RESILIÊNCIA

26 dezembro, 2017
Resiliência é o título do disco de estreia do guitarrista Vinicius Gomes, apresentando um repertório com 10 belíssimas composições autoriais em uma fusão criativa de música brasileira e jazz contemporâneo. Nesta sessão, tem ao seu lado o sax de Rodrigo Ursaia, o contrabaixo de Bruno Migotto, o piano de Gustavo Bugni e a bateria de Edu Ribeiro, além das participações muito especiais do baterista Daniel de Paula, do trompetista Rubinho Antunes e de um quarteto de cordas na faixa título formado por Ricardo Takahashi e Daniel Moreira nos violinos, Daniel Pires na viola e Vana Bock no cello.
O disco saiu pelo selo Blaxtream, que tem como objetivo promover várias propostas inovadoras de veiculação de musica instrumental brasileira.

Mestre pela ECA/USP, Vinicius Gomes escreveu como tema de sua dissertação "Helio Delmiro - Solo Guitar Compositions", trabalho premiado pelo PROAC Award em 2015 na categoria música instrumental. Muito atuante na música brasileira, atuou com Zizi Possi, Rosa Passos, Jane Duboc, Arthur Verocai, Toninho Ferragutti, Robertinho Silva, entre outros; e também é músico das orquestras OSESP e Jazz Sinfônica de São Paulo. 


"Resiliência" foi gravado no Rivière Studios, Ribeirão Preto, exceto a seção de cordas e o reamp de guitarra que foram gravados no Soundfinger Studio.
Gravado e Mixado por Thiago Monteiro, tem a produção executiva de Thalita Magalhães, fotografia de Alisson Sbrana e arte de Evandro Ferreira.

Com a palavra, Vinicius Gomes -

Quando a guitarra fez-se presente na sua vida? 
Comecei minha musicalização na infância tocando piano, tinha 6 anos de idade. Depois, naquela fase adolescente, mais ou menos com 12 anos, me interessei pela guitarra. Ouvia muito rock (Led Zeppelin, Hendrix etc) e era fissurado por ler todas as entrevistas que encontrasse com os integrantes dessas bandas. Via que eles sempre citavam que suas maiores influencias eram os guitarristas de blues. Fui atrás de ouvir BB King, Buddy Guy, Robert Johnson etc e comecei a caçar as entrevistas com esses guitarristas também. Foi quando surgiu o nome do Wes Montgomery, que foi um choque pra mim! Eu sempre tocava junto com os discos de rock e blues, mas parecia que as notas que o Wes tocava não estavam disponíveis na minha guitarra. Foi através dele que fiquei curioso por jazz, e acabei conhecendo o som de muitos guitarristas (Joe Pass, Benson, Kenny Burrel, Tal Farlow, Barney Kessel) e outros instrumentistas (os primeiros em que "viciei" foram os clássicos - Charlie Parker, Dizzy, Mingus, Miles, Coltrane, Shorter, Herbie, Bill Evans, Art Blakey).
O engraçado é que fui pesquisar a musica brasileira mais a fundo quando notei que esses músicos de jazz que eu admirava sempre gravavam repertório brasileiro em seus trabalhos. Então começou meu interesse por Jobim, João Gilberto, Baden, Elis, Helio Delmiro, Cesar Camargo Mariano, Donato, Hermeto, Heraldo do Monte, Airto (só ouvi o disco do Quarteto Novo durante uns 6 meses, acho), enfim, a lista é enorme. Foi nessa época que comecei a estudar violão além da guitarra, uma coisa que acabou se tornando muito presente no meu trabalho.

Fale um pouco da sua formação.
A minha formação no sentido "escolar" começou em uma escola chamada Polissom em SP, com o Romon Politschuk (piano, teoria) e Mozart Fernando (guitarra).  Depois estudei na ULM (atual EMESP), onde considero que me profissionalizei. Acho que a EMESP é o local onde o músico recebe uma das formações mais completas e objetivas de SP, tudo isso gratuitamente, embora esse programa maravilhoso esteja constantemente na mira dos "cortes de orçamento" do governo do estado de SP. Os professores da EMESP fazem parte da historia da musica instrumental brasileira e são pessoas que deveriam ter seu trabalho docente muito mais reconhecido pelo estado.
Em paralelo a ULM fiz faculdade de Administração e estagiei em escritório, o que foi uma experiência, digamos, interessante (risos). Graças ao diploma de graduação em Administração pude prestar o mestrado em musica na USP, onde tive contato com o estudo sistematizado de música erudita, além de estudar violão com Edelton Gloeden.
Tive professores de instrumento incríveis: Fernando Corrêa, Marcus Teixeira, Alemão (Olmir Stocker), Fernando e Cecilia (Duo Siqueira Lima) entre outros.

