cafezais sem Fim"; e voltaram para o bis com "Nada Será Como Antes", aqui Dudu abraçado ao fretless.
Um belíssimo show.

A noite seguiu com o blues enraizado do grupo catarinense The Headcutters com a participação do cantor americano Bob Stroger. Aos 86 anos, a energia desse senhor do blues contagiou não só pela presença no palco mas também como baixista, assumindo o instrumento ao longo da apresentação. Empolgado com a recepção calorosa do público, Strogger desceu do palco e foi cantar junto com a galera. The Headcutters acaba de lançar um disco ao vivo, "Live At Mr. Jones Pub" pela Chico Blues Records, gravado no clube portenho e indicado pelo site americano Blues Junction. Tem na formação o guitarrista Ricardo Maca, que se apresentou com uma bela 335 recheada de P90 com bases e improvisos contagiantes. a harmônica e voz de Joe Marhofer, o baixo de Arthur Garcia e a bateria de Leandro Barbeta, e mostrou mostrou porque é um dos grandes nomes do blues nacional.

O grupo Afro Jazz subiu ao palco principal pela segunda vez no festival, antes na edição de 2014, e mostrou que o grupo mantém-se forte na fusão da música negra com os improvisos do jazz. Já passando da zero hora de domingo, lembrou a data da consciência negra e trouxe como convidada a cantora britânica radicada por aqui Jesuton, com destaque para a interpretação de "Feeling Good" (Nina Simone).
Para encerrar a noite, uma festa empolgante liderada pela multi-instrumentista Deanna Bogart. Visivelmente contagiada pelo público, fez uma apresentação impecável ao lado do guitarrista Big Joe Manfra, o baixista Cesar Lago e o baterista Claudio Infante, ainda com convidados especiais como o gaitista Jefferson Gonçalves e a cantora Taryn Spilman. Realmente quebraram tudo, Deanna cantou, alternou no sax e piano e ainda fez um belo duo com Taryn interpretando "Georgia" (Ray Charles). A noite foi longe e em verdadeiro clima de festa.

É isso.
Que a edição de 2017 volte com força total.

CONCEPÇÃO

08 novembro, 2016
O guitarrista Rodrigo Chenta lança o EP intitulado Concepção com duas composições autorais na estética da música contemporânea erudita.
Um trabalho único, experimental.
O tema título é uma peça para guitarra acústica solo; e “Suite for Schafer” é dividida em 6 movimentos, em que a guitarra, com improvisações e bastante liberdade, interagiu com a voz de Roberto Agnelli, que leu textos selecionados de 3 livros do autor canadense Raymond Murray Schafer.

Para quem não conhece, Schafer é escritor, compositor e educador musical, e também um dos responsáveis pelo desenvolvimento da terminologia "soundscape", trazendo à reflexão o conceito de ambientação sonora.


Com a palavra, Rodrigo Chenta -

O experimentalismo como protagonista. 
Como deu-se o processo de criação para a guitarra solo nesse trabalho? 
A primeira composição chamada “Concepção” foi criada em agosto de 2013 durante um concerto em uma escola de música na cidade de São Paulo. Trata-se de uma peça literalmente improvisada, criada no momento da performance. Este concerto foi gravado em vídeo e gostei tanto que resolvi posteriormente transcrever o resultado daquela improvisação musical. A ideia foi criar tensões não importando em qual tonalidade. O pensamento ali, de fato, não foi tonal. Pensei apenas no som que queria e a intenção desejada com o resultado dos complexos sonoros resultantes das escolhas que fiz naquele dia. Gostei da escolha do uso de arpejos, ralentandos, crescendo e o uso da mão direita em locais diferentes do instrumento para mudar o timbre.

Na segunda composição, “Suite for Schafer”, a guitarra acústica improvisa o tempo todo, no entanto, interage com o texto como nos movimentos “ritmo”, “caos” e “sussurro”, por exemplo. A voz teve liberdade de basicamente escolher os momentos de pausa. A escolha do Roberto Agnelli para ler os fragmentos de textos foi fácil, pois já o conhecia há quase 10 anos e sabia da voz maravilhosa que ele tem. Gravamos tudo ao vivo, sem cortes e com take único no estúdio do André Ferraz.

Raymond Schafer é uma referência no conceito de paisagem sonora. 
Qual sua expectativa em colocar texto e música juntos?
O meu objetivo na música “Suite for Schafer” foi proporcionar momentos de reflexão para quem a escutasse. Tive contato com a obra de Raymond Murray Schafer no departamento de música na pós-graduação da UNESP. Fui privilegiado ao ser aluno especial para o mestrado com a professora Marisa Fonterrada, que traduziu para o português três livros do Schafer que foram usados como referência para a escola dos trechos que o Roberto Agnelli leu no EP. Eu dividi esta música em seis movimentos onde cada um tratou de um assunto. São textos que sempre me incomodaram no sentido de provocarem reflexões sobre assuntos mais elevados da música.
Pelo feedback das pessoas que já baixaram o EP, vejo que o resultado esperado em relação a proposta de reflexão funcionou. Muita gente tem me falado de suas respectivas impressões e fico feliz que estão saindo da zona de conforto e pensando um pouco mais sobre música.

Haverá continuidade desse projeto?
Este projeto especificamente foi único. O lancei no formato de EP porque não é grande o suficiente como um full-album. Outros trabalhos experimentais virão com certeza no ano que vem, mas com propostas bastante diferentes e que gerarão álbuns completos.
Vou gravar o terceiro CD e primeiro EP com Ivan Barasnevicicus em duo de guitarras archtop (holowbody). Em 2017 gravarei um CD instrumental somente com música brasileira regional e atualmente estou na fase de escrita dos arranjos e escolha de quem gravará comigo. Terá samba, baião, xote, ijexá; tudo com saxofone, flauta, viola caipira, voz, percussão e guitarra acústica.

Obrigado Rodrigo Chenta, e sucesso.

Você pode fazer o download do EP na página de Rodrigo Chenta -
www.rodrigochenta.com/discografia, disponível nos formatos WAV e MP3.



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