MAR DE TRANQUILIDADE

04 janeiro, 2018
Marcos Amorim está entre os mais brilhantes violonistas e guitarristas da nossa cena musical. Dotado de técnica muito particular, tem uma história que vem de berço - é filho do pianista Nelson Amorim, que foi um dos fundadores da Rio Jazz Orchestra, e construiu sua carreira no cenário da música instrumental brasileira ao lado de uma geração muito criativa de músicos que deram uma nova vida ao movimento a partir do final dos anos 80.

Em destaque, o disco Sea of Tranquility, seu sétimo registro como líder e o quinto pela gravadora Adventure Music. Como ele mesmo afirma, é um trabalho de imensa satisfação pessoal, e essa vibração positiva a gente já percebe na primeira audição do disco, mostrando um músico muito maduro e com pleno domínio do instrumento e do repertório, que, inclusive, é autoral.
Ao seu lado nesta sessão estão Itamar Assiere no piano e rhodes, Augusto Mattoso no contrabaixo e Rafael Barata na bateria, além da participação mais que luxuosa do piano e voz de Delia Fischer.
Aqui a guitarra é protagonista e o repertório traz 9 composições, 8 autorais e uma leitura de um clássico de Beto Guedes - "Pedras Rolando", que registra sua paixão pelo Clube da Esquina com espaço para o belo piano de Delia Fischer, que também se destaca nas vozes na balada "The Further Away the Closer I Get", em "Sea Time" e "January Ashes" - perceba neste tema a intensidade do improviso da guitarra. O tema título é outra belíssima balada, e reverencia o mar de tranquilidade retratado por Neil Armstrong em sua caminhada na lua - serena, poética e quase psicodélica; ainda, as contagiantes "My African Goddess" e "Dance of the Five Princessess", daquelas melodias que a gente sai assobiando por aí; tem o toque latino em "Bolero"; e o tempero do veneno blues em "Wooden Face Blues", traduzido, pelo líder, como um blues cara de pau.


"Sea of Tranquility" foi gravado no Tenda da Raposa Studio, Santa Tereza (RJ), mixado por Carlos Fuchs e masterizado por Ken Lee. Arte de capa por Tomas Amorim, Nando Chagas e Tassio Ramos, e design gráfico de Maria Camillo.

Quem conta a história é Marcos Amorim -

"Sea of Tranquility" é o quinto disco pela Adventure Music. Como surgiu essa relação com a gravadora?
Quinto disco pela Adventure e o sétimo da carreira. Antes eu lancei dois CDs aqui no Brasil pelo selo Perfil Musical - ”O Boto “ e “Luz da Lua”.
Eu já sabia da existência do Richard Zirinsck, dono da Adventure Music, ele escrevia para um site, se não me engano na Suécia. Eu soube que ele incluiu um desses meus dois primeiros trabalhos em uma lista em primeiro lugar ao lado de guitarristas como Pat Metheny, Pat Martino e outros do mesmo porte. Eu sabia quem ele era e me lembro de até mandar um e-mail para ele agradecendo, mas meu contato com ele não tinha passado disso. Na semana que eu tinha acabado de masterizar o CD que seria mas tarde batizado de “Cris on the Farm”, um aluno, baixista, me ligou desesperado pedindo minha ajuda. Ele tinha fechado um trabalho (tocar num almoço de família) com um guitarrista e um baterista, porém os dois desapareceram e faltava algumas horas para começar o almoço e ele não tinha ninguém que pudesse fazer o trabalho. Ele me ligou me pedindo uma indicação e eu disse pra ele - “Cara, eu vou lá pra você, vou chamar um baterista amigo meu e você não precisa se preocupar”. O baterista era o Rafael Barata, que na época deveria ter uns 19 ou 20 anos de idade. Fomos lá, tocamos e durante o intervalo apareceu o Mauricio Gouvea, hoje um grande amigo, que eu conhecia só por e-mail e telefone. Eu tinha tocado umas músicas minhas e ele reconheceu, veio falar comigo e me disse que o Zirinsck estava começando um selo e queria saber se eu estava interessado em negociar um possível contrato com ele. O selo já tinha fechado com o Toninho Horta e Ricardo Silveira, e me perguntou se eu tinha algum trabalho novo por fazer ou em andamento. Peguei o e-mail do Zirinsck e escrevi pra ele assim que eu cheguei em casa, ainda sob efeito das caipirinhas que tomei no almoço (risos). Ele me respondeu em menos de 20 minutos interessado no CD que eu tinha acabado de masterizar, me pediu para mandar uma cópia e, assim que ele ouviu, me mandou um contrato para lançar o primeiro CD, que se chamou “Cris on The Farm”, com a obrigação de gravar mais um que depois veio a se chamar de “Sete Capelas”, meu segundo título com eles. Daí começamos essa parceria que já dura mais de 10 anos. 