"Resiliência" é um trabalho totalmente autoral. Como você realiza o processo de composição?
Na verdade eu componho pouco, e não tenho método especifico. Cada musica é uma história diferente. Lembro de compor músicas como "Primeiro Sim", "Mou" e "Labirinto" rapidamente, em um dia só. A música "Exodo", que compus em parceria com o baterista Fernando Amaro, foi feita em poucas horas, num processo que gostaria de fazer muito mais, o de criar junto, encaixar as peças do quebra cabeças com um parceiro, pois isso ajuda a gente a sair da própria zona de conforto, dos nossos clichês. Outras musicas demoram muito tempo para serem terminadas. A segunda parte de "Bom Dia" saiu meses antes da primeira. Lembro de empacar muito tempo na primeira parte da "Valsa", enfim, isso acontece também.
"Caminhos Abertos" é o resultado de uma das poucas experiencias que tive onde sentei para compor sem nenhuma fragmento de musica rondando minha cabeça. Tela em branco total. Foi uma experiência interessante também. Enfim, acho que quanto mais maneiras diferentes de compor encontrarmos, melhor pra nós.

foto: Patrícia Nagano
Um super grupo ao seu lado. Como deu-se esse encontro e a iniciativa de criar o disco?
Eu tinha uma data em um bar de SP chamado Madeleine, e, ao invés de tocar standards, queria experimentar minhas musicas, já pensando em um dia registrá-las. Resolvi chamar os músicos que gostaria de ouvir tocando essas composições especificamente, e, caso não pudessem, chamaria outras pessoas já que era apenas uma data de bar. Dei sorte e todos os músicos que pensei estavam disponíveis e acabamos fazendo esse show. Foi quando nasceu o som do quinteto que é a base do disco. Foi um dia muito especial pra mim. Nesse dia um aluno meu foi no bar com duas câmeras e registrou algumas músicas. Coloquei uma no youtube pra ter o registro do som que rolou. Alguns meses depois, recebi a ligação do Thiago Monteiro, um engenheiro de som genial com quem já tinha trabalhado junto na gravação do disco KVAR. Ele me contou de um projeto totalmente insano, e lindo, de começar um selo dele, e me convidou para fazer parte da primeira fornada de discos, junto com o trabalho de músicos que admiro e com quem me identifico profundamente: Paulo Almeida, Fabio Gouvea e Ludere (disco no qual também participo).
Então, na verdade foi uma junção de fatores, o fato de eu estar pensando em como viabilizar um disco com aquele som que tinha rolado no bar, o momento do selo Blaxtream (nome do selo do Thiago, em homenagem a Ribeirão Preto e fazendo trocadilho com o streaming de músicas), um encontro muito feliz pelo qual sou muito grato, tanto ao selo quanto aos músicos que toparam embarcar nesse som.

Alternando entre o acústico e o elétrico, que equipamentos usou nesta sessão?
Toquei uma guitarra Gibson 335 ligada em um Fender Twin, usando como efeitos apenas reverb e ocasionalmente Delay. Toquei também um violão Lineu Bravo, que já está comigo há alguns anos e é o instrumento que mais toco em casa no dia a dia.

O título deste trabalho serve para retratar o desafio de ser músico, principalmente na cena instrumental e do jazz no Brasil?
Acho que por um ângulo sim, e a ideia do titulo é justamente retratar o quanto precisamos ser flexíveis, pacientes, termos capacidade de nos adaptar a mudanças - tanto musicalmente quanto como seres humanos. No Brasil, praticamente não é possível viver com um foco único dentro da música (só fazer determinado tipo de musica, por exemplo). Cada semana obriga o músico a se reinventar, a pesquisar, se desafiar, e se desenvolver como ser humano. Existem situações onde o ambiente é incrível, criativo, acolhedor, outras onde o ambiente é tenso e cheio de cobranças.
Acho que a resiliência, nesse sentido, não se aplica só à vida do musico. Usei esse titulo para o disco pois creio que esse é um valor universal que buscamos independentemente de profissão, do local em que vivemos, de nossa classe social.
Musicalmente, o título também dialoga com a maneira que compus as musicas do disco. São músicas com bastante variação harmônica e de métricas rítmicas, que sugerem aos músicos se adaptar a esse ambiente cheio de mudanças e ainda assim serem criativos e dialogar entre si.

