3136

08 setembro, 2017
A música livre, sem fronteiras, como realmente tem que ser.
Essa é a proposta do duo formado pelo guitarrista Rodrigo Chenta e o saxofonista Cássio Ferreira, que apresentam o disco 3136 trazendo três longas composições autorais em um diálogo constante e intenso.
Para o duo, a única regra é não ter regra e através da interação os dois músicos constroem e desconstroem sua música no momento da sua execução.
Assim se faz música criativa, original. Um tanto distante da forma padrão dos standards, o repertório promove a atmosfera ideal para a proposta do trabalho. As composições "31", "36" e "3136" alternam em melodias e improvisos que se complementam e se distribuem em uma dinâmica bem particular, criando uma identidade musical própria.


Cássio Ferreira toca sax soprano e alto, presente no canal direito; Rodrigo Chenta toca guitarras acústica e sólida, presente no canal esquerdo. 3136 foi gravado ao vivo no Estúdio Arsis.
O design gráfico do disco é de Rodrigo Chenta.

Com a palavra, Rodrigo Chenta e Cássio Ferreira -

Como foi criar a proposta deste trabalho?
Rodrigo Chenta: Atuar de forma livre onde o conceito de erro basicamente não existe e o controle dos materiais utilizados não é definido previamente me traz uma sensação muito intensa e excitante. A criação em tempo real gera possibilidades infinitas. Sempre gostei deste tipo de estética musical e a pratico há muitos anos. Por volta de 2004, o Cássio me apresentou alguns trabalhos de modern jazz e outros de free jazz do John Coltrane e também do Evan Parker. Juntei com outros que ouvia como o grupo Interchanges com o Célio Barros no contrabaixo acústico e outros que escutava na mesma época. Daí foi fácil caminhar na direção da improvisação não idiomática mais conhecida como improvisação livre, termo criado pelo guitarrista britânico Derek Bailey em seu livro sobre o assunto. Me influenciei bastante pelos trabalhos lançados pelos selos Incus e Obscure Records. Em muitos pontos pensamos de forma parecida e isso possibilitou desenvolvermos este trabalho que gerou o álbum 3136.
Cássio Ferreira: O Rodrigo me convidou para este trabalho e eu prontamente aceitei. No meio do processo fui descobrindo o que realmente iríamos fazer. Eu tenho uma influência muito grande do jazz americano e, através deste, o free jazz me levou a conhecer vertentes de música improvisada com maior liberdade harmônica e estrutural. Conhecia alguns trabalhos com o Evan Parker (que é uma das referências neste segmento musical), mas fazia tempo que não ouvia nada dessa vertente especificamente. Minha maior referência de improvisação livre é o saxofonista Wayne Shorter (mais especificamente em seu trabalho com seu quarteto com Danilo Perez, John Patittucci e Brian Blade, e em seu duo com o pianista Herbie Hancock), então minha forma de tocar segue essa inspiração musical, ao mesmo tempo em que me inspiro esteticamente nas mais variadas formas de improvisação, desde o free jazz até a música espontânea e outras categorias musicais. Já fiz alguns shows e gravações com espaços para improvisação livre, mas este duo foi a primeira oportunidade de fazer um trabalho 100% voltado para a música espontânea. Adorei a ideia, e gravar este trabalho foi muito gratificante.