Neste trabalho tem a formação de quarteto, e agora com Augusto Matoso e Itamar Assiere. Do trio para quarteto, como se formou esse grupo?
Eu e Augusto Mattoso somos amigos há muitos anos, começamos juntos no grupo Jazz Latino Tropical, do trompetista Barrosinho, nosso grande mestre. Ele, para mim, é um dos maiores baixistas do Brasil e do mundo. O Itamar eu já tinha tocado com ele algumas vezes, é um monstro, músico fantástico e não deve nada a nenhum pianista do mundo. Eu já tinha visto eles tocando juntos com o Rafael Barata e resolvi chamá-los para gravar o CD. Eu queria muito mesclar o piano acústico com o piano Fender Rodhes, queria uma sonoridade brazilian jazz e pop juntas. A formação de quarteto me permite ficar mais solto, pois não tenho que fazer o centro toda hora, então fico mais livre para tocar as melodias como uma voz. Na formação de trio, eu tenho que juntar melodia e acompanhamento em chord melody, o que limita um pouco a interpretação dos temas. Gravei vários CDs de trio, em que gravávamos ao vivo os solos e os temas de guitarra, e depois eu inseria o violão como base depois do trio gravado. Fica muito bom, mas na hora de ir pro palco temos que adaptar e me sacrifica muito. Por isso resolvi mudar um pouco nesse projeto para quarteto. Mas gosto muito de tocar de trio e ainda toco bastante por aí com essa formação. É um enorme desafio.

Uma boa surpresa aqui é a presença da Delia Fischer, ela que esteve ao seu lado no registro histórico do quarteto do trompetista Barrosinho em Montreux. Como foi o convite para ela participar deste trabalho?
Nós começamos na mesma época, sempre fomos parceiros em muitas aventuras musicais. Como eu, ela sempre gostou de canções além de seu trabalho de instrumentista. Nos anos 80, estudávamos muito Charlie Parker na casa dela em Laranjeiras. Ela atuou no meu primeiro CD em 1983, “O Boto”. Então, por todas essas afinidades, sem falar na admiração que tenho pela sua arte, seria muito natural chamá-la para esse CD, mas o maior motivo mesmo foi por ela ter escrito três letras para três canções - “Sea Time”, “January Ashes” e “The Furter Away the Closer I Get”, e resolvi chamá-la não só pra tocar piano e Rodhes, mas também pra cantar. E deu muito certo, sempre quis incluir músicas cantadas no meu repertório e essa era a oportunidade pra fazer isso. Além dessas três canções ela ainda quebrou tudo na faixa “Pedras Rolando” do Beto Guedes e Ronaldo Bastos. Essa faixa tem uma importância bastante grande pra nós que crescemos curtindo o Clube da esquina e a mineirada que nos influenciou muito nos anos 70. Você lembra do LP “Sol de Primavera? Ouvimos muito esse disco. Nessa faixa, mais que todas, pela nossa história de amizade e parceria, teria que ser a Delia pra fazer o piano e o solo arrasador que ela fez.


"Sea of Tranquility" é, em sua quase totalidade, um trabalho autoral, com exceção de uma releitura de um tema do Beto Guedes. Isso é sempre muito importante pois põe em primeiro plano o lado criativo do músico. Como você trabalha o processo de composição?
Quando comecei a tocar violão meus primeiros passos foi criar acordes a partir dos únicos três que que eu conhecia, que eram C , G e D (risos). Eu ia trocando um dedo da posição original e ia vendo o som que dava, daí foram surgindo as primeiras composições. Foi assim, dessa forma bastante intuitiva, que comecei a compor. Depois, claro, fui estudar harmonia com a Celia Vaz e ela, vendo essa minha tendência, me incentivou muito a desenvolver esse lado. Hoje em dia eu componho de forma mais organizada, mas ainda vou muito pela intuição primeiro. A diferença é que agora eu posso analisar o que fiz e escrever pros músicos que vão tocar de uma forma que fique rápido o entendimento na hora de gravar. Eu vou buscando um som que já está na minha cabeça bem antes, eu só preciso achar onde está. É uma espécie de caminho, a melodia e a harmonia vão me guiando, mas o som eu já tenho na cabeça em algum lugar. Não sei explicar melhor que isso (risos)