Sua tese de mestrado teve enfoque no violonista Helio Delmiro, ele é uma grande influência? Fale um pouco sobre suas referências musicais e sobre o que gosta de ouvir.
O Helio é uma grande influência sim. Não acho que eu tenha UMA grande influência específica. Ele foi um cara cujo som estudei profundamente por um período, assim como houve períodos em que ouvi muito o violonista Lula Galvão, outros em que ouvi muito Nelson Veras. Isso citando apenas os violonistas brasileiros, sem contar os músicos de jazz, eruditos.. Acho que meu processo é esse, de parar e tentar entender um som específico por vez. Sempre escuto de tudo em casa, mas sempre tento saber exatamente o que estou estudando, pra não me perder e ter uma concentração suficiente em um assunto para que eu consiga me desenvolver mais um pouco como músico.
Ultimamente tenho ouvido muito os músicos associados ao "jazz moderno" (um rótulo que acho terrível) como Brad Melhdau, Brian Blade, Mark Turner, Gerald Clayton, Chris Potter, Ari Hoenig, e, obviamente, os guitarristas associados a esse movimento como Kurt Rozenwinkel, Mike Moreno, Lage Lund e Lionel Loueke. Já tenho sentido uma mudança nos últimos dias (risos), estou voltando a fase de ouvir Keith Jarret tocando standards e os discos da Blue Note da década de 50 e 60.

Obrigado Vinicius Gomes, e sucesso.

Você pode adquirir o disco "Resiliência" pelo site www.viniciusgomesmusic.com e pela rede social no Facebook. O disco pode ser baixado gratuitamente em vários formatos pelo site da gravadora Blaxtream - www.blaxtream.com/viniciusgomes e também está disponível em todas as plataformas digitais.
Spotify Deezer Soundcloud

DOWNBEAT READERS POLL 2017

09 dezembro, 2017
DownBeat anunciou os premiados da edição 82 do seu Readers Poll. Como sempre, sem muitas novidades, destacando os artistas que já estão consolidados na cena musical do jazz. Nesta edição, o destaque fica com o trompetista Wynton Marsalis que alcançou o Downbeat Hall of Fame, antes tarde do que nunca.
Ainda, um resgate para Diana Krall como vocal feminino e para novo disco "Turn Up The Quiet"; e novamente a garotada do Snarky Puppy como grupo, sempre quebrando tudo. Vale também destacar o resgate histórico do disco do Bill Evans Trio - "On A Monday Evening", gravado pelo em 1976 ao lado de Eddie Gomez e Eliot Zigmund. Saindo do universo do jazz aparecem Buddy Guy, Taj Mahal e Jeff Beck.

Confira os premiados -

Hall of Fame: Wynton Marsalis
Jazz Artist: Chick Corea
Jazz Group: Snarky Puppy
Big Band: Maria Schneider Orchestra
Trumpet: Wynton Marsalis
Trombone: Trombone Shorty
Soprano Saxophone: Wayne Shorter
Alto Saxophone: Kenny Garrett
Tenor Saxophone: Chris Potter
Baritone Saxophone: James Carter
Clarinet: Anat Cohen
Flute: Hubert Laws
Piano: Herbie Hancock
Keyboard: Herbie Hancock
Organ: Joey DeFrancesco
Guitar: Pat Metheny
Bass: Christian McBride
Electric Bass: Stanley Clarke
Violin: Regina Carter
Drums: Jack DeJohnette
Percussion: Sheila E.
Vibraphone: Gary Burton
Miscellaneous Instrument: Béla Fleck (banjo)
Female Vocalist: Diana Krall
Male Vocalist: Gregory Porter
Composer: Maria Schneider
Arranger: Maria Schneider
Jazz Album: Diana Krall, "Turn Up The Quiet" (Verve)
Historical Album: Bill Evans Trio, "On a Monday Evening" (Fantasy)
Record Label: Blue Note
Blues Artist or Group: Buddy Guy
Blues Album: Taj Mahal & Keb Mo, "TajMo" (Concord)
Beyond Artist or Group: Jeff Beck
Beyond Album: Leonard Cohen, "You Want It Darker" (Columbia)

