UM TRIBUTO PARA JEFF BECK

16 junho, 2017
Que a guitarra de Jeff Beck é influência para tantos outros guitarristas, não há dúvidas.
Realizar um tributo incorporando ritmos brasileiros a esse gigante que é um ícone do jazz-rock, aí o assunto ganha outra dimensão. Essa foi a proposta do guitarrista carioca Bruno Lara, cuja iniciativa surgiu como trabalho de conclusão do seu curso de graduação e o resultado final ganhou muita originalidade.

Um tributo a Jeff Beck é lançado no formato EP, e para executar esse projeto Bruno convidou o guitarrista Carlos Café para juntar-se ao seu quarteto, formado por Alexandre Adão no baixo, Renato Catharino nos teclados e Maurício Antunes na bateria, que juntos formam o Quarteto Bruno Lara. O EP traz 4 temas gravados por Jeff Beck - "Cause we´ve ended as lovers" e "Freeway Jam" (Blow by Blow, 1975), "Led Boots" (Wired, 1976) e "The Pump" (There and Back, 1980).

Bruno Lara é guitarrista, compositor e arranjador, possui formação musical pelo CIGAM e graduação em Música e Tecnologia pelo Conservatório Brasileiro de Música, teve oportunidade de estudar com grandes nomes da nossa música com foco em improvisação com Nelson Faria, guitarra blues e slide com Carlos Café, harmonia funcional com Cláudio Bergamini, composição com Alexandre Schubert e percepção com Zoya Maia.
Com uma ampla discografia e 1 DVD lançados de forma independente, Bruno Lara segue levando a nossa música instrumental e o jazz adiante.

Com a palavra, Bruno Lara -

Como surgiu a ideia de realizar um tributo para Jeff Beck?
Pensar sobre como criar/promover este produto foi bastante interessante e desafiador.  Eu sempre fiquei frustado por ouvir guitarristas que eram muito técnicos, velozes e pecavam pelo excesso de notas (parecia que pra “tocar bem”, tinha que tocar daquele jeito). Até que no ano de 2000 eu vi o disco "Blow by Blow" vendendo a um preço “super” popular numa loja aqui do RJ, eu nunca tinha ouvido falar de Jeff Beck e pensei: “Esse cara deve ter algo a me dizer sobre guitarra e música”. Coloquei o CD no player e “pirei” com aquele disco, finalmente achei um cara que conseguia transbordar o virtuosismo sem exageros  em estéticas e faixas sensacionais. Desde então, eu dormia ouvindo "Blow by Blow", literalmente.
Acho que esse prólogo diz muito de como eu pensei em fazer um trabalho final para uma faculdade de música, tinha que ser  honesto e que eu tivesse  total identificação. Resolvi amadurecer e transformar o que era  um trabalho (TCC) em algo mais denso.
Junto com o meu orientador de TCC, Orlando Scarpa Neto, eu reuni músicas do "Blow by Blow", "Wired" e "There and Back", por serem discos e  faixas que me soam  marcantes no repertório do Jeff Beck - a fantástica balada de Steve Wonder - "Cause We´ve ended as Lovers",  a "alternada" e roqueira "Led Boots", o fusion 80/90 em "The Pump" e a fúria mixolídia de "Freeway Jam". Para mim é um “resumo” honesto do que é Jeff Beck, e se alguém me perguntasse o que eu indicaria, com certeza seriam essas músicas .

Foi desafiador incorporar essa fusão de ritmos brasileiros nos arranjos?
Eu fui tocando os temas e mudando as acentuações enquanto fazia a transcrição das músicas e quando comecei a tocar "Cause We´ve ended as Lovers" pensei: "Se eu botar um swing de Bossa Nova? Isso pode soar interessante". Como ela tem um andamento lento, eu pensei em alguma coisa no estilo João Gilberto ("Chega de saudade") e comecei a me aventurar em fazer algo que dialogasse com os dois universos. Em "The Pump", tive uma grata surpresa de ouvir um arranjo de uma música de Luiz Gonzaga na voz de Gilberto Gil ("Baião da Penha") e prestei atenção naquela guitarra slide que se destacava no arranjo. Como a melodia da "The Pump" é bem simples, o slide caiu como uma luva juntamente com o clima "regional" que criei nos arranjos.
Já em "Freeway Jam" eu quis deixar um pouco do clima fusion da música, coloquei uma percussão afro e comecei a improvisar em cima dela. Depois disso percebi que o tema poderia condizer com a nossa afro brasilidade, é claro que mudaria a forma de interpretar, mas soou muito natural.
E finalmente "Led Boots". Essa foi um pouco de Nação Zumbi na veia, por ser uma música com um riff muito marcante e uma melodia bem simples. Para mim ela é muito visceral, roqueira em sua essência. Maracatu é uma coisa pesada, percussiva e contagiante, e eu queria manter essa energia na música. Foi uma feliz escolha para manter o espírito libertador do rock com a energia e o entusiasmo do nosso ritmo brasileiro e fiquei impressionado como ela se encaixou com perfeição na célula rítmica do maracatu. Se Jeff Beck fosse brasileiro, acho que iria pedir para tocar ela no estilo, arrisco esse palpite.
Uma coisa que acho interessante falar sobre as 4 músicas e os arranjos -
Eu mudei o aspecto harmônico de forma mais “tímida”, e a forma da música e de improvisar também, mas considero mais marcante a transição para os ritmos brasileiros dentro deste trabalho .