Um belo timbre de guitarra nesta sessão. Que equipamentos usou?
Usei nas 8 primeiras faixas somente a minha PRS e um amplificador Fender Deville. Só isso, guitarra ligada direto no amplificador com um microfone na boca do falante.
Na ultima faixa, "Wooden Face Blues", usei minha estrato Advanced ligada no Fender Deville numa saída e o capitador mid (GK3) ligado a um GR 20 da Roland. Fiz uma brincadeira com o timbre de orgão Hammond B3 pro tema e primeiro solo, depois fiz uma base ainda com esse timbre pra base do solo de guitarra que fiz com a PRS ligada no Fender Deville.

Falando um pouquinho de técnica, você toca de dedos, fingestyle, o que dá uma dinâmica muito particular no toque e fraseado. Como você desenvolveu esse estilo?
Começou primeiro de forma muito intuitiva por eu não conseguir me adaptar a palheta. Me enrolava muito, deixava cair das mãos e não conseguia articular as escalas com ela. Então quando ia tocar acabava jogando a palheta fora e ia pros dedos e tudo fluía. Com o tempo abandonei de vez por me sentir mais à vontade assim, e foi muito natural, não planejei isso. Depois quando fui estudar com o Hélio Delmiro é que ele me deu vários exercícios e aí pude aprimorar melhor essa técnica. Mais tarde adaptei ainda dois estilos diferentes desse que desenvolvi com o Hélio - um muito parecido com o do Jeff Beck (intercalando o indicador e o polegar da mão direita) e outro inspirado na própria palheta, usando a unha do dedo indicador como uma palheta, que dá um som poderoso pra algumas melodias que precisam de mais peso. Assim, basicamente quando toco uso essas três técnicas que desenvolvi com o tempo. Mesmo estudado muito, tudo vem da intuição de sentir as cordas batendo no dedo sem um corpo estranho no caminho. Vem tudo lá de trás quando comecei.

Além de muito inserido na cena jazz, você também tem uma contribuição importante na música popular brasileira ao lado de grandes nomes, inclusive no musical Elis, e nem sempre isso ganha destaque. Como é trabalhar com música num mercado tão imediatista e com tanta valorização da exposição em mídia?
Um dos maiores pintores impressionistas, Renoir, quando jovem, pintou afrescos nos botequins de Paris, trabalhou numa fábrica de porcelanas pintando em xícara por xicara o retrato da Maria Antonieta. Ele usou dessas experiências para moldar seu estilo por toda vida. Ele é um dos maiores gênios da pintura moderna, nunca ligou pra fama e nunca quis ser uma celebridade. Eu penso que a arte tem esses dois lados - o criativo e inventivo da composição, em que sou reconhecido como um artista, compositor, arranjador e instrumentista, e o outro lado operário do sideman, onde você tem que obedecer a um padrão, tem que ser um servidor da música. Acredito que esses dois lados não são separados, eles seguem em paralelo. De vez em quando um invade o outro, um se serve do outro pra se alimentar. Não me incomoda ter tocado no musical Elis e não ser visto pela plateia, como quando toco nos meus projetos, porque a música que foi feita ali foi de alta qualidade. Na verdade, me orgulho muito do trabalho que realizei ali. Penso sempre em servir à música, tocar pra ela e, se eu pensar assim eu posso não aparecer muito mas minha arte está ali pra quem quiser ver. Não viveria sem esses dois lados paralelos. Como disse, um alimenta o outro.

Obrigado Marcos Amorim, e sucesso.

"Sea of Tranquility" pode ser adquirido diretamente com Marcos Amorim pelo e-mail luzdaluamusic@gmail.com, pelas lojas AmazoniTunes, e está nas plataformas digitais Spotify e Deezer.

Ainda em sua discografia - "Portraits" (2010), "Revolving Landscapes" (2008), "Sete Capelas" (2007) e "Cris on the Farm" (2005), lançados pela Adventure Music; e "Luz da Lua" (1998) e "O Boto" (1996), ambos pela gravadora Perfil Musical.