SUÍTE ONÍRICA

07 junho, 2017
O compositor e arranjador mineiro Rafael Martini apresenta Suíte Onírica, seu novo trabalho em formato jazz-sinfônico gravado com o seu sexteto e a Orquestra Sinfônica da Venezuela com a presença do coro lírico formato por integrantes do Coral Teresa Careño, tudo sob a batuta do maestro português Osvaldo Ferreira.
A obra divide-se em 5 movimentos que aludem a 5 estágios do sono e foi composta e orquestrada por Rafael com textos do poeta Makely Ka, inspirados no universo dos sonhos e suas simbologias. O trabalho conta com cerca de 150 músicos na feitura de uma música híbrida, que transita entre os limites que separam a canção, música sinfônica, jazz e música brasileira.
Com produção do próprio Rafael junto com o músico venezuelano Hildemaro Álvarez, "Suíte Onírica" foi gravado entre Brasil e Venezuela em uma interação muito especial com a OSV - Orquesta Sinfónica Venezuela, a mais antiga orquestra da América Latina, que possui uma fortíssima cultura orquestral e, por isso, um nível muito alto de músicos desse universo. O Rafael Martini Sexteto é formado por Rafael ao piano e voz, Alexandre Andrés na flauta, Joana na clarineta, Jonas Vitor no sax, Trigo Santana no contrabaixo e Felipe Continentino na bateria.


Rafael Martini é diretor musical e pianista da cena musical contemporânea de Minas Gerais, que faz com que ele, de fato, dialogue com a herança recebida através da música de Milton Nascimento, além da sua aproximação com a música de Björk, Maria Schneider e Radiohead através do ambiente sinfônico, sobre um pano de fundo contemporâneo.

Com a palavra, Rafael Martini -

O título da obra se relaciona com a essência dos sonhos e, como sabemos, eles não envelhecem.
Qual a intenção do título a frente de uma música tão intensa?
O sonho como fonte de todo simbolismo de todos os humanos é um pouco o ponto de partida do que eu e Makely Ka usamos pra escrever - eu a música, ele os textos. Foi incrível que depois de selecionarmos esse tema pra compor, eu, que há muitos anos não recordava dos sonhos que tinha durante a noite, voltei a lembrar deles vividamente. A Suíte é dividida em 5 partes, cada uma tem uma inspiração em um estado ou disfunção do sono. As letras falam de cosmogonias de diversas religiões, mitologias, que "segundo Jung" tem origem no dispositivo onírico que carregamos. O IV movimento da obra tem uma narração de um evento "veridicamente sonhado" pelo Makely. Talvez essa música tenha mais a ver com aquela sensação que temos quando sonhamos, de absoluta certeza de estarmos despertos. Por isso a música é intensa. Porque pensa no sonho como linha de pensamento imaginária que liga o primeiro ao último homem. Porque se chamavam homens, também se chamavam sonhos.

Como surgiu a proposta de trabalhar com orquestra e coral e realizar o processo de gravação da obra?
A obra nasceu de uma encomenda do Savassi Festival, festival de jazz e música instrumental aqui de BH, hoje um dos maiores do país e que já comissionou obras jazz-sinfônicas para gente como Chris Potter, André Mehmari, Kenny Werner e Cliff Korman. A encomenda já foi direcionada para que eu escrevesse uma peça de música de mais ou menos 40 minutos usando meu sexteto (que me acompanha desde o primeiro disco, "Motivo", de 2012), a Orquestra Sinfônica de MG e o Coral Lírico de MG. O que gerou, claro, um desafio muito grande no sentido de projetar algo para 150 músicos. A peça foi estreada em 24 de agosto de 2014.
Na gravação, feita em 2016 e lançada agora, temos a Orquestra Sinfônica da Venezuela, um grupo de músicos excepcional, assim como o coral associado a ela. Gravamos com a regência de um maestro muito especial, o português Osvaldo Ferreira. Foi muito bonito o processo de gravação pela percepção de um sentimento grande de união pelo ato de fazer aquela música juntos, unindo três países que deveriam ser bem mais ligados do que são (pelo menos no que diz respeito ao Brasil em relação aos outros dois). E a sensação de uma dissolução de barreiras musicais que a obra inspirava em todos, onde não importa se você "é" músico erudito ou popular, ou seja lá o que for. Você "está" fazendo aquela música, naquele momento e o tanto que ela lhe significa, é o tanto que você se entrega e se dedica. Foram 4 dias de gravação no Brasil e depois 8 dias em Caracas onde realizamos 10 ensaios e 8 sessões de gravação.


"Rapid Eye Moviment" traz Stravinsky em foco, o compositor que afirmava que a música tem o poder de expressar qualquer sentimento. Como você explora o processo de criação?
Muito boa essa do Stravinsky! Então, resumindo numa coisa que já é clichê, mas que o Strava mesmo falava, meu processo de criação é aquela coisa: 10% de inspiração ... Sou meio escultor, quase paleontólogo, fico ali escovando horas até encontrar.

A belíssima interpretação de "Éter" faz reverência ao nosso Pixinguinha. Como é passar a intensidade do Choro para interpretação de uma orquestra?
Obrigadíssimo! Como todo o planeta, tenho uma forte reverência ao Pixinguinha, mas carrego ele na memória sempre, é como um "professor" que gosto de imaginar que está ali me observando enquanto estou compondo, junto com outros tantos. Não tenho uma relação prática com o Choro, de tocar em rodas e tal, mas uma paixão enorme por todo o universo como ouvinte. Então é um tributo que vem de outro lugar, mais para um aceno da outra margem do rio.

"Dual" expressa de forma magistral um encontro de canto e coral, e nos da um lampejo da música das Minas Gerais, do Clube da Esquina. Fale um pouco da música que te influência.
Obrigado mais uma vez! Me criei realmente escutando muito Milton Nascimento (tudo o que foi produzido até 1979) e com ele a canção popular brasileira de Elis, Tom Jobim, Gil e Caetano, Edu Lobo, João Bosco, Guinga e por aí vai. Mas mais determinante é o lado da música instrumental brasileira de Egberto, Hermeto, Moacir Santos, que se liga ao jazz mundial de Gil Evans a Tigran Hamasyan. Por outro lado muito rock, de Beatles a Rage Against the Machine, passando por tipo tudo...e em outra dimensão, a música de concerto, Stravinsky, Ravel, Debussy, Ligeti, Berio.

Obrigado Rafael Martini, e sucesso.

Suíte Onírica está disponível no iTunes e com audição pelas plataformas de streaming.

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