A improvisação livre quebrou um paradigma muito forte no jazz - a harmonia. 
Como vocês entendem essa relação?
Rodrigo Chenta: A palavra “Harmonia” normalmente se relaciona com o sistema tonal, mas ela pode ser entendida de uma forma mais ampla onde qualquer fenômeno com frequências seja harmônico. Em todo sistema existe uma hierarquia e nele mesmo a semente do fruto que o destruirá. Quando se fala de música modal é comum autores mais tradicionais normalmente não se utilizarem do termo harmonia e muito menos em música atonal, já que possivelmente seria uma contradição. Na improvisação livre é possível aparecer algum momento com harmonia, pois todos temos nossas biografias musicais, como afirma Rogério Costa em seu livro “Música errante”. Neste tipo de música não é desejável que ela apareça, pois se pretende não lembrar nenhum sistema já formatado. Em nosso caso, no CD “3136” temos como proposta fazer criações tanto dentro de idiomas como fora de idiomas. Não somos um duo que teve como proposta atuar somente com improvisação livre. Em nosso CD se ouve balada, funk, rock, jazz, etc, da mesma forma que também se escutam várias partes em que não se podem encaixar dentro de algum gênero já definido. Por isso dizemos que fazemos música espontânea e somos tão livres que temos a liberdade de atuar dentro da estética da improvisação idiomática (não livre) e da não idiomática (livre).
Cássio Ferreira: O sistema harmônico foi sendo desenvolvido até às últimas consequências, de forma que improvisar sobrepondo harmonias ou ainda abrindo mão delas foi um caminho inevitável. São tantas as possibilidades de criação, que alguns músicos naturalmente sentem o ímpeto de improvisar com uma maior liberdade. A harmonia e a forma estrutural dão suporte para a improvisação, uma referência/base onde todos se apoiam para tocar juntos. Na improvisação espontânea essa base não existe, de forma que tudo que está sendo criado no momento musical é por si só base e desenvolvimento. Este tipo de música requer uma interatividade mais profunda e orgânica, pois cada momento necessita ser sustentado por ambos os improvisadores. Também há outra relação psicológica, pois é um exercício maior de desapego e principalmente aceitação. A relação da música com o aspecto psíquico/humano mais profundo pra mim é muito importante, então poder usar da improvisação para exercitar o agir da consciência humana é fundamental. Esta música nos traz muitas lições de relacionamento humano, de forma muito orgânica, visceral e realista de acordo com nosso momento histórico. Improvisar espontaneamente é criar a vida, momento a momento, reagindo às circunstâncias da melhor forma possível, com beleza, leveza, maturidade e aceitação. Necessitamos disso como músicos e principalmente como seres humanos.


"3136" está disponível somente no formato digital. 
O que torna tão difícil lançar um disco em formato físico hoje?
Rodrigo Chenta: O recurso financeiro destinado à prensagem de um CD físico é muito maior que o custo de produção/pós-produção como gravação, mixagem, masterização, fotografias e site. Com o investimento gasto na prensagem se gravaria mais dois ou três álbuns novos já que a prioridade é sempre o som. Como este é o objetivo, tem um fator que, de fato, faz toda a diferença ao lançar em formato digital, pois, em um CD físico o arquivo é masterizado em 16bits e 44khz (isso é uma limitação na qualidade) e no formato digital fizemos em 24bits e 48khz por enquanto (poderia ser maior caso se almeje isso) o que gera um aumento significativo na qualidade do áudio. O CD físico possui uma vida útil relativamente pequena, risca, quebra, ocupa espaço, não é ecológico, etc. Com o álbum digital além de não ter os problemas já mencionados ele dura para sempre, tem portabilidade, pois é possível ouvi-lo em basicamente qualquer lugar, etc. Em nosso caso, vendemos os arquivos tanto nas extensões .wav 24bits 48khz como em .mp3 320kbps. Os áudios vem com o encarte em alta resolução também.
Cássio Ferreira: Como já dito pelo Rodrigo, o custo de prensagem de discos físicos é alto. Além da possibilidade do disco ser comprado em formato digital com maior qualidade de áudio, há a grande oferta de serviços de streaming para quem deseja praticidade. Portanto, a capacidade de divulgação através da internet é muito grande. Atualmente, os discos físicos de trabalhos independentes são mais frequentemente usados em distribuição para possíveis produtores e contratantes de shows como um cartão de visita. Para o foco na divulgação do trabalho, a internet cumpre bem o papel.

www.cassioferreiraerodrigochenta.com