Quarteto Bruno Lara e Carlos Café
O guitarrista Carlos Café participa desse trabalho, como foi realizar essa sessão juntos?
Fale também sobre os músicos que te acompanham.
Eu conheci o Carlos Café no período que estudei no CIGAM, a famosa escola de Ian Guest. Me interessei pelo trabalho de blues que ele faz com muita honestidade e consistência, e achei que precisava aprender mais sobre o estilo e em particular sobre slide. 
Desse encontro de aluno e professor, nos tornamos amigos e toda vez que eu ouvia um CD ou vídeo do Jeff Beck mostrava para ele e a gente ficava conversando muito sobre.
O Café me ensinou a tocar slide e a música "Definitely maybe" que é muito bem interpretada pelo próprio Beck, e foi uma grande emoção e empatia ter aulas com ele. Como neste trabalho eu assumi várias funções diferentes - arranjador, produtor e músico, eu quis chamar o Carlos Café para assumir o posto de intérprete e me dedicar mais nas outras funções, fazendo apenas um diálogo guitarrístico em "Freeway Jam". Como já tocamos juntos e ao vivo, foi fácil apresentar a ideia dos  arranjos e ele entendeu exatamente o que era pra ser feito e fez com vontade, tocou muito.
Nós  fizemos 3 ensaios com todo mundo, e eu fui gerenciando as partituras dentro dos ensaios com todos os músicos, esses que  fazem parte do meu quarteto de música instrumental - Quarteto Bruno Lara.  Eu quis dar esse espaço para que o arranjo ficasse orgânico e não apenas todo escrito e rígido.
São músicos excepcionais - Alexandre Adão fez um baixo criativo e elegante em sua execução, trazendo um pouco do “Nathan East” para as faixas; Maurício Antunes, que é sobrinho do famoso batera “Picolé”, já tem no DNA brazuca, necessário para transformar aquilo que é cultura mundial em cultura brasileira. A gente definiu o clima da cada sessão rítmica das músicas e ele soube dosar de forma muito interessante as passagens; Renato Catharino, que acerta as teclas, já possui uma experiência sólida em piano jazz, algumas sugestões de harmonia foram bem vindas e conseguiu tocar em temas que eram  um pouco desconhecidos em sua formação, mas que pareciam ser bem próximos (ele não conhecia muito Jeff Beck). O piano se destaca por eliminar os sintetizadores e Rhodes que tinham nas  versões originais, e o Renato conseguiu adaptar isso ao seu vocabulário sem que eu sentisse falta de colocar algum outro instrumento para complementação.

Sobre estilo de tocar, a partir dos anos 90 Jeff Beck largou a palheta e passou a usar a técnica fingestyle. Independentemente de ser melhor ou não, como você interpreta essas formas de tocar?
Eu não me lembro exatamente mas acho que no disco Guitar Shop ele já começa a tirar as palhetas do dedo. Isso me influenciou bastante na forma de tocar, eu toco com palheta mas tenho os meus momentos “Jeff Beck”. Acho que essa transformação deixou a sonoridade dele com um nível de personalidade absurdo, além de não ficar tão refém de técnicas ou padrões que viciam muitos guitarristas (por exemplo, a palhetada alternada). 
Essa junção de dedo com alavanca pra mim se tornou a marca registrada dele, é impossível tocar igual a ele, mesmo que tente emular teriam que fazer um dedo que simulasse o que ele faz, é um som mais bruto que ele faz na guitarra e a dinâmica e o controle que se pode obter do instrumento é sensacional. Ele incorporou e levou o fingerstyle a um degrau acima do padrão.

Obrigado Bruno Lara, e sucesso.

Você pode fazer o download gratuito do EP pelo OneRpm e ouvir nas plataformas de streaming.
Spotify Deezer
www.brunolara.mus.br