https://www.downbeat.com

BLUES: THE BACKSEAT MUSIC

03 dezembro, 2017
O jornalista Eugênio Martins Junior apresenta o livro
Blues: The Backseat Music, uma coleção de 40 entrevistas realizadas em 10 anos de trabalho cobrindo shows e festivais.
Para o autor, o objetivo é contar uma história que ainda não foi contada e não carrega a ambição de ser uma obra definitiva sobre o blues no Brasil, muito menos tem a função didática de explicar como e por que o gênero surgiu, o que outros livros já fazem com muita competência. Afirma ainda que, assim como tocar blues, escrever sobre o gênero no Brasil não é fácil.

O livro está dividido em 2 partes - artistas nacionais e internacionais, e traz entrevistas com Celso Blues Boy, André Christovam, Igor Prado, Jefferson Gonçalves, Nuno Mindelis, John Hammond, Lynwood Slim, Duke Robillard, Shemekia Copeland, Larry McCray, e muitos outros. Ao mesmo tempo em que coloca o leitor dentro da cena, conta a história daqueles que não só carregam o piano, mas também a guitarra, o baixo, a bateria, o case de harmônicas e o hammond B3. De teatro em teatro, de bar em bar. Ao ler esta coletânea de entrevistas, você vai entender o porquê do título.

O prefácio do livro foi escrito por Nuno Mindelis.
"Blues: The Backseat Music" é um lançamento da Editora Ateliê de Palavras.

Com a palavra, Eugênio Martins Junior -

Como surgiu a ideia do livro?
Quando eu percebi que, por conta do meu trabalho na produção, poderia extrair informações exclusivas dos músicos, contar histórias da estrada, do blues no Brasil e o que estava acontecendo em termos musicais, mostrar a cena do blues.

De todas as entrevistas, qual foi a mais desafiadora?
Em vários níveis de dificuldade, porque umas eu já estava viajando com o artista, outras porque é difícil falar com o cara - a do Corey Harris, por que ele é um pouco desconfiado com os brancos, mas tem lá suas razões.
Outra, por ser um ídolo de infância, a do John Paul Hammond, no festival de Rio das Ostras que você estava. Além de ter sido um prazer, a entrevista foi na beira da piscina, rolando um som; e outras duas que vão estar no volume 2 do livro, a do capo da Alligator Records e do gaitista da banda Mississippi Heat, Pierre Lacocque.

No prefácio, escrito por Nuno Mindelis, ele cita a expressão “o blues vai te pegar”. 
Quando o blues te pegou?
A primeira vez que ouvi a palavra blues foi no filme "A Rosa", com a Bette Midler e o Kris Kristoferson. Mas o meu primeiro disco de blues foi "Ao Vivo Em Montreux" com Buddy Guy e Junior Wells, foi uma revelação. Logo depois eu fui ao festival de blues de Ribeirão Preto e vi o Albert Collins ao vivo e o John Hammond e o Buddy Guy em Santos.

Você, além do grande conhecimento música, também é um produtor e empreendedor.
Como você vê a formação de novos públicos para o movimento do blues?
Cara, pra ser sincero, não existe formação. É só você ver o que está acontecendo com a cultura no Brasil. O desmonte que está acontecendo. Orquestras sendo encerradas, aqui na baixada santista temos quatro teatros fechados. Você vê, esse ano o festival de Rio das Ostras não vai acontecer. O Bourbon Fest também está com dificuldade e talvez não aconteça. Eu faço bem menos shows de blues do que antes, a gente nada contra a correnteza. A grande mídia nacional optou pelo lixo cultural. Quando eu era adolescente não passava um dia sem conhecer uma banda nova. E olha que naquela época não existia internet. O jovem de hoje está anestesiado por uma tela,  a música hoje é só a trilha sonora da balada. Eles nem estão aí pra quem tá tocando. Não leem um livro!

Obrigado Eugênio Martins Junior, e sucesso.

Você pode adquirir o livro diretamente com o autor pelo e-mail contato.mannishboy@gmail.com e pelo site da Editora Ateliê de Palavras